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Nietzsche (Obra) – Eterno Retorno

segunda-feira 11 de setembro de 2023, por Cardoso de Castro

  

2. Mal dissera essas palavras, Zaratustra caiu como um morto e por muito tempo ficou como um morto. Quando voltou a si, estava pálido, tremia, permaneceu deitado no chão e por muito tempo não quis comer ou beber. Nesse estado ficou sete dias; mas seus animais não o abandonaram nem de dia nem de noite, exceto a águia, quando voou para buscar alimento. E o que ela apanhou e saqueou, pôs sobre o leito de Zaratustra: de modo que afinal Zaratustra se achou deitado entre frutinhas amarelas e vermelhas, uvas, jambos, pinhas e folhas de cheiro. E a seus pés havia dois cordeiros, que a águia havia penosamente arrebatado a seus pastores. Por fim, após sete dias Zaratustra se ergueu no leito, pegou um jambo, cheirou-o, e achou agradável seu aroma. Então seus animais acharam que era tempo de lhe falar. “Ó Zaratustra”, disseram eles, “há sete dias estás assim deitado, com os olhos pesados: não queres, enfim, pôr-te novamente em pé? Sai de tua caverna: o mundo te espera como um jardim. O vento brinca com intensos aromas que querem chegar a ti; e todos os riachos desejam ir atrás de ti. Todas as coisas anseiam por ti, desde que ficaste sete dias a sós — sai de tua caverna! Todas as coisas querem ser médicos para ti! Veio-te um novo conhecimento, amargo e pesado? Como uma massa fermentada estiveste aí deitado, tua alma inchou e transbordou por todas as margens. —” — Ó meus animais, respondeu Zaratustra, continuai falando e deixai-me escutar! Anima-me bastante que falais: ali onde se fala, o mundo já me parece um jardim. Como é agradável que existam sons e palavras: não são eles arco-íris e pontes aparentes entre aquilo que se acha eternamente separado? A cada alma corresponde outro mundo; para cada alma, cada outra alma é um mundo por trás. Entre aqueles que são mais semelhantes, a aparência mente do modo mais belo; pois o menor abismo é o mais difícil de transpor. Para mim — como haveria um fora-de-mim? Não existe um fora! Mas isso esquecemos a cada som; como é agradável que esqueçamos! Nomes e sons não foram regalados às coisas para que o homem se reanime com as coisas? Bela tolice é a fala: com ela, o homem dança por sobre todas as coisas. Como são agradáveis toda fala e toda mentira dos sons! Com os sons, nosso amor dança por sobre arco-íris multicores. — — “Ó Zaratustra”, disseram então os animais, “para os que pensam como nós, as próprias coisas dançam: vêm, dão-se as mãos, riem, fogem — e retornam. Tudo vem, tudo retorna; rola eternamente a roda do ser. Tudo morre, tudo volta a florescer, corre eternamente o ano do ser. Tudo se rompe, tudo é novamente ajeitado; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se despede, tudo volta a se saudar; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser. Em cada instante começa o ser; em redor de todo Aqui rola a esfera Ali. O centro está em toda parte. Curva é a trilha da eternidade.” — — Ó bufões e realejos que sois!, respondeu Zaratustra novamente sorrindo, como bem sabeis o que teve de se cumprir em sete dias: — — e como aquele monstro me entrou na garganta e me sufocou! Mas eu lhe cortei a cabeça com os dentes e a cuspi para longe. E vós — vós já fizestes disso uma canção de realejo? Mas agora estou aqui, ainda cansado desse morder e cuspir, ainda doente de minha própria redenção. E fostes espectadores de tudo isso?, ó meus animais, também vós sois cruéis? Quisestes assistir a minha grande dor, como fazem os homens? Pois o homem é o animal mais cruel. Foi com tragédias, touradas e crucificações que até agora ele se sentiu melhor na terra; e, quando inventou o inferno, este foi seu céu na terra. Quando o grande homem grita —: logo o pequeno homem vem correndo; e tem a língua fora da boca, de concupiscência. Mas a isso ele chama sua “compaixão”. O pequeno homem, em especial o poeta — com que fervor acusa a vida com palavras! Escutai-o, mas não deixeis de ouvir o prazer que há em toda acusação! Esses acusadores da vida: a vida os supera com um piscar de olhos. “Me amas?”, diz a insolente; “espera mais um pouco, ainda não tenho tempo para ti.” O homem é, consigo mesmo, o mais cruel animal; e, em todos os que chamam a si próprios “pecadores”, “portadores da cruz” e “penitentes”, não deixeis de ouvir a volúpia que há nesse lamento e acusação! E eu próprio — quero, com isso, ser o acusador do homem? Ah, meus animais, apenas isto aprendi até agora: que ao homem é necessário o que tem de pior para ter o que tem de melhor, — — que o que tem de pior é sua melhor força, e a mais dura pedra para o mais alto criador; e que o homem tem de se tornar melhor e pior: — Não a esse pau de tortura me achava eu preso, de saber que o homem é mau — e sim gritava, como ninguém ainda gritou: “Ah, como é pequeno até o que tem de pior! Ah, como é pequeno até o que tem de melhor!” O grande fastio pelo homem — isso me sufocou, me havia entrado na garganta: e o que o vidente vaticinou: “Tudo é igual, nada vale a pena, o saber sufoca”. Um longo crepúsculo claudicava à minha frente, uma tristeza cansada de morte, ébria de morte, que falava com uma boca bocejante. “Eternamente ele retorna, o homem de que estás cansado, o pequeno homem” — assim bocejava minha tristeza, e arrastava os pés e não podia adormecer. Numa caverna transformou-se para mim a terra dos homens, seu peito afundou, tudo vivo tornou-se para mim decomposição humana, ossos e passado podre. Meu suspirar se achava em todos os túmulos humanos e não podia mais levantar-se; meu suspirar e questionar era agourento, sufocava, corroía e lamentava dia e noite: — “Ah, o homem retorna eternamente! O pequeno homem retorna eternamente!” — Vira os dois nus um dia, o maior homem e o menor homem: demasiado semelhantes um ao outro — demasiado humano inclusive o maior! Demasiado pequeno o maior! — Esse era meu fastio pelo homem! E ETERNO RETORNO inclusive do menor! — Esse era meu fastio por tudo que existe! Ah, nojo! Nojo! Nojo! — — Assim falou Zaratustra, e suspirou e tremeu; pois lembrou-se de sua doença. Mas então seus animais não o deixaram falar mais. “Não fales mais, ó convalescente!” — assim lhe responderam seus animais, “e vai para fora, onde o mundo espera por ti como um jardim. Vai para fora, até as rosas, abelhas e bandos de pombas! Mas especialmente até as aves canoras: para com elas aprender a cantar! Pois cantar é para convalescentes; o são pode falar. E, quando também o são quer canções, quer canções diferentes das do convalescente.” — Ó bufões e realejos, calai-vos! — respondeu Zaratustra, e sorriu de seus animais. Como sabeis bem do consolo que inventei para mim durante sete dias! Que eu tenho de voltar a cantar — esse consolo inventei para mim, e essa cura: também disso quereis logo fazer uma canção de realejo? — “Não fales mais”, responderam-lhe os animais novamente; “prepara antes uma lira para ti, uma nova lira! Pois vê, ó Zaratustra! Para tuas novas canções necessitas novas liras. Canta e extravasa, ó Zaratustra, cura tua alma com novas canções: para que possas carregar teu grande destino, que ainda não foi destino de homem nenhum! Pois teus animais bem sabem, ó Zaratustra, quem tu és e tens de tornar-te: eis que és o mestre do ETERNO RETORNO — é esse agora o teu destino! Que tenhas de ser o primeiro a ensinar essa doutrina — como esse grande destino não seria também teu maior perigo e maior doença? Vê, sabemos o que ensinas: que todas as coisas eternamente retornam, e nós mesmos com elas, e que eternas vezes já estivemos aqui, juntamente com todas as coisas. Ensinas que há um grande ano do vir-a-ser, uma monstruosidade de grande ano: tal como uma ampulheta, ele tem de virar sempre de novo, a fim de novamente escorrer e transcorrer: — — de modo que todos esses anos são iguais a si mesmos, nas coisas maiores e também nas menores — de modo que nós mesmos somos iguais a nós mesmos em cada grande ano, nas coisas maiores e também nas menores. E, se agora quisesses morrer, ó Zaratustra: vê, nós também sabemos como falarias então contigo mesmo: — mas teus animais te pedem que ainda não morras! Falarias sem tremer, antes com aliviado suspiro de bem-aventurança; pois um peso grande e sufocante seria retirado de sobre ti, ó pacientíssimo! — ‘Agora morro e desapareço’, falarias, ‘e num instante serei nada. As almas são tão mortais quanto os corpos. Mas o nó de causas em que estou emaranhado retornará — ele me criará novamente! Eu próprio estou entre as causas do ETERNO RETORNO. Eu retornarei, com este sol, com esta terra, com esta águia, com esta serpente — não para uma vida nova ou uma vida melhor ou uma vida semelhante: — Retornarei eternamente para esta mesma e idêntica vida, nas coisas maiores e também menores, para novamente ensinar o ETERNO RETORNO de todas as coisas, — — para novamente enunciar a palavra do grande meio-dia da terra e dos homens, para novamente anunciar aos homens o super-homem. Falei minha palavra, me despedaço em minha palavra: assim quer minha eterna sina — como anunciador pereço! Chegou a hora em que aquele que declina abençoa a si mesmo. Assim — acaba o declínio de Zaratustra.’” — — Depois de haverem dito essas palavras, os animais silenciaram e aguardaram que Zaratustra lhes dissesse algo: mas Zaratustra não ouviu que silenciavam. Permaneceu deitado, imóvel, de olhos fechados como alguém que dorme, embora não dormisse: pois conversava com sua alma. Mas a serpente e a águia, ao vê-lo assim calado, respeitaram o grande silêncio que o rodeava e se afastaram cuidadosamente. Zaratustra 1 O convalescente

Somos impressionados de forma bem diferente ao examinar o conceito de “grego” desenvolvido por Goethe   e Winckelmann, e o achamos incompatível com aquele elemento do qual nasce a arte dionisíaca — o orgiástico. Realmente não duvido que Goethe, por princípio, tenha excluído algo semelhante das possibilidades da alma grega. Portanto, Goethe não compreendeu os gregos. Pois somente nos mistérios dionisíacos, na psicologia do estado dionisíaco, expressa-se o fato fundamental do instinto helênico — sua “vontade de vida”. Que garantia o heleno para si com esses mistérios? A vida eterna, o ETERNO RETORNO da vida; o futuro, prometido e consagrado no passado; o triunfante Sim à vida, acima da morte e da mudança; a verdadeira vida, como continuação geral mediante a procriação, mediante os mistérios da sexualidade. Para os gregos, então, o símbolo sexual era o símbolo venerável em si, o autêntico sentido profundo no interior da antiga religiosidade. Todo pormenor no ato da procriação, da gravidez, do nascimento despertava os mais elevados e solenes sentimentos. Na doutrina dos mistérios a dor é santificada: as “dores da mulher no parto” santificam a dor em geral — todo vir-a-ser e crescer, tudo o que garante o futuro implica a dor… Para que haja o eterno prazer da criação, para que a vontade de vida afirme eternamente a si própria, tem de haver também eternamente a “dor da mulher que pare”… A palavra “Dionísio” significa tudo isso: não conheço simbolismo mais elevado que esse simbolismo grego, o das dionisíacas. O mais profundo instinto da vida, aquele voltado para o futuro da vida, a eternidade da vida, é nele sentido religiosamente — e o caminho mesmo para a vida, a procriação, como o caminho sagrado… Só o cristianismo, com seu fundamental ressentimento contra a vida, fez da sexualidade algo impuro: jogou imundície no começo, no pressuposto de nossa vida… Crepúsculo dos Ídolos X O QUE DEVO AOS ANTIGOS 4

A psicologia do orgiástico como sentimento transbordante de vida e força, no interior do qual mesmo a dor age como estimulante, deu-me a chave para o conceito do sentimento trágico, que foi mal compreendido tanto por Aristóteles como, sobretudo, por nossos pessimistas. A tragédia está tão longe de provar algo sobre o pessimismo dos helenos, no sentido de Schopenhauer  , que deve ser considerada, isto sim, a decisiva rejeição e instância contrária dele. O dizer Sim à vida, mesmo em seus problemas mais duros e estranhos; a vontade de vida, alegrando-se da própria inesgotabilidade no sacrifício de seus mais elevados tipos — a isso chamei dionisíaco, nisso vislumbrei a ponte para a psicologia do poeta trágico. Não para livrar-se do pavor e da compaixão, não para purificar-se de um perigoso afeto mediante sua veemente descarga — assim o compreendeu Aristóteles —: mas para, além do pavor e da compaixão, ser em si mesmo o eterno prazer do vir-a-ser — esse prazer que traz em si também o prazer no destruir… E com isso toco novamente no ponto do qual uma vez parti — o Nascimento da tragédia foi minha primeira tresvaloração de todos os valores: com isso estou de volta ao terreno em que medra meu querer, meu saber — eu, o último discípulo do filósofo Dionísio — eu, o mestre do ETERNO RETORNO… Crepúsculo dos Ídolos X O QUE DEVO AOS ANTIGOS 5

Excelsior! [Cada vez mais alto!] — “Você nunca mais rezará, nunca mais adorará, nunca mais repousará numa confiança infinita — você se proíbe estacar ante uma sabedoria última, uma bondade última, um último poder, desarmando seus pensamentos — não há um constante guardião e amigo para as suas sete solidões — você vive sem vista para uma montanha que tenha neve no rosto e ardor no coração — não existe, para você, mais nenhum retaliador, nenhum aperfeiçoador final — não há mais razão no que acontece, nem amor no que lhe acontecer — para o seu coração já não há pousada aberta, onde ele só tenha de encontrar e não mais procurar, você resiste a qualquer paz derradeira, você quer o ETERNO RETORNO da guerra e da paz: — homem da renúncia, em tudo você quer renunciar? Quem lhe dará a força para isso? Ninguém jamais teve essa força!” — Existe um lago que um dia se negou a escoar, e formou um dique onde até então escoava: desde esse instante ele sobe cada vez mais. Talvez justamente essa renúncia nos empreste a força com que a renúncia mesma seja suportada; talvez o homem suba cada vez mais, já não tendo um deus no qual desaguar. Gaia Ciência LIVRO IV 285

Eu considero um grande privilégio ter tido um pai assim: os camponeses, diante dos quais ele pronunciava seus sermões – pois, depois de viver alguns anos na corte de Altenburg, ele foi pregador durante os últimos anos de sua vida –, diziam que assim como ele era é que, por certo, devia ser um anjo… E com isso eu toco a questão da raça. Eu sou um nobre polonês pur sang, no qual não se misturou uma gota sequer de sangue ruim, muito menos de sangue alemão. Quando eu procuro o mais profundo dos antagonismos a mim mesmo, a baixeza incalculável dos instintos, eu sempre encontro minha mãe e minha irmã – acreditar no parentesco com uma canaille do tipo seria uma blasfêmia contra minha divindade. O tratamento que minha mãe e minha irmã me aplicaram até o presente instante instilam em mim um horror indizível: aqui trabalha uma máquina infernal perfeita, com uma certeza infalível a respeito dos instantes em que podem me arrancar sangue – nos meus instantes mais altaneiros… pois é nesses instantes que me falta qualquer força para a defesa contra a bicheira venenosa… A contiguidade fisiológica é que torna possível essa disharmonia praestabilita… Eu confesso que a mais profunda objeção contra o “ETERNO RETORNO”, meu pensamento verdadeiramente abismal, sempre são minha mãe e minha irmã… Mas também na condição de polonês eu sou um atavismo colossal. Ter-se-á de voltar séculos no tempo, para encontrar essa mais nobre das raças que jamais existiu sobre a terra, na proporção livre de instintos em que eu a represento. Eu tenho, contra tudo aquilo que hoje chamam de noblesse, um sentimento soberano de distinção – eu não haveria de conceder ao jovem imperador alemão a honra de ser meu cocheiro. Existe apenas um único caso em que reconheço minha igualha – e eu o confesso com profunda gratidão. A senhora Cosima Wagner é, de longe, a natureza mais nobre; e, a fim de que eu não acabe dizendo nenhuma palavra de menos, digo que Richard Wagner foi, de longe, o homem mais aparentado comigo… O resto é silêncio… Todos os conceitos dominantes a respeito de grau de parentesco são um contra-senso fisiológico que não pode ser superado. O papa ainda hoje faz negócios com esse contra-senso. Com ninguém a gente é menos aparentado do que com seus pais: seria o sinal mais visível de baixeza ser aparentado com os próprios pais. As naturezas mais altas têm sua origem em tempos infinitamente anteriores; para que elas surgissem foi necessário coletar, poupar, acumular por muito tempo. Os grandes indivíduos são os mais velhos: eu não compreendo isso, mas Júlio César poderia ser meu pai – ou Alexandre, esse Dioniso corporal… No instante em que escrevo o que estou escrevendo, o correio me traz uma cabeça-de-Dioniso… Ecce Homo Por que eu sou tão sábio 3

Até que ponto eu também havia descoberto, justamente com isso, o conceito “trágico”, o discernimento final sobre o que é a psicologia da tragédia, eu já o trouxe à baila várias vezes, a última delas no Crepúsculo dos ídolos, página 139. “O dizer-sim à vida, até mesmo em seus problemas mais estranhos e mais duros, a vontade para a vida, que se alegra com a própria inesgotabilidade até mesmo no sacrifício de seus mais altos tipos – foi isso que eu chamei de dionisíaco, foi isso que eu entendi como ponte para a psicologia do poeta trágico… Não para poder se livrar do susto e da compaixão, não para se purificar da própria emoção perigosa através de uma descarga veemente – foi assim que Aristóteles a entendeu, e mal; mas sim para ser, muito além do susto e da compaixão, o próprio prazer eterno do vir-a-ser em si, aquele prazer que ainda encerra em si o prazer da aniquilação…” Nesse sentido, eu tenho o direito de me reconhecer a mim mesmo como o primeiro filósofo trágico – quer dizer, a antítese mais extrema, o antípoda mais decidido de um filósofo pessimista. Antes de mim não existiu essa transferência do dionisíaco para o páthos filosófico: faltava a sabedoria trágica… Eu procurei sinais dela até mesmo entre os grandes gregos da filosofia, aqueles que existiram dois séculos antes de Sócrates. Em relação a Heráclito até ficou uma dúvida para trás; em sua presença eu sinto mais calor, eu me sinto melhor do que em qualquer outro lugar. A afirmação do delito e da aniquilação, o aspecto decisivo em uma filosofia dionisíaca, o dizer-sim à antítese e à guerra, o vir-a-ser, com a refutação radical até mesmo do conceito “ser” – dentro disso eu tenho de reconhecer aquilo que mais se aparenta a mim entre tudo o que foi pensado até hoje. A lição do “ETERNO RETORNO”, quer dizer do ciclo incondicional e infinitamente repetido de todas as coisas – a lição de Zaratustra poderia, em última instância, já ter sido ensinada por Heráclito. Pelo menos a Stoa, que herdou quase todas as ideias fundamentais de Heráclito, mostra rastros dela… Ecce Homo O nascimento da tragédia 3

Eis que conto, a partir de agora, a história do Zaratustra. A concepção fundamental da obra, o pensamento do ETERNO RETORNO, essa mais alta fórmula da afirmação que um dia pôde ser alcançada – é de agosto do ano de 1881. Ele está atirado sobre uma folha com a assinatura: “6.000 pés além do homem e do tempo”. Naquele dia eu atravessei as florestas junto ao lago de Silvaplana; próximo a um bloco poderoso, que se elevava para o alto em forma de pirâmide, não muito longe de Surlei. Foi então que me veio esse pensamento… Se eu volto um par de meses no tempo antes desse dia, eu encontro, como um prenúncio, uma mudança repentina e profundamente decisiva no meu gosto, sobretudo no que diz respeito à música. Talvez a gente tenha de colocar o Zaratustra inteiro na conta da música – por certo era possível ouvir um renascimento na arte, uma condição antecipada para que ele acontecesse. Em uma pequena estação de cura, nas montanhas próximas a Vicenza – Recoaro –, na qual passei a primavera do ano de 1881, eu descobri, junto com meu maestro e amigo Peter Gast, também um “renascido”, que a fênix música passou voando por nós, vestida de uma penugem mais leve e luminosa do que jamais ela havia mostrado. Se vou adiante no tempo a partir daquele dia, e chego ao parto repentino, acontecido sob as circunstâncias menos prováveis, em fevereiro de 1883 – a seção final, a mesma da qual citei um par de frases no prólogo, chegou ao termo justo na hora sagrada em que Richard Wagner morreu em Veneza –, e teremos dezoito meses de gravidez. Esse número, exatos dezoito meses, por certo aciona recordações, pelo menos entre os budistas, e faz pensar que no fundo sou uma fêmea de elefante… A “gaya scienza” é desse ínterim e dá mil indícios da proximidade de algo incomparável; por fim, ela dá também o princípio do Zaratustra, ela dá o pensamento final de Zaratustra na penúltima peça do quarto livro… Pertence a esse ínterim, do mesmo jeito, aquele Hino à vida (para coro misto e orquestra), cuja partitura foi publicada há dois anos por E. W. Fritzsch, em Leipzig: talvez um sintoma de algum significado para a situação desse ano, no qual o páthos afirmativo par excellence – chamado por mim de páthos trágico – habitava em mim em seu mais alto grau. No futuro haverão de cantá-lo em minha memória… O texto – quero expressá-lo categoricamente, uma vez que circulam uma série de mal-entendidos a respeito dele – não é meu: ele é fruto da inspiração surpreendente de uma jovem russa, da qual fui amigo na época, a Senhorita Lou von Salomé. Quem é capaz de arrancar algum sentido das últimas palavras do poema, haverá de adivinhar por que eu o privilegiei e admirei: elas têm grandeza. A dor não serve de objeção contra a vida: “Não tens mais ventura de sobra para me dar, vá lá! ainda tens teu tormento…” Talvez também a minha música tenha grandeza nessa passagem. (A última nota do oboé é dó sustenido e não dó. Erro de impressão)… No inverno que se seguiu a esses acontecimentos, eu vivi naquela enseada graciosa e calma de Rapallo, próxima a Gênova, que divide Chiavari e o cabo promontório de Porto Fino. A minha saúde não era das melhores; o inverno frio e chuvoso acima das medidas; um pequeno albergue, situado junto a mar, tão perto que a maré alta tornava o sono impossível à noite, oferecia – quase em tudo – exatamente o contrário daquilo que seria desejável. Apesar disso, e quase provando a minha sentença de que tudo aquilo que é decisivo nasce “apesar de tudo”, o meu Zaratustra nasceu sob esse inverno e sob o caráter desfavorável dessas circunstâncias… Pela manhã eu subia em direção ao sul, pela magnífica estrada que leva a Zoagli e dali ao alto, passando por pinheiros e olhando o mar do alto, a distância; à tarde, por tantas vezes quantas a saúde me permitiu, eu circundava a enseada inteira, de Santa Marguerita até chegar em Porto Fino. Esse lugar e essa paisagem tornaram-se ainda mais caros ao meu coração pelo grande amor que o inesquecível imperador alemão Frederico III sentia por eles; no outono de 1886 voltei a estar por acaso nessa encosta, quando ele visitou pela última vez esse pequeno mundo de venturas, esquecido no tempo… Por esses dois caminhos – o da manhã e o da tarde – todo o primeiro Zaratustra veio até mim, e sobretudo o próprio Zaratustra, na condição de tipo: mais corretamente, ele caiu sobre mim… Ecce Homo Assim falou Zaratustra 1

Mas essa é a própria ideia de Dioniso. – E uma outra consideração leva à mesma conclusão. O problema psicológico do tipo Zaratustra é o problema daquele que, em grau inaudito, diz-não, faz-não a tudo aquilo que se disse sim até hoje, e apesar disso apenas pode ser a antítese de um espírito que nega; o problema do espírito sobrecarregado com o peso de um destino e com a fatalidade de uma tarefa, mas que apesar disso pode ser o mais leve, o mais desprendido – Zaratustra é um dançarino –; o problema daquele que tem a mais dura, a mais terrível visão da realidade, que pensou o “pensamento mais abismal”, mas apesar disso não encontra nesse fado qualquer objeção à existência, nem mesmo contra seu ETERNO RETORNO – mas vê nele, muito antes, um motivo para ser, ele mesmo, o sim eterno a todas as coisas, “o monstruoso e ilimitado dizer-sim e amém”… Mas isso é a ideia de Dioniso mais uma vez. Ecce Homo Assim falou Zaratustra 6


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