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O Mundo como Vontade e como Representação Tomo I

Schopenhauer (MVR1:404-405) – a dor essencial à vida

Livro IV, §57

mardi 14 septembre 2021

[Excerto de SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo : Editora UNESP, 2005, p. 404-405]

Portanto, entre querer e alcançar, flui sem cessar toda vida? humana. O desejo?, por sua própria natureza?, é dor? ; já a satisfação? logo provoca saciedade : o fim? fora apenas aparente? : a posse? elimina a excitação, porém o desejo, a necessidade? aparece em nova figura? ; quando não?, segue-se o langor, o vazio?, o tédio?, contra os quais a luta é tão atormentadora quanto contra a necessidade. — Quando desejo e satisfação se alternam em intervalos não muito curtos nem muito longos, o sofrimento? ocasionado por eles é diminuído ao mais baixo grau?, fazendo o decurso de vida o mais feliz possível?. Aquilo que se poderia nomear? o lado mais belo? e a pura alegria da vida, precisamente porque nos arranca da existência? real? e nos transforma em espectadores desinteressados diante dela, é o puro? conhecimento? que permanece alheio a todo? querer ; é a fruição? do belo, a alegria autêntica na arte?. Mas mesmo isso requer dispositivos raros e cabe apenas a pouquíssimo e, mesmo para estes, é um? sonho? passageiro. Ademais, justamente as elevadas faculdades? espirituais desses poucos os tornam suscetíveis a sofrimentos bem? maiores que aqueles que os obtusos jamais podem sentir, e os coloca, dessa forma?, solitários entre seres marcadamente diferentes, pelo que, ao fim, as coisas? se equilibram. Todavia, para a maioria dos homens as fruições intelectuais são inacessíveis. Eles são quase incapazes de alegria no puro conhecimento : estão completamente entregues ao querer. Se, portanto, algo lhes granjeia a simpatia? e deve ser? INTERESSANTE? (o que já se encontra na significação? da palavra?), tem de algum modo? de lhes estimular a VONTADE?, mesmo que só numa relação? distante, situada só nos limites da possibilidade?. Vontade que jamais pode ficar Fora de jogo?, porque a existência desses homens está mais no querer do que no [404] conhecer : ação? e reação? são seu único? elemento?. Exteriorizações ingênuas [I 371] dessa índole podem ser vistas em minudências cotidianas, como, por exemplo?, escrever seus nomes em lugares? conhecidos que visitam, com o fito de reagir, fazer efeito? sobre o lugar?, pois este não faz efeito sobre eles. Também não podem com facilidade considerar um animal? exótico, raro, mas têm de excitá-lo, cutucá-lo, provocá-lo com brincadeiras, para simplesmente experimentar ação e reação. Essa necessidade de estimulação volitiva se mostra em especial na invenção? e prática dos jogos de carta, que, no sentido? mais próprio? do termo?, são a expressão? do lado deplorável da humanidade?.

Contudo, não importa o que a natureza ou a sorte? tenham feito, não importa aquilo que alguém é ou aquilo que alguém tem : a dor essencial? à vida nunca se deixa eliminar :

Πηλειδης δ’ ῳμωξεν, ιδων εις ουρανον ευρυν.

(Belides autem ejulavit ; intuitus in coelum latum.) [1]

E de novo :

Ζηνος μεν παις ηα Κρονιονος, αυταρ οιζυν
Ειχον απειρεσιην.

(Jovis quidem filius eram Saturnii ; verum aerumnam
Habebam infinitam.) [2]


Voir en ligne : O Mundo como Vontade e como Representação Tomo I


[1“Para o céu vasto virando-se, geme o filho de Peleu.” (N. T.)

[2“Fui filho de Zeus, de Cronos, entretanto sofria indizíveis aflições.” (N. T.)