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Fernandes (SH:344-345) – a "impotência do poder"

domingo 10 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

  

Já não foi fácil ter coragem para dizer, nas duas Seções precedentes, nas barbas de Platão, de cuja obra toda a Filosofia Ocidental não passa de um comentário — e foi o tê-lo dito que me fez ter querido dizê-lo! —, que não havia relação alguma entre o Ser e o Bem. Há de haver coragem agora para dizer, nesta Seção, que tampouco há poder, coisa sobre a qual toda a Civilização, Ocidental e Oriental, parece estar assentada, como uma galinha chocando um ovo. Há de haver coragem para dizer com todas as letras, e com isso vir a querer dizê-lo(!), que também o poder é um desses simulacros incompreensíveis do Instrumento, e que ficam... para sempre? (não,só se não forem compreendidos!) no âmbito interno do Instrumento. Esse “âmbito interno” do Instrumento é aquilo que agora vamos abraçar, como dois amigos que não se veem há muito tempo, apesar de se olharem todos os dias.

Não sei se o leitor compartilha comigo a visão da relação profunda entre esse “Não-Ser do poder” (“impotência do poder” ?) e a possível visão do vínculo prático entre compreender e ser compassivo. Mas o preâmbulo a todas as iluminações é aquela visão extática (estamos nela, ao final do Primeiro Capítulo!), de modo nenhum desesperada(!), mas calmamente plácida e profundamente grata, de que não há absolutamente nada que (o) “eu” possa fazer!

Tornar dispensável o parênteses é o X da questão! Não há coisa alguma a atingir! Nenhuma prática conduz, provoca, leva, causa o que quer que seja, inclusive, e sobretudo, a Verdade. O que quer que eu faça, seja o que for, é tudo que há para ser feito. Digo-lhe, sussurrando, upanishadicamente, com toda convicção, franqueza, e com a disposição de “quem avisa amigo é” : não há, de fato, “poder”. A noção mesma é uma ilusão. Não há causas, “agentes”, “princípios ativos”, químicos ou humanos, que tenham o “poder” de fazer o que quer que seja sobre o que quer que seja. Nada tem poder sobre nada. Cada ação, cada acontecimento, é parte de uma configuração total que não está no tempo, logo não há tempo para o exercício do poder. Não havendo “poder”, tampouco há “renúncia ao poder”. O Ser é realmente a Divindade (Ela não “existe”, só “é” !), mas... a Divindade não tem poder algum. Não descemos da Cruz, não porque somos impotentes, ou renunciamos ao poder, mas porque não há poder, só a vulnerabilidade indefesa da paixão. Aquele que o Instrumento pensa que teria “poder” sobre mim não o tem absolutamente. Tampouco aquele que o Instrumento pensa que sou “eu” poderia fazer o que quer que seja ao que quer que seja. Estamos todos no mesmo barco, o que percebemos são aspectos de nós mesmos ou aspectos da Experiência em si. Na compreensão disto e em nada mais, consiste o “voto de Obediência”.

A Divindade ou O Ser, não “governa” o Mundo, seja pela força, seja pelo poder, seja pelo querer, mas pela Autoridade Absoluta da Verdade Eterna, que, não precisando fazer nada, é suprema atividade. Não há “perscrutação da Providência”, não porque somos condenados à ignorância, mas porque não há “tempo para fazer planos de salvação”, de modo que tampouco haveria o que perscrutar: Só há a espontaneidade imediata e inocente da ação. Jamais sabemos o “porquê” ou o propósito das coisas, à parte as maquinações inconscientemente reativas do Instrumento, porque... não há “porquê” ou propósito em coisa alguma. A totalidade da Criação, abstraído seu Instrumento, é absolutamente não-intencional, nos dois principais sentidos de “intencional”, o de “visar um objeto” e o de “ter um propósito”, e absolutamente “intensional” (com s), no sentido de ser “puramente qualitativa”. Na compreensão disto e em nada mais, consiste o “voto de Castidade”.

A Divindade, ou o Ser, não “governa” o Mundo de caso pensado, mas anulando absolutamente todo passado e todo futuro na eternidade do instante. Não possuímos nada, não porque sejamos deserdados, mas porque somos um com tudo que há. Tudo está ligado a tudo, de uma só vez e de uma vez por todas. Somos as infinitas interfaces, que “distinguem para unir” o tempo à eternidade, em fronteiras ontologicamente coincidentes. Na compreensão disto e em nada mais, consiste o “voto de Pobreza”.


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