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Fernandes (SH:302-305) – o lugar da Ética é o Inferno

domingo 10 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

  

Escrever a última Seção [A Questão da Ética], em que apenas rapidamente desloco a valoração das suas supostas origens num “agente livre e moralmente responsável” para a reatividade inconsciente da Mente, do Pensamento e da Linguagem está em consonância, assim como a própria “desconstrução” da problemática da Ética, com o “espírito do tempo” — o que destoou terá sido, provavelmente, tê-lo feito à maneira de uma metanarrativa de matiz ontoteológico. Mas... sugerir que talvez o lugar da Ética seja o Inferno!? E, no entanto, afirmo que, se o Inferno for o seu lugar, então lá ela sempre esteve, o mal-intencionado título da Seção não se referindo a algo que “teria acontecido” à Ética, mas sim a um predicamento seu, inerente e inescapável. Contudo, seguindo meu estilo, que é o de pintar quadros escritos sem procurar esconder as pinceladas, para mim, agora é como se tudo mudasse de repente, como num passe de mágica. Confesso-me de repente temeroso de dizer o que penso, com todas as letras que aquilo que penso merece e, ao mesmo tempo, ansioso de expô-lo à luz do Espírito. Pois, mesmo depois da não apenas insidiosa, mas verdadeiramente devastadora crítica dos “Mestres da Suspeita” — Darwin, Nietzsche  , Marx   e Freud   —, a Ética continua a parecer a muitos — e, como são... muitos, é sufocante! —, em todos os campos, teóricos e práticos, da chamada “Sociedade Humana”, demasiadamente importante. As vezes tenho a impressão de que só se fala nisso! Seria o medo? Os melhores analistas das relações entre o medo, essa emoção básica do Instrumento encarnado, e inerente a todo desejo e todo apego, e a civilização, cultura, etc., apostam que o “medo fundamental” não seria o da morte, já que é impossível tomar como objeto a própria morte, muito menos acolhê-la à Experiência que somos, mas o medo de não ser, o medo de não ser coisa alguma. Seria o medo de não ser que levaria a maioria das encarnações do Instrumento a frenéticos, constantes e inconscientes “investimentos” reativos em produtividade, aquisição, consumo, ânsia de sobrevivência, etc.? As vezes os que não param de falar de Ética me parecem estar é querendo proteger coisas bem mais rasteiras, como seus “direitos”, seu conforto, sua propriedade privada, coisas desse tipo! Coisas... muito boas, diria o Instrumento, que leu, mas jamais entendeu, o Fausto goetheano. Seria uma tábua de salvação num mar revolto de “tentações” de não ser, mas só de “existir”, uma tábua de salvação daquilo a que eles se apegam — e se apegam a tudo, da propriedade à qualidade de vida, do “corpo” e suas paixões à salvação da própria “alma” ? O apego é geralmente tido como uma característica muito... humana, não? Seja como for, é para mim impressionante — e chocante — como hoje em dia quase todo mundo pensa que a Ética é algo importantíssimo, a “única saída”, a “única esperança” de tudo que aflige a “humanidade”. Mesmo os religiosos costumam pôr a Ética quase que acima de tudo, às vezes acima de Deus. Mas não é de hoje: desde a Antiguidade, no Oriente era preciso ser “moral” ; como condição sine qua non para ter o direito de ser instruído em yoga; no Ocidente, a preocupação, em última análise meramente prudencial, com a racionalização do ethos, com a maximização utilitária de recompensas e minimização de punições marca nossa cultura — até mesmo a figura simbólica do “herói” —, como que desde “o início dos tempos”. Será que somente poucos, psicopatas certamente(!) [sic], portadores da Síndrome de Cegueira de Valores, desconfiariam de que a racionalização do ethos (caráter, habitat, costumes), ainda que fantasiada de “contemplação”, theorein, batismo da Inteligência, etc., ainda assim é uma... racionalização?

Os cientistas, qua cientistas — na verdade, tal coisa é uma “invenção da imaginação” instrumental! —, fazem de uma alegada ou suposta (num certo sentido) independência entre a Ciência e a Ética, ao mesmo tempo uma prova [sic] da força da Ciência e da necessidade de “submeter as aplicações práticas da Ciência (tecnologia) a uma Ética”, seja para a “Salvação da Humanidade”, seja para evitar o sofrimento, para melhorar a distribuição, atribuição e retribuição da Justiça, da renda, ou lá que diabo seja. Até os pós-modemos, em geral, embora tendam a desconstruir e relativizar tudo, procuram, de uma maneira ou de outra, aqui ou ali, com medo, vergonha ou simples hipocrisia? — posso imaginar tudo, menos... a compaixão! — , “retomar” o fio da meada, que, na verdade, (?!) já entreviram como perdido para sempre em Ética, de roldão, junto com as metanarrativas ontoteológicas ou logocêntricas: cada vez com mais frequência se metem a rediscutir, por exemplo, a “possibilidade” de uma Ética, ou as implicações éticas do atual “fenômeno de efervescência religiosa”, como se fossem questões capitais para a viabilidade de um contrato social mínimo, etc. Alguns filósofos, como os pragmatistas, simplesmente adoram discutir Ética, “alternativas para supostas retomadas da Ética” (ou alternativas para a impossibilidade da “Ética” ?). Na contrafilosofia analítica, o que se produz em “Metaética” (deontologismo, consequencialismo, utilitarismo, cognitivismo, não-cognitivismo, etc.) dá para encher uma biblioteca inteira. Passo. Outros filósofos, como Charles Taylor   ou Tugendhat, para só mencionar dois que no momento me ocorrem, dentre os de língua inglesa, Habermas  , Apel  , dentre os de língua alemã, Lima Vaz, dentre os de língua portuguesa — de fato contam-se às centenas! —, parecem ver na refundamentação de tudo na Ética, por variados e imaginosos subterfúgios, uma espécie de “única saída”, não só para a Filosofia, mas sobretudo para a sobrevivência (certamente não para a verdadeira Vida!!!), para os impasses e o sofrimento no mundo contemporâneo, impressionados demais, talvez, com a veneranda tradição platônica de união do Ser com a Verdade, o Bem e a Beleza. Enfim, tenho a sensação de estar contra todo mundo ao começar uma Seção destinada a “detonar” a “Ética” como área legítima de investigação, seja filosófica, seja teológica e mostrar-lhe, ainda que com essas hesitações iniciais, as portas do Inferno. Mas o fato é que o Instrumento encarnado em mim, a encarnação do Instrumento que às vezes — faço sinceros votos de que não sempre — escreve este livro, sente-se de repente incapaz de realmente querer dizer (na língua do Império, really mean it) que, a não ser como artifícios do Instrumento, julgar é separar-se do Ser; que Hitler não era bom ou mau, não estava certo ou errado; que o “darwinismo social” nem é, nem não é eticamente condenável; que nem se deve nem não se deve praticar o terrorismo, o aborto, estuprar crianças, matar a velhinha de bengala que atravessa claudicante nosso caminho, etc. Que fazer? O vínculo entre “razão” e “boa vontade” (ou “vontade voltada ou atraída para o Bem” ) parece-me definitivamente irrecuperável, por várias considerações que o leitor terá feito comigo ao longo da última Seção. Contudo, filósofos, cientistas, religiosos, etc. relutam tenazmente em entregar o tema da Ética à Ciência (sobretudo à Psicologia e à Sociologia Evolucionistas) ou, simplesmente, à Política (aos Sistemas Jurídicos e, finalmente... à Polícia [sic]). Afinal, haveria ou não haveria fatos “morais” ? Contradictio in terminis.


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