PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Version imprimable de cet article Version imprimable

Accueil > Ocidente > Arthur Schopenhauer (1788-1860) > Safranski (S:35-37) – corpo e vontade em Schopenhauer

Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia

Safranski (S:35-37) – corpo e vontade em Schopenhauer

Livro I - Capítulo 1

mardi 14 septembre 2021

[SAFRANSKI, Rudiger. Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia. Uma biografia. Tr. William Lagos. São Paulo : Geraçau Editorial, 2011, p. 35-37]

Arthur herdou o brio, a sobriedade, o orgulho? e a lucidez de seu pai. Sua altivez abrupta e fria arrogância também recebeu dele. A consciência? de sua própria dignidade? e seu amor?-próprio? tão fortemente desenvolvido não? puderam ser? abrandados pelo carinho materno, porque Johanna tinha de fazer um? grande esforço? para obrigar-se a sentir amor por ele. Seu filho é a encarnação? de sua própria renúncia à vida?. Johanna quer viver sua própria vida. Como ela mesma não consegue viver como deseja, acredita que não dispõe de sua própria vida, porque tem de cumprir seus deveres maternos, um fato? que lhe é recordado diariamente. De fato, o nascimento de Arthur representou para ela uma armadilha que a abocanhava de uma vez por todas.

Quem não experimentou o sentimento? primordial do amor materno, muito frequentemente sentirá que lhe falta? o amor primitivo? pela própria vida. Para quem falta uma resposta afirmativa fundamental perante a vida e dispõe somente de uma altivez orgulhosa, como era o caso de Arthur, o resultado será lançar um olhar de distanciamento avaliativo sobre todos os seres vivos e é dele que surge a filosofia? : o senso? de espanto de que a vida exista e que é projetado sobre tudo quanto a vida traz. Apenas quem [35] não conseguiu unir-se a tudo quanto vive, porque lhe faltam os laços afetivos indeléveis que lhe permitiríam desenvolver essa simpatia? para com o que é vivo, é capaz de distanciar-se de tudo quanto pertence à vida : o corpo?, a respiração e a vontade?. Uma deficiência assim singular? e estranha, que logo despertou o assombro e a admiração? do jovem Arthur perante a vontade de viver, da qual não nos podemos livrar, por mais que nos atemorize, porque somos feitos inteiramente de sua matéria?. Mas o assombro não precisa necessariamente estar? unido ao espanto. Arthur se assombrava porque, desde o começo?, sentia dentro de si uma disposição? de ânimo que não lhe permitia reconhecer a calidez da vida. Ele a percebia de forma? diversa : era um turbilhão gelado que o percorria e ao longo do qual ele mesmo era arrastado. O que dele estava mais próximo? — a realidade? pulsante de seu próprio corpo — era percebido por ele como algo que se achava distante e estranho, tão distante e tão estranho, de fato, que para ele se tornava um mistério?, que o conduziu simplesmente para o mistério filosófico. Era esta realidade corporal que ele denominava de “Vontade” e que se veio a tornar o ponto? central de sua filosofia. Precipitado na experiência? de sua própria vitalidade?, que para ele parecia estranha, isto lhe serve como apoio para mais tarde? desvendar o mistério daquilo que Kant? havia empurrado para a maior distância possível? : a ameaçadora “Coisa? em Si” — o mundo? como ele o é de fato, totalmente independente? da forma como nós o concebemos e apresentamos para nós mesmos. O que Schopenhauer? buscava era transformar este ponto remoto novamente em algo bem? próximo. A “Coisa em Si” — somos nos mesmos em nossa corporalidade mais íntima, vivenciada de dentro para fora. A “Coisa em Si” é a Vontade, que vive, mesmo antes de chegar a compreender? a si mesma. O mundo é o universo? da vontade e essa vontade, uma vez manifesta, é o coração? latejante deste universo. Em última análise?, nós sempre somos o mesmo que o Todo?. Mas essa totalidade? é selvageria, uma luta consigo mesmo, sacudida por uma perene inquietação. E acima de tudo : não faz o menor sentido?, não possui o menor propósito. É isso que deseja o sentimento vital schopenhaureano.

Isto ocorreu porque o menino que não tinha sido nem um pouco “planejado” pelo menos por sua mãe, a fim? de ganhar confiança em si mesmo, desde cedo aprendeu a colocar os pés firmemente em um mundo que, para ele, não possuía nenhum “propósito elevado”, que não parecia apresentar [36] em sentido algum uma “finalidade? última”, mas em cujo centro existia uma estranha atividade? obscura que punha tudo em movimento?.

Além? disso, os passeios a pé que o pequeno Arthur fazia com sua mãe através de Dantzig também lhe causaram uma impressão? de outro? tipo?, neste caso topográfica e concreta, de como o centro vital do mundo — para uma criança pequena Dantzig parecia ser o mundo — igualmente era o coração das trevas, cheio de mistérios e igualmente perigoso.


Voir en ligne : Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia