Farias Brito, O Mundo Interior
Excertos do Livro II – CAPÍTULO I A questão da «coisa em si» e dos fenômenos
§19. — A questão da coisa em si e dos fenômenos em seu desenvolvimento histórico.
Já fiz sentir anteriormente que todo o movimento intelectual hodierno, pelo menos, deste movimento que se afirma vigorosamente como se estivesse destinado a vencer e a dominar, orientado na direção da psicologia ou da filosofia do espírito, — deriva de Locke. E é também de Locke que deriva a distinção que cada vez se tem tornado mais decisiva no pensamento contemporâneo entre a coisa em si e os fenômenos. É verdade que Locke não cogitou propriamente dessa questão, e a noção de uma coisa em si só passou a ser considerada como um conceito filosófico e foi objeto de serias investigações depois de Kant. Mas a distinção feita por Locke entre as qualidades primarias e as qualidades segundas da matéria prende-se já ao assunto, Sabe-se em que consiste o que Locke chamava qualidades primarias da matéria. São as qualidades externas das cousas, as qualidades que as cousas possuem, consideradas em relação com o espaço, as relações de grandeza, figura, posição, movimento; numa palavra, todas as suas determinações de ordem matemática. Estas qualidades pertencem às cousas tais como são em si mesmas. As qualidades de outra ordem, referentes às diferenças de cor, de som, de gosto etc, são qualificadas por Locke como segundas e não pertencem às cousas, são apenas impressões que estas produzem em nós. Isto, significa, se quisermos falar na linguagem do criticismo: as qualidades primarias são pertencentes á coisa em si ou aos noúmenos; as qualidades segundas são simples fenômenos ou impressões da nossa sensibilidade. Pois bem: o que fez Kant, foi estender a todas as qualidades da matéria, às primarias, como às segundas, o ponto de vista que fora adotado por Locke exclusivamente para as ultimas. Quer dizer ; o que conhecemos da matéria é somente o que sentimos; e assim todas as qualidades que lhe são atribuídas, – a resistência, a extensão, o movimento, a figura, como a cor, as variações de tom, de gosto etc, são simplesmente impressões de nossa sensibilidade; e da matéria como ela é em si mesma, nada conhecemos, nem poderemos conhecer. Foi a solução de Kant. Vejamos como foi Kant a isto levado.
Esta orientação veio da filosofia mesma de Locke; mas indiretamente, pela síntese das duas direções opostas, ambas negativas, em que aquela se fraccionou, e que são: o sensualismo absoluto de Condillac e o idealismo de Berkeley.
Condillac, como já vimos, pretende manter-se ligado ao espiritualismo e seus comentadores mais autorizados defendem-no contra a acusação que contra ele foi levantada de materialismo Mas em verdade, pela forma porque compreende e explica os fenômenos psíquicos, vê-se que se mostrava inclinado a só reconhecer como substancia a matéria. É pela sensação que tudo se explica em1 seu sistema, e como a sensação é passiva, resulta daí que tudo é passivo no espírito. A reflexão, como atividade própria da alma, princípio ainda admitido por Locke, é posta assim !de lado por Condillac. Mas coreto é pela atividade que tudo se deve explicar, tratando-se da fenomenalidade psíquica, uma vez que tudo aí se liga á sensação e esta é passiva, forçoso é reconhecer que é á atividade mesma da matéria que se deve recorrer para explicar os fatos. Isto quer dizer que é somente á matéria com seu caráter exterior, objetivo, que pertence a substancialidade; ao passo que o espírito, sendo apenas um resultado da atividade Ida matéria, é fenomenal e derivado Era, pois, natural que ao sensualismo absoluto de Condillac se seguisse o materialismo afirmando : a matéria é a única substancia, o único ser verdadeiro, e o espírito é simplesmente um fenômeno da matéria, ou antes e mais precisamente, um epifenômeno, pois não é uma modalidade da matéria, um fenômeno propriamente dito, mas apenas um acidente, uma repercussão de certos e determinados fenômenos da matéria.
Ao passo que o materialismo nega o espírito, Berkeley, como sabemos, fundado, aliás, nas. mesmas premissas, nega, pelo contrario, a matéria. Seria escusado repetir aqui as razões em que ele se funda para firmar essa negação. No fundo sua argumentação reduz-se a isto: se todo o conhecimento deriva da sensação, tudo o que se conhece é ideia, pois é só de ideias que a sensação nos dá testemunho. E em verdade o ser das cousas consiste unicamente em ser percebido: esse est percipi. Não quer isto, entretanto dizer que com o desaparecimento do individuo, a matéria deixará de ser. Não: isto seria absurdo, e o mais elementar bom-senso logo protestaria. «O que o idealismo de Berkeley significa, diz Bergson, é que a matéria é coextensiva com a nossa representação; que não tem interior, nada por dentro; que não oculta coisa alguma, que nada encerra; que não possui nem poder, nem virtualidade de espécie alguma, que é exposta em superfície e que se liga, a todo o instante, toda inteira, no que nos dá». Isto significa, em sentido diametralmente oposto ao materialismo, que o espírito é a única substancia, o único ser verdadeiro, e que a matéria é simplesmente um fenômeno do espírito.
Hume, como já vimos, fez a síntese das duas negações e firmou como base de seu sistema: não ha espirito, nem matéria, mas apenas impressões de nossa sensibilidade; o que quer dizer: não há nenhuma substância, mas simplesmente fenômenos e todo o nosso conhecimento se refere somente a fenômenos. Hume, nega, pois, não somente a matéria, como igualmente a unidade do eu e o que se chama matéria consiste apenas na sucessão dos fenômenos exteriores, nas mesmas condições que o que se chama eu ou espírito consiste apenas no encadeamento dos estados de consciência. Tal é a filosofia a que se deu precisamente o nome de fenomenismo; filosofia que em sua forma mais rigorosa se resolve numa determinação dos limites do conhecimento, ficando este em absoluto limitado ao domínio da pura fenomenalidade, sem poder jamais entrar na região misteriosa e impenetrável da coisa em si. E o fenomenismo com suas negações sistemáticas e com seu poderoso aparelho de demolição, impôs-se e dominou, tendo exercido uma influência enorme. E é hoje representado exatamente pelos dois grandes sistemas em que se decompôs o cepticismo moderno: o criticismo e o positivismo.