Farias Brito – §18. Necessidade de uma rigorosa delimitação do conceito do espírito

Farias Brito, O Mundo Interior
Excertos do Livro II – CAPÍTULO I A questão da «coisa em si» e dos fenômenos

§ 18. — Necessidade de uma rigorosa delimitação do conceito do espírito.

Devo agora, antes de passar a outro assunto, esforçar-me por precisar com a maior segurança possível, o que se deve entender por espírito. Uma rigorosa delimitação deste conceito é tanto mais necessária quanto é certo que se trata aqui de um ensaio sobre a filosofia do espírito. E para que se possa bem compreender o que temos em vista desenvolver e de que natureza são as conclusões que propomos, indispensável é que, antes de tudo, seja esclarecido este ponto: que é o espírito ? É certo que neste volume não poderemos entrar no exame detalhado dos fatos de caráter mental ou espiritual. Limitar-nos-emos aqui apenas aos dados gerais da filosofia do espírito. O estudo minucioso dos fatos ficará reservado para outro trabalho. Mas em todo o caso é da maior conveniência que fique desde logo determinado o conceito mesmo do espírito, pelo menos no sentido em que o compreendemos, que é aliás o sentido natural e empírico. Fica, pois, entendido que quando falamos de espírito, dever-se-á subentender que se trata unicamente do espírito de que podemos ter conhecimento, direta ou indiretamente, pelas forças mesmas de nossa atividade cognitiva, isto é, do espírito tal como reside em nós, manifestando-se como consciência e como percepção, como inteligência e como vontade, da energia de que somos dotados, capaz de sentir e pensar, de querer e agir.

Mas para dar uma ideia mais precisa e uma compreensão mais segura do modo porque entendemos o fato, o meio mais eficaz parece-nos consistir no seguinte : em submeter a exame essa obscura questão da coisa em si e dos fenômenos ; questão que se tornou desde Kant, ou melhor, desde Hume, um dos pontos mais complicados e incertos da filosofia moderna.

Que relação tem, porém, com essa questão, a noção do espírito? É o que veremos mais tarde. Por enquanto basta chamar a atenção para a preponderância extraordinária que foi dada à noção mesma de fenômeno entre os filósofos contemporâneos. O fenômeno chegou a tornar-se uma espécie de princípio dos princípios « — a ideia fundamental do espírito humano -». De tal modo que não somente há uma filosofia a que se deu mesmo o nome de fenomenismo, como trabalhos especiais foram publicados sobre o fenômeno, de extensão considerável. «A categoria suprema da ciência e do pensamento não é o ser, é o fenômeno. Só: o fenômeno é propriamente real, contendo em si, nos seus caracteres próprios e nas relações com que se liga aos outros fenômenos, a razão única e ultima de todas as cousas.- »

O conhecimento tem por objeto os fenômenos e só se refere aos fenômenos, e se é possível imaginar um noúmeno ou uma coisa em si, é simplesmente como conceito de limite, e de limite do conhecimento mesmo; o que quer dizer que a coisa em si é o que não pôde ser conhecido. Não se pode afirmar sobre a coisa em si o que quer que seja, a não ser que não a conhecemos. «O interior da matéria ou a coisa em si que nos aparece como matéria é uma pura quimera» — diz Kant. Mas poder-se-á afirmar que a coisa em si exista ? E se existe, dever-se-á admitir que exerça alguma influência sobre a ordem dos fatos e o desenvolvimento dos fenômenos ? Qual era a esse respeito a opinião do próprio Kant ? «Eis a questão sobre a qual disputam, diz Tillman Pesch, desde cem anos, mais do que sobre qualquer outra, os pensadores alemães; em realidade é o coração mesmo do Kantismo. Os idealistas, forçados por seus princípios, dizem: Kant nada podia entender por noúmenos Perdão, dizem os realistas, ele devia entender alguma coisa. Mostraremos que uns e outros tinham razão: o que logo deixa ver que os noúmenos podiam ser o ponto de partida para os sistemas mais contraditórios ». (Tilmann Pesch — Le Kantisme et ses erreurs. Cap. XII)

Para examinar essa questão mais a fundo e de modo decisivo, convém considerá-la em seu desenvolvimento histórico.

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