Essa estrutura original da obra de arte está hoje ofuscada. No ponto extremo do seu destino metafísico, a arte, tornada uma potência niilista, um “nada que se autonadifica”, vaga no deserto da terra aesthetica e gira eternamente em torno da própria dilaceração. A sua alienação é a alienação fundamental, porque acena para a alienação do próprio espaço histórico original do homem. Aquilo que o homem corre o risco de perder com a obra de arte não é, de fato, simplesmente um bem cultural, por mais precioso que seja, nem mesmo a expressão privilegiada da sua energia criadora : mas é o espaço mesmo do seu mundo. Somente neste, ele pode se encontrar como homem e ser capaz de ação e de conhecimento.
Se isso é verdadeiro, o homem que perdeu o seu estatuto poético não pode simplesmente reconstruir em outro lugar a própria medida : “toda salvação que não venha de onde está o perigo, permanece ainda na não salvação”1]. Se e quando a arte terá ainda a tarefa de dar a medida original da habitação do homem na terra não é, por isso, matéria sobre a qual se possam fazer previsões, nem podemos dizer se a poiesis reencontrará o seu estatuto próprio para além do interminável crepúsculo que envolve a terra aesthetica. A única coisa que podemos dizer é que ela não poderá simplesmente saltar para além da própria sombra para superar o seu destino. (AgambenH)
- HEIDEGGER, Martin. Wozu Dichter ?. In : Holzwege GA5 (1950), p. 273. [Tradução portuguesa : Para que poetas ?. In : Caminhos de floresta. Coordenação científica da edição e tradução de Irene Borges-Duarte. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2002.] Ao leitor atento não terá certamente escapado quanto estas páginas sobre a dimensão do tempo devem ao pensamento de Heidegger, em particular à conferência Zeit und Sein (In : L’endurance de la pensée, Paris, 1968). [Ed. bras. : Tempo e Ser. In : Conferências e escritos filosóficos. Tradução, introduções e notas de Ernildo Stein. São Paulo : Abril Cultural, 1979. (Coleção Os Pensadores).[↩]