Que a verdade de uma teoria seja o mesmo que sua fecundidade é, com certeza, um erro. Mas muitas pessoas parecem admitir o contrário disso. Acham que a teoria, longe de ter necessidade de encontrar sua aplicação no pensamento (im Denken), deve, antes, dispensar o recurso a ele, pura e simplesmente. Elas querem submeter-se à ideia como a um deus, ou atacá-la como a um ídolo. Mas algo que é da natureza da verdade é, justamente, sermos parte interessada nela como sujeitos ativos. Podemos ouvir frases que são verdadeiras em si, mas só temos a experiência de sua verdade ao introduzir nelas nosso pensamento e ao pensar mais além.
No momento atual, o fetichismo em questão exprime-se de maneira drástica. Pedem-nos razões para o pensamento, como se ele fosse imediatamente a prática. Não há simplesmente a fala que visa o poder, mas há também aquela que se move de maneira tateante, experimental, jogando com a possibilidade do erro, e que é, por essa simples razão, intolerável. Mas encontrar-se em estado inacabado e saber disso é também, mais uma vez, o traço característico do pensar, e precisamente do pensar com que vale a pena morrer. A proposição de que a verdade é o todo revela-se a mesma coisa que seu inverso, segundo o qual ela só existe, a cada momento, como parte. A desculpa mais deplorável que os intelectuais encontraram para os carrascos — e isso é algo em que não têm descansado nos últimos dez anos a desculpa mais deplorável é a que consiste em dizer que o pensamento da vítima, pelo qual ela foi assassinada, constituiu um erro. (Max Horkheimer e Theodor W. Adorno, Dialektik der Aufklärung, Philosophische Fragmente (1947). Frankfurt: Fischer Verlag, 1969, pp. 218-9.)