A origem da linguagem

(Eugen Rosenstock-Huessy, Huessy2002)

A origem da linguagem é uma das questões mais debatidas, ridicularizadas e desesperadoras da história humana. Rejeitaram-na como questão equivocada a que nunca se poderi a responder, e a qual portanto nunca se deveria levantar. Explicaram essa origem pela “imitação”, por um conjunto de reflexos nervosos (Langer), por gesticulações do corpo inteiro condensadas num movimento das cordas vocais, pelo grito de um grupo guerreiro; e todas essas explicações beiram a indecência. A maior parte das pessoas que conhecem a formulação da questão tem razão em sentir-se desmotivada.

Para mim a “origem” da linguagem é questão tão legítima quanto qualquer outra questão de “origem”. Isso quer dizer que ela possui aquela limitação que é central a qualquer dessas questões: é preciso saber o que queremos dizer por “origem”, o que queremos dizer por “origem” da linguagem. A linguagem pode significar:

A. Uma maneira de mostrar a alguém em que direção fica, na estrada, a próxima fazenda, ou um modo de fazer uma criança parar de chorar. Então entram em cena gestos, sorrisos e lágrimas, e nisto os chimpanzés e rouxinóis são nossos mestres. Não tenho dúvida de que, nos bate-papos do dia-a-dia, nossa linguagem tem o mesmo propósito que os ruídos dos animais. E coisas que desempenham a mesma função devem estar relacionadas. Há certos momentos na vida em que nos encontramos nas mesmas condições em que os animais emitem sons de acasalamento, de aviso etc. Quando usamos sons nesses momentos, eles têm alguma semelhança com a linguagem dos animais.

B. Mas a linguagem também é o poder de cantar em coro, de encenar uma tragédia, de promulgar leis, de compor versos, de rezar em agradecimento, de fazer um juramento, de confessar pecados, de fazer uma reclamação, de escrever uma biografia, de redigir um relatório, de resolver um problema algébrico, de batizar uma criança, de assinar um contrato de casamento, de encomendar a Deus a alma do pai de alguém.

A maior parte das pessoas confunde A e B, talvez por crer que, explicando canções de ninar e informações sobre os arredores, teremos também explicado o poder de um juramento. Aqui, distinguiremos a linguagem A da linguagem B. Nossa confiança com que vamos abordar o problema da linguagem baseia-se precisamente na descoberta de que uma história infantil, o gesto de apontar a casa mais próxima e a curiosidade bisbilhoteira de vizinhos fofoqueiros não podem de maneira alguma considerar-se característicos da linguagem humana.

 

 

 

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