Página inicial > Glossário > conceito

conceito

domingo 17 de outubro de 2021

Embora se trate do elemento do pensamento?, não dispomos de uma definição clara e unívoca do conceito? “conceito”. Essa circunstância é reveladora da fé inconfessa dos nossos pensadores no intelecto?. Essa fé manda que o conceito seja algo que acompanhe (ou deva acompanhar) a palavra?. O estudante ingênuo, em Fausto, diz: “Doch ein Begriff muss bei dem Worte sein” [Porém um conceito deve acompanhar a palavra]. Goethe   compartilha da ingenuidade? do estudante e distingue palavras acompanhadas e desacompanhadas de conceitos. Acha-se em excelente companhia. Todos os esforços para definir? “conceito” são tentativas de parafrasear o seguinte artigo de fé: “Conceito é o fundamento? inarticulado do qual surge uma palavra legítima”. Por outro lado, o conceito não é algo, mas de algo. É, para falarmos em ter? chão, o traço que uma “coisa?” deixa no intelecto. Estamos, portanto, diante de uma situação curiosa. Na primeira? concepção é a palavra o símbolo do conceito. Na segunda concepção é o conceito o símbolo da [38] coisa. O conceito é, portanto, algo entre palavra e coisa. Algo completamente supérfluo, com efeito?, introduzido somente no esforço de superar? o abismo? entre palavra e coisa. Não há conceito sem palavra. E dizer que há palavra sem conceito não passa de uma maneira superficial de falar?. O que se quer dizer é que há palavras sem uma “coisa” correspondente (qualquer que seja o significado? de uma afirmativa metafísica como esta). Não há, portanto, a rigor, palavra sem conceito. Há, isto sim, palavras incompreensíveis. Estas não são legítimas palavras, no sentido? de não fazerem parte? de uma frase? significante. Mas esse? é um problema? que surgirá mais tarde. Basta, para o momento?, constatar que não há palavras sem conceitos, nem conceitos sem palavras, e que, em consequência, “conceito” e “palavra” são sinônimos no sentido lógico. Emocionalmente diferem, cabendo ao “conceito” o papel? de conciliador com a fé no intelecto, mas logicamente coincidem. Podemos, portanto, por questão de economia?, abandonar o uso? da palavra “conceito” em prol da palavra “palavra”. O pensamento é, portanto, uma organização de palavras. [FLUSSER  , Vilém. Da dúvida. São Paulo  : É Realizações, 2018, p. 37-38]


Os estoicos? definem a razão (logos?) como uma coleção de conceitos e preconceitos (ennoiai, prolepsis?). Os neoplatonistas algumas vezes? usam o plural, logoi?, que em uso mais geral? significa qualquer tipo? de princípio racional?, para conceitos, que têm de ser desdobrados ou projetados (proballein, proballesthai?) com o propósito de juízo perceptivo (krinein?, krisis), reconhecimento? (gnorisis) e compreensão (synesis). A recepção de dados? do mundo? externo? não é suficiente para este propósito, embora tenha sido debatido se os animais poderiam lidar com mais que isto. Se os conceitos projetados são empiricamente? obtidos, como o doxastikos logos? discutido em Alcino   e Prisciano, ou se eles são conceitos inatos recolhidos à maneira da anamnesis? de Platão  , não é particularmente claro. Peter Lautner indicou que no Comentário ao Timeu   de Proclo   são os conceitos recolhidos, porque as distinções científicas aí estão sendo? projetadas pelo pensamento discursivo? (dianoia?), e em Proclo   está se seguindo o tratamento de conceitos recolhidos do Didaskalikos de Alcino  . Mas seria interessante? saber? se a opinião (doxa) pode também projetar os conceitos (logoi) que Proclo   diz que tem das perceptíveis, em seu Comentário ao Timeu  .

Porfírio   em Da Harmônica de Ptolomeu adiciona que a razão (logos) com seus conceitos pode corrigir imprecisões na informação sensória. Em outra parte é sugerido que em geometria? nossos conceitos inatos podem ser usados para corrigir aqueles empiricamente obtidos. [SorabjiPC1  :37]


LÉXICO: conceito