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Kant

Immanuel Kant (1724-1804)

Louis GUILLERMIT. UNIVERSALIS.

A melhor imagem da novidade introduzida por Kant na história do pensamento é a que ele próprio sugeriu: a revolução copernicana, pela qual o centro imóvel privilegiado para o observador deixou de ser a Terra e passou a ser o Sol.

  • Nos dois casos, a modesta hipótese de uma mudança de ponto de vista, destinada a desobstruir o conhecimento num domínio particular do pensamento, foi ultrapassada de longe pelo número e pela importância das consequências que pôs a descoberto.
  • Em ambos os casos, foi toda a maneira de pensar dos homens que acabou por se transformar.

A profundidade dessa transformação se explica pelo fato de Kant ter compreendido radicalmente seu tempo — o século das Luzes — como o “século da Crítica à qual tudo deve se submeter”.

  • Ao propor fazer dessa crítica uma ciência, a fim de conferir estatuto científico ao conhecimento dos fins da razão humana — herdado da filosofia passada sob o nome de metafísica —, Kant procurou para o pensamento um ponto de apoio inteiramente novo.
  • Se a razão pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto da crítica, é porque ela é o poder específico e perfeitamente original que a pensamento possui de opor ao que é o que deve ser, imprimindo à existência o selo de uma necessidade e de uma universalidade que exprimem sua exigência normativa.
  • O ato próprio do pensamento sendo o juízo que decide de toda coisa como caso de uma regra, o objeto próprio da filosofia são as condições necessárias ao exercício legítimo de sua própria normatividade.

Com Kant, pela primeira vez na história, a filosofia se separa de todas as outras formas de pensamento e de saber, passando a se reapreender como origem do sentido que confere a seus objetos e a suas obras.

  • Longe de as respostas às suas questões estarem já dadas em alguma transcendência mais ou menos inacessível, elas se descobrem progressivamente em seus vínculos com os problemas que o espírito pode e deve propor a si mesmo como tarefas a cumprir.
  • O objeto próprio da filosofia é o critério da verdade, que não qualifica apenas as soluções, mas os próprios problemas.
  • O lugar que lhe pertence não se situa “nem no céu, nem na terra”: o homem é “filho da terra” e não pode se destacar dela nem se elevar a visões supraterrestres, mas participa da razão — e esta se manifesta nele de modo suficientemente irrecusável para que ele só possa realizar seu ser de homem submetendo-se ao que ela exige: é a esse preço que o mundo e seu próprio destino podem tomar um sentido.

Kant conferiu à filosofia a consciência de si mesma ao situar seu centro de gravidade na razão finita, característica do homem, que só pode se mostrar racional na medida em que quer sê-lo e só encontra sua liberdade submetendo-se ao que a razão exige dele.

  • Kant soube formular nos termos de rigor inteiramente novos a questão que Platão já havia feito objeto da filosofia: o que é o homem? o que convém à sua natureza fazer ou sofrer diferentemente dos outros seres?
  • É por isso que o pensamento de Kant continua a viver no espírito de todos os que refletem depois dele.
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