Bornheim
Gerd Bornheim
GERD A. BORNHEIM. INTRODUÇÃO AO FILOSOFAR
O comportamento originante do filosofar e a possibilidade de esclarecer a problemática que tal comportamento coloca constituem o objeto do presente estudo. Baseado na convicção de que não se trata de um problema que possa ser descartado como simplesmente secundário ou de menor importância, o autor parte, assim, do pressuposto de que a coloração fundamental de uma filosofia já se determina, em certo sentido, a partir mesmo da atitude inicial assumida por todo filósofo. Trata-se, portanto, da problemática implicada no ponto de partida do filosofar.
Referimo-nos ao filosofar, e queremos, desde logo, estabelecer uma distinção preliminar. A atitude inicial do filósofo determina o caráter último de sua filosofia. Mas esta determinação, profundamente enraizada no ato de filosofar, não deve ser confundida com o problema do primeiro princípio filosófico, com a primeira afirmação, a partir da qual um determinado filósofo poderá alicerçar e desdobrar o todo de seu pensamento, obediente à incoercível tendência para a sistematização, que é inerente à natureza mesma da filosofia. Este ponto de partida, primeiro princípio, seja ele de natureza lógica, ontológica, gnosiológica ou de qualquer outro teor, sobressai de uma problemática antecedente e condicionante, que vem a confundir-se com certas exigências existenciais de todo filosofar.
Tomemos um exemplo. O fato de um Descartes haver estabelecido o cogito como ponto de partida, asserção primeira de toda a sua metafísica, dá a este cogito uma primazia absoluta dentro de uma certa ordem dedutiva. Mas o estabelecimento desse primeiro princípio metafísico radica e corresponde a todo um itinerário prévio. No caso particular de Descartes, tal itinerário é, ao menos parcialmente, conhecido, pois o próprio filósofo nos transmitiu, em diversas de suas obras, as etapas que o levaram a filosofar. Sabemos, por exemplo, de seu descontentamento em face da situação da ciência de seu tempo. Homem dado a viagens, fala-nos da necessidade de percorrer “o grande livro do mundo”, a fim de conhecer os costumes de seus contemporâneos, bem como os de povos estrangeiros, e termina a primeira parte do Discurso do Método declarando: “Tomei um dia a resolução de estudar também em mim mesmo, e de empregar todas as forças de meu espírito na escolha dos caminhos que deveria seguir”. Pode-se mesmo afirmar que o itinerário anterior ao cogito, seguido pelo Pai da Filosofia moderna, coincide com o predomínio de um profundo sentimento de insatisfação, insatisfação que se vai traduzir, de maneira mais específica, nas diversas etapas que constituem o processo da dúvida metódica. Assim, se o cogito é o ponto de partida metafísico da filosofia cartesiana, o filósofo Descartes faz arrancar as suas preocupações de uma série de circunstâncias que vão condicionar todo o seu pensamento.
