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Castañeda (ER) – Loucura controlada

sábado 20 de agosto de 2022

    

Bernard Dubant

O guerreiro trata o mundo como um mistério sem limite e o que fazem as pessoas, como um loucura sem nome.

«Os atos dos homens ordinários são apenas»ruído e furor«como disse Shakespeare  . O dramaturgo teve também esta intuição   que o ‘mundo’ é apenas um teatro  , e os homens atores. O guerreiro não percebe as coisas de outro modo. Seus atos também são loucura, mas como não crê neles, é uma ‘loucura controlada’». (Bernard Dubant)

Para mim  , disse ele, não existe uma única coisa que seja importante, nem meus atos nem os atos de qualquer semelhante. Apesar disso continuo a viver   porque é minha vontade... Minha vontade controla a loucura de minha vida.

Teus atos, disse Don Juan, assim como, de uma maneira geral, aqueles de teus semelhantes, te parecem importantes porque aprendeste a pensar   que são importantes.

Meu riso, disse Don Juan, como tudo aquilo que faço, é real. Mas trata-se também de loucura controlada, pois é inútil. Não muda nada e no entanto eu rio sempre.

Nada sendo mais importante que não importa que outra coisa, um guerreiro escolhe qualquer ação e a realiza como se ela lhe importasse. Sua loucura controlada lhe faz dizer que ele dá importância ao que faz, o faz agir como se cada ação tivesse verdadeiramente importância, e no entanto ele sabe que não tem esta importância. Assim, quando realizou suas ações ele se sente em paz  . Não lhe concerne de nenhum modo, que suas ações tenham sido boas ou más, bem sucedidas ou não.

Ele ama o que ele quer, mas se serve de sua loucura controlada para não se interessar no que quer que seja.

Castanheda (traduzido)

— Será que você me conta mais a respeito de sua loucura controlada?

— O que é que você quer saber a respeito?

— Diga-me, por favor, Dom Juan, o que é exatamente a loucura controlada?

Dom Juan riu à grande e provocou um estalo, dando uma palmada em sua coxa.

— Isto é loucura controlada! — falou, e tornou a dar uma palmada na coxa.

— O que quer dizer?.. .

— Estou contente que você afinal me pergunte acerca de minha loucura controlada, depois de tantos anos, e no entanto não teria a mínima importância para mim, se você nunca perguntasse. E no entanto resolvi ficar feliz, como se me importasse, porque você perguntou, como se importasse que eu ligasse. Isso é loucura controlada!

Nós dois   rimos muito. Abracei-o. Achei a explicação dele uma delícia, embora não a entendesse muito bem.

Estávamos sentados, como sempre, na área bem defronte da porta   da casa   dele. Era o meio da manhã. Dom Juan tinha um monte de sementes em frente de si e estava catando-as. Ofereci-me para ajudar, mas ele recusou; disse que as sementes eram um presente   de um dos amigos de!e no México Central e que eu não tinha poder suficiente para tocá-las.

— Com quem você pratica a sua loucura controlada, Dom Juan? — perguntei, depois de um longo silêncio  . Ele riu.

— Com todo mundo!

— Então, quando é que você resolve praticá-la?

— Cada vez que eu ajo.

Achei necessário recapitular, nesse ponto, e perguntei-lhe se a loucura controlada significava que os atos dele nunca eram sinceros, e apenas os atos de um ator.

— Meus atos são sinceros — disse ele — mas são apenas. os atos de um ator.

— Então, tudo o que você faz deve ser loucura controlada! — falei, realmente surpreendido.

— Sim, tudo.

— Mas isso não pode ser verdade — protestei — não acredito que todos seus atos sejam só loucura controlada.

— Por que não? — respondeu ele, com um ar misterioso.

— Isso significaria que nada lhe importa e você não liga realmente para nada ou ninguém. Veja o meu caso, por exemplo. Quer dizer que não se importa se eu me tornar um homem   de conhecimento, se eu viver ou morrer  , ou fizer qualquer coisa?

— É verdade! Não me importo. Você é como Lúcio, ou qualquer outra pessoa em minha vida, minha loucura controlada.

Senti uma sensação especial de vazio  . Evidentemente, não havia um motivo no mundo por que Dom Juan devesse importar-se comigo, mas, por outro lado, eu tinha quase certeza   de que ele me estimava, pessoalmente; achava que não podia deixar de ser assim, pois ele sempre me dera toda sua atenção  , em todos os momentos em que estivera com ele. Ocorreu-me que talvez Dom Juan estivesse apenas dizendo aquilo por estar aborrecido comigo. Afinal de contas, eu tinha largado os ensinamentos dele.

— Estou com a impressão   de que não estamos falando sobre a mesma coisa. Eu não devia ter usado o meu caso como exemplo. O que eu queria dizer era que devia haver alguma coisa no mundo com a qual você se importe e que não seja loucura controlada. Não creio que seja possível a gente continuar a viver se nada realmente nos importa.

— Isso se aplica a você — respondeu. — As coisas importam a você.

Perguntou-me acerca de minha loucura controlada e eu lhe disse que tudo o que faço com relação a mim e meus semelhante é loucura, pois nada importa.

— O que eu digo, Dom Juan, é que, se nada lhe importa, como é que você pode continuar a viver?

Riu depois de um momento, em que parecia estar resolvendo se devia ou não responder-me; levantou-se e foi para os fundos da casa.

Acompanhei-o.

— Espere, espere, Dom Juan — falei, — Quero mesmo saber; você tem de me explicar o que quer dizer.

— Talvez não seja possível explicar — disse ele. — Certas coisas em sua vida lhe importam porque são importantes; seus atos certamente são importantes para você, mas, para mim, não há mais nenhuma coisa importante, nem os meus atos nem os de meus semelhantes. Mas continuo a viver porque tenho minha vontade. Porque temperei minha vontade em toda minha vida, até ela se tornar limpa e sadia, e agora não mais me importa o fato de nada importar. Minha vontade controla a loucura de minha vida.

Agachou-se e passou os dedos por umas ervas que tinha posto a secar ao Sol num pedaço de pano.

Eu estava confuso. Jamais poderia ter antecipado o rumo que minha pergunta tomaria. Depois de algum tempo, pensei num bom argumento  .

Disse-lhe que, em minha opinião  , alguns dos atos de meus semelhantes tinham a maior importância. Observei que a guerra   nuclear era positivamente o exemplo mais dramático de um desses atos. Disse que, para mim, a destruição da vida na face da terra   era um ato de uma enormidade arrasante.

— Você crê nisso porque está pensando. Está pensando na vida — disse Dom Juan, com um brilho nos olhos. — Não está vendo.

— Eu sentiria outra coisa se estivesse vendo? — perguntei.

— Quando o homem aprender   a ver, ele se encontra sozinho no mundo, apenas com a loucura — disse Dom Juan, misteriosamente. Parou um momento e olhou para mim como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras. — Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes porque você aprendeu a pensar que são importantes.

Ele usou a palavra «aprendeu» com uma entonação tão especial que me levou a perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Parou de mexer nas plantas e olhou para mim.

— Aprendemos a pensar sobre tudo — disse ele — e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes! Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coisas que olha, tudo fica sem importância.

Dom Juan deve ter percebido minha expressão   intrigada, de modo que repetiu suas declarações três vezes, como que para me fazer entendê-las. O que ele dizia a princípio me parecia besteira, porém, depois que pensei naquilo, suas palavras apareciam mais como uma declaração complexa a respeito de alguma faceta da percepção.

Castañeda (original)

«I wonder if you could tell me more about your controlled folly,» I said.

«What do you want to know about it?»

«Please tell me, don Juan, what exactly is controlled folly?»

Don Juan laughed loudly and made a smacking sound by slapping his thigh with the hollow of his hand.

«This is controlled folly!» he said, and laughed and slapped his thigh again.

«What do you mean ... ?»

«I am happy that you finally asked me about my controlled folly after so many years, and yet it wouldn’t have mattered to me in the least if you had never asked. Yet I have chosen to feel happy, as if I cared, that you asked, as if it would matter that I care. That is controlled folly!»

We both laughed very loudly. I hugged him. I found his explanation delightful although I did not quite understand it.

We were sitting, as usual, in the area right in front of the door of his house. It was midmorning. Don Juan had a pile of seeds in front of him and was picking the debris from them. I had offered to help him but he had turned me down; he said the seeds were a gift for one of his friends in central Mexico and I did not have enough power to touch them.

«With whom do you exercise controlled folly, don Juan?» I asked after a long silence.

He chuckled.

«With everybody!» he exclaimed, smiling.

«When do you choose to exercise it, then?»

«Every single time I act.»

I felt I needed to recapitulate at that point and I asked him if controlled folly meant that his acts were never sincere but were only the acts of an actor.

«My acts are sincere,» he said, «but they are only the acts of an actor.»

«Then everything you do must be controlled folly!» I said truly surprised.

«Yes, everything,» he said.

«But it can’t be true,» I protested, «that every one of your acts is only controlled folly.»

«Why not?» he replied with a mysterious look.

«That would mean that nothing matters to you and you don’t really care about anything or anybody. Take me, for example. Do you mean that you don’t care whether or not I become a man of knowledge, or whether I live, or die, or do anything?»

«True! I don’t. You are like Lucio, or everybody else in my life, my controlled folly.»

I experienced a peculiar feeling of emptiness. Obviously there was no reason in the world why don Juan had to care about me, but on the other hand I had almost the certainty that he cared about me personally; I thought it could not be otherwise, since he had always given me his undivided   attention during every moment I had spent with him. It occurred to me that perhaps don Juan was just saying that because he was annoyed with me. After all, I had quit his teachings.

«I have the feeling we are not talking about the same thing,» I said. «I shouldn’t have used myself as an example. What I meant to say was that there must be something in the world you care about in a way that is not controlled folly. I don’t think it is possible to go on living if nothing really matters to us.»

«That applies to you» he said. «Things matter to you. You asked me about my controlled folly and I told you that everything I do in regard to myself and my fellow men is folly, because nothing matters.»

«My point is, don Juan, that if nothing matters to you, how can you go on living?»

He laughed and after a moment’s pause, in which he seemed to deliberate whether or not to answer, he got up and went to the back of his house. I followed him.

«Wait, wait, don Juan.» I said. «I really want to know; you must explain to me what you mean.»

«Perhaps it’s not possible to explain,» he said. "Certain things in your life matter to you because they’re important; your acts are certainly important to you, but for me, not a single thing is important any longer, neither my acts nor the acts of any of my fellow men.

I go on living, though, because I have my will. Because I have tempered my will throughout my life until it’s neat and wholesome and now it doesn’t matter to me that nothing matters. My will controls the folly of my life."

He squatted and ran his fingers on some herbs that he had put to dry in the sun   on a big piece of burlap.

I was bewildered. Never would I have anticipated the direction that my query had taken. After a long pause I thought of a good point. I told him that in my opinion some of the acts of my fellow men were of supreme importance. I pointed out that a nuclear war was definitely the most dramatic example of such an act. I said that for me destroying life on the face of the earth was an act of staggering enormity.

«You believe that because you’re thinking. You’re thinking about life,» don Juan said with a glint in his eyes. «You’re not seeing.»

«Would I feel differently if I could see?» I asked.

«Once a man learns to see he finds himself alone in the world with nothing but folly,» don Juan said cryptically.

He paused for a moment and looked at me as if he wanted to judge the effect of his words.

«Your acts, as well   as the acts of your fellow men in general, appear to be important to you because you have learned to think they are important.»

He used the word «learned» with such a peculiar inflection that it forced me to ask what he meant by it.

He stopped handling his plants and looked at me.

«We learn to think about everything,» he said, «and then we train our eyes to look as we think about the things we look at. We look at ourselves already thinking that we are important. And therefore we’ve got to feel important! But then when a man learns to see, he realizes that he can no longer think about the things he looks at, and if he cannot think about what he looks at everything becomes unimportant.»


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