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zyme / ζύμη / levedura / fermento / ἄλευρον / aleuron / farinha / σίτος / trigo / ἄρτος / artos / pão

  

gr. ζύμη, zyme = levedura, fermento; gr. σίτος, sitos = trigo; gr. ἄλευρον, aleuron = farinha; gr. ἄρτος, artos = pão


autor desconhecido

Na língua bíblica, o termo que se traduz por pão significa todas as espécies de alimentos. Cada dia, o homem tem necessidade de pão e este termo, por um curioso deslize de sentido designará: o que acontece cada dia (veja a noção de Alimento). Por exemplo, o pão de sofrimento designa uma dor cotidiana. De uma maneira mais ampla ainda, o pão significará o sustento espiritual que podem aportar a graça de Deus e sua Palavra [Logos].

O pão de proposição e festa do pão surge na tradição judaica, conforme descrito no Levítico. Um episódio da estória de Davi, lembrado por Jesus nos Evangelhos  , mostra que ele comeu os pães consagrados, o que se torna evento disputado na tradição.

A fabricação do pão é carregada de valor simbólico no AT e no NT. Basta começar lembrando de Paulo Apóstolo  : "Se as primícias são santas, toda a massa o é também; e se a raiz é santa, os ramos o são também" (Rm 11,16).

O termo misterioso "primícias" se esclarece por referência à raiz. Trata-se de um princípio de crescimento, de desenvolvimento. Quanto ao termo santidade, não designa uma perfeição moral, mas aquilo que é "outro" ou "aparte" ou “separado” do restante (v. Santidade). Diferença consagrada pela Aliança. Quando a fé se perverte e o povo se perde, os poucos fiéis se encontram como fermento capaz de suscitar um grupo humano a se santificar (vide Levedura).

O pão da Páscoa é um pão sem fermento, conforme orientação dada por Moisés na fuga do Egito, e que levanta o aspecto negativo do fermento. Mais tarde, com Israel instalada na Terra Prometida, a festa dos Ázimos será também a festa da colheita, da renovação. Nos Evangelhos Jesus também previne quanto ao fermento dos Fariseus.

No Pai Nosso se faz uma demanda pelo "pão nosso de cada dia", expressão muito disputada quanto ao seu sentido.

Uma figura misteriosa, Melquisedeque, também está associada ao pão como "Mestre do Pão e do Vinho", que recebe o dízimo de Abraão e pronuncia uma benção. Este rei-sacerdote, portador da dupla unção se tornou, no NT, a imagem do Messias, conforme desenvolvida por Paulo Apóstolo na Epístola aos Hebreus.

Nas Tentações de Jesus no deserto também se faz lembrar o pão em uma das insinuações do diabo explorando a fome de Jesus, que repudiando afirma que seu único alimento é "toda palavra saindo da boca de Deus". A analogia entre pão e palavra [logos] ganha ainda mais sentido na Parábola do Semeador.

O Milagre da Multiplicação dos pães apresenta outro aspecto significativo para o entendimento deste alimento celestial que todos dependemos para a Vida. O que nos leva evidentemente à tentativa de entender o difícil discurso de Jesus enquanto Pão da Vida.

Para encerrar esta breve análise do simbolismo do pão, recomenda-se a reflexão sobre o ritual da Última Ceia e do pão partilhado, enquanto corpo do Cristo, fundamento da Liturgia cristã.

Jean Canteins

Considerando o Milagre da Multiplicação, é preciso compreender que os pães de cevada (pão grosseiro em si, mesmo do ponto de vista terrestre, comparado ao pão de fermento) são pouca coisa, apesar de sua miraculosa multiplicação, comparados ao pão sobrenatural ao qual o Cristo se assimila e que opõe ao alimento natural cuja multidão (judia) se contentou e se contenta ordinariamente. Este pão é sobrenatural não somente porque é descido do Céu (como a maná de Moisés o fez), não somente porque é pão de vida e a este respeito sacia para sempre mas ainda e sobretudo porque é o Cristo ele mesmo que é este Pão de propriedades tão extraordinárias. Esta especificidade crística lança as bases do dogma de sua consumação sacramental posto que «quem comer deste pão viverá para sempre»: todo o mistério da Eucaristia está aí em potência.

Dante   disto estava bem consciente. Ele pôs em paralelo pães de cevada e pão dos Anjos. Os «pães de cevada» são seus escritos, prosa e poesia, profanos e sagrados, que se juntaram uns aos outros, crescendo em quantidade e em qualidade. O que é o «pão dos Anjos» é mais difícil de apreender pois Dante não explicou nada a seu respeito. Para aí ver claro nos é preciso retomar o Milagre da Multiplicação. O Evangelista indica que depois do banquete   foram repletos doze cestas dos pedaços restantes. Se conformando à tradição, Dante diz igualmente que restará para ele cestas cheias. Que significam os pães que não foram consumidos? Segundo Erigena, se estes pedaços estão de sobra é que eles se apresentaram não comestíveis pela multidão porque esta estava «saciada e satisfeita apenas com a letra, a criação visível e os símbolos visíveis. Quanto aos sentidos espirituais, [quer dizer aos] sentidos sutis e difíceis da Santa Escritura e dos sacramentos visíveis», estes são os pedaços «que os homens carnais não podem comer» e que teriam sido deixados de lado e perdidos se o Cristo não tivesse ordenado a seus discípulos [quer dizer ao grão dos frutos «mestres e doutores da Igreja»] de reuni-los « a fim de que nada fosse perdido».

Os pedaços deixados pela multidão e recolhidos a mando pelos discípulos do Cristo se referem a uma ordem de conhecimento reservado à leite. Mas o fato que todos os homens não podem consumi-los basta para que estes restos seja identificados ao «pão dos Anjos»? Parece que não porque provenham dos cinco pães de cevada (alusão aos cinco livros do Pentateuco  , segundo a exegese mais autorizada, o que remete a reconhecer Moisés na criança que foi enviada a obtê-los) e que a cevada é mais para os animais que para os homens de sorte que se ela pode rigorosamente alimentar os seres de carne , ela não poderia certamente alimentar os Anjos. Adicionemos, no entanto, para dar um nuance a esta antinomia, que os pedaços restantes podem fazer pressentir a virtualidade de um pão de uma essência ainda superior — precisamente o «pão dos Anjos» — que seria para os ditos pedaços o que são eles mesmos para os pães consumidos. Assim, uma hierarquia tripartita de destaca que se pode recapitular o conteúdo neste esquema:

Espécies de pães e destinatários
Correspondências Interessados
pão de cevada
pães múltiplos consumidos pelo maior número
alimento terrestre
- corpo
- sentido «literal»
Judeus
Homens
pedaços restantes (inconsumíveis pelo grande número) destinados a um pequeno número
-mente
-sentido alegórico, moral e anagógico
Cristãos e especialmente discípulos
pão dos anjos
pão sobrenatural (epiousios)
alimento (de origem) celeste
supra-humano
Anjos

[LA PASSION DE DANTE ALIGHIERI]