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Sófocles
SÓFOCLES (497-406 aC)
Antígona como foco máximo da obsessão filosófica moderna
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- Singularidade histórica da recepção de Antígona
- Ausência de paralelo direto na tradição literária
- Nenhuma outra obra antiga concentrou intensidade comparável de leitura filosófica e poética
- Hamlet é o único possível termo de comparação, mas não atinge o mesmo grau de convergência especulativa
- Centralidade absoluta da Antígona no período moderno
- O final do século XVIII e o século XIX fazem da peça um campo privilegiado de prova para sistemas filosóficos
- A obra torna-se lugar de cristalização de conflitos intelectuais decisivos
- Excepcionalidade das leituras de Hölderlin, Hegel e Kierkegaard
- Hölderlin como caso-limite da interpretação criadora
- Antigona não é apenas leitura, mas reconfiguração ontológica do texto
- A tradução assume estatuto de acontecimento filosófico
- Hegel e Kierkegaard como leitores obsessivos
- A obra funciona como nervo exposto de seus sistemas
- Cada leitura envolve risco conceitual extremo
- Qualidade inédita do investimento filosófico
- Não se trata de comentário ilustrativo, mas de confronto estrutural com o texto
- Relação estrutural entre tragédia e filosofia
- Antigona como objeto privilegiado do uso filosófico da tragédia
- A tragédia encena de modo concentrado dilemas metafísicos, éticos e políticos
- Afinidade intrínseca entre forma trágica e reflexão conceitual
- A ação conduzida ao ponto de desastre explicita a lógica última do agir humano
- O desastre é apresentado como consequência interna da ação, não como acidente
- A herança aristotélica
- A Poética como matriz do aproveitamento filosófico da tragédia
- A tragédia é compreendida como meio de tornar visíveis estruturas universais
- Continuidade do impulso utilitário
- A tragédia serve para corporificar problemas abstratos
- A cena trágica oferece presentificação do pensamento
- Trágico como encenação do pensamento
- A tragédia dramatiza processos mentais
- Decisão, deliberação, erro e reconhecimento são postos em ato
- Afinidade com a filosofia idealista
- O pensamento filosófico reconhece na tragédia um espelho formal de sua própria dinâmica
- A lógica hegeliana conserva uma dimensão teatral implícita
- O projeto romântico de dissolução das fronteiras disciplinares
- Supressão da distinção entre discurso poético e filosófico
- Ambos são compreendidos como formas de intuição ativa
- Pensamento como performance dialética
- O conceito é produzido em movimento, não como definição estática
- A tragédia como modelo dessa unidade
- O texto trágico articula forma sensível e necessidade racional
- Goethe como figura de resistência
- Recusa da fusão romântica entre filosofia e poesia
- A oposição entre teoria e vida permanece fundamental
- Crítica implícita ao idealismo romântico
- A cor cinzenta da teoria é contraposta ao verde da vida
- Antígona como ponto de tensão
- Mesmo em Goethe, a peça resiste à plena domesticação clássica
- Antígona como laboratório da modernidade
- Concentração dos grandes problemas modernos
- Liberdade e necessidade
- Lei e transgressão
- Indivíduo e ordem coletiva
- Capacidade inesgotável de gerar leituras
- Cada sistema encontra na peça um reflexo de suas próprias aporias
- A obra como texto-limite
- A interpretação de Antígona põe à prova a legitimidade dos próprios métodos interpretativos
- Tragédia e obsessão interpretativa
- A intensidade do trágico convoca a repetição hermenêutica
- A obra exige retorno contínuo
- A leitura como risco
- Interpretar Antígona implica envolver-se existencialmente
- Antígona como desafio permanente
- A peça não se esgota em nenhuma leitura sistemática
- Estatuto exemplar de Antígona
- Modelo extremo da relação entre poesia e filosofia
- O texto trágico não é subordinado ao conceito
- O conceito nasce do atrito com o texto
- Antígona como medida do pensamento moderno
- A capacidade de uma filosofia de lidar com o trágico mede sua profundidade
- Permanência do enigma
- A obra resiste a síntese final
- Sua força reside na impossibilidade de encerramento interpretativo
Goethe e Antígona: Crítica, Criação e Ética do Trágico
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- Indissociabilidade entre crítica literária e produção poética
- A atividade interpretativa é compreendida como prática orientada por exigências internas da criação artística
- A crítica não se apresenta como comentário externo ou retrospectivo, mas como momento funcional da própria obra
- A reflexão teórica emerge integrada à necessidade produtiva e formal do fazer poético
- A interpretação assume caráter operativo
- Criticar é agir, e agir é interpretar
- A análise estética participa do mesmo regime de verdade da criação artística
- Inserção da reflexão crítica no corpo da obra dramática
- As considerações sobre Hamlet são integradas organicamente à economia narrativa de Wilhelm Meisters Lehrjahre
- A reflexão sobre a arte clássica é dramatizada no Ato de Helena da segunda parte de Faust
- O pensamento estético é encenado, não exposto discursivamente
- A teoria assume forma sensível e dramática
- Centralidade da antiguidade grega na formação espiritual
- A relação com a arte antiga não é episódica nem erudita, mas constitutiva
- A antiguidade, e particularmente a arte ática, funciona como matriz normativa da criação moderna
- A estratégia existencial de retorno aos gregos
- A referência à Grécia é apresentada como condição de resistência às pressões do mundo moderno
- O apoio nos gregos garante orientação, estabilidade e profundidade histórica
- O paradigma grego da plenitude vital
- A noção de felicidade natural como traço distintivo da cultura grega
- A realização orgânica das potencialidades humanas define a excelência antiga
- Consonância entre ação individual e ordem comunitária
- A energia vital é investida diretamente na realidade histórica concreta
- O contraste com a modernidade
- Na modernidade, os valores deslocam-se para o domínio da interioridade abstrata
- O rompimento entre percepção e realidade gera uma dissociação estrutural incurável
- Aproximação conceitual com a problemática hegeliana
- A oposição entre antiguidade e modernidade ecoa a cisão entre efetividade e consciência
- A exemplaridade dos poetas trágicos
- Fusão entre palavra e mundo como critério supremo da grande arte
- A linguagem trágica nasce sob pressão de ações claras e decisivas
- Hierarquização simbólica
- Homero como centro solar da poesia ocidental
- Os três tragediógrafos como corpos orbitais fundamentais
- Avaliação diferencial das grandezas trágicas
- Ésquilo representa a magnitude primordial e excessiva
- Eurípides inaugura a complexidade psicológica e a experimentação lírica
- Sófocles ocupa a posição mediana e harmônica
- Sófocles como medida do trágico ideal
- A mediania não é deficiência, mas equilíbrio formal supremo
- A perfeição do pathos trágico encontra-se no ajuste exato entre sofrimento e forma
- Lugar singular de Sófocles na economia estética
- Realização máxima da catarse em Oedipus em Colono
- O terror é apaziguado sem dissolver sua gravidade
- Modelo para a transfiguração final de Faust
- A figura do velho cego assume função paradigmática
- Concordância entre pensamento e ação
- A figura cívica de Sófocles encarna o ideal de unidade ética e poética
- Afinidade entre Sófocles e Torquato Tasso
- A exploração da concordância interior confere tonalidade sofocliana à obra moderna
- Aparente marginalidade de Antígona na reflexão explícita
- Hipótese superficial da rejeição da catástrofe absoluta
- A violência irredutível do desfecho não afasta Goethe da obra
- A concepção de reconciliação trágica
- A reconciliação é compreendida como culminação ética do trágico
- Essa reconciliação pode exigir sacrifício humano radical
- A tragédia não exclui o horror
- A imolação é reconhecida como preço necessário da ordem moral
- Centralidade implícita de Antígona
- A ausência discursiva reflete a incorporação estrutural do modelo trágico
- Ifigênia como transposição sofocliana
- Origem mítica euripidiana e herança esquiliana
- A matéria narrativa deriva de tradições anteriores
- Predominância do espírito sofocliano
- A forma dramática e o núcleo ético afastam-se dos modelos originais
- Estrutura fundamental do conflito
- O embate entre reflexos arcaicos e racionalização civilizatória
- Ambiguidade da civilização
- A vitória da razão exige reconhecimento de sua própria falsidade parcial
- A racionalidade recorre a meios enganosos
- Paridade moral entre antagonistas
- O conflito não opõe verdade e erro, mas ilusões concorrentes
- Convergência com a morfologia hegeliana do trágico
- A colisão entre potências éticas remete ao modelo sofocliano
- Ifigênia como figura ética exemplar
- Superação da duplicidade do conflito
- A personagem impõe uma exigência ética de ordem superior
- Afinidade com o imperativo kantiano
- A ação moral emerge como obrigação incondicional
- Reenvio constante ao precedente de Antígona
- A estrutura ética da resistência feminina repete o modelo trágico clássico
- A lei antiga e o limite humano
- Afirmação da distância entre deuses e mortais
- A proximidade excessiva com o divino gera vertigem e destruição
- A linhagem de Tântalo como advertência trágica
- A violação do limite funda a catástrofe
- Interiorização da voz divina
- Os deuses falam por meio da consciência
- Reatualização do confronto Antígona-Creonte
- O conflito entre decreto humano e lei antiga estrutura o drama
- Isolamento do soberano e solidão do poder
- A figura de Toas como eco de Creonte
- A autoridade absoluta termina em isolamento
- O reconhecimento da humanidade do governante
- A barbárie revela traços de autenticidade vital
- Permanência da perda como marca do poder político
- O Parzenlied como recriação coral
- Metamorfose dos cantos corais sofoclianos
- Integração do primeiro estásimo e das reflexões sobre a herança da ruína
- Tradução no sentido mais elevado
- O núcleo de sentido é preservado além da literalidade
- Equivalência métrica e rítmica
- A cadência violenta e martelada do coro antigo é recriada em língua moderna
- Antígona como arquétipo da consciência ética
- Centralidade do Sittliche como ação primordial
- A consciência ética constitui o verdadeiro motor da tragédia grega
- A formulação mais pura do dever moral
- O imperativo ético atinge em Antígona sua expressão máxima
- Irmandade espiritual entre Antígona e Ifigênia
- Ambas encarnam a manifestação exemplar do princípio ético
- A visualidade mítica e a fixação simbólica de Antígona
- A leitura de Filóstrato como exercício didático
- A imagem fornece modelos de representação e de sentido
- Antígona como figura escultórica e tátil
- A presença física é enfatizada como portadora de valor ético
- Continuidade do ódio fraterno além da morte
- A simbologia do sangue e do fogo preserva a negatividade originária
- Ausência de dissenso quanto ao valor de Antígona
- A avaliação permanece inteiramente afirmativa
- Crítica explícita à leitura hegeliana
- Rejeição do jargão abstrato e da sistematização excessiva
- A linguagem filosófica obscurece a experiência trágica
- Contestação da redução do trágico ao conflito Estado-família
- Outros princípios trágicos possuem igual legitimidade
- Recusa da interpretação metafísica de Sófocles
- O poeta é compreendido como dramaturgo prático
- O pensamento está implícito no mito, não imposto a ele
- Condenação da reabilitação ética de Creonte
- O decreto é caracterizado como crime político
- A obstinação do governante é descrita como blasfema
- A retórica sofística como fonte de engano interpretativo
- A persuasão pode simular legitimidade onde há erro
- Função estrutural de Creonte
- Creonte como contraponto necessário
- Sua rigidez provoca a revelação da grandeza ética de Antígona
- A função negativa como esclarecimento moral
- O erro do governante torna visível a altura da ação justa
- Ismene como medida do ordinário
- A mediania cotidiana realça a excepcionalidade moral de Antígona
- Encerramento normativo
- Ausência de enigma metafísico
- O trágico oferece iluminação moral e poética
- A exigência permanente de retorno aos gregos
- A compreensão da condição humana requer estudo incessante da tragédia antiga
A Incorporação de Antígona na Filosofia de Hegel
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- A natureza peculiar das dificuldades do texto hegeliano.
- A transmissão de grande parte da obra pós-*Fenomenologia* através de anotações de aula imperfeitas.
- O caráter não destinado à publicação dos textos anteriores a 1807, que englobam juvenília, esboços, rascunhos e fragmentos de auto-endereçamento.
- A publicação póstuma desses escritos privados, hoje considerados vitais para a compreensão de Hegel.
- A recusa hegeliana da fixidez e do encerramento formal como elemento cardeal de seu método.
- A consequência: as noções de “sistema” e “totalidade” associadas ao hegelianismo tornam-se elusivas.
- A dinâmica tripla da reflexão e da enunciação hegelianas.
- A reflexão opera em constante movimento em três níveis interpenetrados: metafísico, lógico e psicológico.
- O nível psicológico abrange os outros dois, pois busca tornar explícitos os processos de consciência que geram e estruturam as operações metafísica e lógica.
- A subversão rigorosa das linearidades ingênuas do argumento comum para comunicar simultaneidades, conflitos e recursões internas ou autocorreções das propostas.
- A tensão entre composições de significado “verticais” ou “acordais” e as convenções externas da prosa dos séculos XVIII e início do XIX.
- A transparência paradoxal do estilo hegeliano e sua autoconsciência polêmica.
- A capacidade de Hegel de observar-se pensando e registrar as etapas sucessivas de seu pensamento.
- A rara habilidade de pensar contra si mesmo e observar esse processo.
- A essência do método e do pensamento hegeliano é a auto-polêmica.
- A negação, a superação (Aufhebung) e o movimento da dialética como instrumentos teóricos imediatos do princípio do “contra-pensamento”.
- A operação obsessiva desse princípio no modelo hegeliano de consciência dividida e alienação.
- A comparação com Platão: enquanto nos diálogos platônicos são as táticas do argumento que são dramáticas, em Hegel a própria substância do pensar é dramática.
- Para Hegel, pensar é “pensar contra”, é “dramatizar” no sentido radical de ação pura.
- A proclamação da Fenomenologia: o Espírito é ação de tipo agonístico ou “conflitual”.
- A citação das preleções sobre filosofia da religião resume o ethos dramático-polêmico: “Eu sou o combate… sou ambos os combatentes e o combate mesmo.”
- O lugar privilegiado do drama, e da tragédia em particular, no crescimento do pensamento hegeliano.
- A teoria da tragédia não é um acessório à construção hegeliana, mas um terreno de teste e validação para seus principais dogmas.
- A tragédia valida o historicismo, o cenário dialético da lógica e a noção central da consciência em conflito progressivo.
- Certas tragédias gregas, preeminentemente a Antígona, são tão funcionais para o mundo do pensamento hegeliano quanto poemas expressionistas para Heidegger.
- A fascinação precoce de Hegel por Sófocles e o desenvolvimento de sua reflexão sobre a tragédia.
- A tentativa de tradução de Édipo em Colono no verão de 1787.
- A impossibilidade de ordenar temporalmente os estágios de reflexão que levam à primeira citação específica de Antígona em 1795/96.
- O pensamento nascente de Hegel como uma trama apertada de fios que se cruzam sincronicamente.
- Os três principais fios de argumento que conduzem às leituras posteriores de Antígona.
- A idealização da Hélade antiga, representativa de sua geração, e a “saudade dolorosa” pela Grécia.
- A ênfase na qualidade singularmente “concreta” e “imanente” do gênio ático, implicando uma crítica a Kant.
- A persistência do ideal da pólis e de seus problemas no cerne dos ensinamentos hegelianos.
- A alteração da imagem utópico-lírica de Atenas durante o período de Berna (1794-95).
- A percepção das contrariedades latentes na suposta concordância ática entre as esferas político-cívica e religiosa-ritual.
- A possessão pela “contraditoriedade do ser mesmo”, através da consideração tripla da vida de Cristo, da persona de Sócrates e das condições oligárquicas em Berna.
- O esforço para resolver ou ativar essa contraditoriedade em tensão produtiva.
- A designação da religião como “ama” e do Estado como “mãe” dos homens livres, no fragmento 222 de Nohl, onde Antígona é invocada pela primeira vez.
- A origem da dualidade entre religião e Estado na alienação primária do homem em relação à natureza.
- O mecanismo trágico e necessário de ruptura nas origens do corpo político, conforme Rousseau.
- Esta cisão contém a fonte da positividade ética.
- A argumentação contra Fichte: a condição fundamentalmente social do indivíduo humano integral.
- A argumentação contra Kant: a ênfase na historicidade concreta e no caráter “coletivo” das escolhas éticas.
- A tentativa de conciliação dinâmica no período de Frankfurt (1796-1800) e imediatamente antes de Iena.
- A posição de que o homem não pode atingir uma postura ética autêntica fora do Estado.
- A concepção do Estado como uma “totalidade pensada”, habitada pelo intelecto.
- A vitalidade da religião como derivada da imaginação humana, uma “presença viva representada pela fantasia”.
- A proposição de que não precisa haver conflito entre as duas esferas.
- Os germes de uma teoria da tragédia em fragmentos cronologicamente opacos.
- A figura de Abraão como exemplo de alienação estéril, antitética ao ideal grego de “uníssono com a vida”.
- A consequência: a sensibilidade judaica, embora imersa no sofrimento, não produz o drama trágico.
- A tese: a tragédia depende de concepções helênicas particulares de Gesetz (lei) e Strafe (punição).
- A ligação da moira à categoria paradoxal da “culpa fatídica”, pela qual o herói trágico se realiza plenamente.
- A ponderação de Sófocles, Hölderlin, Shakespeare e Goethe.
- Os pontos principais da teoria trágica incipiente de Hegel.
- Todo conflito acarreta divisão e autodivisão, sendo atributos necessários do desdobramento da identidade individual e pública.
- Como a “vida” não pode, em última instância, dividir-se, o conflito causa culpa trágica.
- A sugestão temporária de que a culpa pode ser transcendida pela “alma bela” (Cristo, Hiperíon de Hölderlin), logo abandonada.
- A consciência humana, para encontrar sua autorrealização, deve passar pelo “crepúsculo matinal da consciência infeliz”, arriscando sua ruína.
- Esta ruína é instrumental para a preservação do equilíbrio entre religião e Estado, sendo um momento indispensável da autorrealização do Espírito na história.
- A primeira abordagem extensa de Hegel sobre a tragédia no tratado de 1802 sobre o direito natural.
- A referência a As Eumênides de Ésquilo.
- A questão fundamental: a possibilidade e a natureza da dinâmica de mediação entre o indivíduo e o Estado-nação.
- A identificação da mais alta liberdade humana com a forma mais abrangente e orgânica de comunidade cívica.
- A consequência: uma relação polêmica e autodivisiva entre o homem como “ser estatal” e como “burguês” com motivações familiares.
- A solução: olhar para a tragédia grega, onde o conflito e sua resolução dinâmica são delineados de modo incomparável.
- O esquema político da tragédia: a divisão interna da pólis e o conflito entre o Kriegstaat e o Privatrecht.
- A divisão da pólis em interesses colidentes é equivalente à “encenação da tragédia na esfera ética”.
- A necessidade de um staatsfreier Bezirk, um domínio livre da autoridade absoluta do Estado, mas definível apenas dentro dele.
- O Estado como Kriegstaat (Estado-guerra) em conflito criativo com o domínio do Privatrecht (direito privado), cujos impulsos primários são a preservação da família.
- A concessão de “honras divinas” pelo Estado à dimensão doméstica e eticamente privada.
- A obscuridade do texto: a imposição de um discurso político imanente a um desenho simbólico transcendente.
- A divisão entre pólis e indivíduo reflete o engajamento do “Absoluto” na temporalidade.
- As divindades antigas como veículo e símbolo desse engajamento.
- A autodivisão na natureza do divino entre as Erínias e Apolo.
- A intervenção de Atena e o empate dos votos possibilitando a reconciliação dialética.
- A interferência de duas fontes literárias diferentes: As Eumênides e Antígona.
- A presença implícita e dominante de Antígona no argumento de 1802.
- A concessão da Sittlichkeit aos “poderes subterrâneos” e o Recht des Todes (direito da Morte).
- A família como a mais alta totalidade “de que a natureza é capaz”.
- A geração de filhos como modus de reprodução da própria “totalidade”.
- A proposição de que apenas a morte do herói trágico pode tornar inteligível a unificação da natureza cindida dos deuses.
- A conclusão: Hegel está profundamente envolvido nos temas de conflito entre Estado-nação e família, direitos dos vivos e dos mortos, lei e ética costumeira – temas fundamentais para a Fenomenologia e primordialmente expostos em Antígona.
- A passagem de As Eumênides para Antígona como articulação do passo essencial dos escritos juvenis para a Fenomenologia.
- Após 1802, nenhuma “des-historicização” é possível para Hegel, dado o advento napoleônico.
- A tragédia brota do postulado e da superação das antinomias entre o Estado-guerra e as agências noturnas da família e da morte.
- Em Antígona, a lógica da revelação na forma trágica é consumada.
- A presença notável de Antígona na Fenomenologia do Espírito.
- Uma incorporação extraordinária de uma obra de arte em um discurso filosófico.
- A construção dramática da própria Fenomenologia, em parte, por ter o grande drama como núcleo de referência.
- A apresentação hegeliana do axioma do existencialismo na seção V.
- O ser como “tradução pura” do ser potencial em ação, no “fazer da ação”.
- O conhecimento autêntico de si só alcançado através da ação que traz à atualidade.
- A tradução como despertar da latência do eu para a luz do dia do ato presente.
- A aplicação a Antígona: a ruptura da manhã e da ação.
- A natureza do ato existencial autêntico e o surgimento do conflito.
- O ato autêntico deve visar um total “vindo-a-ser”, equivalente à “substância ética”.
- Questionar essa substância em nome de critérios externos é vaidade.
- Entra Creonte.
- A ambiguidade da culpa necessária: o conflito entre a ação individual e o fazer racional do Estado.
- A ação ética em sua forma mais pura é o “fazer inteligível e geral do Estado”.
- A ação individual, sendo quintessencialmente sua, trará o indivíduo à colisão com a norma racional do Estado.
- A oposição entre Gesetz (lei) e Gebot (imperativo interior) levada ao extremo.
- Começa a peça de Sófocles.
- As duas fontes dialéticas concretas da colisão.
- O primeiro momento: “a blasfêmia ou pecado tirânico que faz da vontade própria uma lei”.
- O segundo momento: o “pecado do saber” (Frevel des Wissens) que “se raciocina livre da lei” e a vê como uma arbitrariedade contingente e alheia.
- A ambivalência deliberada: o primeiro momento aplica-se a Creonte; o segundo diz respeito a ambos, Creonte e Antígona.
- O retrato final de Antígona na seção V da Fenomenologia.
- A substância ética só pode ser apreendida pela autoconsciência no indivíduo.
- Homens ou mulheres “lúcidos para consigo mesmos, espíritos não cindidos” são “tipos celestes imaculados” que preservam a inocência e a integridade de seu ser.
- Eles simplesmente são: “Sie sind, und weiter nichts”.
- A citação das linhas 456-7 da peça e a reafirmação: “Sie sind.”
- Para tais seres, o direito (das Rechte) é a substância absoluta e desinteressada da existência.
- Antígona como uma Antígona hegeliana e a polarização da substância ética.
- Lúcida para consigo mesma, possuindo a ação que é seu ser, ela vive a substância ética.
- Nela, “o Espírito se torna efetivo”.
- Mas a substância ética que ela encarna representa uma polarização inevitável.
- O Absoluto sofre divisão ao entrar na dinâmica fragmentada da condição humana e histórica.
- O “mundo ético” se cinde entre as polaridades imanente e transcendente, entre lei humana e lei divina.
- A conjectura poético-historicista de Hegel: a polarização assume a forma de conflito entre Estado e família.
- A lei divina tem na família um status triplo: “natural”, “inconsciente”, “do mundo do povo”.
- Este status é adversário do status da lei divina na religião da pólis.
- A oposição encontra sua manifestação pivotal no sepultamento dos mortos.
- A centralidade do motivo do sepultamento para as dualidades existenciais.
- Dentro da família, a morte “especifica a especificidade” no mais alto grau, sendo o cumprimento extremo do único.
- O indivíduo reverte “imensamente” para o domínio ético da família na morte.
- A diferença radical entre a valoração política (do Tun, ação) e a valoração ontológica (do Sein, ser) determina a primazia do sepultamento.
- A visão concreta de Hegel sobre o dever funerário.
- O dever final da família é manter afastados do morto a desonra e a destruição por agências orgânicas inconscientes.
- A família torna o morto um membro de uma totalidade comunitária mais forte que os elementos materiais.
- Este dever constitui a lei divina completa ou o ato ético positivo em relação ao indivíduo particular.
- A visão reanima o pavor primário da decomposição central na peça.
- A relação privilegiada entre irmão e irmã dentro da família.
- A relação é privilegiada pela imediatez e pureza de sua substância ética.
- Irmão e irmã são do mesmo sangue, sem a compulsão da sexualidade ou com ela superada.
- A relação é de afinidade eletiva que transcende o biológico.
- A feminilidade atinge sua mais alta intuição ética na condição de irmandade.
- A visão da irmã sobre o irmão é ontológica: ela atribui valor insubstituível ao seu ser.
- Não pode haver obrigação ética mais alta do que a que uma irmã contrai para com seu irmão.
- A separação dos reinos: o homem deixa o oikos pela pólis; a mulher guarda a lei divina no lar.
- O reino ético da mulher é o do “elementar imediato”, um reino de custódia necessariamente antinômico à positividade destrutiva do político.
- A lei humana é a lei do dia, pública, visível, universal, feita pelo homem (vir).
- A lei divina é a lei da mulher, noturna, que se esconde.
- Nota: esta é uma polarização no nível “histórico”; em última instância, ambas as leis participam da autodivisão do Absoluto.
- O passo dialético final: a morte como retorno à custódia primal da mulher.
- Em sua morte, o homem retorna da pólis para a família, especificamente para a custódia da mulher (esposa, mãe, irmã).
- Os ritos de sepultamento, re-enclausurando o morto na terra, são a tarefa particular da mulher.
- Quando essa tarefa recai sobre uma irmã, o sepultamento atinge o mais alto grau de santidade.
- O ato de Antígona é o mais sagrado ao qual uma mulher pode aceder. E é também um crime.
- A colisão final e suprema: a luta pelo corpo do morto (Polinices).
- Há situações em que o Estado não está disposto a renunciar à sua autoridade sobre os mortos.
- As leis da pólis podem estender ao cadáver imperativos de honra ou de castigo.
- Daí o choque entre os mundos do homem e da mulher.
- A dialética da colisão se compacta na luta entre Creonte e Antígona.
- O simples fato dessa luta define a culpa da mulher aos olhos da pólis.
- A culpa e a consciência de Antígona.
- A inocência é irreconciliável com a ação humana; só na ação há identidade moral. Antígona é culpada.
- O édito de Creonte é uma punição política; para Antígona, é um crime ontológico.
- A culpa de Polinices perante Tebas é totalmente irrelevante para o sentido existencial que ela tem do ser singular e insubstituível do irmão.
- A morte é, precisamente, o retorno da ação (Tun) para o ser (Sein).
- Ao assumir a culpa inevitável da ação, Antígona está acima de Édipo: seu “crime” é plenamente consciente, um ato de autoposse.
- O Schicksal (fado) e a paridade na destruição.
- Antígona e Creonte devem perecer por terem entregue seu ser às parcialidades necessárias da ação. O caráter é o destino.
- A destruição igual de ambos os lados é onde o direito absoluto e o Destino onipotente aparecem.
- A síntese hegeliana não é um triunfo de um lado, mas uma fatalidade que consome ambos em equilíbrio.
- Antígona possui, contudo, um discernimento sobre a qualidade de sua própria culpa que é negado a Creonte.
- A honra final pertence a Antígona.
Hegel, Antígona e a Estrutura do Trágico Ético
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- Deslocamento da recepção comum da interpretação hegeliana
- A leitura mais conhecida da tragédia em Hegel não corresponde à exegese inicial, mais sensível e concreta, mas a uma formulação posterior, abstrata e esquematizada, que se tornou canônica
- Essa leitura tardia adquire notoriedade histórica por sua força sistemática e por inaugurar um debate duradouro acerca da natureza do trágico
- A vinculação com a Fenomenologia do Espírito é real, mas mediada por uma redução conceitual que privilegia silhuetas lógicas em detrimento da densidade fenomenológica originária
- Definição hegeliana de destino e necessidade na tragédia
- Distinção rigorosa entre fatum e necessidade ética
- Fatum designa aquilo que foi esvaziado de pensamento e conceito, um plano abstrato onde justiça e injustiça se anulam
- A tragédia, ao contrário, situa o destino no interior da justiça ética, recusando a arbitrariedade do acaso cego
- Caracterização da necessidade trágica como justiça pensada
- Embora o destino individual permaneça opaco e incompreensível, a necessidade que o governa é reconhecida como racional e justa
- A tragédia sofocliana constitui, assim, o paradigma da inteligibilidade ética do sofrimento
- Antígona como exemplum absoluto da tragédia
- Encenação plástica da colisão entre as duas potências morais supremas
- De um lado, o amor familiar, o sagrado interior, vinculado ao sentimento e à lei dos deuses infernais
- De outro, o direito do Estado, a ordem pública, a autoridade política enquanto exigência objetiva
- Afirmação da legitimidade ética de ambas as potências
- Nenhuma das forças em conflito é reduzida a erro, arbitrariedade ou perversão moral
- A tragédia não emerge da oposição entre justiça e injustiça, mas da confrontação entre justiças parciais
- Reabilitação ética da figura de Creonte
- Negação explícita da caracterização de Creonte como tirano
- Creonte é apresentado como uma potência ética efetiva, expressão legítima da ordem estatal
- Sua exigência de punição não decorre de crueldade, mas da necessidade de preservar a autoridade da lei
- Fundamento da sua ação na universalidade do Estado
- A lei estatal exige respeito irrestrito para subsistir enquanto forma objetiva da eticidade
- A violação da lei, se não punida, dissolveria o próprio princípio do político
- Unilateralidade estrutural das posições em conflito
- Cada parte atualiza apenas uma dimensão do ético
- Antígona encarna exclusivamente a lei familiar e religiosa
- Creonte encarna exclusivamente a lei cívica e estatal
- A unilateralidade como condição do trágico
- A injustiça não provém do conteúdo das posições, mas de sua exclusividade
- Cada parte é justa em si e injusta enquanto negação da totalidade ética
- Manifestação da justiça eterna no processo trágico
- Dupla atribuição de justiça e injustiça às partes
- Ambas sofrem punição porque permanecem unilaterais
- Ambas são reconhecidas como válidas no curso não turvado da moralidade
- A justiça plena como força corretiva da unilateralidade
- A justiça não se identifica com nenhuma das posições
- Ela emerge apenas como poder que se opõe à fixação exclusiva de qualquer uma delas
- Fundamento sistemático da leitura hegeliana
- Pressuposição da ontologia da cisão do Absoluto
- A realidade ética é constituída por divisões internas necessárias
- O trágico expressa essa autocontradição constitutiva do ser
- Vinculação com a teoria hegeliana da punição
- A punição é compreendida como necessidade trágica no processo de realização ética
- O sofrimento não é acidental, mas estrutural à efetivação do Espírito
- O conflito como motor do progresso ético
- Impossibilidade de reconciliação imediata entre Estado e família
- Espírito e história não coincidem plenamente
- O Estado permanece o campo inevitável da realização ética humana
- Centralidade do conflito como condição do avanço moral
- Apenas por meio da colisão se tornam possíveis as explorações de valores
- As contradições rudimentares são elevadas, por sublação, a formas mais complexas de dissenso
- Necessidade lógica do enfrentamento entre Antígona e Creonte
- Antígona só se constitui como Antígona ao desafiar Creonte
- Creonte só se constitui como Creonte ao resistir a Antígona
- Função negativa e produtiva da derrota de Antígona
- Superioridade ética da lei familiar reconhecida e aniquilada
- A imediaticidade e pureza da lei feminina devem ser manifestadas
- Essa mesma pureza deve ser destruída para que o progresso seja possível
- Impossibilidade de triunfo da esfera privada
- A vitória de Antígona eliminaria o espaço do trágico
- Sem o Estado, não haveria lugar para colisão significativa nem para desenvolvimento ético
- Centralização da contradição ética na figura do Estado
- O Estado como núcleo da negatividade histórica
- A contradição do ser desloca-se para a relação entre indivíduo e Estado
- Definição da moralidade apenas no interior do conflito estatal
- A moralidade interna e externa só se tornam efetivas no embate com a ordem pública
- Aproximação assintótica da unidade do Absoluto
- A unidade não é dada, mas visada por meio de conflitos sucessivos
- Imperativo de equilíbrio trágico
- Exigência de equivalência ética entre os antagonistas
- Se Creonte fosse apenas tirano, o conflito perderia dignidade trágica
- A derrota de uma posição destituída de validade não teria sentido construtivo
- O progresso como resultado da dupla derrota
- As mortes de Antígona e Creonte inauguram conflitos mais ricos e mais conscientes
- A substância ética permanece dividida, mas elevada a um nível superior de consciência
- Paradoxo da unidade divisiva
- Formulação da lógica da positividade da negação
- O conflito extremo destrói e fortalece simultaneamente o Estado
- Preservação de categorias opostas indispensáveis à dialética
- A estase primordial do mundo subterrâneo e feminino
- A dinâmica histórica da ação política e masculina
- Resultado interpretativo
- Uma leitura deliberadamente dura e esquemática
- Formalmente coerente, mas existencialmente brutal
Hölderlin e Antígona: Tradução, Trágico e Revolução do Sentido
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- Situação histórica da recepção de Hölderlin
- Relações pessoais e intelectuais assimétricas
- A relação de Hegel com Hölderlin é marcada por intimidade precoce e ruptura trágica
- A relação de Goethe com Hölderlin é caracterizada por distanciamento e rejeição explícita
- Reação negativa inicial às traduções de Sófocles
- A leitura de passagens da Antígona de Hölderlin a Goethe e Schiller em 1804 provoca repulsa
- A tradução é percebida como sintoma de colapso mental
- Consolidação do diagnóstico de Umnachtung
- Reavaliação filológica e hermenêutica no século XX
- Virada crítica com Hellingrath
- A edição de 1911 dos Píndaros de Hölderlin inaugura uma leitura positiva e estrutural
- Reconhecimento da excelência poética
- Karl Reinhardt declara Antigona e Oedipus der Tyrann como poesia suprema
- Schadewaldt afirma a superioridade hermenêutica da leitura hölderliniana
- Ampliação do impacto para além da filologia
- A Antígona de Hölderlin torna-se central para a hermenêutica moderna
- O texto adquire estatuto decisivo na teoria do significado e da tradução
- Hölderlin como matriz do modernismo linguístico
- Radicalização dos meios lexicais e sintáticos
- Abandono da linearidade lógica e da referência externa
- Construção de coerência interna por imagens e metáforas
- Antecipação de Mallarmé e da poética da fragmentação
- Estruturas paratáticas e elípticas como forma de pensamento
- Centralidade para a semiótica e a desconstrução
- Influência decisiva sobre Walter Benjamin
- A teoria da tradução como derivação direta da prática hölderliniana
- O perigo da clausura da linguagem como risco constitutivo da tradução absoluta
- Inserção filosófica da Antígona de Hölderlin
- Articulação com a filosofia da linguagem
- A tradução como ato ontológico, não apenas técnico
- Vínculo com Heidegger
- A Antígona como paradigma do logos em sua autonomia
- Relação com o exílio e a tentativa de retorno ao habitar originário
- Transição do ideal ático ao extremismo trágico
- Do classicismo equilibrado à apropriação violenta do divino
- Continuidade histórica até Wagner e Nietzsche
- O conflito com o classicismo goethiano
- Rejeição do excesso e da nudez emocional
- Goethe percebe em Hölderlin uma ameaça política e espiritual
- Oposição entre duas apropriações do antigo
- Classicismo humanista e equilibrado
- Anarquia auto-consumptiva e visionária
- A violação sofocliana como escândalo
- O uso extremo de Sófocles como ruptura simbólica
- Indissociabilidade entre poética, hermenêutica e política
- A tradução como gesto total
- Nenhum detalhe linguístico é neutro
- Unidade entre filologia e metafísica
- A leitura de Antígona envolve simultaneamente linguagem, história e poder
- Ideal de fusão entre consciência e mundo
- A tradução como tentativa de retorno à unidade originária
- Gênese e cronologia da tradução
- Trabalho contínuo desde a década de 1790
- Primeiras versões corais e epigramas
- Período decisivo entre 1801 e 1802
- Avanço substancial de Oedipus der Tyrann e Antigona
- Revisões sob colapso pessoal
- Alterações radicais em 1803
- Publicação problemática em 1804
- Erros tipográficos e incompletude editorial
- Três níveis de teoria e prática da tradução
- Primeira fase: fidelidade liberal
- Transferência do sentido em idiomática alemã natural
- Correspondência com o ideal clássico
- Segunda fase: literalismo radical
- Tradução palavra por palavra
- Violação deliberada da gramática alemã
- Influência pietista e filológica
- Terceira fase: tradução metamórfica
- Desenvolvimento tardio e extremo
- Integração da tradução na filosofia da história
- Superação ontológica do original
- Temporalidade como agente transformador
- O tempo como força teleológica
- O original contém potencialidades não realizadas
- Função do tradutor como executor do legado
- Atualização das latências do texto
- Violência amorosa da tradução
- Conhecer o autor melhor do que ele próprio
- Dimensão apocalíptica e pentecostal
- Tradução como revelação
- Dialética entre o grego e o hesperiano
- Sobriedade junônica dos gregos
- Contenção do fogo apolíneo
- Condição moderna como inversão
- Enraizamento terrestre e abertura ao excesso
- Necessidade da exposição ao fogo
- O poeta moderno deve suportar a chama
- Tradução contra Sófocles
- Revelação do substrato oriental
- Desocultação do reprimido no clássico
- Correção dos Kun.stfehler
- A tradução como emenda histórica
- Duplo movimento temporal
- Cumprimento do futuro e retorno ao arcaico
- Etimologia como método
- Acesso às raízes incendiárias da linguagem
- Correspondência entre teoria da tradução e teoria do trágico
- Tradução como colisão
- Encontro destrutivo entre línguas
- Tragédia como colisão
- Encontro entre forças inconciliáveis
- Unidade cristalina
- Tradução e tragédia como faces do mesmo processo
- Trágico como Gottesgeschehen
- A tragédia como evento divino
- Manifestação da proximidade extrema do divino
- Relação agônica entre homem e deus
- Encontro por contrariedade
- O orgânico e o aórgico
- Limite cívico e excesso vital
- Ilusão da síntese
- A unidade é momentânea e fatal
- Morte trágica como restauração
- Autodestruição do protagonista
- O sacrifício como condição de equilíbrio
- Fator histórico
- A tragédia emerge em tempos revolucionários
- Revolução como forma secular do trágico
- Oedipus como preparação para Antígona
- Erro de leitura oracular
- Interpretação ilimitada da mensagem divina
- Nefas como categoria central
- Curiosidade furiosa e excesso cognitivo
- Diálogo como campo de aniquilação
- Rede contra rede
- Traição sagrada
- O herói como traidor necessário do divino
- Antígona como culminação trágica
- Momento de inversão nacional
- Emergência de uma racionalidade republicana
- Documento teológico-político
- A tragédia como texto de revolução
- Creonte como forma
- Lei, sobriedade e ordem orgânica
- Antígona como informe
- Aórgico, excesso e fogo apolíneo
- Antitheos
- Piedade adversativa
- Oposição divina como forma suprema de fé
- Antígona como figura máxima do trágico
- Lei contra lei
- Estatuto presente contra justiça futura
- Santidade da transgressão
- Crime sagrado e justiça absoluta
- Suicídio por excesso do divino
- Morte por superabundância de transcendência
- Antígona como opus metaphysicum
- A obra suprema da arte trágica
Kierkegaard e Antígona: Tragédia, Culpa e Interioridade Moderna
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- Indisponibilidade da leitura goethiana para o jovem Kierkegaard
- A interpretação conclusiva de Goethe sobre Antígona não estava acessível a Kierkegaard no momento decisivo de sua formação
- A primeira referência a Sófocles nos Papirer surge de modo indireto e quase alegórico
- A figura de Sófocles é mobilizada como símbolo de uma força espiritual capaz de ressurgir contra diagnósticos de decadência do cristianismo
- A anedota tardia da defesa de Sófocles diante do tribunal funciona como emblema de vitalidade espiritual extrema
- Antígona como figura existencial central em Either/Or
- A presença de Antígona não deriva de erudição ocasional, mas articula dimensões fundamentais da existência e do pensamento de Kierkegaard
- Antígona torna-se, por um período, uma das figuras mais íntimas da identidade espiritual do filósofo
- A leitura de Antígona opera como forma de autorreconhecimento indireto e dramatizado
- Dificuldades estruturais da interpretação kierkegaardiana
- Problemas de tradução conceitual do dinamarquês
- Termos decisivos não encontram equivalência adequada nem mesmo no alemão
- O empréstimo vocabular ao idealismo alemão é submetido a inflexões radicalmente pessoais
- Ambiguidade da relação efetiva com Hegel
- A influência hegeliana é manifesta, mas o grau de leitura direta dos textos permanece indeterminado
- Obstáculo decisivo do discurso indireto
- A exposição se dá por meio de ironia reflexiva, hipóteses encadeadas e autonegações sucessivas
- Nenhuma afirmação pode ser isolada como posição definitiva
- Forma literária e método comunicativo
- Rejeição da exegese sistemática
- A verdade se manifesta de modo fragmentário e pródigo
- A obra acabada rompe o vínculo com a personalidade poética viva
- O discurso como drama
- O texto deve ser lido como execução vocal, à maneira de um ator
- O pensamento emerge do confronto entre vozes e posições
- A Antígona de Either/Or como drama fragmentário
- A figura é encenada dentro de um meio dialético-dramático mais amplo
- Inserção no horizonte romântico
- Revalorização do romantismo de Kierkegaard
- Mesmo a crítica ao romantismo conserva traços românticos de autoironia
- A Antígona como parte de um ensaio fragmentário sobre o motivo trágico antigo e moderno
- A moldura dos symparanekromenoi evoca fraternidades noturnas e funerárias típicas do romantismo
- Estética do fragmento
- A forma aforística e descontínua pertence à retórica romântica europeia
- Hibridismo genérico
- Convivência de discurso filosófico, memória pessoal, ficção, cartas e análise crítica
- Inserção no gênero das Saturnais literárias
- Precedentes formais e literários
- Influência de Luciano e Petrônio como modelos remotos
- Precedente decisivo de Lucinde, de Friedrich Schlegel
- Mistura escandalosa de revelação íntima, erotismo e reflexão filosófica
- Obra profundamente conhecida por Kierkegaard
- Afinidades temáticas
- Musicalidade, segredo, interioridade noturna e contenção diurna
- Exaltação prévia de Antígona no romantismo inicial
- Antiguidade e modernidade trágica
- Lugar comum da comparação entre tragédia antiga e moderna
- Tradição que remonta ao século XVII e culmina em Goethe e Victor Hugo
- Mediação aristotélica reinterpretada por Hegel
- A Poética é lida à luz da Aesthetik
- Inserção de Kierkegaard no vocabulário hegeliano da tragédia
- Uso explícito de conceitos como colisão e eticidade
- Tese inicial sobre o desenvolvimento histórico
- Permanência do desenvolvimento no interior do conceito
- Transformação radical da experiência do trágico ao longo do tempo
- Objetivo principal
- Demonstrar como o caráter específico da tragédia antiga é interiorizado na moderna
- Trágico e responsabilidade
- Diagnóstico da modernidade
- Época de isolamento individual e gregarismo frenético
- Predominância do cômico como produto dessa tensão
- Melancolia moderna
- A modernidade é mais desesperada do que a antiguidade
- Centralidade da responsabilidade
- A tragédia trata da aceitação da culpa
- Diferença entre tragédia antiga e moderna
- Estrutura da tragédia antiga
- O indivíduo está inserido nas categorias substanciais de Estado, família e destino
- Estrutura da tragédia moderna
- Predomínio da subjetividade reflexiva
- O herói responde inteiramente por seus atos
- Herança hegeliana explícita
- A distinção entre épico objetivo e drama psicológico
- A culpa trágica como eixo de transição ética
- A passagem do estético ao ético
- A culpa torna-se ética quando é reflexivamente assumida
- Superação da categoria estética
- O mal e a culpabilidade são propriamente éticos
- Originalidade sintética
- A tragédia plena sublima o estético antigo na reflexividade ética moderna
- Permanência da relação e superação do isolamento
- Limites do solipsismo
- O indivíduo permanece vinculado a Deus, à história, à nação e à família
- Entrada no trágico por meio da relatividade ética
- A aceitação dessas relações possibilita a cura
- Instrumentalidade do estético
- O estético serve integralmente ao ético
- Essa função confere à tragédia uma doçura infinita
- Mediação do religioso
- Analogia materna e paterna
- O estético como amor materno
- O religioso como amor paterno
- Hierarquia funcional
- O ético é temperado e consumado pelo religioso
- Centralidade existencial
- Sem o trágico ou o religioso, a vida humana se esvazia
- Distinção entre tristeza e dor trágicas
- Definição dos conceitos
- Tristeza trágica verdadeira
- Dor trágica verdadeira
- Tragédia antiga
- Tristeza mais profunda
- Dor menos intensa
- Ausência de consciência reflexiva plena da culpa
- Tragédia moderna
- Dor mais aguda
- Tristeza menos ampla
- Transparência implacável da culpa pessoal
- Culpa, transparência e obscuridade
- A culpa grega
- Ambiguidade estética
- O sofrimento vem de fora, como destino
- A culpa moderna
- Interiorização total
- Dor associada ao saber da própria culpa
- Polaridade bíblica
- A herança hebraica introduz a noção de culpa inocente
- Culpa herdada e paradoxo trágico
- Contradição interna da culpa herdada
- Ser culpa e não ser culpa simultaneamente
- Aceitação piedosa da herança
- A assunção da culpa como ato ético fundamental
- Necessidade dialética
- A tragédia exige elementos gregos e hebraicos
- Exige tristeza e dor, opacidade e transparência
- Antígona como síntese trágica
- Antígona como filha da tristeza e da dor
- A tristeza não refletida do mundo antigo
- A dor reflexiva do mundo moderno
- União dialética das categorias
- Antígona concentra a ambiguidade estética e a consciência ética
- Antígona como figura liminar
- Ponte entre tragédia antiga e moderna
- Encarnadora do conceito de culpa trágica em sua forma mais complexa
A Preeminência de Antígona no Pensamento Europeu (c.1790–c.1905)
STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.
- A problematização da interpretação como atividade fundamental.
- A citação de Montaigne e a referência platônica ao rapsodo como hermeneus hermeneon estabelecem a mediação interpretativa como condição de recepção e compreensão.
- A Antígona de Sófocles emerge como objeto privilegiado dessa atividade hermenêutica no período delimitado.
- A tese central da perfeição da Antígona e sua localização histórica.
- A crença generalizada, entre c.1790 e c.1905, de que a Antígona era não apenas a mais perfeita tragédia grega, mas a obra de arte mais próxima da perfeição absoluta.
- A fundamentação dessa crença na visão do século V ateniense como o ápice da expressão do gênio humano secular em suas realizações filosóficas, poéticas e políticas.
- O Helenismo como fonte de força essencial para o pensamento e sentimento do século XIX, numa operação ao mesmo tempo analítica e mimética.
- A personificação do “milagre grego” e sua apropriação moderna.
- A formulação de Ernest Renan sobre o “milagre grego” como fenômeno único, eterno e desprovido de manchas locais ou nacionais.
- A resposta à pergunta de Hölderlin sobre o paradeiro de Atenas: ela reside no homem moderno, e a salvação do mundo depende de um retorno ao seu legado.
- A mudança do foco do “milagre grego” da épica homérica para a tragédia ática no século XIX.
- O Barroco e o Neoclassicismo localizavam a essência do milagre grego na epopeia homérica e em seu valor cívico-instrutivo.
- O século XIX identifica a essência do Helenismo com a tragédia ateniense.
- A natureza trágica dos principais sistemas filosóficos pós-Revolução Francesa.
- A tese de que as principais filosofias desde a Revolução Francesa são sistemas trágicos.
- Esses sistemas operam como metáforas secularizadas da queda teológica do homem.
- Exemplos das diversas metáforas trágicas: autoalienação (Fichte, Hegel), servidão econômica (Marx), vontade coerciva (Schopenhauer), decadência (Nietzsche), neurose pós-crime edipiano (Freud), queda da verdade primitiva do Ser (Heidegger).
- Filosofar após Rousseau e Kant significa pensar “tragicamente”.
- A tragédia é elevada a opus metaphysicum por excelência, como exemplificado por Nietzsche em relação a Tristan.
- A consequência: o discurso filosófico formal implica ou articula uma teoria do efeito trágico e recorre instintivamente à tragédia para ilustrações decisivas.
- A teorização do trágico em Schelling como paradigma.
- A exposição na Décima Carta de Schelling estabelece os termos de referência.
- A tragédia grega honra a liberdade humana ao permitir que seus heróis lutem contra a potência superior do destino.
- As “restrições e limites da arte” exigem a derrota do homem nessa luta, mesmo quando o erro ou a culpa que a provoca é rigorosamente “fatal”.
- O Fatum na tragédia grega é uma potência invisível, inacessível às forças naturais e imperativa até para os deuses.
- A derrota do homem cristaliza sua liberdade e a compulsão lúcida para agir polemicamente, determinando a substância do eu.
- As categorias schellinguianas (liberdade, destino, dinâmica do ego, economia do conflito mortal) tornam-se constantes da metafísica e psicologia pós-kantianas.
- Às mesmas categorias e dialética da autorrealização, as peças trágicas gregas teriam dado forma primária e duradoura.
- A elevação de Sófocles à supremacia entre os trágicos gregos pelo Idealismo e Romantismo.
- Essa elevação segue uma orientação aristotélica, presente também na biologia vitalista e na estética do período.
- A pergunta retórica de Friedrich Schlegel sobre a perfeição única de Sófocles e sua resposta afirmativa, comparando-o a Apolo conduzindo o coro das Musas.
- A caracterização de A. W. Schlegel de Sófocles como o primeiro entre seus pares em “excelência e realização”, um poeta do qual só se pode falar com adoração.
- A ratificação de Schelling da alta moralidade e pureza absoluta das obras de Sófocles como objeto de admiração através dos tempos.
- A afirmação de F. Schlegel da supremacia de Sófocles não apenas no drama, mas em toda a poesia grega e desenvolvimento espiritual.
- A opinião canônica de Goethe: Sófocles teria moldado à perfeição eterna os agentes de terror e sofrimento despertados por Ésquilo, e dominado as intuições psicológicas que em Eurípides se tornam esteticismo.
- O parecer de George Eliot equiparando Sófocles a Shakespeare.
- A atribuição de grandeza de primeira magnitude à Antígona dentro da constelação das tragédias sofoclianas.
- A estimativa hiperbólica referia-se à figura da heroína, à peça ou a uma fusão indistinta de ambos.
- O testemunho de Shelley sobre a sublimidade da figura feminina, a beleza dos coros e o lamento lírico da vítima divina.
- A declaração de Hegel nas preleções sobre estética: a Antígona como uma das obras mais sublimes e consumadas já produzidas pelo esforço humano.
- A invocação de Hegel nas preleções sobre história da filosofia: “a celeste Antígona, a mais nobre das figuras que jamais apareceu na terra”.
- O veredito de Friedrich Hebbel, que via sua própria Agnes Bernauer como uma “Antígona dos tempos modernos”, considerando a tragédia sofocliana a “obra-prima das obras-primas”.
- O tom extático de Thomas de Quincey em sua resenha, descrevendo a peça com “o frescor do orvalho matinal” e a figura de Antígona como uma “pagã sagrada, filha de Deus antes que Deus fosse conhecido”.
- A existência de notas dissidentes e sua refutação.
- A posição de Matthew Arnold, para quem o conflito da Antígona não mais despertaria interesse profundo.
- A refutação de George Eliot, para quem Arnold teria lido mal o significado da peça.
- A argumentação de George Eliot: o conflito encenado por Sófocles possui urgência atemporal, dramatizando choques entre consciência privada e bem-estar público inseparáveis da condição histórica e social do homem.
- A leitura de George Eliot vê a peça como a encenação da “luta entre tendências elementares e leis estabelecidas pela qual a vida exterior do homem é gradual e dolorosamente trazida à harmonia com suas necessidades interiores”.
- A continuação dos encomia e invocações após a virada do século.
- O registro de Cosima Wagner sobre a designação de Wagner da Antígona como “o incomparável por excelência”.
- O verso-prólogo de Hofmannsthal para uma encenação em 1900, coroando um século de visão extática, descrevendo Antígona como um ser radiante atemporal que venceu e continua vitorioso, despertando o imperecível no observador.
- A imagem hofmannsthaliana de Antígona caminhando por uma “maré baixa”, com a vida recuando diante dela em reverência.
- A invocação de d'Annunzio a “Antígona da alma iluminada, Antígona dos olhos violeta”.
- A declaração hiperbólica de Charles Péguy sobre trocar as três Críticas de Kant por um semi-coros da Antígona.
- O testemunho de André Gide em 1927 sobre a beleza incomparável da Antígona e do Prometeu de Ésquilo.
- A observação de que, após 1905, sob a pressão da referência freudiana, o foco crítico e interpretativo deslocou-se para o Édipo Rei.
- A questão central: as razões para a predileção secular pela Antígona.
- A ausência de uma resposta pronta e a necessidade de investigar causas contingentes e profundas.
- A constatação de que adaptações e traduções da peça remontam ao século XVI, assim como outras tragédias gregas, sem destaque inicial.
- A atribuição de Lessing, em sua biografia de Sófocles, de nenhuma preeminência particular à Antígona.
- A ausência de Sófocles na Hamburgische Dramaturgie de Lessing.
- A existência de mais de trinta óperas sobre o tema de Antígona entre 1699 e 1799, mas dentro de uma proliferação geral de óperas sobre temas trágicos antigos.
- A ausência notável de encenações de Antígona nos teatros da Europa Ocidental entre o início do século XVIII e a Revolução Francesa.
- A ausência de pinturas sobre motivos da lenda de Antígone nos salões de Paris entre 1753 e 1789.
- O paradoxo: logo após esse período, o texto e a figura tornam-se talismânicos para o espírito europeu.
- A primeira causa contingente: o impacto do Voyage du jeune Anacharsis do Abbé Barthélemy.
- A obra, hoje não lida, é considerada uma das principais na história do gosto europeu.
- Sua reconstrução moralista-topográfica da Grécia pós-pericleana foi fonte do Helenismo Romântico e das políticas filelenas do século XIX.
- No capítulo XI, o jovem Anacharsis assiste à sua primeira tragédia ática: a Antígona de Sófocles.
- A descrição de sua comoção, voando em socorro dos amantes, comovido pelas lágrimas de trinta mil espectadores.
- A citação substancial do lamento mortal de Antígone.
- A conclusão: Anacharsis não tem mais lágrimas ou atenção para outras peças.
- Esta passagem é considerada seminal para a voga da Antígona, ecoando por cem anos.
- A segunda causa contingente decisiva: a convivência simultânea de Hegel, Hölderlin e Schelling no seminário de Tübingen.
- A complicitade de ideais e a reciprocidade de energias heurísticas entre os três jovens.
- O impacto profundo dessa intimidade no pensamento e na sensibilidade europeus.
- O entusiasmo comum pela Revolução Francesa e pelo Idealismo kantiano filtrado por Schiller.
- A determinação comum de restaurar à alma iluminada “a idade de ouro da verdade e da beleza que foi a Grécia”, conforme Hölderlin.
- A virada para os mesmos imperativos e modelos de radiação.
- A dificuldade de reconstruir as simbioses exatas, mas a probabilidade de que o culto de Hölderlin a Sófocles e a convicção de Schelling sobre a tragédia derivassem inicialmente de Hegel.
- A tentativa de tradução de Hegel do Édipo em Colono já em 1787, texto que o remeteria ao incomparável pathos de Antígona.
- A comunicação da aura vital desse encontro aos dois companheiros.
- A permanência da Antígona como um vínculo entre os três, mesmo após polêmicas e silêncios subsequentes.
- A colocação individual da peça no pivô da consciência por cada um deles.
- A terceira causa: um evento da história teatral, a encenação de 1841.
- As apresentações anteriores por Goethe, em versão truncada, não foram um grande sucesso.
- A encenação de 28 de outubro de 1841, dirigida por Ludwig Tieck, com coros musicados por Mendelssohn e tradução de Donner, provou-se um triunfo e um marco.
- Foi aclamada como a primeira recriação autêntica da tragédia grega clássica na Europa moderna.
- A “Antígona de Mendelssohn”, com tentativas de figurino e coreografia antigos, varreu a Europa.
- Em menos de um ano, foi montada em Berlim, seguida por Paris (1844, primeira tragédia grega em estilo antigo no palco nacional francês), Londres e Edimburgo.
- Os coros de Mendelssohn tornaram-se um elemento básico de corais familiares e amadores na década de 1840.
- Esta produção deu ímpeto às numerosas discussões poéticas e filosóficas sobre a peça em meados do século.
- Um “verdadeiro culto a Sófocles” na França no final do século reflete uma famosa encenação do ciclo Édipo-Antígona em Orange em 1894.
- A ressalva: o fato teatral é tanto produto quanto causa; a aura singular da Antígona na metafísica e poética alemãs antecede a versão de Mendelssohn em meio século; a santificação de Sófocles na França ganha força uma década antes das lendárias atuações de Mounet-Sully e Julia Bartel.
- A busca por agências mais radicais e difusas para explicar a predominância.
- O reconhecimento da dificuldade e do caráter conjectural de tal empreendimento.
- A admissão de que as análises da história do sentimento são ficções de lógica a posteriori.
- A justificativa para conjecturas: honrar a distinção de Lessing entre a reunião inerte de informações e a eliciação dos traços vitais de um fenômeno.
- A hipótese da Revolução Francesa e a questão feminina.
- A retórica, mitologias programáticas e cerimoniais da Revolução Francesa também se dirigiram ao status das mulheres.
- A atribuição às mulheres dos sagrados encargos da presença cívica e das licenças do discurso público, negados pelo Antigo Regime.
- A defesa de que os direitos do homem proclamados em 1789 são, enfaticamente, direitos da mulher.
- O reconhecimento da domesticidade e da criação dos filhos como instrumentais para a saúde e as fortunas históricas do Estado-nação.
- A erradicação pretendida da exploração e trivialização do eros característica da injustiça econômica e licenciosidade da velha ordem.
- A resolução de recuperar, do libertinage, o caule perdido da liberté.
- As imagens presididas pelas mulheres lacedemônias, “companheiras de armas”, ou pelas matronas da Roma republicana.
- A suposição imediata: o programa de emancipação feminina e paridade política fez de Antígona um texto emblemático.
- A aparente confirmação em vidas como as de Madame Roland, Mary Wollstonecraft e Madame de Staël.
- Comparações isoladas entre a ousada loucura de Antígona e a de Charlotte Corday.
- A refutação da hipótese com base em evidências contraditórias.
- A evidência é escassa e, em geral, contraditória.
- A retórica da libertação era sonora; a prática, quase totalmente conservadora.
- As reformas no status jurídico e social das mulheres ocorreram num contexto geral de reforma humana.
- O paradoxo: as restrições impostas pelo sistema napoleônico e pela ética da burguesia mercantil do século XIX foram mais rigorosas que as do Antigo Regime hanoveriano e bourbônico.
- Com exceção de franjas terroristas, como certos grupos revolucionários russos, as jovens dificilmente figuram na política ou no debate político do século XIX.
- A domesticação delicada mas intransigente da coragem, iniciativa e perspicácia femininas em I Promessi Sposi de Manzoni é plenamente representativa.
- A suspeita de que a exaltação da heroína sofocliana foi, em certa medida, um substituto para a realidade.
- Filósofos, poetas e pensadores políticos aclamam um ato de grandeza feminina e ecoam a afirmação de princípios femininos sobre o poder e a conveniência cívica.
- Porém, fazem-no en fausse situation: com o conhecimento, remorso e/ou complacência, de que o contrato oferecido em 1789 não foi cumprido ou o foi apenas marginalmente.
- Antígona pertence, de modo assombroso mas seguro, ao idioma do ideal.
- A reafirmação da chave revolucionária em um foco mais amplo.
- A sensação de que a Revolução Francesa é, ainda assim, a chave.
- A Antígona, mais do que qualquer outra tragédia grega sobrevivente (exceto talvez As Bacantes), dramatiza o entrelaçamento do íntimo e do público, da existência privada e histórica.
- A historicização do pessoal é a verdade imperiosa e o legado da Revolução Francesa.
- A defesa (embora histriônica) da proclamação de um novo calendário e de um Ano Um: o tempo havia mudado.
- A alteração das temporalidades internas, das ordenações da lembrança, da momentaneidade e, sobretudo, da futuridadepela qual compomos nosso autoconhecimento.
- O testemunho famoso: a observação de Goethe sobre a formidável descontinuidade na batalha de Valmy; as relações metamórficas entre a Revolução e as novas densidades do tempo pessoal no Prelúdio de Wordsworth.
- A irrupção do político no privado como marca registrada da experiência pós-1789, atestada em vidas registradas desde a era napoleônica até a urbanização explosiva e a mudança tecnológica.
- Exemplos: os saqueadores uniformizados da história invadindo o jardim de Blake; Napoleão passando sob a janela de Hegel antes de Iena; a escrita da Fenomenologia nesse momento preciso; os romances de Stendhal; a “queimadura da história” nos ossos humildes de quem viveu o Terror ou marchou de Corunha a Moscou.
- A definição do Antigo Regime pela limitação do engajamento histórico-político direto e da autoexpressão que ele compelia aos poderosos e profissionais.
- A mobilização, pela levée en masse, não apenas dos grandes exércitos, mas do homem europeu.
- A dramatização na Antígona da dialética entre o íntimo e o exposto.
- A peça explicita a dialética da intimidade e da exposição, do “abrigado” e do mais público.
- Ela gira em torno da política forçada do espírito privado, da violência necessária que a mudança político-social inflige à interioridade inefável do ser.
- A virada entre os séculos XIX e XX: Yeats volta-se para Antígona porque sua própria pessoa, poesia e caminhos públicos estão carregados desse interplay mortal.
- A conclusão: após 1789, o indivíduo não conhece armistício com a história política. “Uma beleza terrível nasceu”.
- A quarta causa sugerida: o fascínio pelo tema do sepultamento em vida.
- O assunto do enterro vivo atormenta e cativa o imaginário do final do século XVIII e início do XIX.
- É ubíquo na ficção e no teatro góticos, comum nas artes gráficas e em versos e fantasias em prosa.
- Também aparece, por vezes obsessivamente, na especulação científica e filosófica.
- A conjectura de conexões maiores: o motivo codificaria uma consciência do poder judicial arbitrário, sendo um correlativo ficcional para os fatos do encarceramento nos conventos e Bastilhas do Antigo Regime.
- A iconografia de julho-agosto de 1789, com suas representações da emergência à luz do dia das vítimas “há muito enterradas”, sugere essa sobreposição.
- Outro contexto possível: o interesse quase histérico, dos anos 1760 ao final do século XIX, nos fenômenos galvânicos de “reanimação” nervosa e muscular, no mesmerismo, nos contatos extra-sensoriais com os mortos.
- O medo de ser sepultado vivo relacionar-se-ia a complexas incertezas sobre a determinação e a finalidade da morte, a intimações generalizadas de energias psíquicas ainda ativas após a morte clínica e o enterro.
- A teia de significados e sensibilidades ainda não satisfatoriamente desvendada pelos historiadores do pensamento e das letras.
- A concentração, nesse tema, de diversos e profundos fios de sentimento.
- A sanção clássica para uma preocupação presente: a descida de Antígona para a morte em vida falava às gerações Revolucionária e Romântica com uma imediação rivalizada apenas pelo final de Romeu e Julieta.
- A frequência de comparações entre as duas peças em relação ao motivo do enterramento.
- A constatação da insuficiência das explicações listadas.
- Mesmo somando-se fatores ocasionais e internamente cruciais, o status concedido à Antígona durante mais de um século permanece desafiador.
- As perguntas persistem: por que Barthélemy escolheu justamente esta tragédia? Por que Shelley, Hegel, Hebbel viram na persona mítica de Antígona a “mais alta presença”? Qual a intenção por trás das repetidas sugestões de que Antígona é uma contraparte de Cristo?
- As respostas completas escapam; apenas o juízo de supremacia é claro.
- Desse juízo surgem algumas das interpretações e “revivências” mais radicalmente transformadoras já elicitadas por um texto literário.
- O projeto subsequente: examinar quatro dessas interpretações, compreendidas entre as décadas de 1790 e 1840.
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