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Sófocles

SÓFOCLES (497-406 aC)


Antígona como foco máximo da obsessão filosófica moderna

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • Singularidade histórica da recepção de Antígona
    • Ausência de paralelo direto na tradição literária
      • Nenhuma outra obra antiga concentrou intensidade comparável de leitura filosófica e poética
      • Hamlet é o único possível termo de comparação, mas não atinge o mesmo grau de convergência especulativa
    • Centralidade absoluta da Antígona no período moderno
      • O final do século XVIII e o século XIX fazem da peça um campo privilegiado de prova para sistemas filosóficos
      • A obra torna-se lugar de cristalização de conflitos intelectuais decisivos
  • Excepcionalidade das leituras de Hölderlin, Hegel e Kierkegaard
    • Hölderlin como caso-limite da interpretação criadora
      • Antigona não é apenas leitura, mas reconfiguração ontológica do texto
      • A tradução assume estatuto de acontecimento filosófico
    • Hegel e Kierkegaard como leitores obsessivos
      • A obra funciona como nervo exposto de seus sistemas
      • Cada leitura envolve risco conceitual extremo
    • Qualidade inédita do investimento filosófico
      • Não se trata de comentário ilustrativo, mas de confronto estrutural com o texto
  • Relação estrutural entre tragédia e filosofia
    • Antigona como objeto privilegiado do uso filosófico da tragédia
      • A tragédia encena de modo concentrado dilemas metafísicos, éticos e políticos
    • Afinidade intrínseca entre forma trágica e reflexão conceitual
      • A ação conduzida ao ponto de desastre explicita a lógica última do agir humano
      • O desastre é apresentado como consequência interna da ação, não como acidente
  • A herança aristotélica
    • A Poética como matriz do aproveitamento filosófico da tragédia
      • A tragédia é compreendida como meio de tornar visíveis estruturas universais
    • Continuidade do impulso utilitário
      • A tragédia serve para corporificar problemas abstratos
      • A cena trágica oferece presentificação do pensamento
  • Trágico como encenação do pensamento
    • A tragédia dramatiza processos mentais
      • Decisão, deliberação, erro e reconhecimento são postos em ato
    • Afinidade com a filosofia idealista
      • O pensamento filosófico reconhece na tragédia um espelho formal de sua própria dinâmica
      • A lógica hegeliana conserva uma dimensão teatral implícita
  • O projeto romântico de dissolução das fronteiras disciplinares
    • Supressão da distinção entre discurso poético e filosófico
      • Ambos são compreendidos como formas de intuição ativa
    • Pensamento como performance dialética
      • O conceito é produzido em movimento, não como definição estática
    • A tragédia como modelo dessa unidade
      • O texto trágico articula forma sensível e necessidade racional
  • Goethe como figura de resistência
    • Recusa da fusão romântica entre filosofia e poesia
      • A oposição entre teoria e vida permanece fundamental
    • Crítica implícita ao idealismo romântico
      • A cor cinzenta da teoria é contraposta ao verde da vida
    • Antígona como ponto de tensão
      • Mesmo em Goethe, a peça resiste à plena domesticação clássica
  • Antígona como laboratório da modernidade
    • Concentração dos grandes problemas modernos
      • Liberdade e necessidade
      • Lei e transgressão
      • Indivíduo e ordem coletiva
    • Capacidade inesgotável de gerar leituras
      • Cada sistema encontra na peça um reflexo de suas próprias aporias
    • A obra como texto-limite
      • A interpretação de Antígona põe à prova a legitimidade dos próprios métodos interpretativos
  • Tragédia e obsessão interpretativa
    • A intensidade do trágico convoca a repetição hermenêutica
      • A obra exige retorno contínuo
    • A leitura como risco
      • Interpretar Antígona implica envolver-se existencialmente
    • Antígona como desafio permanente
      • A peça não se esgota em nenhuma leitura sistemática
  • Estatuto exemplar de Antígona
    • Modelo extremo da relação entre poesia e filosofia
      • O texto trágico não é subordinado ao conceito
      • O conceito nasce do atrito com o texto
    • Antígona como medida do pensamento moderno
      • A capacidade de uma filosofia de lidar com o trágico mede sua profundidade
    • Permanência do enigma
      • A obra resiste a síntese final
      • Sua força reside na impossibilidade de encerramento interpretativo
29/01/2026 05:36 · mccastro

Goethe e Antígona: Crítica, Criação e Ética do Trágico

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • Indissociabilidade entre crítica literária e produção poética
    • A atividade interpretativa é compreendida como prática orientada por exigências internas da criação artística
      • A crítica não se apresenta como comentário externo ou retrospectivo, mas como momento funcional da própria obra
      • A reflexão teórica emerge integrada à necessidade produtiva e formal do fazer poético
    • A interpretação assume caráter operativo
      • Criticar é agir, e agir é interpretar
      • A análise estética participa do mesmo regime de verdade da criação artística
  • Inserção da reflexão crítica no corpo da obra dramática
    • As considerações sobre Hamlet são integradas organicamente à economia narrativa de Wilhelm Meisters Lehrjahre
    • A reflexão sobre a arte clássica é dramatizada no Ato de Helena da segunda parte de Faust
      • O pensamento estético é encenado, não exposto discursivamente
      • A teoria assume forma sensível e dramática
  • Centralidade da antiguidade grega na formação espiritual
    • A relação com a arte antiga não é episódica nem erudita, mas constitutiva
      • A antiguidade, e particularmente a arte ática, funciona como matriz normativa da criação moderna
    • A estratégia existencial de retorno aos gregos
      • A referência à Grécia é apresentada como condição de resistência às pressões do mundo moderno
      • O apoio nos gregos garante orientação, estabilidade e profundidade histórica
  • O paradigma grego da plenitude vital
    • A noção de felicidade natural como traço distintivo da cultura grega
      • A realização orgânica das potencialidades humanas define a excelência antiga
    • Consonância entre ação individual e ordem comunitária
      • A energia vital é investida diretamente na realidade histórica concreta
    • O contraste com a modernidade
      • Na modernidade, os valores deslocam-se para o domínio da interioridade abstrata
      • O rompimento entre percepção e realidade gera uma dissociação estrutural incurável
    • Aproximação conceitual com a problemática hegeliana
      • A oposição entre antiguidade e modernidade ecoa a cisão entre efetividade e consciência
  • A exemplaridade dos poetas trágicos
    • Fusão entre palavra e mundo como critério supremo da grande arte
      • A linguagem trágica nasce sob pressão de ações claras e decisivas
    • Hierarquização simbólica
      • Homero como centro solar da poesia ocidental
      • Os três tragediógrafos como corpos orbitais fundamentais
    • Avaliação diferencial das grandezas trágicas
      • Ésquilo representa a magnitude primordial e excessiva
      • Eurípides inaugura a complexidade psicológica e a experimentação lírica
      • Sófocles ocupa a posição mediana e harmônica
    • Sófocles como medida do trágico ideal
      • A mediania não é deficiência, mas equilíbrio formal supremo
      • A perfeição do pathos trágico encontra-se no ajuste exato entre sofrimento e forma
  • Lugar singular de Sófocles na economia estética
    • Realização máxima da catarse em Oedipus em Colono
      • O terror é apaziguado sem dissolver sua gravidade
    • Modelo para a transfiguração final de Faust
      • A figura do velho cego assume função paradigmática
    • Concordância entre pensamento e ação
      • A figura cívica de Sófocles encarna o ideal de unidade ética e poética
    • Afinidade entre Sófocles e Torquato Tasso
      • A exploração da concordância interior confere tonalidade sofocliana à obra moderna
  • Aparente marginalidade de Antígona na reflexão explícita
    • Hipótese superficial da rejeição da catástrofe absoluta
      • A violência irredutível do desfecho não afasta Goethe da obra
    • A concepção de reconciliação trágica
      • A reconciliação é compreendida como culminação ética do trágico
      • Essa reconciliação pode exigir sacrifício humano radical
    • A tragédia não exclui o horror
      • A imolação é reconhecida como preço necessário da ordem moral
    • Centralidade implícita de Antígona
      • A ausência discursiva reflete a incorporação estrutural do modelo trágico
  • Ifigênia como transposição sofocliana
    • Origem mítica euripidiana e herança esquiliana
      • A matéria narrativa deriva de tradições anteriores
    • Predominância do espírito sofocliano
      • A forma dramática e o núcleo ético afastam-se dos modelos originais
    • Estrutura fundamental do conflito
      • O embate entre reflexos arcaicos e racionalização civilizatória
    • Ambiguidade da civilização
      • A vitória da razão exige reconhecimento de sua própria falsidade parcial
      • A racionalidade recorre a meios enganosos
    • Paridade moral entre antagonistas
      • O conflito não opõe verdade e erro, mas ilusões concorrentes
    • Convergência com a morfologia hegeliana do trágico
      • A colisão entre potências éticas remete ao modelo sofocliano
  • Ifigênia como figura ética exemplar
    • Superação da duplicidade do conflito
      • A personagem impõe uma exigência ética de ordem superior
    • Afinidade com o imperativo kantiano
      • A ação moral emerge como obrigação incondicional
    • Reenvio constante ao precedente de Antígona
      • A estrutura ética da resistência feminina repete o modelo trágico clássico
  • A lei antiga e o limite humano
    • Afirmação da distância entre deuses e mortais
      • A proximidade excessiva com o divino gera vertigem e destruição
    • A linhagem de Tântalo como advertência trágica
      • A violação do limite funda a catástrofe
    • Interiorização da voz divina
      • Os deuses falam por meio da consciência
    • Reatualização do confronto Antígona-Creonte
      • O conflito entre decreto humano e lei antiga estrutura o drama
  • Isolamento do soberano e solidão do poder
    • A figura de Toas como eco de Creonte
      • A autoridade absoluta termina em isolamento
    • O reconhecimento da humanidade do governante
      • A barbárie revela traços de autenticidade vital
    • Permanência da perda como marca do poder político
  • O Parzenlied como recriação coral
    • Metamorfose dos cantos corais sofoclianos
      • Integração do primeiro estásimo e das reflexões sobre a herança da ruína
    • Tradução no sentido mais elevado
      • O núcleo de sentido é preservado além da literalidade
    • Equivalência métrica e rítmica
      • A cadência violenta e martelada do coro antigo é recriada em língua moderna
  • Antígona como arquétipo da consciência ética
    • Centralidade do Sittliche como ação primordial
      • A consciência ética constitui o verdadeiro motor da tragédia grega
    • A formulação mais pura do dever moral
      • O imperativo ético atinge em Antígona sua expressão máxima
    • Irmandade espiritual entre Antígona e Ifigênia
      • Ambas encarnam a manifestação exemplar do princípio ético
  • A visualidade mítica e a fixação simbólica de Antígona
    • A leitura de Filóstrato como exercício didático
      • A imagem fornece modelos de representação e de sentido
    • Antígona como figura escultórica e tátil
      • A presença física é enfatizada como portadora de valor ético
    • Continuidade do ódio fraterno além da morte
      • A simbologia do sangue e do fogo preserva a negatividade originária
    • Ausência de dissenso quanto ao valor de Antígona
      • A avaliação permanece inteiramente afirmativa
  • Crítica explícita à leitura hegeliana
    • Rejeição do jargão abstrato e da sistematização excessiva
      • A linguagem filosófica obscurece a experiência trágica
    • Contestação da redução do trágico ao conflito Estado-família
      • Outros princípios trágicos possuem igual legitimidade
    • Recusa da interpretação metafísica de Sófocles
      • O poeta é compreendido como dramaturgo prático
      • O pensamento está implícito no mito, não imposto a ele
    • Condenação da reabilitação ética de Creonte
      • O decreto é caracterizado como crime político
      • A obstinação do governante é descrita como blasfema
    • A retórica sofística como fonte de engano interpretativo
      • A persuasão pode simular legitimidade onde há erro
  • Função estrutural de Creonte
    • Creonte como contraponto necessário
      • Sua rigidez provoca a revelação da grandeza ética de Antígona
    • A função negativa como esclarecimento moral
      • O erro do governante torna visível a altura da ação justa
    • Ismene como medida do ordinário
      • A mediania cotidiana realça a excepcionalidade moral de Antígona
  • Encerramento normativo
    • Ausência de enigma metafísico
      • O trágico oferece iluminação moral e poética
    • A exigência permanente de retorno aos gregos
      • A compreensão da condição humana requer estudo incessante da tragédia antiga
29/01/2026 05:22 · mccastro

A Incorporação de Antígona na Filosofia de Hegel

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • A natureza peculiar das dificuldades do texto hegeliano.
    • A transmissão de grande parte da obra pós-*Fenomenologia* através de anotações de aula imperfeitas.
    • O caráter não destinado à publicação dos textos anteriores a 1807, que englobam juvenília, esboços, rascunhos e fragmentos de auto-endereçamento.
    • A publicação póstuma desses escritos privados, hoje considerados vitais para a compreensão de Hegel.
    • A recusa hegeliana da fixidez e do encerramento formal como elemento cardeal de seu método.
    • A consequência: as noções de “sistema” e “totalidade” associadas ao hegelianismo tornam-se elusivas.
  • A dinâmica tripla da reflexão e da enunciação hegelianas.
    • A reflexão opera em constante movimento em três níveis interpenetrados: metafísico, lógico e psicológico.
    • O nível psicológico abrange os outros dois, pois busca tornar explícitos os processos de consciência que geram e estruturam as operações metafísica e lógica.
    • A subversão rigorosa das linearidades ingênuas do argumento comum para comunicar simultaneidades, conflitos e recursões internas ou autocorreções das propostas.
    • A tensão entre composições de significado “verticais” ou “acordais” e as convenções externas da prosa dos séculos XVIII e início do XIX.
  • A transparência paradoxal do estilo hegeliano e sua autoconsciência polêmica.
    • A capacidade de Hegel de observar-se pensando e registrar as etapas sucessivas de seu pensamento.
    • A rara habilidade de pensar contra si mesmo e observar esse processo.
    • A essência do método e do pensamento hegeliano é a auto-polêmica.
    • A negação, a superação (Aufhebung) e o movimento da dialética como instrumentos teóricos imediatos do princípio do “contra-pensamento”.
    • A operação obsessiva desse princípio no modelo hegeliano de consciência dividida e alienação.
    • A comparação com Platão: enquanto nos diálogos platônicos são as táticas do argumento que são dramáticas, em Hegel a própria substância do pensar é dramática.
    • Para Hegel, pensar é “pensar contra”, é “dramatizar” no sentido radical de ação pura.
    • A proclamação da Fenomenologia: o Espírito é ação de tipo agonístico ou “conflitual”.
    • A citação das preleções sobre filosofia da religião resume o ethos dramático-polêmico: “Eu sou o combate… sou ambos os combatentes e o combate mesmo.”
  • O lugar privilegiado do drama, e da tragédia em particular, no crescimento do pensamento hegeliano.
    • A teoria da tragédia não é um acessório à construção hegeliana, mas um terreno de teste e validação para seus principais dogmas.
    • A tragédia valida o historicismo, o cenário dialético da lógica e a noção central da consciência em conflito progressivo.
    • Certas tragédias gregas, preeminentemente a Antígona, são tão funcionais para o mundo do pensamento hegeliano quanto poemas expressionistas para Heidegger.
  • A fascinação precoce de Hegel por Sófocles e o desenvolvimento de sua reflexão sobre a tragédia.
    • A tentativa de tradução de Édipo em Colono no verão de 1787.
    • A impossibilidade de ordenar temporalmente os estágios de reflexão que levam à primeira citação específica de Antígona em 1795/96.
    • O pensamento nascente de Hegel como uma trama apertada de fios que se cruzam sincronicamente.
  • Os três principais fios de argumento que conduzem às leituras posteriores de Antígona.
    • A idealização da Hélade antiga, representativa de sua geração, e a “saudade dolorosa” pela Grécia.
    • A ênfase na qualidade singularmente “concreta” e “imanente” do gênio ático, implicando uma crítica a Kant.
    • A persistência do ideal da pólis e de seus problemas no cerne dos ensinamentos hegelianos.
  • A alteração da imagem utópico-lírica de Atenas durante o período de Berna (1794-95).
    • A percepção das contrariedades latentes na suposta concordância ática entre as esferas político-cívica e religiosa-ritual.
    • A possessão pela “contraditoriedade do ser mesmo”, através da consideração tripla da vida de Cristo, da persona de Sócrates e das condições oligárquicas em Berna.
    • O esforço para resolver ou ativar essa contraditoriedade em tensão produtiva.
    • A designação da religião como “ama” e do Estado como “mãe” dos homens livres, no fragmento 222 de Nohl, onde Antígona é invocada pela primeira vez.
  • A origem da dualidade entre religião e Estado na alienação primária do homem em relação à natureza.
    • O mecanismo trágico e necessário de ruptura nas origens do corpo político, conforme Rousseau.
    • Esta cisão contém a fonte da positividade ética.
    • A argumentação contra Fichte: a condição fundamentalmente social do indivíduo humano integral.
    • A argumentação contra Kant: a ênfase na historicidade concreta e no caráter “coletivo” das escolhas éticas.
  • A tentativa de conciliação dinâmica no período de Frankfurt (1796-1800) e imediatamente antes de Iena.
    • A posição de que o homem não pode atingir uma postura ética autêntica fora do Estado.
    • A concepção do Estado como uma “totalidade pensada”, habitada pelo intelecto.
    • A vitalidade da religião como derivada da imaginação humana, uma “presença viva representada pela fantasia”.
    • A proposição de que não precisa haver conflito entre as duas esferas.
  • Os germes de uma teoria da tragédia em fragmentos cronologicamente opacos.
    • A figura de Abraão como exemplo de alienação estéril, antitética ao ideal grego de “uníssono com a vida”.
    • A consequência: a sensibilidade judaica, embora imersa no sofrimento, não produz o drama trágico.
    • A tese: a tragédia depende de concepções helênicas particulares de Gesetz (lei) e Strafe (punição).
    • A ligação da moira à categoria paradoxal da “culpa fatídica”, pela qual o herói trágico se realiza plenamente.
    • A ponderação de Sófocles, Hölderlin, Shakespeare e Goethe.
  • Os pontos principais da teoria trágica incipiente de Hegel.
    • Todo conflito acarreta divisão e autodivisão, sendo atributos necessários do desdobramento da identidade individual e pública.
    • Como a “vida” não pode, em última instância, dividir-se, o conflito causa culpa trágica.
    • A sugestão temporária de que a culpa pode ser transcendida pela “alma bela” (Cristo, Hiperíon de Hölderlin), logo abandonada.
    • A consciência humana, para encontrar sua autorrealização, deve passar pelo “crepúsculo matinal da consciência infeliz”, arriscando sua ruína.
    • Esta ruína é instrumental para a preservação do equilíbrio entre religião e Estado, sendo um momento indispensável da autorrealização do Espírito na história.
  • A primeira abordagem extensa de Hegel sobre a tragédia no tratado de 1802 sobre o direito natural.
    • A referência a As Eumênides de Ésquilo.
    • A questão fundamental: a possibilidade e a natureza da dinâmica de mediação entre o indivíduo e o Estado-nação.
    • A identificação da mais alta liberdade humana com a forma mais abrangente e orgânica de comunidade cívica.
    • A consequência: uma relação polêmica e autodivisiva entre o homem como “ser estatal” e como “burguês” com motivações familiares.
    • A solução: olhar para a tragédia grega, onde o conflito e sua resolução dinâmica são delineados de modo incomparável.
  • O esquema político da tragédia: a divisão interna da pólis e o conflito entre o Kriegstaat e o Privatrecht.
    • A divisão da pólis em interesses colidentes é equivalente à “encenação da tragédia na esfera ética”.
    • A necessidade de um staatsfreier Bezirk, um domínio livre da autoridade absoluta do Estado, mas definível apenas dentro dele.
    • O Estado como Kriegstaat (Estado-guerra) em conflito criativo com o domínio do Privatrecht (direito privado), cujos impulsos primários são a preservação da família.
    • A concessão de “honras divinas” pelo Estado à dimensão doméstica e eticamente privada.
  • A obscuridade do texto: a imposição de um discurso político imanente a um desenho simbólico transcendente.
    • A divisão entre pólis e indivíduo reflete o engajamento do “Absoluto” na temporalidade.
    • As divindades antigas como veículo e símbolo desse engajamento.
    • A autodivisão na natureza do divino entre as Erínias e Apolo.
    • A intervenção de Atena e o empate dos votos possibilitando a reconciliação dialética.
    • A interferência de duas fontes literárias diferentes: As Eumênides e Antígona.
  • A presença implícita e dominante de Antígona no argumento de 1802.
    • A concessão da Sittlichkeit aos “poderes subterrâneos” e o Recht des Todes (direito da Morte).
    • A família como a mais alta totalidade “de que a natureza é capaz”.
    • A geração de filhos como modus de reprodução da própria “totalidade”.
    • A proposição de que apenas a morte do herói trágico pode tornar inteligível a unificação da natureza cindida dos deuses.
    • A conclusão: Hegel está profundamente envolvido nos temas de conflito entre Estado-nação e família, direitos dos vivos e dos mortos, lei e ética costumeira – temas fundamentais para a Fenomenologia e primordialmente expostos em Antígona.
  • A passagem de As Eumênides para Antígona como articulação do passo essencial dos escritos juvenis para a Fenomenologia.
    • Após 1802, nenhuma “des-historicização” é possível para Hegel, dado o advento napoleônico.
    • A tragédia brota do postulado e da superação das antinomias entre o Estado-guerra e as agências noturnas da família e da morte.
    • Em Antígona, a lógica da revelação na forma trágica é consumada.
  • A presença notável de Antígona na Fenomenologia do Espírito.
    • Uma incorporação extraordinária de uma obra de arte em um discurso filosófico.
    • A construção dramática da própria Fenomenologia, em parte, por ter o grande drama como núcleo de referência.
  • A apresentação hegeliana do axioma do existencialismo na seção V.
    • O ser como “tradução pura” do ser potencial em ação, no “fazer da ação”.
    • O conhecimento autêntico de si só alcançado através da ação que traz à atualidade.
    • A tradução como despertar da latência do eu para a luz do dia do ato presente.
    • A aplicação a Antígona: a ruptura da manhã e da ação.
  • A natureza do ato existencial autêntico e o surgimento do conflito.
    • O ato autêntico deve visar um total “vindo-a-ser”, equivalente à “substância ética”.
    • Questionar essa substância em nome de critérios externos é vaidade.
    • Entra Creonte.
  • A ambiguidade da culpa necessária: o conflito entre a ação individual e o fazer racional do Estado.
    • A ação ética em sua forma mais pura é o “fazer inteligível e geral do Estado”.
    • A ação individual, sendo quintessencialmente sua, trará o indivíduo à colisão com a norma racional do Estado.
    • A oposição entre Gesetz (lei) e Gebot (imperativo interior) levada ao extremo.
    • Começa a peça de Sófocles.
  • As duas fontes dialéticas concretas da colisão.
    • O primeiro momento: “a blasfêmia ou pecado tirânico que faz da vontade própria uma lei”.
    • O segundo momento: o “pecado do saber” (Frevel des Wissens) que “se raciocina livre da lei” e a vê como uma arbitrariedade contingente e alheia.
    • A ambivalência deliberada: o primeiro momento aplica-se a Creonte; o segundo diz respeito a ambos, Creonte e Antígona.
  • O retrato final de Antígona na seção V da Fenomenologia.
    • A substância ética só pode ser apreendida pela autoconsciência no indivíduo.
    • Homens ou mulheres “lúcidos para consigo mesmos, espíritos não cindidos” são “tipos celestes imaculados” que preservam a inocência e a integridade de seu ser.
    • Eles simplesmente são: “Sie sind, und weiter nichts”.
    • A citação das linhas 456-7 da peça e a reafirmação: “Sie sind.”
    • Para tais seres, o direito (das Rechte) é a substância absoluta e desinteressada da existência.
  • Antígona como uma Antígona hegeliana e a polarização da substância ética.
    • Lúcida para consigo mesma, possuindo a ação que é seu ser, ela vive a substância ética.
    • Nela, “o Espírito se torna efetivo”.
    • Mas a substância ética que ela encarna representa uma polarização inevitável.
    • O Absoluto sofre divisão ao entrar na dinâmica fragmentada da condição humana e histórica.
    • O “mundo ético” se cinde entre as polaridades imanente e transcendente, entre lei humana e lei divina.
  • A conjectura poético-historicista de Hegel: a polarização assume a forma de conflito entre Estado e família.
    • A lei divina tem na família um status triplo: “natural”, “inconsciente”, “do mundo do povo”.
    • Este status é adversário do status da lei divina na religião da pólis.
    • A oposição encontra sua manifestação pivotal no sepultamento dos mortos.
  • A centralidade do motivo do sepultamento para as dualidades existenciais.
    • Dentro da família, a morte “especifica a especificidade” no mais alto grau, sendo o cumprimento extremo do único.
    • O indivíduo reverte “imensamente” para o domínio ético da família na morte.
    • A diferença radical entre a valoração política (do Tun, ação) e a valoração ontológica (do Sein, ser) determina a primazia do sepultamento.
  • A visão concreta de Hegel sobre o dever funerário.
    • O dever final da família é manter afastados do morto a desonra e a destruição por agências orgânicas inconscientes.
    • A família torna o morto um membro de uma totalidade comunitária mais forte que os elementos materiais.
    • Este dever constitui a lei divina completa ou o ato ético positivo em relação ao indivíduo particular.
    • A visão reanima o pavor primário da decomposição central na peça.
  • A relação privilegiada entre irmão e irmã dentro da família.
    • A relação é privilegiada pela imediatez e pureza de sua substância ética.
    • Irmão e irmã são do mesmo sangue, sem a compulsão da sexualidade ou com ela superada.
    • A relação é de afinidade eletiva que transcende o biológico.
    • A feminilidade atinge sua mais alta intuição ética na condição de irmandade.
    • A visão da irmã sobre o irmão é ontológica: ela atribui valor insubstituível ao seu ser.
    • Não pode haver obrigação ética mais alta do que a que uma irmã contrai para com seu irmão.
  • A separação dos reinos: o homem deixa o oikos pela pólis; a mulher guarda a lei divina no lar.
    • O reino ético da mulher é o do “elementar imediato”, um reino de custódia necessariamente antinômico à positividade destrutiva do político.
    • A lei humana é a lei do dia, pública, visível, universal, feita pelo homem (vir).
    • A lei divina é a lei da mulher, noturna, que se esconde.
    • Nota: esta é uma polarização no nível “histórico”; em última instância, ambas as leis participam da autodivisão do Absoluto.
  • O passo dialético final: a morte como retorno à custódia primal da mulher.
    • Em sua morte, o homem retorna da pólis para a família, especificamente para a custódia da mulher (esposa, mãe, irmã).
    • Os ritos de sepultamento, re-enclausurando o morto na terra, são a tarefa particular da mulher.
    • Quando essa tarefa recai sobre uma irmã, o sepultamento atinge o mais alto grau de santidade.
    • O ato de Antígona é o mais sagrado ao qual uma mulher pode aceder. E é também um crime.
  • A colisão final e suprema: a luta pelo corpo do morto (Polinices).
    • Há situações em que o Estado não está disposto a renunciar à sua autoridade sobre os mortos.
    • As leis da pólis podem estender ao cadáver imperativos de honra ou de castigo.
    • Daí o choque entre os mundos do homem e da mulher.
    • A dialética da colisão se compacta na luta entre Creonte e Antígona.
    • O simples fato dessa luta define a culpa da mulher aos olhos da pólis.
  • A culpa e a consciência de Antígona.
    • A inocência é irreconciliável com a ação humana; só na ação há identidade moral. Antígona é culpada.
    • O édito de Creonte é uma punição política; para Antígona, é um crime ontológico.
    • A culpa de Polinices perante Tebas é totalmente irrelevante para o sentido existencial que ela tem do ser singular e insubstituível do irmão.
    • A morte é, precisamente, o retorno da ação (Tun) para o ser (Sein).
    • Ao assumir a culpa inevitável da ação, Antígona está acima de Édipo: seu “crime” é plenamente consciente, um ato de autoposse.
  • O Schicksal (fado) e a paridade na destruição.
    • Antígona e Creonte devem perecer por terem entregue seu ser às parcialidades necessárias da ação. O caráter é o destino.
    • A destruição igual de ambos os lados é onde o direito absoluto e o Destino onipotente aparecem.
    • A síntese hegeliana não é um triunfo de um lado, mas uma fatalidade que consome ambos em equilíbrio.
    • Antígona possui, contudo, um discernimento sobre a qualidade de sua própria culpa que é negado a Creonte.
    • A honra final pertence a Antígona.
29/01/2026 05:08 · mccastro

Hegel, Antígona e a Estrutura do Trágico Ético

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • Deslocamento da recepção comum da interpretação hegeliana
    • A leitura mais conhecida da tragédia em Hegel não corresponde à exegese inicial, mais sensível e concreta, mas a uma formulação posterior, abstrata e esquematizada, que se tornou canônica
    • Essa leitura tardia adquire notoriedade histórica por sua força sistemática e por inaugurar um debate duradouro acerca da natureza do trágico
    • A vinculação com a Fenomenologia do Espírito é real, mas mediada por uma redução conceitual que privilegia silhuetas lógicas em detrimento da densidade fenomenológica originária
  • Definição hegeliana de destino e necessidade na tragédia
    • Distinção rigorosa entre fatum e necessidade ética
      • Fatum designa aquilo que foi esvaziado de pensamento e conceito, um plano abstrato onde justiça e injustiça se anulam
      • A tragédia, ao contrário, situa o destino no interior da justiça ética, recusando a arbitrariedade do acaso cego
    • Caracterização da necessidade trágica como justiça pensada
      • Embora o destino individual permaneça opaco e incompreensível, a necessidade que o governa é reconhecida como racional e justa
      • A tragédia sofocliana constitui, assim, o paradigma da inteligibilidade ética do sofrimento
  • Antígona como exemplum absoluto da tragédia
    • Encenação plástica da colisão entre as duas potências morais supremas
      • De um lado, o amor familiar, o sagrado interior, vinculado ao sentimento e à lei dos deuses infernais
      • De outro, o direito do Estado, a ordem pública, a autoridade política enquanto exigência objetiva
    • Afirmação da legitimidade ética de ambas as potências
      • Nenhuma das forças em conflito é reduzida a erro, arbitrariedade ou perversão moral
      • A tragédia não emerge da oposição entre justiça e injustiça, mas da confrontação entre justiças parciais
  • Reabilitação ética da figura de Creonte
    • Negação explícita da caracterização de Creonte como tirano
      • Creonte é apresentado como uma potência ética efetiva, expressão legítima da ordem estatal
      • Sua exigência de punição não decorre de crueldade, mas da necessidade de preservar a autoridade da lei
    • Fundamento da sua ação na universalidade do Estado
      • A lei estatal exige respeito irrestrito para subsistir enquanto forma objetiva da eticidade
      • A violação da lei, se não punida, dissolveria o próprio princípio do político
  • Unilateralidade estrutural das posições em conflito
    • Cada parte atualiza apenas uma dimensão do ético
      • Antígona encarna exclusivamente a lei familiar e religiosa
      • Creonte encarna exclusivamente a lei cívica e estatal
    • A unilateralidade como condição do trágico
      • A injustiça não provém do conteúdo das posições, mas de sua exclusividade
      • Cada parte é justa em si e injusta enquanto negação da totalidade ética
  • Manifestação da justiça eterna no processo trágico
    • Dupla atribuição de justiça e injustiça às partes
      • Ambas sofrem punição porque permanecem unilaterais
      • Ambas são reconhecidas como válidas no curso não turvado da moralidade
    • A justiça plena como força corretiva da unilateralidade
      • A justiça não se identifica com nenhuma das posições
      • Ela emerge apenas como poder que se opõe à fixação exclusiva de qualquer uma delas
  • Fundamento sistemático da leitura hegeliana
    • Pressuposição da ontologia da cisão do Absoluto
      • A realidade ética é constituída por divisões internas necessárias
      • O trágico expressa essa autocontradição constitutiva do ser
    • Vinculação com a teoria hegeliana da punição
      • A punição é compreendida como necessidade trágica no processo de realização ética
      • O sofrimento não é acidental, mas estrutural à efetivação do Espírito
  • O conflito como motor do progresso ético
    • Impossibilidade de reconciliação imediata entre Estado e família
      • Espírito e história não coincidem plenamente
      • O Estado permanece o campo inevitável da realização ética humana
    • Centralidade do conflito como condição do avanço moral
      • Apenas por meio da colisão se tornam possíveis as explorações de valores
      • As contradições rudimentares são elevadas, por sublação, a formas mais complexas de dissenso
    • Necessidade lógica do enfrentamento entre Antígona e Creonte
      • Antígona só se constitui como Antígona ao desafiar Creonte
      • Creonte só se constitui como Creonte ao resistir a Antígona
  • Função negativa e produtiva da derrota de Antígona
    • Superioridade ética da lei familiar reconhecida e aniquilada
      • A imediaticidade e pureza da lei feminina devem ser manifestadas
      • Essa mesma pureza deve ser destruída para que o progresso seja possível
    • Impossibilidade de triunfo da esfera privada
      • A vitória de Antígona eliminaria o espaço do trágico
      • Sem o Estado, não haveria lugar para colisão significativa nem para desenvolvimento ético
  • Centralização da contradição ética na figura do Estado
    • O Estado como núcleo da negatividade histórica
      • A contradição do ser desloca-se para a relação entre indivíduo e Estado
    • Definição da moralidade apenas no interior do conflito estatal
      • A moralidade interna e externa só se tornam efetivas no embate com a ordem pública
    • Aproximação assintótica da unidade do Absoluto
      • A unidade não é dada, mas visada por meio de conflitos sucessivos
  • Imperativo de equilíbrio trágico
    • Exigência de equivalência ética entre os antagonistas
      • Se Creonte fosse apenas tirano, o conflito perderia dignidade trágica
      • A derrota de uma posição destituída de validade não teria sentido construtivo
    • O progresso como resultado da dupla derrota
      • As mortes de Antígona e Creonte inauguram conflitos mais ricos e mais conscientes
      • A substância ética permanece dividida, mas elevada a um nível superior de consciência
  • Paradoxo da unidade divisiva
    • Formulação da lógica da positividade da negação
      • O conflito extremo destrói e fortalece simultaneamente o Estado
    • Preservação de categorias opostas indispensáveis à dialética
      • A estase primordial do mundo subterrâneo e feminino
      • A dinâmica histórica da ação política e masculina
    • Resultado interpretativo
      • Uma leitura deliberadamente dura e esquemática
      • Formalmente coerente, mas existencialmente brutal
29/01/2026 05:19 · mccastro

Hölderlin e Antígona: Tradução, Trágico e Revolução do Sentido

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • Situação histórica da recepção de Hölderlin
    • Relações pessoais e intelectuais assimétricas
      • A relação de Hegel com Hölderlin é marcada por intimidade precoce e ruptura trágica
      • A relação de Goethe com Hölderlin é caracterizada por distanciamento e rejeição explícita
    • Reação negativa inicial às traduções de Sófocles
      • A leitura de passagens da Antígona de Hölderlin a Goethe e Schiller em 1804 provoca repulsa
      • A tradução é percebida como sintoma de colapso mental
    • Consolidação do diagnóstico de Umnachtung
      • Goethe, Schiller, Schelling e edições do século XIX interpretam o trabalho tardio como produto de desrazão
      • Mesmo análises posteriores, como a de Dilthey, permanecem cautelosas e depreciativas
  • Reavaliação filológica e hermenêutica no século XX
    • Virada crítica com Hellingrath
      • A edição de 1911 dos Píndaros de Hölderlin inaugura uma leitura positiva e estrutural
    • Reconhecimento da excelência poética
      • Karl Reinhardt declara Antigona e Oedipus der Tyrann como poesia suprema
      • Schadewaldt afirma a superioridade hermenêutica da leitura hölderliniana
    • Ampliação do impacto para além da filologia
      • A Antígona de Hölderlin torna-se central para a hermenêutica moderna
      • O texto adquire estatuto decisivo na teoria do significado e da tradução
  • Hölderlin como matriz do modernismo linguístico
    • Radicalização dos meios lexicais e sintáticos
      • Abandono da linearidade lógica e da referência externa
      • Construção de coerência interna por imagens e metáforas
    • Antecipação de Mallarmé e da poética da fragmentação
      • Estruturas paratáticas e elípticas como forma de pensamento
    • Centralidade para a semiótica e a desconstrução
    • Influência decisiva sobre Walter Benjamin
      • A teoria da tradução como derivação direta da prática hölderliniana
      • O perigo da clausura da linguagem como risco constitutivo da tradução absoluta
  • Inserção filosófica da Antígona de Hölderlin
    • Articulação com a filosofia da linguagem
      • A tradução como ato ontológico, não apenas técnico
    • Vínculo com Heidegger
      • A Antígona como paradigma do logos em sua autonomia
      • Relação com o exílio e a tentativa de retorno ao habitar originário
    • Transição do ideal ático ao extremismo trágico
      • Do classicismo equilibrado à apropriação violenta do divino
      • Continuidade histórica até Wagner e Nietzsche
  • O conflito com o classicismo goethiano
    • Rejeição do excesso e da nudez emocional
      • Goethe percebe em Hölderlin uma ameaça política e espiritual
    • Oposição entre duas apropriações do antigo
      • Classicismo humanista e equilibrado
      • Anarquia auto-consumptiva e visionária
    • A violação sofocliana como escândalo
      • O uso extremo de Sófocles como ruptura simbólica
  • Indissociabilidade entre poética, hermenêutica e política
    • A tradução como gesto total
      • Nenhum detalhe linguístico é neutro
    • Unidade entre filologia e metafísica
      • A leitura de Antígona envolve simultaneamente linguagem, história e poder
    • Ideal de fusão entre consciência e mundo
      • A tradução como tentativa de retorno à unidade originária
  • Gênese e cronologia da tradução
    • Trabalho contínuo desde a década de 1790
      • Primeiras versões corais e epigramas
    • Período decisivo entre 1801 e 1802
      • Avanço substancial de Oedipus der Tyrann e Antigona
    • Revisões sob colapso pessoal
      • Alterações radicais em 1803
    • Publicação problemática em 1804
      • Erros tipográficos e incompletude editorial
  • Três níveis de teoria e prática da tradução
    • Primeira fase: fidelidade liberal
      • Transferência do sentido em idiomática alemã natural
      • Correspondência com o ideal clássico
    • Segunda fase: literalismo radical
      • Tradução palavra por palavra
      • Violação deliberada da gramática alemã
      • Influência pietista e filológica
    • Terceira fase: tradução metamórfica
      • Desenvolvimento tardio e extremo
      • Integração da tradução na filosofia da história
      • Superação ontológica do original
  • Temporalidade como agente transformador
    • O tempo como força teleológica
      • O original contém potencialidades não realizadas
    • Função do tradutor como executor do legado
      • Atualização das latências do texto
    • Violência amorosa da tradução
      • Conhecer o autor melhor do que ele próprio
    • Dimensão apocalíptica e pentecostal
      • Tradução como revelação
  • Dialética entre o grego e o hesperiano
    • Sobriedade junônica dos gregos
      • Contenção do fogo apolíneo
    • Condição moderna como inversão
      • Enraizamento terrestre e abertura ao excesso
    • Necessidade da exposição ao fogo
      • O poeta moderno deve suportar a chama
  • Tradução contra Sófocles
    • Revelação do substrato oriental
      • Desocultação do reprimido no clássico
    • Correção dos Kun.stfehler
      • A tradução como emenda histórica
    • Duplo movimento temporal
      • Cumprimento do futuro e retorno ao arcaico
    • Etimologia como método
      • Acesso às raízes incendiárias da linguagem
  • Correspondência entre teoria da tradução e teoria do trágico
    • Tradução como colisão
      • Encontro destrutivo entre línguas
    • Tragédia como colisão
      • Encontro entre forças inconciliáveis
    • Unidade cristalina
      • Tradução e tragédia como faces do mesmo processo
  • Trágico como Gottesgeschehen
    • A tragédia como evento divino
      • Manifestação da proximidade extrema do divino
    • Relação agônica entre homem e deus
      • Encontro por contrariedade
    • O orgânico e o aórgico
      • Limite cívico e excesso vital
    • Ilusão da síntese
      • A unidade é momentânea e fatal
  • Morte trágica como restauração
    • Autodestruição do protagonista
      • O sacrifício como condição de equilíbrio
    • Fator histórico
      • A tragédia emerge em tempos revolucionários
    • Revolução como forma secular do trágico
  • Oedipus como preparação para Antígona
    • Erro de leitura oracular
      • Interpretação ilimitada da mensagem divina
    • Nefas como categoria central
      • Curiosidade furiosa e excesso cognitivo
    • Diálogo como campo de aniquilação
      • Rede contra rede
    • Traição sagrada
      • O herói como traidor necessário do divino
  • Antígona como culminação trágica
    • Momento de inversão nacional
      • Emergência de uma racionalidade republicana
    • Documento teológico-político
      • A tragédia como texto de revolução
    • Creonte como forma
      • Lei, sobriedade e ordem orgânica
    • Antígona como informe
      • Aórgico, excesso e fogo apolíneo
    • Antitheos
      • Piedade adversativa
      • Oposição divina como forma suprema de fé
  • Antígona como figura máxima do trágico
    • Lei contra lei
      • Estatuto presente contra justiça futura
    • Santidade da transgressão
      • Crime sagrado e justiça absoluta
    • Suicídio por excesso do divino
      • Morte por superabundância de transcendência
    • Antígona como opus metaphysicum
      • A obra suprema da arte trágica
29/01/2026 05:31 · mccastro

Kierkegaard e Antígona: Tragédia, Culpa e Interioridade Moderna

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • Indisponibilidade da leitura goethiana para o jovem Kierkegaard
    • A interpretação conclusiva de Goethe sobre Antígona não estava acessível a Kierkegaard no momento decisivo de sua formação
    • A primeira referência a Sófocles nos Papirer surge de modo indireto e quase alegórico
    • A figura de Sófocles é mobilizada como símbolo de uma força espiritual capaz de ressurgir contra diagnósticos de decadência do cristianismo
    • A anedota tardia da defesa de Sófocles diante do tribunal funciona como emblema de vitalidade espiritual extrema
  • Antígona como figura existencial central em Either/Or
    • A presença de Antígona não deriva de erudição ocasional, mas articula dimensões fundamentais da existência e do pensamento de Kierkegaard
    • Antígona torna-se, por um período, uma das figuras mais íntimas da identidade espiritual do filósofo
    • A leitura de Antígona opera como forma de autorreconhecimento indireto e dramatizado
  • Dificuldades estruturais da interpretação kierkegaardiana
    • Problemas de tradução conceitual do dinamarquês
      • Termos decisivos não encontram equivalência adequada nem mesmo no alemão
      • O empréstimo vocabular ao idealismo alemão é submetido a inflexões radicalmente pessoais
    • Ambiguidade da relação efetiva com Hegel
      • A influência hegeliana é manifesta, mas o grau de leitura direta dos textos permanece indeterminado
    • Obstáculo decisivo do discurso indireto
      • A exposição se dá por meio de ironia reflexiva, hipóteses encadeadas e autonegações sucessivas
      • Nenhuma afirmação pode ser isolada como posição definitiva
  • Forma literária e método comunicativo
    • Rejeição da exegese sistemática
      • A verdade se manifesta de modo fragmentário e pródigo
      • A obra acabada rompe o vínculo com a personalidade poética viva
    • O discurso como drama
      • O texto deve ser lido como execução vocal, à maneira de um ator
      • O pensamento emerge do confronto entre vozes e posições
    • A Antígona de Either/Or como drama fragmentário
      • A figura é encenada dentro de um meio dialético-dramático mais amplo
  • Inserção no horizonte romântico
    • Revalorização do romantismo de Kierkegaard
      • Mesmo a crítica ao romantismo conserva traços românticos de autoironia
    • A Antígona como parte de um ensaio fragmentário sobre o motivo trágico antigo e moderno
      • A moldura dos symparanekromenoi evoca fraternidades noturnas e funerárias típicas do romantismo
    • Estética do fragmento
      • A forma aforística e descontínua pertence à retórica romântica europeia
    • Hibridismo genérico
      • Convivência de discurso filosófico, memória pessoal, ficção, cartas e análise crítica
      • Inserção no gênero das Saturnais literárias
  • Precedentes formais e literários
    • Influência de Luciano e Petrônio como modelos remotos
    • Precedente decisivo de Lucinde, de Friedrich Schlegel
      • Mistura escandalosa de revelação íntima, erotismo e reflexão filosófica
      • Obra profundamente conhecida por Kierkegaard
    • Afinidades temáticas
      • Musicalidade, segredo, interioridade noturna e contenção diurna
    • Exaltação prévia de Antígona no romantismo inicial
  • Antiguidade e modernidade trágica
    • Lugar comum da comparação entre tragédia antiga e moderna
      • Tradição que remonta ao século XVII e culmina em Goethe e Victor Hugo
    • Mediação aristotélica reinterpretada por Hegel
      • A Poética é lida à luz da Aesthetik
    • Inserção de Kierkegaard no vocabulário hegeliano da tragédia
      • Uso explícito de conceitos como colisão e eticidade
  • Tese inicial sobre o desenvolvimento histórico
    • Permanência do desenvolvimento no interior do conceito
    • Transformação radical da experiência do trágico ao longo do tempo
    • Objetivo principal
      • Demonstrar como o caráter específico da tragédia antiga é interiorizado na moderna
  • Trágico e responsabilidade
    • Diagnóstico da modernidade
      • Época de isolamento individual e gregarismo frenético
      • Predominância do cômico como produto dessa tensão
    • Melancolia moderna
      • A modernidade é mais desesperada do que a antiguidade
    • Centralidade da responsabilidade
      • A tragédia trata da aceitação da culpa
  • Diferença entre tragédia antiga e moderna
    • Estrutura da tragédia antiga
      • O indivíduo está inserido nas categorias substanciais de Estado, família e destino
    • Estrutura da tragédia moderna
      • Predomínio da subjetividade reflexiva
      • O herói responde inteiramente por seus atos
    • Herança hegeliana explícita
      • A distinção entre épico objetivo e drama psicológico
  • A culpa trágica como eixo de transição ética
    • A passagem do estético ao ético
      • A culpa torna-se ética quando é reflexivamente assumida
    • Superação da categoria estética
      • O mal e a culpabilidade são propriamente éticos
    • Originalidade sintética
      • A tragédia plena sublima o estético antigo na reflexividade ética moderna
  • Permanência da relação e superação do isolamento
    • Limites do solipsismo
      • O indivíduo permanece vinculado a Deus, à história, à nação e à família
    • Entrada no trágico por meio da relatividade ética
      • A aceitação dessas relações possibilita a cura
    • Instrumentalidade do estético
      • O estético serve integralmente ao ético
      • Essa função confere à tragédia uma doçura infinita
  • Mediação do religioso
    • Analogia materna e paterna
      • O estético como amor materno
      • O religioso como amor paterno
    • Hierarquia funcional
      • O ético é temperado e consumado pelo religioso
    • Centralidade existencial
      • Sem o trágico ou o religioso, a vida humana se esvazia
  • Distinção entre tristeza e dor trágicas
    • Definição dos conceitos
      • Tristeza trágica verdadeira
      • Dor trágica verdadeira
    • Tragédia antiga
      • Tristeza mais profunda
      • Dor menos intensa
      • Ausência de consciência reflexiva plena da culpa
    • Tragédia moderna
      • Dor mais aguda
      • Tristeza menos ampla
      • Transparência implacável da culpa pessoal
  • Culpa, transparência e obscuridade
    • A culpa grega
      • Ambiguidade estética
      • O sofrimento vem de fora, como destino
    • A culpa moderna
      • Interiorização total
      • Dor associada ao saber da própria culpa
    • Polaridade bíblica
      • A herança hebraica introduz a noção de culpa inocente
  • Culpa herdada e paradoxo trágico
    • Contradição interna da culpa herdada
      • Ser culpa e não ser culpa simultaneamente
    • Aceitação piedosa da herança
      • A assunção da culpa como ato ético fundamental
    • Necessidade dialética
      • A tragédia exige elementos gregos e hebraicos
      • Exige tristeza e dor, opacidade e transparência
  • Antígona como síntese trágica
    • Antígona como filha da tristeza e da dor
      • A tristeza não refletida do mundo antigo
      • A dor reflexiva do mundo moderno
    • União dialética das categorias
      • Antígona concentra a ambiguidade estética e a consciência ética
    • Antígona como figura liminar
      • Ponte entre tragédia antiga e moderna
      • Encarnadora do conceito de culpa trágica em sua forma mais complexa
29/01/2026 05:27 · mccastro

A Preeminência de Antígona no Pensamento Europeu (c.1790–c.1905)

STEINER, George. Antigones. New Haven London: Yale University Press, 1996.

  • A problematização da interpretação como atividade fundamental.
    • A citação de Montaigne e a referência platônica ao rapsodo como hermeneus hermeneon estabelecem a mediação interpretativa como condição de recepção e compreensão.
    • A Antígona de Sófocles emerge como objeto privilegiado dessa atividade hermenêutica no período delimitado.
  • A tese central da perfeição da Antígona e sua localização histórica.
    • A crença generalizada, entre c.1790 e c.1905, de que a Antígona era não apenas a mais perfeita tragédia grega, mas a obra de arte mais próxima da perfeição absoluta.
    • A fundamentação dessa crença na visão do século V ateniense como o ápice da expressão do gênio humano secular em suas realizações filosóficas, poéticas e políticas.
    • O Helenismo como fonte de força essencial para o pensamento e sentimento do século XIX, numa operação ao mesmo tempo analítica e mimética.
  • A personificação do “milagre grego” e sua apropriação moderna.
    • A formulação de Ernest Renan sobre o “milagre grego” como fenômeno único, eterno e desprovido de manchas locais ou nacionais.
    • A resposta à pergunta de Hölderlin sobre o paradeiro de Atenas: ela reside no homem moderno, e a salvação do mundo depende de um retorno ao seu legado.
  • A mudança do foco do “milagre grego” da épica homérica para a tragédia ática no século XIX.
    • O Barroco e o Neoclassicismo localizavam a essência do milagre grego na epopeia homérica e em seu valor cívico-instrutivo.
    • O século XIX identifica a essência do Helenismo com a tragédia ateniense.
  • A natureza trágica dos principais sistemas filosóficos pós-Revolução Francesa.
    • A tese de que as principais filosofias desde a Revolução Francesa são sistemas trágicos.
    • Esses sistemas operam como metáforas secularizadas da queda teológica do homem.
    • Exemplos das diversas metáforas trágicas: autoalienação (Fichte, Hegel), servidão econômica (Marx), vontade coerciva (Schopenhauer), decadência (Nietzsche), neurose pós-crime edipiano (Freud), queda da verdade primitiva do Ser (Heidegger).
    • Filosofar após Rousseau e Kant significa pensar “tragicamente”.
    • A tragédia é elevada a opus metaphysicum por excelência, como exemplificado por Nietzsche em relação a Tristan.
    • A consequência: o discurso filosófico formal implica ou articula uma teoria do efeito trágico e recorre instintivamente à tragédia para ilustrações decisivas.
  • A teorização do trágico em Schelling como paradigma.
    • A exposição na Décima Carta de Schelling estabelece os termos de referência.
    • A tragédia grega honra a liberdade humana ao permitir que seus heróis lutem contra a potência superior do destino.
    • As “restrições e limites da arte” exigem a derrota do homem nessa luta, mesmo quando o erro ou a culpa que a provoca é rigorosamente “fatal”.
    • O Fatum na tragédia grega é uma potência invisível, inacessível às forças naturais e imperativa até para os deuses.
    • A derrota do homem cristaliza sua liberdade e a compulsão lúcida para agir polemicamente, determinando a substância do eu.
    • As categorias schellinguianas (liberdade, destino, dinâmica do ego, economia do conflito mortal) tornam-se constantes da metafísica e psicologia pós-kantianas.
    • Às mesmas categorias e dialética da autorrealização, as peças trágicas gregas teriam dado forma primária e duradoura.
  • A elevação de Sófocles à supremacia entre os trágicos gregos pelo Idealismo e Romantismo.
    • Essa elevação segue uma orientação aristotélica, presente também na biologia vitalista e na estética do período.
    • A pergunta retórica de Friedrich Schlegel sobre a perfeição única de Sófocles e sua resposta afirmativa, comparando-o a Apolo conduzindo o coro das Musas.
    • A caracterização de A. W. Schlegel de Sófocles como o primeiro entre seus pares em “excelência e realização”, um poeta do qual só se pode falar com adoração.
    • A ratificação de Schelling da alta moralidade e pureza absoluta das obras de Sófocles como objeto de admiração através dos tempos.
    • A afirmação de F. Schlegel da supremacia de Sófocles não apenas no drama, mas em toda a poesia grega e desenvolvimento espiritual.
    • A opinião canônica de Goethe: Sófocles teria moldado à perfeição eterna os agentes de terror e sofrimento despertados por Ésquilo, e dominado as intuições psicológicas que em Eurípides se tornam esteticismo.
    • O parecer de George Eliot equiparando Sófocles a Shakespeare.
  • A atribuição de grandeza de primeira magnitude à Antígona dentro da constelação das tragédias sofoclianas.
    • A estimativa hiperbólica referia-se à figura da heroína, à peça ou a uma fusão indistinta de ambos.
    • O testemunho de Shelley sobre a sublimidade da figura feminina, a beleza dos coros e o lamento lírico da vítima divina.
    • A declaração de Hegel nas preleções sobre estética: a Antígona como uma das obras mais sublimes e consumadas já produzidas pelo esforço humano.
    • A invocação de Hegel nas preleções sobre história da filosofia: “a celeste Antígona, a mais nobre das figuras que jamais apareceu na terra”.
    • O veredito de Friedrich Hebbel, que via sua própria Agnes Bernauer como uma “Antígona dos tempos modernos”, considerando a tragédia sofocliana a “obra-prima das obras-primas”.
    • O tom extático de Thomas de Quincey em sua resenha, descrevendo a peça com “o frescor do orvalho matinal” e a figura de Antígona como uma “pagã sagrada, filha de Deus antes que Deus fosse conhecido”.
  • A existência de notas dissidentes e sua refutação.
    • A posição de Matthew Arnold, para quem o conflito da Antígona não mais despertaria interesse profundo.
    • A refutação de George Eliot, para quem Arnold teria lido mal o significado da peça.
    • A argumentação de George Eliot: o conflito encenado por Sófocles possui urgência atemporal, dramatizando choques entre consciência privada e bem-estar público inseparáveis da condição histórica e social do homem.
    • A leitura de George Eliot vê a peça como a encenação da “luta entre tendências elementares e leis estabelecidas pela qual a vida exterior do homem é gradual e dolorosamente trazida à harmonia com suas necessidades interiores”.
  • A continuação dos encomia e invocações após a virada do século.
    • O registro de Cosima Wagner sobre a designação de Wagner da Antígona como “o incomparável por excelência”.
    • O verso-prólogo de Hofmannsthal para uma encenação em 1900, coroando um século de visão extática, descrevendo Antígona como um ser radiante atemporal que venceu e continua vitorioso, despertando o imperecível no observador.
    • A imagem hofmannsthaliana de Antígona caminhando por uma “maré baixa”, com a vida recuando diante dela em reverência.
    • A invocação de d'Annunzio a “Antígona da alma iluminada, Antígona dos olhos violeta”.
    • A declaração hiperbólica de Charles Péguy sobre trocar as três Críticas de Kant por um semi-coros da Antígona.
    • O testemunho de André Gide em 1927 sobre a beleza incomparável da Antígona e do Prometeu de Ésquilo.
    • A observação de que, após 1905, sob a pressão da referência freudiana, o foco crítico e interpretativo deslocou-se para o Édipo Rei.
  • A questão central: as razões para a predileção secular pela Antígona.
    • A ausência de uma resposta pronta e a necessidade de investigar causas contingentes e profundas.
    • A constatação de que adaptações e traduções da peça remontam ao século XVI, assim como outras tragédias gregas, sem destaque inicial.
    • A atribuição de Lessing, em sua biografia de Sófocles, de nenhuma preeminência particular à Antígona.
    • A ausência de Sófocles na Hamburgische Dramaturgie de Lessing.
    • A existência de mais de trinta óperas sobre o tema de Antígona entre 1699 e 1799, mas dentro de uma proliferação geral de óperas sobre temas trágicos antigos.
    • A ausência notável de encenações de Antígona nos teatros da Europa Ocidental entre o início do século XVIII e a Revolução Francesa.
    • A ausência de pinturas sobre motivos da lenda de Antígone nos salões de Paris entre 1753 e 1789.
    • O paradoxo: logo após esse período, o texto e a figura tornam-se talismânicos para o espírito europeu.
  • A primeira causa contingente: o impacto do Voyage du jeune Anacharsis do Abbé Barthélemy.
    • A obra, hoje não lida, é considerada uma das principais na história do gosto europeu.
    • Sua reconstrução moralista-topográfica da Grécia pós-pericleana foi fonte do Helenismo Romântico e das políticas filelenas do século XIX.
    • No capítulo XI, o jovem Anacharsis assiste à sua primeira tragédia ática: a Antígona de Sófocles.
    • A descrição de sua comoção, voando em socorro dos amantes, comovido pelas lágrimas de trinta mil espectadores.
    • A citação substancial do lamento mortal de Antígone.
    • A conclusão: Anacharsis não tem mais lágrimas ou atenção para outras peças.
    • Esta passagem é considerada seminal para a voga da Antígona, ecoando por cem anos.
  • A segunda causa contingente decisiva: a convivência simultânea de Hegel, Hölderlin e Schelling no seminário de Tübingen.
    • A complicitade de ideais e a reciprocidade de energias heurísticas entre os três jovens.
    • O impacto profundo dessa intimidade no pensamento e na sensibilidade europeus.
    • O entusiasmo comum pela Revolução Francesa e pelo Idealismo kantiano filtrado por Schiller.
    • A determinação comum de restaurar à alma iluminada “a idade de ouro da verdade e da beleza que foi a Grécia”, conforme Hölderlin.
    • A virada para os mesmos imperativos e modelos de radiação.
    • A dificuldade de reconstruir as simbioses exatas, mas a probabilidade de que o culto de Hölderlin a Sófocles e a convicção de Schelling sobre a tragédia derivassem inicialmente de Hegel.
    • A tentativa de tradução de Hegel do Édipo em Colono já em 1787, texto que o remeteria ao incomparável pathos de Antígona.
    • A comunicação da aura vital desse encontro aos dois companheiros.
    • A permanência da Antígona como um vínculo entre os três, mesmo após polêmicas e silêncios subsequentes.
    • A colocação individual da peça no pivô da consciência por cada um deles.
  • A terceira causa: um evento da história teatral, a encenação de 1841.
    • As apresentações anteriores por Goethe, em versão truncada, não foram um grande sucesso.
    • A encenação de 28 de outubro de 1841, dirigida por Ludwig Tieck, com coros musicados por Mendelssohn e tradução de Donner, provou-se um triunfo e um marco.
    • Foi aclamada como a primeira recriação autêntica da tragédia grega clássica na Europa moderna.
    • A “Antígona de Mendelssohn”, com tentativas de figurino e coreografia antigos, varreu a Europa.
    • Em menos de um ano, foi montada em Berlim, seguida por Paris (1844, primeira tragédia grega em estilo antigo no palco nacional francês), Londres e Edimburgo.
    • Os coros de Mendelssohn tornaram-se um elemento básico de corais familiares e amadores na década de 1840.
    • Esta produção deu ímpeto às numerosas discussões poéticas e filosóficas sobre a peça em meados do século.
    • Um “verdadeiro culto a Sófocles” na França no final do século reflete uma famosa encenação do ciclo Édipo-Antígona em Orange em 1894.
    • A ressalva: o fato teatral é tanto produto quanto causa; a aura singular da Antígona na metafísica e poética alemãs antecede a versão de Mendelssohn em meio século; a santificação de Sófocles na França ganha força uma década antes das lendárias atuações de Mounet-Sully e Julia Bartel.
  • A busca por agências mais radicais e difusas para explicar a predominância.
    • O reconhecimento da dificuldade e do caráter conjectural de tal empreendimento.
    • A admissão de que as análises da história do sentimento são ficções de lógica a posteriori.
    • A justificativa para conjecturas: honrar a distinção de Lessing entre a reunião inerte de informações e a eliciação dos traços vitais de um fenômeno.
  • A hipótese da Revolução Francesa e a questão feminina.
    • A retórica, mitologias programáticas e cerimoniais da Revolução Francesa também se dirigiram ao status das mulheres.
    • A atribuição às mulheres dos sagrados encargos da presença cívica e das licenças do discurso público, negados pelo Antigo Regime.
    • A defesa de que os direitos do homem proclamados em 1789 são, enfaticamente, direitos da mulher.
    • O reconhecimento da domesticidade e da criação dos filhos como instrumentais para a saúde e as fortunas históricas do Estado-nação.
    • A erradicação pretendida da exploração e trivialização do eros característica da injustiça econômica e licenciosidade da velha ordem.
    • A resolução de recuperar, do libertinage, o caule perdido da liberté.
    • As imagens presididas pelas mulheres lacedemônias, “companheiras de armas”, ou pelas matronas da Roma republicana.
    • A suposição imediata: o programa de emancipação feminina e paridade política fez de Antígona um texto emblemático.
    • A aparente confirmação em vidas como as de Madame Roland, Mary Wollstonecraft e Madame de Staël.
    • Comparações isoladas entre a ousada loucura de Antígona e a de Charlotte Corday.
  • A refutação da hipótese com base em evidências contraditórias.
    • A evidência é escassa e, em geral, contraditória.
    • A retórica da libertação era sonora; a prática, quase totalmente conservadora.
    • As reformas no status jurídico e social das mulheres ocorreram num contexto geral de reforma humana.
    • O paradoxo: as restrições impostas pelo sistema napoleônico e pela ética da burguesia mercantil do século XIX foram mais rigorosas que as do Antigo Regime hanoveriano e bourbônico.
    • Com exceção de franjas terroristas, como certos grupos revolucionários russos, as jovens dificilmente figuram na política ou no debate político do século XIX.
    • A domesticação delicada mas intransigente da coragem, iniciativa e perspicácia femininas em I Promessi Sposi de Manzoni é plenamente representativa.
  • A suspeita de que a exaltação da heroína sofocliana foi, em certa medida, um substituto para a realidade.
    • Filósofos, poetas e pensadores políticos aclamam um ato de grandeza feminina e ecoam a afirmação de princípios femininos sobre o poder e a conveniência cívica.
    • Porém, fazem-no en fausse situation: com o conhecimento, remorso e/ou complacência, de que o contrato oferecido em 1789 não foi cumprido ou o foi apenas marginalmente.
    • Antígona pertence, de modo assombroso mas seguro, ao idioma do ideal.
  • A reafirmação da chave revolucionária em um foco mais amplo.
    • A sensação de que a Revolução Francesa é, ainda assim, a chave.
    • A Antígona, mais do que qualquer outra tragédia grega sobrevivente (exceto talvez As Bacantes), dramatiza o entrelaçamento do íntimo e do público, da existência privada e histórica.
    • A historicização do pessoal é a verdade imperiosa e o legado da Revolução Francesa.
    • A defesa (embora histriônica) da proclamação de um novo calendário e de um Ano Um: o tempo havia mudado.
    • A alteração das temporalidades internas, das ordenações da lembrança, da momentaneidade e, sobretudo, da futuridadepela qual compomos nosso autoconhecimento.
    • O testemunho famoso: a observação de Goethe sobre a formidável descontinuidade na batalha de Valmy; as relações metamórficas entre a Revolução e as novas densidades do tempo pessoal no Prelúdio de Wordsworth.
    • A irrupção do político no privado como marca registrada da experiência pós-1789, atestada em vidas registradas desde a era napoleônica até a urbanização explosiva e a mudança tecnológica.
    • Exemplos: os saqueadores uniformizados da história invadindo o jardim de Blake; Napoleão passando sob a janela de Hegel antes de Iena; a escrita da Fenomenologia nesse momento preciso; os romances de Stendhal; a “queimadura da história” nos ossos humildes de quem viveu o Terror ou marchou de Corunha a Moscou.
    • A definição do Antigo Regime pela limitação do engajamento histórico-político direto e da autoexpressão que ele compelia aos poderosos e profissionais.
    • A mobilização, pela levée en masse, não apenas dos grandes exércitos, mas do homem europeu.
  • A dramatização na Antígona da dialética entre o íntimo e o exposto.
    • A peça explicita a dialética da intimidade e da exposição, do “abrigado” e do mais público.
    • Ela gira em torno da política forçada do espírito privado, da violência necessária que a mudança político-social inflige à interioridade inefável do ser.
    • A virada entre os séculos XIX e XX: Yeats volta-se para Antígona porque sua própria pessoa, poesia e caminhos públicos estão carregados desse interplay mortal.
    • A conclusão: após 1789, o indivíduo não conhece armistício com a história política. “Uma beleza terrível nasceu”.
  • A quarta causa sugerida: o fascínio pelo tema do sepultamento em vida.
    • O assunto do enterro vivo atormenta e cativa o imaginário do final do século XVIII e início do XIX.
    • É ubíquo na ficção e no teatro góticos, comum nas artes gráficas e em versos e fantasias em prosa.
    • Também aparece, por vezes obsessivamente, na especulação científica e filosófica.
    • A conjectura de conexões maiores: o motivo codificaria uma consciência do poder judicial arbitrário, sendo um correlativo ficcional para os fatos do encarceramento nos conventos e Bastilhas do Antigo Regime.
    • A iconografia de julho-agosto de 1789, com suas representações da emergência à luz do dia das vítimas “há muito enterradas”, sugere essa sobreposição.
    • Outro contexto possível: o interesse quase histérico, dos anos 1760 ao final do século XIX, nos fenômenos galvânicos de “reanimação” nervosa e muscular, no mesmerismo, nos contatos extra-sensoriais com os mortos.
    • O medo de ser sepultado vivo relacionar-se-ia a complexas incertezas sobre a determinação e a finalidade da morte, a intimações generalizadas de energias psíquicas ainda ativas após a morte clínica e o enterro.
    • A teia de significados e sensibilidades ainda não satisfatoriamente desvendada pelos historiadores do pensamento e das letras.
    • A concentração, nesse tema, de diversos e profundos fios de sentimento.
    • A sanção clássica para uma preocupação presente: a descida de Antígona para a morte em vida falava às gerações Revolucionária e Romântica com uma imediação rivalizada apenas pelo final de Romeu e Julieta.
    • A frequência de comparações entre as duas peças em relação ao motivo do enterramento.
  • A constatação da insuficiência das explicações listadas.
    • Mesmo somando-se fatores ocasionais e internamente cruciais, o status concedido à Antígona durante mais de um século permanece desafiador.
    • As perguntas persistem: por que Barthélemy escolheu justamente esta tragédia? Por que Shelley, Hegel, Hebbel viram na persona mítica de Antígona a “mais alta presença”? Qual a intenção por trás das repetidas sugestões de que Antígona é uma contraparte de Cristo?
    • As respostas completas escapam; apenas o juízo de supremacia é claro.
    • Desse juízo surgem algumas das interpretações e “revivências” mais radicalmente transformadoras já elicitadas por um texto literário.
    • O projeto subsequente: examinar quatro dessas interpretações, compreendidas entre as décadas de 1790 e 1840.
29/01/2026 04:35 · mccastro
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