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Jaspers

Karl Jaspers (1883-1969)

Giovanni Reale

Karl Jaspers (Oldenburg, 1883 — Basileia, 1969) é, junto com Heidegger, o outro grande pensador do existencialismo alemão, tendo chegado à filosofia a partir da medicina e considerando Max Weber, conhecido em 1909, seu mestre.

  • Formado em medicina, foi professor de filosofia na Universidade de Heidelberg até 1937, quando foi expulso por seu antinazismo.
  • Em 1913 publicou a Psicopatologia Geral, em que os fenômenos psicopatológicos são analisados com método fenomenológico.
  • A Psicologia das Intuições do Mundo (1919), por conter os temas fundamentais desenvolvidos nos trabalhos posteriores, pode ser considerada o primeiro escrito da filosofia da existência.
  • A obra central e de maior relevo é a Filosofia (1932), em três volumes: Orientação Filosófica no Mundo, Clarificação da Existência e Metafísica.
  • Filósofo de elevada sensibilidade moral, convicto de que “não há grande filosofia sem pensamento político”, escreveu sobre o problema da bomba atômica e sobre A Culpa da Alemanha (1946), opúsculo que conclui evocando Jeremias, que não desespera nem após a destruição de Jerusalém: “Que significa isso? Significa que Deus existe, e isso basta. Se tudo desvanece, Deus existe: este é o único ponto firme para nós.”

Jaspers defende que filosofia e ciência são inseparáveis, embora não devam se contaminar — cada uma necessita da outra sem poder ser identificada com ela.

  • “A via da ciência é indispensável para a filosofia, porque somente o conhecimento dessa via impede que se afirme, de modo pouco claro e objetivo, existir na filosofia o conhecimento objetivo das coisas.”
  • “Se ao filósofo faltasse o entrosamento com as ciências, permaneceria sem conhecimento claro do mundo, como um cego.”
  • “A filosofia faz presa nas ciências de tal modo a tornar realmente presente o seu íntimo sentido, a filosofia que vive nas ciências dissolve o dogmatismo sempre renovado da própria ciência, mas sobretudo a filosofia se torna a garante consciente do espírito científico contra a hostilidade à ciência.”
  • A atividade filosófica “não pode ser nem idêntica nem antinômica ao pensamento científico.”

O autêntico atitude científica se caracteriza pela consciência metodológica dos próprios limites e pela disposição permanente de aceitar críticas — e é justamente a partir dessa consciência que Jaspers fixa os limites do saber científico.

  • O conhecimento científico das coisas não é conhecimento do ser: refere-se a objetos determinados e não sabe o que é o ser em si mesmo.
  • O conhecimento científico não é capaz de dar nenhuma direção para a vida, não estabelece valores válidos e não pode guiar a existência.
  • A ciência não pode responder à pergunta sobre seu próprio sentido: o fato de ela existir repousa em impulsos que não podem ser demonstrados cientificamente como verdadeiros.
  • Jaspers chama de “orientação no mundo” esse conhecimento objetivo, sempre inconcluso, que é e permanece conjectural: “Nenhum ser sabido é o ser.”
  • O movimento das sínteses científicas em direção a horizontes cada vez mais vastos procede necessariamente ao infinito, como o caminho de quem quisesse alcançar o horizonte físico — que se desloca com quem caminha; “se quero apreender o ser enquanto ser, estou irremediavelmente votado ao naufrágio.”
  • A esse ser sempre além de todo horizonte científico Jaspers chama o “tudo-abarcante”: “o que sempre e continuamente se anuncia a nós, não por nos vir ao encontro ele mesmo, mas por ser a nascente de tudo o mais.”

Além do intelecto — isto é, da ciência —, há a razão, e é a ela que Jaspers confia a iluminação da existência em que consiste a filosofia, distanciando-se tanto dos racionalistas quanto dos irracionalistas.

  • Aos intelectualistas, Jaspers lembra que “a exatidão pura e simples não nos satisfaz”; aos irracionalistas, reprocha sua inconsistente “embriaguez de vitalismo”.
  • “A verdade é algo infinitamente maior do que a exatidão científica”, e a filosofia é a atividade que clarifica a existência, levando-a à consciência de si mesma e à comunicação com as outras existências.
  • O pensamento filosófico “não me procura conhecimentos de coisas até então estranhas a mim, mas me torna claro o que eu verdadeiramente entendo, o que eu verdadeiramente quero e o que eu verdadeiramente creio. O pensamento nesse caso me cria e me determina o fundo claro da minha autoconsciência.”
  • Jaspers faz sua, interpretando-a com liberdade, a distinção hegeliana entre intelecto e razão.

A existência é inojetivável: na sua autenticidade, não pode ser identificada com um Dasein empírico compreensível pelo intelecto científico — e nesse ponto Jaspers reconhece Kierkegaard e Nietzsche como os verdadeiros grandes pensadores de seu tempo.

  • Kierkegaard e Nietzsche “puseram em questão a razão a partir da profundidade da existência”: o primeiro em nome da fé, o segundo em nome da afirmação de um homem novo; para ambos, “compreender a si mesmo é a via para a verdade.”
  • “Eu sou existência na medida em que não me torno objeto. Nela me sei independente sem poder intuir o que sou. De sua possibilidade vivo; somente ao realizá-la eu sou.”
  • O homem não é um dado de fato; ele pode ser — mas sua escolha autêntica está apenas no reconhecimento e na aceitação da situação em que se encontra: “meu eu é idêntico ao lugar da realidade em que me encontro.”
  • “Posso pertencer somente a um único povo, posso ter somente estes pais e não outros, posso amar somente uma única mulher.” Trair a própria situação é trair a si mesmo, pois “eu sou a minha situação” — realidade intransponível.

Inojetivabilidade e historicidade da existência são os dois primeiros resultados da iluminação existencial, mas a existência remete necessariamente à transcendência, que se revela nas situações-limite.

  • Existência e razão “não são duas potências em luta”: “cada uma delas é por virtude da outra, e no ato de se compenetrarem se dão reciprocamente realidade e clareza.”
  • “As metas alcançadas com a mudança das condições sociais se tornam insustentáveis e desmoronam. Todas as possibilidades imagináveis se esgotam. […] Ao fim há o naufrágio.”
  • As situações-limite — estar sempre em situação, não poder viver sem luta e dor, assumir uma irremediável culpa, ter de morrer — “não sofrem mudanças substanciais, mas apenas fenomênicas; em relação ao nosso ser-aí têm o caráter da definitividade. […] São como um muro contra o qual batemos e naufragamos.”
  • Diante da consciência do naufrágio, os entes do mundo se revelam como cifras da transcendência: não a fazem conhecer, mas remetem a ela como ao “Outro” de que são portadores.
  • “Quando o eu falha em seu querer bastar-se a si mesmo, pode-se dizer que está pronto para o que é o outro diante dele, isto é, para a Transcendência.”
  • “Sem transcendência não há existência.” E na Metafísica: “a última questão […] é saber se do fundo das trevas um ser pode brilhar.”

A verdade filosófica é existencial e singular — diferentemente da verdade científica, que é objetiva e anônima —, mas isso não conduz ao relativismo nem ao dogmatismo.

  • “Deus é sempre o meu Deus, e eu não o tenho em comum com os outros homens.”
  • A verdade alheia não é uma verdade oposta à minha, mas a verdade de outra existência que, junto com a minha, busca a Única Verdade — o horizonte que transcende todas as verdades e para o qual todas convergem.
  • “A existência se torna manifesta a si mesma e com isso real, se ela com outra existência, através dela e com ela, chega a si mesma.”
  • O filósofo atento “não cai no erro da verdade total e completa”; o que ele oferece não é uma verdade definitiva, mas a possibilidade permanente de comunicação entre as verdades das existências singulares.

A crítica aos sistemas totalitários decorre diretamente dessa concepção: ao presumirem conhecer o curso total da história, o nazismo e o bolchevismo cometem um erro gnoseológico fundamental.

  • “Os sistemas totalitários fundamentam seu planejamento total nas bases desse conhecimento total. Mas como a ninguém é possível, nem através do conhecimento nem através da ação, apreender a totalidade do mundo, quem não obstante tenta fazê-lo deve conquistar o mundo pela força, mas o fará como um assassino que se apodera de um cadáver, e não como um homem que busca entrar em relação com outros seres humanos para erigir um mundo comum.”
  • “Todos os dogmáticos totalitários afirmam algo que transcende o conhecimento científico como se se tratasse de um conhecimento ainda mais científico.”
  • “O objetivo da filosofia é fortalecer a resistência interior contra a propaganda cínica de facções, assim como defender o indivíduo de cair presa de fés absurdas como a que atinge seu ponto mais alto na 'confissão' prestada em certos ridículos processos.”
  • No mundo livre, “o indivíduo, com toda a sua fraqueza, ajuda a sustentar o todo”, enquanto nos regimes totalitários é oprimido e esmagado por ele; “em oposição a um suposto conhecimento total, a filosofia tem o dever de manter desperta a faculdade de pensamento independente, e consequentemente a independência do indivíduo, que o poder totalitário procura sufocar.”
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