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domingo 17 de outubro de 2021

Tais afirmações remetem nos a uma teoria da sensação que é bem conhecida de quem tem familiaridade com a psicologia e a fisiologia medievais, e que, aliás, é exposta por Dante   no Convívio (III 9) em termos não muito diferentes, ao dizer que “estas coisas visíveis, tanto as próprias como as comuns enquanto são visíveis, vêm para dentro do olho — não digo as coisas, mas as formas delas — pelo meio diáfano, não realmente, mas intencionalmente, quase como em vidro transparente”.

Segundo esta teoria — que aqui nos limitamos a antecipar nas suas linhas mais gerais —, os objetos sensíveis imprimem nos sentidos a sua forma, e esta impressão sensível, ou imagem, ou fantasma (como preferem chamá-la os filósofos medievais, seguindo os passos de Aristóteles  ), é posteriormente recebida pela fantasia, ou virtude imaginativa, que a conserva, mesmo na ausência do objeto que a produziu. A imagem “pintada como em parede” no coração, de que fala Giacomo, talvez seja precisamente este “fantasma”, que, conforme verificaremos, cumpre uma função muito importante na psicologia medieval; e com Giacomo aprendemos (se já não nos fosse conhecido a partir de outras fontes) que ele, por razões que por enquanto nos escapam, exerce um papel importante até no processo do enamoramento (“e lo cor, che di zo è concepitore / imagina, e li piace quel desto” — “e o coração, que isso concebe, / imagina, e se apraz com tal desejo”). Se isso for verdade, então começamos, talvez, a intuir de algum modo, por que motivo a homenagem feita à imagem da amada no pequeno poema de Renart não era de fato um ato tão extravagante, mas, pelo contrário, uma prova de amor muito concreta; e, nessa perspectiva, talvez possa tornar-se mais compreensível porque, no Roman de la Rose, o protagonista se enamora olhando para uma imagem reflexa na fonte de Narciso   e, no final das suas longas peripécias eróticas, venha a se encontrar, mais uma vez, como Pigmaleão, diante de uma ymage. Antes, porém, de arriscar hipóteses que poderiam resultar fantasiosas, é necessário reconstruir a fantasmologia medieval em toda a sua complexidade e buscar, na medida do possível, traçar a genealogia e seguir o seu desenvolvimento. E o que tentaremos fazer nas páginas a seguir. [AgambenE  :130]


Plotin   combat ici la doctrine des Stoïciens : « Les Stoïciens disent que l’homme, à sa naissance, a sa partie dirigeante semblable à une feuille de papier parfaitement disposée pour recevoir des caractères. Chaque idée vient s’y écrire par les sensations : car, lorsqu’on a senti un objet, le blanc, par exemple, on en garde le souvenir quand cet objet n’est plus là. » (Plutarque, De Placitis philosophorum, IV, 11.) Selon Zénon  , la sensation consiste dans une impulsion extérieure, « impulsio oblata extrinsecus, » appelée représentation, φαντασία (Cicéron, Académiques, I, 11); selon Cléanthe, les objets extérieurs impriment sur nos organes une image semblable à l’empreinte d’un cachet sur la cire, τύπωσις (Sextus, Adversus mathematicos, VII, p. 288); mais, selon Chrysippe  , l’impression produite dans l’âme n’est qu’une simple modification, ἀλλοίωσις; (Diogène Laërce, VII, § 50). Ces philosophes n’ont fait que reproduire, en les prenant dans leur sens propre, des expressions employées avant eux par Platon   et par Aristote   dans un sens figuré. Nous avons déjà cité (t. 1, p. 334 et note 1) des passages dans lesquels Platon   et Aristote   comparent l’âme à une cire molle qui reçoit l’empreinte d’un cachet, comparaison qui a donné naissance à l’idée de la table rase; ajoutons qu’Aristote   dit également que la sensation est une modification, ἀλλοίωσις (Physique, VII, 4). [BouilletE2  :Nota]
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