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campo

domingo 17 de outubro de 2021

Segundo a metafísica tradicional, a natureza? própria de todo ente? ou sendo, sua entidade? em um determinado modo? de ser, procede da relação de dois elementos? de ordem? diferente: o sendo em si mesmo, lado interior e ativo, e o conjunto das influências do meio? ou campo? no qual o ente se essencializa ou se entifica, lado exterior? e passivo? [1].

A constituição de uma entidade é, portanto, ordenada pela ação do ente (ativo) sobre o campo-em-que-é (passivo), e, simultaneamente, vice-versa entre o campo (ativo) e o ente-aí-sendo (passivo) [2], ou sob uma perspectiva? geométrica, pelo cruzamento da vertical (ato? de ser?), que religa entre si diferentes níveis de manifestação de entes, com um determinado plano? horizontal, entendido como domínio ou campo de um certo modo de ser de entes. Ou seja, pela interseção da vertical considerada, com o plano horizontal, ou da virtude? (do latim virtus, força, potência), ortogonal do ser do ente, com determinado campo ou meio, se define? a manifestação do ente neste estado? e meio determinado, sua combinação de potência (dynamis?) e ato (energeia?) se efetiva em termos de poder de atualização, no sentido? aristotélico. Por conseguinte, o ente, por sua própria natureza, prescreve as condições de sua manifestação, sendo estas condições uma especificação, ou especialização das condições gerais do estado visado pelo ente; a manifestação do ente se constitui portanto em um desenvolvimento? das possibilidades contidas a princípio no estado por ele visado, exercitadas, por sua vez, em conformidade com o meio ou campo que interage.

O ente, desta maneira, se manifesta revestindo-se de elementos apropriados do “campo”. Esta cristalização de elementos será determinada pela ação do ente sobre o campo, de sua natureza interna (supra-entificação, no sentido vertical do ser). A cristalização final não exprime todas as influências do campo na constituição de um dado? ente, pois estas se estendem indefinidamente em todos os sentidos. O campo deve ser entendido como um conjunto cujas partes estão ligadas entre si, sem solução de continuidade, pois o vazio? é inconcebível (abominável, segundo Aristóteles). O campo, por sua vez, reúne relações (ações e reações) entre todos os entes nele individualizados enquanto entes, manifestados neste domínio, simultaneamente e sucessivamente.

Resumindo, o ente sofre do campo apenas limitações inerentes ao caráter? condicionado de todo estado de manifestação. A afinidade? entre elementos apropriados do campo e a natureza do ente, ou dito? de outra maneira, a conformidade do campo com as possibilidades que o ente porta em si, é um dos axiomas desta visão de mundo? e de homem?, que parece se alinhar com as constatações recentes dos biólogos? Maturana   & Varela   (1992).


O magnetismo ressurge no século XVIII, a partir de suas origens? de inspiração ocultista, ganhando presença nos meios intelectuais?, pelo gosto? desenfreado, àquela época, pelo maravilhoso, pelo que ainda não havia sido explicado pela ciência, em elaboração. Merecendo destaque a figura? de Mesmer, um de seus principais expoentes.

Entre as ideias? que sustentava o magnetismo, havia uma em consonância com, e possivelmente na origem dos, fluidos newtonianos, segundo a qual a natureza mantém o equilíbrio entre as diversas partes de todos os corpos, pela expansão de um fluido por toda a criação. Este fluido penetra nos mais diminutos interstícios, impedindo certas misturas e certas fermentações, que poderiam ser a causa? da dissolução da criação, e, portanto, de um novo caos?.

A ideia? do magnetismo universal? desenha o meio englobante de um mundo no seio do qual os corpos estão religados à distancia por uma ação recíproca; um mundo onde a atração, se fazendo eletiva, se diferencia e se multiplica em afinidades; um mundo onde o fluido é o agente? da simpatia?, onde a harmonia? é o equilíbrio da combinação das forças, onde desarmonia e doença são sinônimos. Neste ponto?, a física se volta imediatamente para a fisiologia?; o jogo? dos dois princípios dinâmicos comunica-se naturalmente com a medicina. A articulação é também fácil,[...], entre a física social? e a psicologia? social. [3]

A afinidade dessas ideias, ligadas ao magnetismo, especialmente em sua versão romântica, com a ideia mais antiga, platônica e estóica, de Alma? do Mundo, Anima? Mundi , parece ser total. Segundo o historiador Jean-Louis Vieillard-Baron [4], a Alma do Mundo está mais presente do que parece nas obras da antiga filosofia? grega. A questão é que a ideia representada pela expressão Anima Mundi , se apresenta nestas obras, sob diferentes denominações, em particular?: o éter, o Demiurgo?, mas principalmente e sobretudo a figura de Eros?, o primeiro e mais antigo dos deuses gregos. Para a tradição platônica, a Alma do Mundo é uma imagem? diurna, em oposição a uma alma noturna, simbolizada pela Terra?-Mãe-Matéria [5]. Este aspecto? diurno da imagem não a impede de ter um papel mediador? entre o puro? inteligível e o puro sensível.

Com o desenvolvimento dos estudos sobre o magnetismo e a eletricidade, desde o final do século XVIII, a noção de campo foi ganhando uma conceituação formal? e uma ideologia? crescente. Como afirma Gilbert Simondon   [6] a noção de campo “estabelece uma reciprocidade? de estatutos ontológicos e de modalidades operatórias entre o todo? e o elemento?”. Com efeito?, em um campo, qualquer seja, elétrico, eletromagnético, de gravidade, ou de qualquer outra espécie, um elemento, que o componha, possui dois estatutos e preenche duas funções: primeiro, recebendo a influencia do campo, está submetido às forças do campo; segundo, intervindo no campo a titulo criador? e ativo, modificando as linhas de força do campo e a repartição do gradiente.

Para Simondon  , “a reciprocidade entre a função de totalidade? e a função de elemento no interior do campo”, assim como a definição do modo de interação característico do campo, constitui uma verdadeira descoberta? conceitual. A dinâmica que está associada a esta conceituação de campo, permite revelar? “processos? muito mais refinados de interação entre as partes por intermediário do todo, onde intervém trocas seletivas”.

LÉXICO: campo

Observações

[1GUÉNON, René (1957), La grande triade. Paris, Gallimard.

[2É preciso esclarecer que ente e meio, em sua relação, estão mobilizados por duas forças mutuamente polarizadas: no sendo, ora uma força de natureza ativa sobre o meio enquanto força de natureza passiva, resistente; e, no mesmo sendo, ora uma força de natureza resistente ao meio enquanto força de natureza positiva.

[3SCHLANGER, Judith (1971/1995), Les métaphores de l’organisme. Paris, L’Harmattan.

[4VIEILLARD-BARON, Jean-Louis (1988), Platonisme et interprétation de Platon a l’époque moderne. Paris, Vrin.

[5Os estoicos propuseram uma interpretação mais materialista e noturna da Alma do Mundo, se referindo a ela como o pneuma universal, o sopro imanente ao cosmos, a razão seminal do Universo.

[6SIMONDON, Gilbert (1989b), L’individuation psychique et collective. Paris, Aubier.