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de Castro: campo

sábado 5 de fevereiro de 2022

    

Segundo a metafísica   tradicional, a natureza própria de todo ente   ou sendo, sua entidade em um determinado modo de ser, procede da relação de dois   elementos   de ordem   diferente: o sendo em si mesmo  , lado interior e ativo, e o conjunto   das influências do meio ou campo   no qual o ente se essencializa ou se entifica, lado exterior e passivo [1].

A constituição de uma entidade é, portanto, ordenada pela ação do ente (ativo) sobre o campo-em-que-é (passivo), e, simultaneamente, vice-versa entre o campo (ativo) e o ente-aí-sendo (passivo) [2], ou sob uma perspectiva geométrica, pelo cruzamento da vertical (ato de ser?), que religa entre si diferentes níveis de manifestação   de entes, com um determinado plano horizontal, entendido como domínio   ou campo de um certo modo de ser de entes. Ou seja, pela interseção da vertical considerada, com o plano horizontal, ou da virtude (do latim virtus, força, potência), ortogonal do ser do ente, com determinado campo ou meio, se define a manifestação do ente neste estado   e meio determinado, sua combinação de potência (dynamis  ) e ato (energeia  ) se efetiva em termos de poder de atualização, no sentido aristotélico. Por conseguinte, o ente, por sua própria natureza, prescreve as condições de sua manifestação, sendo estas condições uma especificação, ou especialização das condições gerais do estado visado pelo ente; a manifestação do ente se constitui portanto em um desenvolvimento das possibilidades contidas a princípio no estado por ele visado, exercitadas, por sua vez, em conformidade com o meio ou campo que interage.

O ente, desta maneira, se manifesta revestindo-se de elementos apropriados do “campo”. Esta cristalização de elementos será determinada pela ação do ente sobre o campo, de sua natureza interna (supra-entificação, no sentido vertical do ser). A cristalização final não exprime todas as influências do campo na constituição de um dado ente, pois estas se estendem indefinidamente em todos os sentidos. O campo deve ser entendido como um conjunto cujas partes estão ligadas entre si, sem solução   de continuidade  , pois o vazio   é inconcebível (abominável, segundo Aristóteles). O campo, por sua vez, reúne relações (ações e reações) entre todos os entes nele individualizados enquanto entes, manifestados neste domínio, simultaneamente e sucessivamente.

Resumindo, o ente sofre do campo apenas limitações inerentes ao caráter condicionado de todo estado de manifestação. A afinidade   entre elementos apropriados do campo e a natureza do ente, ou dito de outra maneira, a conformidade do campo com as possibilidades que o ente porta   em si, é um dos axiomas desta visão   de mundo e de homem  , que parece se alinhar com as constatações recentes dos biólogos Maturana   & Varela   (1992).


[1GUÉNON, René (1957), La grande triade. Paris, Gallimard.

[2É preciso esclarecer que ente e meio, em sua relação, estão mobilizados por duas forças mutuamente polarizadas: no sendo, ora uma força de natureza ativa sobre o meio enquanto força de natureza passiva, resistente; e, no mesmo sendo, ora uma força de natureza resistente ao meio enquanto força de natureza positiva.