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intelecto

domingo 17 de outubro de 2021

O esvaziamento do conceito “realidade” acompanha o progresso da dúvida e é, portanto, um processo histórico, se visto coletivamente, e um processo psicológico, se visto individualmente. Trata-se de uma intelectualização progressiva. O intelecto, isto é, aquilo que pensa, portanto aquilo [14] que duvida, invade as demais regiões mentais para articulá-las, e as torna, por isso mesmo, duvidosas. O intelecto desautentica todas as demais regiões mentais, inclusive aquela região dos sentidos que chamamos, via de regra, de “realidade material”. A dúvida da dúvida é a intelectualização do próprio intelecto. Com ela o intelecto reflui sobre si mesmo. Torna-se duvidoso para si mesmo, desautentica-se a si mesmo. A dúvida da dúvida é o suicídio do intelecto. A dúvida cartesiana, tal qual foi praticada durante a Idade Moderna, portanto a dúvida incompleta, a dúvida limitada ao não intelecto, acompanhada da fé no intelecto, produziu uma civilização e uma mentalidade para a qual a realidade encontrou refúgio dentro do intelecto. Trata-se de uma civilização e de uma mentalidade “idealista”. A dúvida completa, a dúvida da dúvida, a intelectualização do intelecto, destrói esse refúgio e esvazia o conceito “realidade”. As frases aparentemente contraditórias, entre as quais a dúvida da dúvida oscila — a saber: “Tudo pode ser duvidado, inclusive a dúvida” e “Nada pode ser autenticamente duvidado” —, se resolvem, nesse estágio do desenvolvimento intelectual, na frase: “Tudo é nada”. O idealismo radical, a dúvida cartesiana radical, a intelectualização completa, desembocam no niilismo. [FlusserDuvida  :13-14]


[...] Embora não possamos dizer nada intelectualmente satisfatório quanto às personagens alegóricas do “Eu” e da “Vontade”, devendo, portanto, expulsá-las do território da discussão, isso não se aplica ao “Intelecto”. Este, sim, pode ser perfeitamente desmitologizado. Com efeito, na própria alegoria não tem sido tanto personificado propriamente, mas coisificado. Tem sido comparado a um tear cujos fios são pensamentos. É preciso, tão somente, abrir mão da imagem do tear e dos fios, é preciso tão somente desmaterializar a imagem, e a alegoria desaparece. A descrição do intelecto torna-se simbólica, isto é, tendo um significado exato. Essa descrição é a seguinte: O intelecto é o campo no qual ocorrem pensamentos. O purista pode objetar que o conceito “campo” é, ele também, alegórico. Entretanto é um conceito empregado, [29] em outro nível de significado, pela ciência exata.

Não necessitando sermos mais realistas que o rei, manteremos a nossa descrição do intelecto como hipótese operante.

Se descrevermos o intelecto como o campo no qual ocorrem pensamentos, ultrapassaremos a afirmativa cartesiana “Penso, portanto sou” pelo menos por um passo. Conduziremos a dúvida cartesiana pelo menos um passo adiante. A nossa descrição do intelecto autoriza-nos a duvidar da afirmativa “Penso” e a substituí-la pela afirmativa: “Pensamentos ocorrem”. A afirmativa “Penso” é a abreviação da afirmativa “Há um eu que pensa”. O método cartesiano prova, tão somente, a existência de pensamentos, nunca de um Eu que pensa. Não autoriza a afirmativa “Penso”. A afirmativa “Penso, portanto sou” é a abreviação da afirmativa “Há um Eu que pensa, portanto há um Eu que é”. E uma afirmativa pleonástica, além de duvidosa.

O intelecto, descrito como campo no qual ocorrem pensamentos, é um conceito a um só tempo mais restrito e mais amplo que o conceito duvidoso do Eu. É um conceito mais restrito, porque o Eu (qualquer que seja sua realidade, já agora bastante esvaziada por nossa dúvida) não se esgota pensando. Por exemplo: o Eu também quer. O intelecto é um conceito mais amplo, porque o Eu não abrange todo o campo no qual ocorrem pensamentos. Mesmo se formos estender o âmbito do conceito Eu para incluir nele todos os Eus individuais (como [30] fazem alguns psicólogos atuais), mesmo esse Super-Eu superduvidoso não abrange todo o campo no qual ocorrem pensamentos. Por exemplo: ocorrem pensamentos produzidos mecanicamente por instrumentos eletrônicos. O Eu, sendo um conceito a um só tempo mais amplo e mais restrito que o intelecto, é um conceito dispensável na consideração do intelecto. Deve ser eliminado da discussão do intelecto, não somente por sua dubiedade e pelas razões expostas durante a discussão da concentração, mas ainda pelo princípio da economia de conceitos, pelo princípio da “navalha de Occam”. Essa eliminação é, entretanto, um ideal dificilmente realizável no presente estágio do desenvolvimento da discussão filosófica. Todos nós, inclusive este livro, estamos demasiadamente presos ao conceito do Eu, para podermos autenticamente abandoná-lo. Entretanto a libertação do Eu não é mais, como o fora há pouco tempo, um ideal reservado aos místicos. É alcançável pela especulação intelectual, como o demonstra o presente argumento.

O intelecto, descrito como campo no qual ocorrem pensamentos, dispensa a pergunta: “O que é o intelecto?”. Um campo não é um quê, mas uma maneira como algo ocorre. O campo gravitacional da Terra não é algo, mas a maneira como se comportam corpos relacionados com a Terra. Da mesma forma é o intelecto a maneira como se comportam pensamentos. O intelecto é a estrutura dentro da qual e de acordo com a qual [31] os pensamentos ocorrem. O intelecto não tem dignidade ontológica fora dos pensamentos, não é um Ser em si. Inversamente, não há pensamentos fora do intelecto. Para ocorrerem, os pensamentos devem ocorrer de alguma maneira, e essa maneira é o intelecto. Em breve, a pergunta “O que é o intelecto?” carece de sentido. É uma pergunta, ingênua e metafísica no sentido pejorativo dessa palavra, do tipo de perguntas “O que é Beleza?” ou “O que é Bondade?”. Os intelectualistas e anti-intelectualistas são, ambos, prisioneiros desse tipo de metafísica ingênua. A pergunta que se impõe, esta sim, é a seguinte: “O que é um pensamento?”. Da resposta a essa pergunta dependerá a nossa compreensão ou não do conceito “intelecto”. É portanto a ela que devemos dedicar a nossa atenção no que se segue. [FlusserDuvida  :28-31]


LÉXICO: intelecto