depressão

Para percebermos a diferença radical que há entre o modo como um acontecimento se processa na vida e o modo como esse acontecimento é «visto» pela reprodução imitadora (μίμησις [mimesis]), consideremos primeiramente uma situação que nos afete, deprimindo-nos.

Quando passamos por uma situação que é qualificada como sendo deprimente (λύπη [lype]), produz-se uma dependência do desenvolvimento da vida desse pathos (πάθος) presente. Deixamo-nos arrastar e dominar pela situação criada. Ficamos sem qualquer distanciamento ou domínio sobre ela, como que mergulhados na mais profunda das depressões, sem poder emergir de novo à tona da vida. Ao gerar-se um estado de aflição [Rep., 603c3] dá-se o impedimento à possibilidade de resolver de um modo deliberado a situação em que nos encontramos [Rep., 603c5]. O comportamento que sucumbe à depressão (λύπη) faz que sejamos levados constantemente «para as lembranças que nos recordam o que nos afetou e para lamentações» [Rep., 604d8] que, por mais intensas e repetidas que sejam, são sempre poucas [Rep., 603d9]. A depressão que nos assola aloja-se na existência, infectando-a em todas as dimensões temporais e espaciais pelas quais ela se propaga. Os outros, o mundo, o tempo passado e o futuro, o espaço em que somos e aquele em que não habitamos, tudo é mergulhado nesse estado presente que tudo afeta.

Este comportamento relativamente à depressão (λύπη), um comportamento que enraíza na natureza humana, pode, no entanto, ser visto como «não tendo sentido e ser resultante de uma forma de inatividade com a tendência para a falta de perseverança inconstante» [Ibid. Um pouco mais acima, ο λογιστικός [logistikos] tinha sido apresentado como um ἔργον [ergon] na lucidez (Rep., 602e1). Agora, o não dar sentido (ἄλογον [alogon]) corresponde a uma «preguiça», a uma forma de «inação», a uma tendência para a paralisia e, portanto, para a covardia. Não se vê para e por onde ir.]. Fica-se de tal forma tolhido que não se consegue «ir em frente» [Rep., 604b 11] para um futuro que permanece aparentemente paralisado [87] pelo presente. Quando nos encontramos em situações adversas [Rep., 604b10] que nos afligem e que suportamos com dificuldade [Rep., 604b12], ficamos no adiamento aparentemente eterno de uma nova qualidade do instante que nos rasgue um novo e melhor futuro sem aflição, aflição que não nos permite nenhuma espécie de abertura para deliberarmos acerca do que se constitui. Não se acha sentido para o que nos está a acontecer, nem se encontra nenhuma orientação que nos permita esboçar uma reação, qualquer que ela seja. Neste estado de coisas ficamos sem uma dilucidação do que está a acontecer, ou do que aconteceu [Rep., 604c5]. Platão estabelece uma comparação entre esta situação adversa e o jogo de dados. Quando os dados caem, não podemos desfazer o sucedido. A perturbação causada pela má sorte pode impedir-nos de encontrar uma saída que a supere. Ou seja, importa não ficar afetado pelo resultado da jogada, porquanto é inanulável, como também esse estado de perturbação nos impede de ver o que sucederá na próxima jogada (Rep., 604c).].

É a partir da tematização de esta forma de afetação nos acontecer, em contraposição ao modo como por natureza nos comportamos relativamente a ela [A partir da tematização do πῶς πρὸς λύπην [pos pros lypens] (Rep., 603e8), procura-se um alargamento ao πῶς πρὸς πάθος [pos pros pathos] em geral.], que se levanta a hipótese de haver uma possibilidade de «reação» a toda e qualquer forma de afetação patológica em geral, e, neste caso especial, a toda e qualquer forma de sofrimento. A tematização do sofrimento constitui uma forma de olhar que não se encontra no estado patológico. É já uma reacção que procura oferecer resistência à situação aflitiva em que nos encontramos, para que não nos deixemos sucumbir ao sofrimento que nos tolhe. O ter em vista o pathos (πάθος) não implica necessariamente uma alteração do aspecto essencial do sofrimento (εἶδος λύπη [eidos lype]) ou afetação (πάθος), mas altera, de todo em todo, o modo com se dá o contacto entre esses acontecimentos e a nossa vida. O ter em vista teoricamente a afetação (πάθος) é uma forma de anular o efeito que ele surte espontaneamente sobre nós e abre uma possibilidade à transformação do modo como o acolhemos.

A transformação do modo como acolhemos a afetação (πάθος) constitui um outro espaço de manobra que nos permite oferecer-lhe resistência, reagindo ao que faz surtir o seu efeito sobre nós [Esta diferença de modos de relacionamento está na base, como veremos, da constituição do verdadeiro acesso ao que nos acontece e assim de destruirmos um acesso meramente mimético aos fenômenos patológicos. Meike Aissen-Crewett, «Paideia und bildende Kunst», RM, 132,1989, pp. 266-279: a μίμησις «an die Gefuhle appelliert, nicht an den rationalen Teil der Seele (τὸ λογιστικόν); die mimetische Kunst zerstört die Vemunft [ἀπόλλυσι τὸ λογιστικόν (Rep., 605b)]» (p. 272).]. Segundo esta segunda possibilidade, há o poder de combater e de resistir ao sofrimento [O «homem excelente» faz uso dela, mais quando está na companhia dos seus semelhantes do que quando fica sozinho de si para si na solidão (Rep., 604a).]. Esta outra possibilidade é dada pela compreensão (λόγος [logos]). Ela contrapõe-se à única possibilidade aparente de sermos arrastados para e pelo sofrimento [Rep., 604b1]. A possibilidade de se dar uma resolução deliberada (βούλευσις [bouleusis]) é dada pela abertura para o futuro (πρόσθεν [prosthen]) e pela alienação relativamente ao sucedido (γεγονός [gegonos]). Esta dupla possibilidade de relacionamento apurada — por um lado, de abertura ao futuro e, por outro, de fechamento à aflição — resulta já do empreendimento de perseguir o sentido (λόγος) [Este esforço está expresso pelos advérbios ὅτι κάλλιστον [oti kalliston] e ὅτι μάλιστα [oti malista] (Rep., 604b9).]. Não se trata de uma abertura e de uma desafetação que se constituam assim sem mais nem menos, mas implica já «esforço» [Há, assim, que habituar sempre a alma a curar-se o mais depressa possível e a levantar o que caiu ou adoeceu, acabando com este estado deplorável através da medicina (Rep., 604c9-d2). Assim, se alguém aplicasse o mesmo tratamento aos acasos do destino, procederia da forma mais correta que há.] de seguir o que o cálculo (λογισμός [logismos]) delineia [Rep., 604d5]. O sentido (λόγος) dá uma regra (νόμος [nomos]) ao modo como a experiência patológica vem ao nosso encontro e como parece acontecer contra nós. Faz ver numa unidade de sentido o que de cada vez assim nos sucede. O sentido (λόγος) indica o que nos está a acontecer e indica uma outra possibilidade arrancada ao caos desordenado que a depressão (λύπη) traz consigo.

Identificadas estas duas formas de relacionamento com a depressão (λύπη), percebemos que a reprodução (μίμησις) tem em vista, no horizonte das situações (πράξεις) humanas, aquelas situações que resultam de um comportamento que sucumbe à afetação (πάθος) e a respectiva forma de reação. Quer dizer, a perícia imitadora das situações humanas (μιμητική πράξεως [mimetike praxeos]) constitui-se fazendo uma abstração necessária da possibilidade de estabelecimento de um comportamento que «mantém a tranquilidade» [Rep., 604b9]. Um pendor desta natureza acontece porque só a disposição para um comportamento colérico (τὸ άγανακτητικόν [to aganaktetikon]) dá azo a uma reprodução (μίμησις) múltipla e variegada [Rep., 604e1]. A disposição do comportamento «sensato e tranquilo» [Rep., 604e2], uma vez que permanece quase sempre na mesma [89] forma de ser relativamente a si próprio [Rep., 604e], não é nem facilmente imitável, nem é, uma vez imitado, susceptível de uma fácil compreensão [Rep., 604e3-4]. Sobretudo por uma assembleia de homens de toda a espécie (παντοδαποί [pantodapoi]), reunidos num teatro. Uma «representação» desse tipo de disposição corresponderia à apresentação de uma possibilidade de afetação que lhes é de todo em todo estranha [Rep., 604e6]. O poeta reprodutor (μιμητικὸς ποιητής [mimetikos poietes]) não tem em vista nem se move nesta possibilidade humana [Rep., 605e2], mas tem, antes, em vista aquela disposição para um comportamento colérico e um caráter variegado, dada a susceptibilidade de uma boa «imitação» [Rep., 605a5]. [CaeiroArete:87-90]