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Livre escolha só sendo escolhido

SZL

  • A ameaça contemporânea às liberdades e a necessidade de reflexão conceitual
    • O medo generalizado diante de novos perigos que ameaçam as liberdades conquistadas exige uma atenção especial precisamente à noção de liberdade
    • Não basta defender a liberdade; é necessário dar um passo atrás e refletir sobre o que entendemos por liberdade
    • Esta reflexão deve confrontar os usos perversos do conceito, como aqueles perpetrados por regimes autoritários
  • O abuso psiquiátrico como exemplo da perversão do discurso sobre a liberdade
    • Regimes autoritários e totalitários frequentemente caracterizavam oponentes políticos como mentalmente doentes para neutralizá-los
    • O Instituto Serbsky em Moscou serviu como carro-chefe psiquiátrico para o controle político punitivo na União Soviética
    • Seus psiquiatras desenvolveram métodos dolorosos de drogas para extrair depoimentos em investigações de segurança nacional
  • A “esquizofrenia lenta” como desordem política inventada
    • O poder psiquiátrico de encarcerar se baseava num distúrbio mental político inventado: a “esquizofrenia lenta” (vyalotekushchaya)
    • Os sintomas descritos incluíam “inflexibilidade de convicções”, “exaustão nervosa causada pela busca por justiça”, “tendência à litigância” ou “ilusões reformistas”
    • A premissa subjacente era que uma pessoa teria que ser insana para se opor à ordem comunista soviética existente
    • O “tratamento” envolvia injeções intravenosas dolorosas de drogas psicotrópicas que levavam à inconsciência
  • A rejeição incondicional da prática, mas o reconhecimento de um núcleo de verdade teórica
    • Embora essa noção e prática devam ser rejeitadas incondicionalmente, deve-se endossar a ideia de que há algo de “louco” na liberdade radical
    • Kant e Hegel sabiam disso: estavam cientes de que a liberdade, em sua forma mais radical, é uma doença
    • É algo que parasita nosso bem-estar orgânico, algo destrutivo e autodestrutivo
    • Em termos freudianos, algo que opera “além do princípio do prazer”
  • O caráter fundacional da “doença” da liberdade
    • Em contraste com a ideologia do Instituto Serbsky, Kant e Hegel sabiam que esta “doença” da liberdade é o próprio fundamento de nossa existência social “normal”
    • Por isso, nossa vida “normal” está irremediavelmente exposta à ameaça da liberdade
    • A normalidade social é constitutivamente fraturada e sustentada por um excesso traumático
  • A homologia exata na filosofia prática de Kant
    • Em Kant, há uma homologia exata entre a lei moral e a liberdade
    • A lei moral é o ratio cognoscendi de nossa liberdade, a única prova de que posso agir autonomamente
    • No entanto, ela é ao mesmo tempo experimentada como um intruso traumático estrangeiro em nossa vida interior imanente
    • Ou seja, como algo que funciona “além do princípio do prazer”
  • A liberdade como doença em sua base mesma
    • A liberdade não é apenas algo que pode ser distorcido ou adoecer; em sua base mais fundamental, ela é* uma doença * Por isso, como Kant colocou, o ser humano é um animal que precisa de um mestre para discipliná-lo/educá-lo * A necessidade de disciplina não é meramente uma compensação por uma falta instintiva * A dupla fundamentação kantiana da necessidade de disciplina * A disciplina ou treinamento muda a natureza animal em natureza humana; o animal já é tudo o que pode ser devido ao seu instinto * O ser humano, carente de instinto, precisa de sua própria inteligência e deve elaborar o plano de sua conduta * Como não está imediatamente em posição de fazê-lo, outros devem fazê-lo por ele * A selvageria “não-natural” e a paixão pela liberdade * A necessidade de disciplina também se fundamenta positivamente na “selvageria” não natural ou paixão pela liberdade específica da natureza humana * Selvageria ou indisciplina (*Wildheit) é independência das leis; através da disciplina, o homem é submetido às leis da humanidade
    • Por natureza, o homem tem uma propensão tão poderosa à liberdade que, quando se acostuma a ela, sacrificará tudo por ela
  • A paixão como forma de aparência da liberdade radical
    • A forma predominante desta estranha “selvageria” é a paixão: um apego a uma escolha particular tão forte que suspende a comparação racional
    • Quando estamos sob o domínio de uma paixão, nos apegamos a uma certa escolha a qualquer custo
    • Para o homem natural, a inclinação à liberdade como paixão é a mais violenta de todas
    • A paixão é como tal puramente humana: os animais não têm paixões, apenas instintos
  • O caráter “não-natural” da selvageria kantiana
    • A selvageria kantiana é “não-natural” no sentido preciso de que parece quebrar ou suspender a cadeia causal que determina todos os fenômenos naturais
    • É como se, em suas manifestações aterradoras, a liberdade noumenal transparecesse por um momento em nosso universo fenomênico
    • O Unbehagen in der Kultur de Freud poderia e deveria ser parafraseado como “descontentamento com a liberdade”
  • A ansiedade como afeto constitutivo da liberdade
    • Nunca nos sentimos à vontade na liberdade; quanto mais livres, mais habitamos a ansiedade
    • A liberdade é uma daquelas noções enganadoras que parecem autoevidentes, mas que, ao dissecá-las, nos envolvem em ambiguidades e contradições
  • O exemplo paradigmático das ambiguidades da liberdade: o asno de Buridan
    • A melhor ilustração destas ambiguidades é a situação imaginada na expressão “asno de Buridan”
    • Um asno igualmente faminto e sedento morre de fome e sede, incapaz de decidir entre um monte de feno e um balde de água
    • Na eletrônica digital, algo similar aparece como “metastabilidade”: o circuito fica preso num estado “indecidido”
  • O asno de Buridan como Grau Zero da liberdade
    • Longe de ser uma exceção patológica, a postura do asno de Buridan é, em certo sentido, o Grau Zero da liberdade
    • Se um cálculo claro nos disser o que fazer, simplesmente seguimos o cálculo das razões; não há dúvida, oscilação e, consequentemente, não há liberdade
    • Mas se, numa escolha entre equivalentes, apenas seguirmos a razão, morremos
    • Todas as decisões radicais são indecidíveis; apenas a decisão em si torna as razões para ela palpáveis e aparentes
  • A estrutura temporal paradoxal da decisão livre
    • A escolha livre, como a de um objeto de amor, não pode ser ordenada; porém, uma vez apaixonados, a experimentamos como nosso destino
    • Podemos enumerar razões para nos apaixonarmos, mas essas razões aparecem como razões apenas depois de já estarmos apaixonados
    • Nunca estamos numa posição externa confortável para comparar razões para nos apaixonarmos por diferentes pessoas
  • A homologia estrutural com a fé religiosa
    • Kierkegaard diz o mesmo sobre a fé: não se adquire fé em Cristo após comparar religiões e decidir pelas melhores razões
    • Há razões para escolher o cristianismo, mas estas razões aparecem apenas depois de já ter escolhido, ou seja, dado o salto de fé
    • Para ver as razões da crença, já é preciso crer
  • A extensão ao compromisso político marxista
    • O mesmo vale para o marxismo: não é após analisar objetivamente a história que me torno marxista
    • Minha decisão de ser marxista (a experiência de uma posição proletária) me faz ver as razões para isso
    • O marxismo é o paradoxo de um conhecimento objetivo “verdadeiro” acessível apenas através de uma posição subjetiva parcial
  • O salto consciente da indecisão à certeza do destino
    • Em nossa experiência consciente, pulamos diretamente da não-decisão do asno de Buridan para a certeza de termos descoberto nosso destino
    • O momento puramente virtual da decisão (escolha livre) que nunca ocorre no presente de nossa realidade é o momento da liberdade radical
    • É o momento da “liberdade como tal”, paralelo à “linguagem como tal” de Walter Benjamin
  • A “linguagem como tal” e a linguagem humana em Benjamin
    • O ponto de Benjamin não é que a linguagem humana seja uma espécie de uma linguagem universal “como tal”
    • Não há linguagem realmente existente além da linguagem humana
    • Porém, para compreender esta linguagem “particular”, é preciso introduzir um hiato que separa a linguagem realmente existente da linguagem “como tal”
    • A linguagem “como tal” é a estrutura pura da linguagem privada das insígnias da finitude humana
  • A linguagem como meio básico da liberdade
    • A linguagem é o meio básico da liberdade, não apenas como meio que nos permite pensar e dizer o que queremos
    • Inclui também o que Lacan chamou de lalangue: a linguagem em todas as suas ambiguidades e trocadilhos não intencionais
    • Lalangue abre o espaço no qual podemos resistir ao discurso hegemônico do poder
  • O exemplo do Cavalo de Lama (Căonímă) na internet chinesa
    • O Cavalo de Lama é um meme da internet baseado num trocadilho com as palavras mandarim para “foder sua mãe”
    • É um caso exemplar do discurso de resistência dos usuários da internet chinesa, uma mascote na luta pela expressão livre
    • Faz parte de uma cultura mais ampla de sátira, paródia e bricolage conhecida como e'gao
  • A oposição radical entre “liberdade como tal” e “linguagem como tal”
    • “Linguagem como tal” é uma estrutura pura assubjetiva, sem desejo inscrito nela e, consequentemente, sem liberdade atuando nela
    • Esta estrutura só se subjetiva através das idiossincrasias de lalangue
    • O mesmo corte entre “como tal” e realidade experimentada está também em funcionamento na liberdade
  • O estatuto diferenciado dos dois “como tal”
    • Além (ou sob) os atos livres de um sujeito atual, está o abismo da liberdade “pura”
    • O estatuto da “linguagem como tal” é simbólico, uma estrutura estável
    • O estatuto da “liberdade como tal” é o de um Impossível/Real, uma singularidade que surge e desaparece
    • Todo o mistério da subjetividade reside na co-dependência destes dois momentos opostos
  • A perspectiva hegeliana: a liberdade como sujeito
    • De uma perspectiva propriamente hegeliana, não devemos limitar a liberdade a um predicado de alguma entidade
    • No ponto mais alto da liberdade, a liberdade mesma é o sujeito, e nós somos seus predicados, seus instrumentos
    • O refrão da antiga canção comunista alemã “A liberdade tem soldados!” capta esta inversão
  • O risco “totalitário” e sua verdade revolucionária
    • Pode parecer que tal identificação de uma unidade particular como instrumento militar da própria Liberdade seja a fórmula da tentação “totalitária”
    • No entanto, esta identificação não pode simplesmente ser descartada como um curto-circuito fetichista
    • Ela é verdadeira para a explosão revolucionária autêntica: na experiência “extática”, o sujeito que age não é mais uma pessoa, mas um objeto
  • A dimensão teológica da identificação revolucionária
    • É esta dimensão de identificação com um objeto que justifica o uso do termo “teologia”
    • “Teologia” é aqui um nome para o que está, num sujeito revolucionário, para além de uma mera coleção de indivíduos humanos
    • Em nossas vidas diárias ordinárias, somos livres, a liberdade é uma propriedade humana
    • Numa situação revolucionária autêntica, a liberdade mesma se torna um sujeito e age através de nós; nos reduzimos a seus objetos
  • O componente religioso da eleição
    • No nível da liberdade subjetiva, eu (um agente-sujeito) faço uma escolha livre
    • No nível da própria liberdade agindo, eu não sou o agente da escolha; eu mesmo sou escolhido
    • Como Deleuze colocou: “Eu realmente escolho apenas se sou escolhido”
    • Devemos admitir sem vergonha o ponto frequentemente feito contra a noção marxista de agente revolucionário: ele é escolhido no sentido religioso do termo
  • A coincidência de liberdade e necessidade no ponto mais alto
    • Neste ponto mais alto, quando somos reduzidos a objetos, liberdade e necessidade coincidem
    • No entanto, estamos o mais longe possível de nos tornarmos apenas uma engrenagem numa estrutura que nos determina
    • As decisões livres só são possíveis dentro de uma estrutura que é em si mesma subjetivada através de uma inconsistência imanente
  • A estrutura subjetivada do discurso diplomático
    • A citação de Agnes Sligh Turnbull sobre o diplomata (“sim” significa “talvez”; “talvez” significa “não”; dizer “não” o torna um péssimo diplomata) ilustra uma estrutura
    • O que faz desta tríade uma estrutura (no sentido estruturalista estrito) é o corte entre a segunda e a terceira afirmações
    • Enquanto as duas primeiras explicam o significado real de uma afirmação, a terceira muda o terreno para a desqualificação direta do sujeito da enunciação
  • A inconsistência imanente como condição da liberdade
    • Um verdadeiro diplomata é definido por um desequilíbrio entre o que diz e o que significa: nunca diz “não”, mas também nunca significa “sim”
    • A estrutura nunca é simplesmente “objetiva”; ela sempre inclui um momento de subjetivação
    • É esta inconsistência ou desequilíbrio imanente na própria estrutura que abre o espaço para o ato livre, em vez de simplesmente determiná-lo
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