rosset:1971:1.4
1.4 Aprovação
ROSSET, Clément. Logique du pire: éléments d'une philosophie tragique. Paris: Presses Universitaires de France, 1971.
FINALIDADE DA INTENÇÃO TERRORISTA: UMA EXPERIÊNCIA FILOSÓFICA DA APROVAÇÃO
- Resta a questão da finalidade da intenção terrorista: se o conteúdo trágico já é conhecido de todos, qual o benefício de abrir-lhe acesso a um discurso?
- Antes de responder, convém retomar a noção de “evento” recusada pelo pensamento trágico, e de “ato”, que é o evento cujo autor é o homem.
- O pensamento trágico recusa também toda possibilidade de ato e não aposta em nada no domínio da evolução histórica, por menor que seja o sentido dado a “história”.
- Recusa agir sobre si, sobre a história e sobre o mundo, mesmo que tal possibilidade dependa de uma aposta, como afirma Goldmann em O Deus oculto ao subordinar o ponto de partida do marxismo a uma aposta pascaliana.
- O pensamento trágico não duvida das consequências do ato, mas da possibilidade do ato mesmo, que assimila a um aporte fortuito incapaz de modificar o acaso de “o que existe”.
- O ato não é “vivo” ou “livre-arbítrio” transcendendo a ordem mecânica da natureza, como em Bergson, mas acréscimo natural a uma mesma natureza, acaso somado ao acaso.
- Agir modifica algo cuja natureza é modificar-se; assim, a intervenção não é evento, pois todas as suas capacidades estão previstas no registro prévio de todas as modificações possíveis.
- Se tudo é evento, nada é evento: um evento a mais só acrescenta quantidade sem alterar a qualidade, como um grão de areia ao monte de areia.
- Há antinomia entre acaso e modificação: o acaso é o não modificável, e o ser não pode mudar de natureza por não constituir uma “natureza”, daí a inanidade de toda ação sobre a “natureza”.
- Pode-se imaginar mudado o azul do céu ou o verde do prado, mas não o acaso que engendra as cores, o céu e os prados, e crer que um evento a mais modificará a soma dos eventos é esperar modificar a água com uma nova molécula de água.
- O acaso não é modificável, e essa intuição fundamental recusa a toda filosofia qualquer alcance “prático”.
- Há, contudo, um certo ato ou evento capaz de afetar a vida dos homens com um ínfimo coeficiente de modificação.
- Esse ato, mínimo, mas essencial, é o único notável para o pensamento trágico por ser o único possível, e não é nem prático, pois nada modifica em “o que se passa”, nem propriamente filosófico, pois nada modifica em “o que se pensa” e não se compara à “vontade” de Schopenhauer.
- O ato em questão concerne apenas ao modo como uma pessoa representa a si mesma seus pensamentos e ações, a cada instante de uma existência em que nenhum ato nem representação lhe pertencem em propriedade.
- A aprovação é o único ato a que o pensamento trágico reconhece valor de “evento”, e cabe perguntar em que sentido ela pertence à “disponibilidade” humana, por que é a única questão que interessa ao pensamento trágico e por que está na origem da intenção terrorista, definindo sua finalidade específica.
- A dúvida prevalece sobre toda questão, mas quanto ao sim ou não a resposta é dada de saída: “o que existe” não existe apenas de fato, recobre também tudo o que é concebível como desejo.
- Os pensamentos mais cruéis são bons de pensar, os atos mais inúteis bons de fazer e as vidas mais pobres boas de viver.
- Para a lógica do pior, a aprovação incondicional é condição necessária das filosofias verdadeiramente trágicas e o sinal que permite reconhecê-las de imediato.
- Pensamentos como os de Kierkegaard, Chestov e Unamuno reivindicam uma visão trágica sem aprovação incondicional; empenham-se no trágico onde é impossível não fazê-lo, como diante da morte, mas não têm domínio direto sobre ele e falham o campo exato que excluíram de sua capacidade aprovadora, pois tudo o que não foi aprovado é trágico negado.
- Transfigurar o trágico em contradição tem o benefício não trágico de afirmar a necessidade de uma solução; mesmo que radicalmente fora de alcance, resta que o dado bruto “carece” de algo, o que interdita a aprovação incondicional e a afirmação trágica.
- A pensamento pseudotrágico nunca põe a “solução” como fora de questão, mas apenas fora de realização, deslocando-a para uma perspectiva religiosa ou metafísica, mesmo de intenção ateia, como no pessimismo schopenhaueriano.
- O que constitui a visão trágica é afirmar o caráter absurdo da própria noção de solução: se o homem precisa de uma solução, algo lhe falta, e isso é negar o trágico, perspectiva segundo a qual nada falta ao homem.
- Por isso um otimismo dogmático leibniziano é mais trágico que toda filosofia pseudotrágica: se se fizesse abstração de seu fundamento metafísico, seria talvez a única filosofia absolutamente trágica, pois a afirmação do melhor dos mundos possíveis interdita todo apelo ou recurso, e o homem não carece de nenhum melhor.
- Isso é mais pior que as formas de pessimismo e de “realismo” opostas no rastro de Voltaire, e valeria a fortiori para Spinoza.
- A lógica do pior ensina a necessidade do vínculo entre pensamento trágico e aprovador, sinônimos para ela, por três grandes razões teóricas que respondem às três questões colocadas.
- Em primeiro lugar, a filosofia trágica considera a aprovação, e seu contrário, o suicídio, o único ato cuja disponibilidade é deixada ao homem, portanto a única forma de “ato”.
- Não que o homem seja “livre” de dizer sim ou não, pois as motivações psicológicas para afirmar ou negar não são de um imaginário livre-arbítrio.
- É disponibilidade porque aprovar ou não aprovar é um ato capaz de modificar “o que existe”, e o único.
- A imagem de Pascal ganha aqui seu sentido mais profundo: o homem está embarcado como passageiro de um avião de linha, sem acesso a nenhum comando de direção, incapaz de desviar sua vida ou seu sentido, e uma aposta sobre a direção geral da viagem, como a quer Pascal, está fora de alcance como fora de sentido.
- Tudo o que o homem pode “fazer” é solidarizar-se ou não com sua viagem, aceitá-la (aprovação global) ou recusá-la (desaprovação global, isto é, suicídio), e, como diz Pascal, não há solução mediana: todo outro termo da alternativa é ilusório, mesmo quando “vivido”.
- A necessidade do sim ou do não pressupõe ter decidido escolher, isto é, cumprir o único ato disponível ao viajante; pode-se também não agir, solução habitual dos homens de vida “ativa”.
- A diferença entre renunciar a todo ato e relegar toda “atividade” à questão da aprovação parece mínima, e a maioria dos homens vive sem jamais agir, adiando a única forma de ato reconhecida pelo pensamento trágico.
- Só terão “agido” na vida os suicidas e os afirmadores incondicionais; se a “moral” tivesse sentido para o pensamento trágico, seu único critério seria a “dignidade” de aprovar ou negar globalmente, de viver querendo ou morrer querendo.
- Em segundo lugar, o privilégio da aprovação está em seu caráter incompreensível e injustificável.
- Onde os pensamentos não ou pseudotrágicos se queixam de uma “falta”, o pensamento trágico é sensível à incompreensível existência de um “excesso”.
- Se nenhuma crença jamais conseguiu aderir a algo e nenhuma forma de felicidade foi jamais descrita, toda “alegria de viver” é irracional e filosoficamente abusiva, isto é, “a mais”.
- Essa alegria existe e se experimenta cotidianamente sem justificação alguma, pois todas as justificações são tidas por incríveis.
- Inverte-se assim a problemática da necessidade de satisfação: o júbilo não falta aqui embaixo, é sempre demais, e seu caráter inesgotável, pois nada alimenta a fonte, define o espanto do filósofo trágico, cujo primeiro assombro é que a alegria seja, e não a dor.
- Em terceiro lugar, precisam-se os elementos de uma aposta trágica, que explica em profundidade a finalidade da intenção terrorista.
- O pensador trágico deve confessar sua única “valor” ou pressuposto: o caráter impensável e portanto invulnerável da aprovação, hors de portée de todo pensamento.
- Aposta-se no caráter indestrutível da aprovação e, para experimentá-lo filosoficamente, faz-se jogar a fundo as piores considerações pensáveis, única condição em que o não suicídio pode ser “moralmente” recomendável.
- A força do pensamento trágico é solidária à da aprovação, e ambos perecem ou vivem juntos.
- O filósofo trágico é um pensador submerso pela alegria de viver que, reconhecendo-a impensável, deseja pensar ao máximo sua prodigalidade impensável, e os melhores meios filosóficos para tal são os do pensamento trágico: o máximo de alegria pensável define-se pelo máximo de trágico pensável.
- A pior das filosofias não define a potência aprovadora, mas o ponto mínimo a partir do qual se pode dizer que a alegria é ao menos mais que isso, potência que basta para evacuar o que se pôde constituir de mais envenenado em pensamento.
- A filosofia trágica é arte dos venenos, em busca incessante dos piores, e pensa o pior para prestar alguma honra filosófica à sua aprovação.
- O pensamento trágico já está seguro de que a aprovação subsistirá, e a aposta é apenas jogo, sabendo-se de antemão que o veneno será ineficaz; o ponto indeciso é se o pior pensado, no momento da aprovação, está à altura das capacidades intelectuais, para não oferecer à alegria um pensamento de pessimismo aparentemente leve ou otimista diante de outra forma de pensamento trágico.
- Disso resulta certa indiferença do pensamento em jogo quanto ao conteúdo de seu próprio pensamento.
- Essa indiferença não vem de tomar seu conteúdo por frágil diante das “verdades” de outras filosofias, mas de saber que o “pior” que dele emerge tem caráter duplamente relativo.
- É relativo ao ponto mais ou menos fortuito em que chegou: um pior provisório, válido para seu tempo e necessidade, destinado a ser substituído por nova teoria do pior, mais rica e penetrante.
- É relativo ao fim que se propõe, tomar uma medida aproximada de sua aprovação presente, confrontando cada aprovação com o pior provisoriamente pensável naquele instante feliz.
- Esse cuidado de pensar o pior pensável a cada experiência de aprovação, que pode parecer vão e em certo sentido o é, define os dados da aposta trágica.
- “O pior” não designa uma pensamento negro, mas a ausência de toda pensamento “róseo”, isto é, a ausência de todo pensamento, dado o vínculo fundamental entre otimismo e pensamento constituído.
- Por isso o “pior” está sempre por rever, pois cada década traz seu lote de novos pensamentos róseos a evacuar.
- Querer pensar o pior é recusar pensar pensamentos já constituídos, mas o pensador trágico não acaba por pensar exatamente nada.
- Em lugar dos pensamentos que destruiu, ele pensa algo que não é nada e será descrito como “acaso”, e pensa algo novo sobre a aprovação: sua independência em relação a todos os pensamentos.
- Ao fim da lógica do pior, sabe-se o lugar experimental de uma aprovação não submetida à afirmação prévia de nenhum pensamento nem verdade.
- Nesse sentido torna-se “aprovador do acaso”, sabendo que a experiência da aprovação dispensa toda referência, e o acaso passa a ser critério da aprovação: toda afirmação que não aceita sem restrições o acaso é dependente, hipotecada e pseudoafirmadora.
- A maior parte das filosofias não trágicas não é afirmadora porque precisa de um referencial para se julgar “fundada” a afirmar: mesmo desesperando de alcançá-lo, conservam a ideia de que “há” verdade em algum lugar, senão tudo se torna vão.
- O trágico, ausência de verdade e de referencial, não poderia por elas ser objeto de aprovação, o que confirma o vínculo entre trágico e aprovação.
- O pari trágico tem origem explícita, embora deformada, em Pascal e implícita em Lucrécio e Montaigne: o pensador trágico aposta “a favor” ou “contra”, mas seus termos não são os do célebre argumento pascaliano.
- O pari trágico está presente em toda parte nas Pensamentos, exceto nas páginas consagradas à “aposta”.
- O que se precisa nele não é a aposta nem a escolha da mesa, já conhecidas: a aposta é a aprovação, e sabe-se que se apostará nela.
- Está em causa apenas a quantidade de chances da casa em que já se decidiu apostar, o que aproxima do pari pascaliano, mas a contrario.
- O apostador trágico quer assegurar-se não de que sua opção tem as chances máximas, mas as mínimas: que sua mesa é tão perdedora quanto lhe parece e que a aprovação em que engaja seu pensamento não esconde nenhuma consideração que uma reflexão mais profunda revelaria ilusória.
- Trata-se de determinar que a escolha é filosoficamente tão perdedora quanto se pode pensar, por honestidade de jogo e por interesse no próprio ato aprovador.
- Apostar num trágico cujo pensável não foi todo pensado arruinaria a clareza do jogo e a natureza da aprovação em jogo.
- Em termos aritméticos, quem afirma uma chance em um bilhão quer ao menos ter certeza de que, examinada mais de perto, ela não se revelará mais tênue, nem por uma unidade.
- Em termos filosóficos, quem aprova quer ter certeza não de tudo ver, mas de ver todo o visível do horror do que aprova.
- Está aí a angústia do pensador trágico e o lugar de sua tensão específica: não um problema de conteúdo trágico, mas do problema da visão do trágico, sendo o pior não vê-lo.
- Nesse sentido, o Dr. Logre diz, a propósito da Angústia de Lucrécio, que o próprio do temperamento angustiado não é o medo de ser acuado ao trágico, mas a incerteza quanto ao valor da visão.
- O “voyeurismo” trágico não é deleite no espetáculo do sofrimento, mas interesse maior pela qualidade da aprovação: o lógico do pior não deseja nem teme a natureza do que aprova, mas teme que o “como” aprova seja condicionado e desvalorizado por uma visão insuficientemente trágica do que aprova.
- Tais são os termos do pari trágico: reduzir ao máximo as chances da aposta e convencer-se de que não se aposta em nada além do que se pretende.
- Daí a economia às avessas praticada pelo terrorismo filosófico, cuja fonte é o cuidado de afirmar o caráter incondicional da aprovação.
- O filósofo afirmador é terrorista porque, a seus olhos, o terrorismo é a condição filosófica de todo pensamento da aprovação.
- O itinerário do pensamento trágico é determinar o pior dos pensamentos e nele manter-se até que se exume um pensamento pior, e, para conservar a invulnerabilidade da aprovação subjacente, o materialismo de Lucrécio e o ceticismo de Montaigne são soluções provisoriamente boas, à espera do pior.
- Um tal terrorismo pouco se importa com proselitismo, limitando-se a fazer a experiência filosófica de sua própria aprovação, como diz Lucrécio: é a ti que me dirijo, Mêmio.
- O pensador trágico admite de bom grado que outros atribuam ao exercício da filosofia objetivos justamente considerados por eles menos frívolos.
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