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Ortega

Ortega y Gasset, José (1883-1955)

A saudação dirigida por Heidegger a J. Ortega y Gasset em 1955 tem, evidentemente, todo um contexto (GA 13, 127-129). Este escritor espanhol (autor de um livro notável sobre Velázquez) deveu grande parte de sua formação à Alemanha. Atraído pelo neokantismo reinante em sua juventude, veio estudar em Marburgo e Berlim. Ele é um aluno de Dilthey, para quem viver implica sentir-se vivo (das Lebensgefühl). Da mesma forma, M. De Unamuno falou do sentimento trágico da vida. Sabe-se que a obra de Dilthey interessou Heidegger e que este autor está significativamente presente em Ser e tempo. O que Heidegger deveria destacar sob os nomes de ser no mundo e disponibilidade certamente deve algo a Dilthey. A análise existencial desenvolvida na primeira parte do livro de 1927 é certamente uma originalidade de Heidegger, mas certas intuições de Dilthey, como as do próprio Ortega y Gasset, puderam ter ido no mesmo sentido.

“Eu sou”, diz Ortega y Gasset, “mas também sou minhas circunstâncias”. Há nessa fórmula famosa, mas um pouco desajeitada (com o uso estranhamente “transitivo” do verbo ser), um certo pressentimento do ser no mundo. Viver, estar vivo, é estar permanentemente em contato com o mundo. É encontrar-se (sich befinden) no mundo, em pleno mundo, em um “contato” com ele que me afeta profundamente. Existem as circunstâncias, ou seja, uma conjuntura, um “clima”, uma certa face que o mundo apresenta: ora ele é hostil, ora é alegre, tranquilizador, acolhedor, ora ainda é sombrio, banal, indiferente. E no meio disso tudo estou eu, no “estado” em que me encontro. Estou em forma, cansado, triste, desamparado, com vontade de trabalhar, com sono, gripado, feliz, apaixonado, entediado, etc. A todo momento, encontro-me assim mergulhado “no banho da existência”. E é isso que expresso quando digo que me sinto bem ou que me sinto oprimido, aliviado, revigorado, etc. Quando o mundo se apresenta fechado, repulsivo, sinistro (“Quando o céu baixo e pesado pesa como uma tampa”), quando estou mal acordado, desmoralizado, “indisposto”, o peso da existência torna-se esmagador. O mundo me dispõe e eu me disponho em relação a ele.

Eu sou, mas também “sou” minhas circunstâncias. Se, durante uma longa caminhada, me encontro em um determinado momento preso em uma vala cheia de urtigas ao longo de uma rodovia, sem ver uma saída imediata para a situação, esse é um ser no mundo que, em certo sentido, eu quis e onde, em outro sentido, me encontro surpreso. De qualquer forma, é preciso enfrentar a situação: não há mais como recuar! Assim, viver, estar no mundo implica sempre estar presente. Ser, existir é, em um determinado momento, no intervalo entre o nascimento e a morte, estar presente. A existência traz consigo, por assim dizer, um sentimento de existência: sentimo-nos felizes, cansados, infelizes, dinâmicos, “esvaziados”, eufóricos, irritados, etc., e esse sentimento, longe de ser algo secundário, é um aspecto fundamental da existência.

François Vezin


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