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bornheim:1980:1.7

1.7 Marxismo

BORNHEIM, Gerd. O Idiota e o Espírito Objetivo: Ensaio sobre o Teatro de Nelson Rodrigues. Porto Alegre: Editoras Globo, 1980.

O Idiota e o Espírito Objetivo

7. Um Diálogo Difícil: Psicanálise e Marxismo

1. A insuficiência da consideração do social na doutrina de Freud exige socializá-la, problema antigo que se adensa no diálogo entre psicanálise e marxismo, frequentemente cristalizado em extremos excludentes, e que não se resolve com asserções genéricas sobre a natureza humana nem com a harmonização exterior de verdades parciais, mas com o respeito e a radicalização das contradições, pois o hoje, carregado de sentido social e histórico, inexiste em Freud justamente por um compromisso excessivo com esse mesmo hoje, de modo que, como diz Adorno, Freud tinha razão onde não tinha razão.

2. Freud tinha razão por exprimir adequadamente a realidade humana atomizada da família burguesa, essa fábrica de neuroses, mas aceitou ingenuamente a estrutura monadológica da sociedade como axioma, quando a psicanálise, como toda ciência, é produto das necessidades sociais de seu tempo, pois cada época tem a ciência e a terapia que merece e de que precisa, e é a História, mais que a doutrina, que importa.

3. A falta de senso histórico da psicanálise clássica repousa na separação obstinada entre Sociologia e Psicologia, que levou a absolutizar dados relativos a uma cultura ou classe, generalização atrofiante corrigida em parte pelo diálogo com ciências limítrofes, sobretudo pela etnopsicanálise e suas investigações sobre a pretensa universalidade do complexo de Édipo.

4. O diálogo entre marxismo e psicanálise, auspicioso nos anos vinte com Wilhelm Reich, degenerou na intolerância estéril de freudianos ortodoxos e marxistas stalinistas e só ganhou novo alento com o desmantelamento desses dogmatismos, cegueira tanto mais desastrosa quanto nada se compreende no mundo contemporâneo sem Freud e Marx, que pensam os valores cardeais do sexo e do dinheiro e os submetem a uma crítica subversiva, o que explica a aspereza e ao mesmo tempo a necessidade desse diálogo.

5. A investigação sobre Flaubert, que visa fazer aparecer o encontro entre o desenvolvimento da pessoa explicado pela psicanálise e o desenvolvimento da História, vai mais longe que qualquer outro estudo nesse sentido ao recusar tomar as duas doutrinas como sistemas fechados e autossuficientes, cujo exclusivismo converte o saber em ceticismo, seja o psicanalítico, que reduz a obra de Kierkegaard à instituição de sua infância, seja o do mau marxismo, que a reduz ao condicionamento histórico de suas origens sociais.

6. O problema se concentra na relação entre Psicologia e Sociologia, ou entre suas manifestações críticas, psicanálise e marxismo, cuja recusa ao diálogo instaura a ignorância ao isolar o indivíduo e neutralizar a sociedade, exigindo uma síntese que desmascare a suficiência das doutrinas e pense a unidade e as mediações entre indivíduo e sociedade sem sacrificar um termo ao outro, num saber totalizante do singular universal.

7. A posição da Escola de Frankfurt, para a qual Adorno exige a separação total e sem mediações entre as duas teorias, porque indivíduo e sociedade se dão hoje separados e Freud teria o mérito de desnudar um indivíduo arcaico refratário ao social, propõe um equilíbrio apenas aparente, pois, apesar da crítica ao culto da Psicologia como ideologia compensatória, seus resultados tendem a alinhar-se ao psicologismo freudiano em detrimento do social.

8. Sem aceitar equilíbrios insustentáveis, a evolução de Sartre atesta, contudo, a vigência da separação entre indivíduo e social, vivida como conflito por Flaubert, condenado como homem e artista a refugiar-se no imaginário, e o pathos dessa separação persiste no filósofo, que em 1975 prefere a etiqueta de existencialista à de marxista e mantém uma atitude crítica diante de Marx e sobretudo dos marxistas, num conflito que não se aquieta.

9. A lição de Marx de que o indivíduo isolado, longe de ser originário, só surge na sociedade burguesa das relações sociais mais desenvolvidas, sendo o homem um animal político que só se isola dentro da sociedade, comporta dois pontos, o de que a individualidade é produto da sociedade e o de que é absurdo compreender o indivíduo sem a vida social, este último plenamente assimilado por Sartre, para quem o indivíduo reduzido a si mesmo é paixão inútil e o ser-no-mundo se adensa num contexto social determinado.

10. Quanto ao primeiro ponto, o surgimento do indivíduo, ligado em Marx a uma estrutura social definida, é tratado por Sartre como dado absoluto, de modo que o condicionamento social se subordina ao indivíduo e a análise busca esclarecer não o burguês, mas o homem sem adjetivos, o universal singular totalizado por sua época e que a retotaliza em sua singularidade, ênfase que, ao pressupor as teorias gerais da História sem delas deduzir o indivíduo, se justifica diante do risco atual de afogá-lo numa paisagem humanamente neutra.

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