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Cioran

Emil Cioran (1911-1995)

PARFAIT, Nicole. Cioran ou le défi de l’être. Paris: Desjonquères, 2001.

Emil Cioran, morto em 1995, conhece há cerca de vinte anos uma notoriedade que nem o niilismo de seu pensamento nem a fatura de seus escritos permitiriam prever — e razões que vão além das filológicas ou biográficas explicam esse sucesso recente.

  • Pensador sem complacência em perpétua busca de si mesmo, cético por natureza e por recusa das falsas evidências, grande fustigador das ideologias que governaram seu século.
  • Em época de crise generalizada dos valores — crise da história após o colapso do império soviético, crise dos sistemas econômicos, crise do pensamento proclamando a morte da filosofia, crise da moral reduzida a regras de deontologia —, a crítica implacável que Cioran submete todos os sistemas é de incontestável atualidade.
  • Ateu impenitente admirador do Tao, defensor da preguiça e por muito tempo fascinado pelo suicídio, combatente do progresso pregando um desprendimento do mundo, ele seria o moralista que nossos tempos de incerteza esperavam.
  • A beleza de um estilo que alia suntuosidades barrocas ao mais puro classicismo seduz num tempo em que a escrita se degrada em instrumento de transmissão de conteúdos superficiais — e isso num país que, segundo Cioran, é o único onde a língua sempre gozou de caráter sagrado.
  • A exumação recente de suas tomadas de posição políticas nos anos 1930 — seu engajamento ao lado da Guarda de Ferro numa Romênia presa a um delírio de potência — lançou suspeita sobre sua obra, à semelhança do que ocorreu com Heidegger após a redescoberta dos textos políticos de 1933 e 1934.
  • Cioran fez declarações pró-hitlerianas e antissemitas em numerosos artigos na imprensa romena de extrema direita, bem como um messianismo nacionalista em Schimbarea la față a României (A Transfiguração da Romênia), publicado em 1936.
  • Contrariamente a Heidegger, Cioran condenou abertamente em diversas ocasiões sua “loucura” de então — e toda a obra ulterior é uma tentativa incessantemente retomada de circunscrever as razões de seus desvarios e deles tirar conclusões.
  • O ódio visceral de todos os “mundos de trás” que subjaz a seu pensamento nasceu dessa experiência dramática.

Embora esses traços constituam aspectos do pensamento de Cioran, não fornecem uma chave que dê acesso à unidade profunda de sua obra — o próprio pensador afirma que todos os seus livros, tanto romenos quanto franceses, “procedem de uma mesma visão, de um mesmo sentimento do ser”, acrescentando: “essa visão não me abandonou. O que mudou foi minha maneira de traduzi-la.”

Na ausência dessa chave, recorreu-se com frequência à biografia e às entrevistas concedidas pelo escritor para explicar escritos percebidos como inclassificáveis.

  • O próprio Cioran não cessava de estabelecer pontes entre seus escritos e suas experiências — como a estreita correlação entre a experiência dolorosa da insônia e a defesa do suicídio como possibilidade essencial da existência, ou entre seu conhecimento aprofundado da filosofia alemã e dos espiritualistas russos e sua condenação sem apelo da racionalidade.
  • O procedimento biográfico tem, porém, seus limites — o eu que o autor ausculta não é o mesmo nas entrevistas e nos escritos.
  • O eu elaborado nas entrevistas, por meio de relatos repetitivos e quase obsessionais de eventos que teriam estruturado sua personalidade — como a partida de Rașinari, a rejeição materna ou a descoberta da necessidade de escrever em francês ao tentar traduzir Mallarmé para o romeno —, responde a fins narcísicos complexos, não sem uma coqueteria que se compraz em depreciar o papel do pensamento.
  • O segundo eu transparece nos livros: trata-se de uma espécie de estado de exaltação em que Cioran se mantém, exacerbando obsessões, paixões e sofrimentos — a raiva que nasce dessa exacerbação dos humores lhe dá a força de produzir uma obra que revela, a partir da experiência de um vivido excessivo, a essência da condição humana.
  • Essa vida dilacerada é ela própria mais o efeito de um projeto estético e metafísico participante do sentido da obra do que uma simples dado existencial.

À diferença dos pensadores que viram na existência o fundamento do Ser e, portanto, da história, para Cioran a existência é o lugar de uma fissura original do Ser.

  • Nada poderá jamais preenchê-la — na ausência de um Deus salvador como em Kierkegaard ou de qualquer transcendência fundadora de um sentido, como o Ser em Heidegger.
  • Essa fissura, contemporânea da consciência, determina em Cioran um dualismo radical, ligado à experiência da estranheza irredutível do corpo ferido, à obsessão da morte e ao não-sentido do mundo testemunhado pelo sofrimento dos homens — e mais ainda pelo das crianças, que nada pode justificar.
  • Esse dualismo revela um autêntico metafísico — mas que se recusa aos subterfúgios inventados pela razão para edificar uma teoria que só poderia contrariar o princípio da existência.
  • “Não há salvação pelo pensamento”, declara Cioran, pois “nenhum pensamento jamais suprimiu a dor e nenhuma ideia afastou o medo da morte.”
  • O paradoxo e a contradição de que Cioran tão frequentemente se serve não são expressão de incapacidade do pensamento — são a expressão de uma dialética essencial inscrita no coração da existência humana, onde “uma lógica inflexível” encerra o homem nos impasses dos quais é tanto instigador quanto vítima.

Esse espírito subversivo, esse “desertor de todas as causas”, não é um niilista de má estirpe — a negação tem um limite: a liberdade.

  • Diante do nada da existência, a liberdade abre ao homem uma alternativa: a recusa pelo escolha da morte ou o desafio.
  • Se a primeira opção, “ao resolver tudo, não resolve nada”, a segunda é o último perigo, pois compromete, além do homem, o Ser em sua totalidade.
  • Em ausência de todo fundamento e de toda verdade absoluta, é preciso, para continuar a viver sem trair o único instinto positivo que resta — o orgulho —, compor para si um rosto, uma identidade.
  • A tentação do demoníaco, à qual os poetas malditos caros a Cioran sucumbiram, foi para ele também a forma primeira do desafio — como revelam os livros escritos durante sua juventude romena, onde a desmedida se torna a medida da vida verdadeira.
  • Em Le Livre des leurres, publicado em 1936, Cioran exorta o indivíduo a jorrar do coração de seu ser numa explosão fanática de ferocidade que, da energia obscura, extraia uma clareza duradoura — tal como Deus fazendo surgir a luz das trevas; liberto de seu intelecto, o homem não é mais “que efervescência, obsessões e loucura”.
  • Querer agir pressupõe crer que se possa mudar o mundo — e foi essa ilusão que, somada a um amor desesperado por seu país, conduziu Cioran a tomar partido pela extrema-direita na Romênia dos anos 1930.

Destruída a ilusão da história e desmascarada a da teoria, resta um outro desafio: a escrita.

  • A decisão de escrever em língua estrangeira — o francês, e não o alemão, que dominava muito melhor — não é fortuita: corresponde à vontade de se apropriar do estrangeiro para melhor circunscrever e dominar a própria natureza.
  • Esse desafio é análogo àquele pelo qual, segundo Hölderlin, os gregos teriam adquirido sua identidade e grandeza — o gesto trágico pelo qual, desde a aurora da civilização ocidental, o homem confere à sua vida a dimensão de um destino.
  • “Onde cresce o perigo, cresce também o que salva”, diz ainda Hölderlin — e somente a passagem pelo estrangeiro pode permitir descobrir o que nos é mais íntimo.
  • Em Cioran, essa passagem não acarreta o esquecimento — permite, ao contrário, compreender melhor os mecanismos das angústias e da frenesia que o habitam e traduzem a derelição do homem abandonado num mundo que não escolheu, sem outro recurso senão uma consciência que lhe revela, com a inevitabilidade da morte, a vaidade da esperança e, portanto, da ação.
  • O estilo — quintessência desse “estrangeiro” que é a língua francesa — mantém o eu à distância, suspende o tempo em que reina o mal e dá acesso a “um ponto de vista absoluto” sobre a existência, revelando sua essência negativa.

Essa busca intelectual e estética não pode, no entanto, fundar regras morais — ainda que o gosto de Cioran pela fórmula o aproxime dos moralistas franceses do século XVIII.

  • Amoral por princípio, essa busca abre contudo uma via — fazendo, no julgamento clarividente de Gabriel Marcel, “surgir do fundo inviolável das almas o silencioso protesto que viria restabelecer, para além do tumulto dos sarcasmos e das blasfêmias, a consciência imarcessível de uma ordem e de uma plenitude”.
  • Recusando todas as ilusões da utopia e, com elas, “essa forma normal do delírio” que é a esperança, a dúvida oferece um remédio contra a angústia.
  • Se a nostalgia do absoluto, herdada do Cristianismo, impede esse cético militante de atingir uma ataraxia pirrônica, o desafio da escrita confere à sua existência o estilo do herói trágico — que enfrenta com coragem e bravura um destino — a morte inevitável — que a liberdade é impotente para desviar.
  • “Aprender a ser perdedor” — mas de cabeça erguida: tal é o sentido último da obra de Cioran.
  • Nesse “dândi metafísico”, sempre pronto a suspeitar de sua própria autenticidade, a elegância, a honra e a dignidade são as virtudes cardinais num mundo reduzido às aparências — virtudes exigentes de um homem para quem a ausência de seriedade e a frivolidade constituem o último grau do sério, e que fazem da existência, apesar da ausência de toda transcendência, de toda verdade e de todo valor universais, uma obra de arte arrancada ao nada.
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