1 Critérios e juízo
CAVELL, Stanley. The Claim of Reason: Wittgenstein, Skepticism, Morality, and Tragedy. Oxford; Nova Iorque: Oxford University Press, 1979.
1. Se não é possível abordar as Investigações Filosóficas a partir do começo da filosofia tardia de Wittgenstein, nem de sua abertura, nem de seu método, nem da história, nem de sua relação crítica com o Tractatus, já que o modo como a obra é escrita é interno ao que ela ensina e ela se escreve sobretudo em crítica de si mesma, resta perguntar onde e como deixar esse livro ensinar alguma coisa.
2. Compreender a filosofia não como um conjunto de problemas dados, mas como um conjunto de textos, significa reconhecer que a contribuição de um pensador criativo não se mede pelo acréscimo a problemas preexistentes, o que se evidencia na variedade de gêneros filosóficos, das parábolas curtas ao Tratado de Hume, às Meditações de Descartes e aos sistemas intermináveis de Kant e Hegel, diante dos quais a modéstia do artigo acadêmico se revela menos modesta do que aparenta.
3. A qualidade de um novo texto mede-se pela qualidade dos textos que ele suscita, e embora a filosofia de Wittgenstein seja a mais atenta à voz humana, seu ensinamento é essencialmente escrito, contendo coisas que não podem ser ditas e que talvez ainda não tenham encontrado o círculo humano em que poderiam ser proferidas com proveito.
4. A pergunta sobre quando uma obra precisa ser escrita conduz à pergunta sobre o que a torna memorável, e o exemplo de Beethoven, cuja música deixa de poder ser relacionada à improvisação e por isso exige esboços, mostra que aquilo que precisa ser esboçado precisa ser escrito, podendo compor-se seja à maneira justaposta da lírica, seja à maneira estratificada do drama, da metafísica ou da sonata.
5. Não há uma abordagem do texto de Wittgenstein, pois a ideia de abordagem supõe uma distância entre o leitor e o texto e uma direção ordenada até ele que a crítica útil poderia percorrer, suposições que não se sustentam.
6. O ponto de partida encontra-se num bloqueio, a noção recorrente de critério, que por muito tempo pareceu ao mesmo tempo estranha e familiar, sendo uma causa superficial dessa estranheza o fato trivial de que o critério é uma noção cotidiana e o fato menos trivial de que a noção wittgensteiniana, embora distinta, depende da cotidiana.
7. A importância dos critérios nas Investigações é patente, pois as investigações gramaticais consistem essencialmente em extrair critérios, mas as caracterizações explícitas que Wittgenstein oferece dessas noções são obscuras, obscuridade que talvez se explique pelo fato de que quanto maior o apego a um conceito, mais difícil se torna explicá-lo.
8. Tanto defensores quanto críticos de Wittgenstein, como Malcolm e Albritton, entendem os critérios como meios de estabelecer com certeza a existência de algo, por exemplo a dor alheia, e embora essa leitura tenha o mérito de perceber que todo o ensinamento wittgensteiniano é controlado por uma resposta à ameaça do ceticismo, os critérios não podem nem pretendem refutá-lo, revelando antes, por seu destino e limitação, a verdade do ceticismo devidamente reinterpretado.
9. Como os critérios parecem decidir tão pouco que nem sequer seriam sérios concorrentes na luta contra o ceticismo, é preciso, antes de mostrar por que a leitura de Malcolm e Albritton é equivocada, esclarecer que pouco crucial é esse que os critérios estabelecem e por que ele parece tão pouco.
10. Embora pareça pouco promissor supor que Wittgenstein se apoia na noção ordinária de critério, verifica-se que a maior parte de sua retórica sobre o termo, ao falar de critérios como nossos, adotados, aceitos, como uma espécie de definição ou como aquilo em que algo consiste, é simplesmente a estrutura retórica da palavra ordinária, o que exige um exame mais detalhado dessa estrutura.
11. Usos ordinários da palavra colhidos ao acaso, como os critérios de estabilidade de um governo em Saigon, o critério emocional para julgar um poema, a circunlocução como critério de inteligência na tradição africana, os critérios de avaliação da neurose infantil, os critérios físicos para agrupar os manuscritos de Walden, os critérios de admissão em Radcliffe, os critérios do feudalismo e os da estratificação social, fornecem o material para a análise.
12. Desses exemplos extraem-se sete elementos que funcionam na ideia ordinária de critério: a fonte de autoridade, o modo de aceitação pela autoridade, o objetivo epistêmico, o objeto ou fenômeno candidato, o conceito de status, o meio epistêmico ou especificação dos critérios e o grau de satisfação, isto é, os padrões ou testes para aplicá-los.
13. Nesse esquema, critérios são especificações que uma pessoa ou grupo estabelece para julgar se algo possui determinado status ou valor, de modo que tais especificações definem o status e este consiste em satisfazê-las.
14. Admitida a semelhança geral entre a ideia ordinária ou oficial de critério e a ideia de Wittgenstein, torna-se esclarecedor examinar uma série de discrepâncias entre ambas.
15. O sétimo elemento introduz a noção de padrões, distinta da de critérios, pois os critérios determinam se um objeto é do tipo certo e se é candidato pertinente, enquanto os padrões discriminam o grau em que ele os satisfaz, e os exemplos mostram razões variadas para deixar a questão dos padrões em aberto, abertura que pode ensejar formas de nocividade moral e política, como no caso das admissões universitárias e das disputas sobre se a justiça exige exceções individuais ou a redefinição dos próprios critérios.
16. Em práticas como competições, os critérios são explicitamente concedidos e toda a ênfase recai sobre os padrões, cabendo aos juízes discrição na aplicação destes mas nenhuma sobre aqueles, ao passo que o juiz de direito precisa decidir simultaneamente o caso e os critérios que se lhe aplicam, estendendo naturalmente o corpo da lei sob o mito de que é o próprio caso que a estende, e o árbitro esportivo, ainda mais restrito, apenas vê e anuncia publicamente se critérios e padrões foram atendidos.
17. A primeira desanalogia com Wittgenstein consiste em que, nos casos em que ele apela à aplicação de critérios, não há uma etapa separada de aplicação de padrões, pois ter critérios é saber se se aplicam ou não ao caso individual, e quando há dúvida o caso é de algum modo não padrão, o que por si só é informativo, como quando se responde sim e não a certas perguntas.
18. A segunda desanalogia diz respeito aos objetos candidatos e aos conceitos de status, pois enquanto nos casos oficiais o objeto exige avaliação e os critérios visam tornar essa avaliação racional, os candidatos de Wittgenstein, como ter dor de dente, estar sentado, esperar alguém ou seguir uma regra, são os objetos e conceitos ordinários do mundo, o que sugere que qualquer conceito exigiria critérios.
19. Todo conhecimento, tudo o que se afirma ou questiona, é governado não apenas por evidências ou condições de verdade, mas por critérios, sem cujo controle não se saberia o que conta como evidência, de modo que enunciados de fato e juízos de valor, sem se confundirem, repousam sobre as mesmas capacidades da natureza humana, e só uma criatura capaz de julgar valor pode enunciar um fato.
20. O que motiva Wittgenstein a filosofar é a surpresa diante do simples fato de que certas criaturas possuam a fala, surpresa que faz parte do ensinamento a ser produzido, e seu interesse pela linguagem não difere de seu interesse pela intenção, pela crença, pela dor ou pela certeza, de modo que ele não possui uma filosofia da linguagem no sentido de uma teoria científica, mas antes ataca o desejo filosófico de construí-la como forma de evitar o problema do ceticismo.
21. Wittgenstein aproveita a especificidade dos critérios em relação aos objetos para um propósito oposto ao ordinário, pois em vez de partir de um tipo conhecido de objeto ao qual se atribui um valor, os critérios são os meios pelos quais se aprende quais são os conceitos e, assim, que tipo de objeto algo é, chegando-se ao fim a conhecer um tipo de objeto.
22. A noção de critério pretende oferecer uma resposta tanto à pergunta ordinária sobre como se sabe quanto à pergunta filosófica sobre o que é o conhecimento, e sua obscuridade permite lê-la à maneira do verificacionismo, do operacionalismo ou do behaviorismo lógico, ideologias da época que o ensinamento de Wittgenstein absorve sem adotar, datando-as.
23. O conhecimento relaciona-se também à aprendizagem e à capacidade de discriminar objetos, de modo que os critérios são critérios de juízo, e enquanto o foco nos enunciados toma o conhecimento como soma de verdades acumuladas, o foco no juízo o toma como capacidade humana de aplicar conceitos ao mundo, fazendo coincidir seus limites com os limites dos conceitos de um período e atribuindo à filosofia a tarefa de trazer à consciência aquilo que, nesse período, não se pode deixar de saber.
24. A terceira desanalogia, que mostra por que Wittgenstein deve ofender a sensibilidade empirista em todos os pontos, está na fonte de autoridade, que nos casos ordinários varia entre autoridades americanas, Anna Freud ou Radcliffe, mas que para ele é sempre nós, o grupo humano como tal, em nome do qual quem fala se apresenta como humano representativo.
25. Duas objeções se impõem: com que direito se fala pelo grupo a partir de uma amostra tão absurdamente pequena, e como alguém poderia ter participado do estabelecimento dos critérios sem saber quais são nem reconhecer ter-se engajado em tamanho empreendimento.
26. A afirmação sobre o que nós dizemos não é uma generalização, pois se o fosse seria absurda, e Wittgenstein, ao afirmar o que dizemos, está sempre ciente de que outros podem discordar e não partilhar os critérios, sendo a possibilidade de desacordo tão fundamental em sua obra quanto a própria extração de critérios.
27. Isso sugere que Wittgenstein por vezes não se importa se outros diriam o que ele diz que nós dizemos, não por insistir dogmaticamente, mas por estar disposto a não falar por nós caso se revele que não fala, o que o tornaria menos dogmático que egomaníaco, alguém para quem as justificações se esgotam e se age sem razões.
28. A questão de quando e onde as razões se esgotam é empírica e cabe a qualquer um, interessando antes compreender que tipo de encruzilhada é essa.
29. Ao dizer o que dizemos, o filósofo da linguagem ordinária produz não uma generalização, mas uma amostra que convida o outro a verificar se possui amostra semelhante, e como amostras divergentes disputam a mesma confirmação, cuja única fonte somos nós, um desacordo persistente não admite apelo além de nós, configurando uma tragédia intelectual que não consiste em dizer algo falso.
30. Diante de quem rejeita como agramatical uma frase como a experiência do porque, conclui-se apenas que nesse ponto não se pode falar um pelo outro, de modo que nenhuma afirmação foi refutada, mas a autoridade foi restringida, e quem falou não disse algo falso sobre nós, apenas descobriu que não há ainda, talvez nunca, um nós a respeito do qual dizê-lo.
31. O apelo filosófico ao que dizemos e a busca de nossos critérios são reivindicações de comunidade e buscas da base sobre a qual ela se estabelece, não havendo outro apoio além da própria convicção de fazer sentido, de modo que o desejo e a busca de comunidade são o desejo e a busca de razão.
32. Wittgenstein vai além da mera ocorrência das palavras ao propor o que somos tentados a dizer ou o que apenas temos a ilusão de significar, e o fato mais impressionante de sua escrita é que tanto do que ele mostra ser verdadeiro de sua consciência seja verdadeiro da nossa, isto é, que aquilo que ele faz possa sequer ser feito.
33. A pretensão de dar voz a segredos partilhados que não se sabia partilhar parece a uns ultrajante e a outros perigosamente sedutora, e a aproximação das Investigações ao gênero da confissão não as coloca além da crítica racional, apenas indica que os modos de questionar uma confissão diferem dos modos de questionar uma prova tanto quanto uma confissão difere de uma prova.
34. Entre as parábolas de Wittgenstein sobre o filosofar, uma das mais enigmáticas afirma que quem se inclina a supor que um rato surgiu por geração espontânea de trapos e poeira deve examiná-los de perto, ao passo que quem está convencido do contrário dispensa a investigação, cabendo primeiro compreender o que se opõe a tal exame de detalhes na filosofia.
35. Esse exame expõe as próprias convicções e exige quebrar o senso de necessidade para descobrir necessidades mais verdadeiras, experimentando crer no que se toma por preconceito e considerando que a própria racionalidade possa ser um conjunto de preconceitos, de modo que quem se opõe ao exame é o próprio sujeito tal como está, movido pelo medo e pela dor que naturalmente se opõem à filosofia séria.
36. A segunda objeção responde-se mostrando que existem critérios, que ninguém poderia estabelecê-los sozinho, que quem participa deles sabe quais são ainda que não saiba enunciá-los, e que não se pode saber a priori quem está implicado, pois descobri-lo é justamente um dos propósitos da investigação gramatical.
37. A questão lembra o ataque de Hume à ideia de contrato social e o antigo sentimento de que a significação mútua das palavras repousa sobre algum pacto entre os falantes, cuja sede clássica de investigação filosófica é a discussão do contrato que teria fundado a comunidade política.
38. A objeção de Hume, segundo a qual a obrigação de obediência e a de fidelidade às promessas repousam igualmente na vantagem da sociedade, é vazia, pois apenas reafirma que não há contrato e pressupõe aquilo mesmo que a ideia de contrato social põe em questão, a saber, a vantagem da sociedade tal como existe.
39. Consentir no contrato não é consentir em mera obediência, mas em ser membro de uma pólis, o que implica reconhecer que outros consentiram comigo, aceitando assim a igualdade política, e reconhecer a sociedade e seu governo como meus, tornando-me responsável por eles, de modo que a obediência se torna obediência às próprias leis e a pólis, criação da liberdade política.
40. Se as coisas fossem assim, a pergunta sobre por que obedecer seria ainda mais rara, pois poria em questão as vantagens da sociedade em sua melhor forma, e Rousseau teve o mérito de mostrar que mesmo as bênçãos da pólis perfeita custam a precedência de outras, como as de Deus, da amizade, da família e do amor.
41. Como homens e sociedades não são perfeitos, responder à pergunta pela obediência com as vantagens gerais da cidadania é agramatical e politicamente desonesto, e a verdadeira pergunta é se as desigualdades e faltas de liberdade e fraternidade da sociedade em que se consentiu superam as desvantagens de retirar o consentimento, cuja resposta começa por descobrir com quem se está em comunidade e a que se obedece.
42. Assim reformulada, a pergunta sobre como se pode ter consentido sem tê-lo percebido torna-se a pergunta sobre como se pode reconhecer um governo como seu sem perceber-se responsável por ele, deixando de ser um mistério epistemológico para tornar-se um projeto empírico e moral, mais próximo de Locke do que a leitura corrente, influenciada por Hume, que lhe atribui o subterfúgio do consentimento tácito.
43. Nas passagens do Segundo Tratado sobre o consentimento tácito, Locke trata dos que estão presentes numa comunidade sem serem seus membros, como os estrangeiros, reiterando que a condição de membro exige consentimento expresso, de modo que, se ele pode ser censurado por não buscar uma boa resposta sobre o que conta como esse consentimento, não pode sê-lo por ter dado uma resposta epistemologicamente estúpida e politicamente cruel.
44. A teoria do contrato social mostra ao mesmo tempo quão profundamente se está ligado à sociedade e a distancia como artefato, e seu significado filosófico reside numa educação política, filosófica por examinar o eu atacando seus pressupostos, política porque os termos desse exame revelam o sujeito como membro de uma pólis, e educativa porque ensina que conhecer-se exige conhecer esse pertencimento.
45. Rousseau é o mais profundo dos clássicos do contrato por não pretender conhecer o estado de natureza e tomar como dado filosófico o fato de que a sociedade e o indivíduo falam um pelo outro e revelam seus pensamentos mais íntimos, de modo que o problema epistemológico da sociedade consiste em descobrir a própria posição diante dos fatos, problema que é o primeiro da justiça e cuja solução revela também um novo modo de ignorância, que Marx e Freud chamarão inconsciência.
46. Quem considera convincentes os escritos de Rousseau precisa perguntar como ele sabe o que sabe e decidir se seus acessos de aparente loucura são meros problemas psicológicos ou expressões de luto por uma sociedade que nega deliberadamente o conhecimento de suas próprias conspirações.
47. A questão da idade do consentimento supõe que este exige o domínio da própria mente, mas se o que se exige é a capacidade de falar por si mesmo, talvez se deva antes dizer que conceder ou recusar o consentimento é a condição de falar por si mesmo.
48. Falar por si mesmo politicamente é falar pelos outros com quem se consente em associar-se e consentir em ser falado por eles em mutualidade, arriscando o repúdio daqueles por quem se pretendia falar e a necessidade de repudiar os que pretendiam falar por si, sendo afortunada a comunidade em que essa questão é pouco custosa, raramente necessária e permite reafirmar a pólis.
49. Como o consentimento político inclui falar pelos outros e ser falado por eles, o mero retiro da comunidade não equivale a retirar o consentimento, que exige dizer tanto que a sociedade já não é minha quanto que já não é nossa, ao passo que o dissenso é uma disputa interna sobre o conteúdo do consentimento, e a alternativa a falar por si politicamente não é falar privadamente, mas não ter nada a dizer.
50. Sem estabelecer uma analogia imediata com o problema da linguagem privada, encontram-se pensamentos análogos desde o início das Investigações, quando Agostinho descreve o aprendizado da língua como se a criança já possuísse outra, o que leva a perguntar o que acontece se os mais velhos não aceitam o que a criança diz e faz como aquilo que eles dizem e fazem.
51. Ter uma língua materna exige aceitar como consequente o que dizem e fazem os mais velhos e ser por eles aceito como alguém que diz e faz o mesmo, sem que se saiba de antemão o alcance desse acordo mútuo, de modo que ter voz própria na língua implica falar pelos outros e permitir que falem por si, sendo a alternativa não a fala privada, mas a ausência de voz.
52. A melhor prova de que existem critérios é produzi-los olhando para o que dizemos de modo gramatical, procedimento plenamente exemplificado apenas pelas Investigações como um todo, mas esboçado em investigações gramaticais em miniatura.
53. Tais miniaturas examinam, por exemplo, por que a expectativa é gramaticalmente um estado como ter uma opinião, que critérios se usam para dizer que um cilindro deixou de encaixar em outro em certo momento, e por que compreender uma palavra, embora seja um estado, não se diz contínuo como a depressão ou a dor.
54. Essas investigações seguem três passos, querer saber algo sobre um fenômeno, recordar os enunciados que se fazem sobre ele e perguntar que critérios se têm para dizer o que se diz, restando saber que espanto motiva esse desejo de conhecer a base sobre a qual se concede qualquer conceito a qualquer coisa e que impasse o faz sentir como uma lacuna no conhecimento.
55. A ideia de gramática resume duas teses de fundo, a de que a linguagem é partilhada e impõe limites humanos reconhecidos pelos outros e a de que seus usos são pervasivamente sistemáticos, sistematicidade que a linguística chomskiana parece confirmar mas que para Wittgenstein era instrumento e não objetivo, deixando-se de lado aqui sua distinção pouco confiável entre gramática de superfície e gramática profunda.
56. O que se descobre nas investigações gramaticais são critérios, o que revela um pano de fundo de acordos pervasivos e sistemáticos de que não se tinha consciência, mas enquanto nos casos ordinários há uma autoridade capaz de alterar critérios, nos casos de Wittgenstein não está claro o que seria alterá-los, e tudo parece invertido, pois a capacidade de estabelecer critérios dependeria de um acordo prévio nos juízos e nas formas de vida.
57. Também nos casos ordinários a autoridade possui um juízo prévio partilhado sobre os resultados, e o estabelecimento de critérios permite fixar juízos publicamente, tornando-os finais na ausência de certeza, prática valiosa mas sujeita a abuso, na qual a comunidade arrisca sua virtude ao assumir a distância entre a incerteza do juízo e a finalidade da decisão, ao passo que os esportes celebram uma arena em que a finalidade é apoiada por uma certeza que consiste em ver.
58. O apelo wittgensteiniano aos critérios também fixa juízos e os torna públicos, mas não para torná-los mais convenientes ou racionais, e sim para trazer à consciência a espantosa extensão do acordo nos juízos, tão íntimo e pervasivo que nenhuma ideia corrente de convenção daria conta dele, pois seriam necessárias convenções demais, impossíveis de terem sido acordadas de antemão.
59. Wittgenstein fala de concordar em formas de vida e de acordo em juízos no sentido de estar em harmonia, como tons, relógios ou balanças, isto é, de uma afinação mútua de cima a baixo que não prova nem explica nada, mas questiona a necessidade de uma explicação filosófica do acordo por meio de significados ou convenções, pois nada é mais profundo que o próprio fato do acordo.
60. Uma eventual explicação científica desse fato pela linguística ou pela biologia manterá com a investigação filosófica a mesma relação que o cálculo newtoniano mantém com a reflexão sobre sermos terrestres, podendo mudar tudo ou nada, de modo que quem deseja conhecer nossas relações conosco, com os outros e com o mundo terá de continuar examinando as velhas coisas que dizemos e fazemos.
61. Wittgenstein é também motivado pela percepção de que as palavras humanas por vezes desafinam, sobretudo quando os filósofos discordam das palavras ordinárias, sem que seu propósito seja mostrar que os filósofos estão errados, pois não haveria a quem informar essa falsidade, nem ao homem comum nem ao próprio filósofo.
62. A observação de que, se se quisesse propor teses em filosofia, nunca se chegaria a discuti-las porque todos concordariam com elas, não significa que Wittgenstein defenda o senso comum, mas que o conhecimento trazido pelo filosofar não pode surgir como afirmação, pois diz respeito ao que se entende sem dizer, e confrontar crenças com o acordo humano que as torna inteligíveis não é prática do senso comum.
63. Apelar aos critérios não explica nem prova a afinação nas palavras, mas é outra descrição dela, um apelo feito quando ela se vê ameaçada ou perdida e não se sabe mais orientar-se, de modo que a filosofia, entendida como necessidade de questionar, faz perder-se e é sua própria terapia, interessando a Wittgenstein tanto que existam critérios quanto que possam ser abandonados.
64. O juízo aparece duas vezes, tanto nos critérios ordinários quanto nos wittgensteinianos, no momento da predicação, em que se diz algo sobre algo, e no momento da proclamação, em que se o declara, sendo que nos casos oficiais a proclamação final é parte do acordo, ao passo que nos casos wittgensteinianos e cotidianos dizer ou não dizer é tão problemático quanto o que há para ser dito.
65. Proclamar tem dois aspectos, estar disposto a contar algo como algo, por exemplo um gesto como uma careta de dor, e julgar a ocasião apropriada para apresentar-se diante dos outros com essa declaração, aspecto estudado por Austin, Searle e Grice, enquanto o primeiro é aquele que Wittgenstein enfatiza como essencial ao pensamento e à comunicação humana.
66. A noção de critério visa evidenciar esse traço de contar algo sob um conceito, pois para haver regras e medições é preciso concordar no juízo de que uma regra foi seguida ou de que algo mede tanto, já que a regra e a vara de medir são em si mesmas mortas, e seria vazio dizer que a careta é critério de dor se nenhuma ocorrência fosse aceita como careta, terminando logo os critérios adicionais.
67. Ao contrário da objeção corrente de que Wittgenstein torna a linguagem pública demais e ignora a interioridade do significado, o verdadeiro espanto é como se chega ao edifício completo e inabalável da linguagem partilhada a partir de momentos tão frágeis e íntimos quanto as contagens e declarações separadas dos fenômenos, que pouco mais são que interpretações sem garantia de convenções que as sustentem.
