13 Deus que vem antes da ideia

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. A ideia de Deus não é uma ideia como as outras: não provém da experiência, não provém do pensamento abstrato, não conclui um raciocínio, é indevançável e irrecuperável. Ou antes, quando Deus “vem à ideia”, segundo o título de Emmanuel Lévinas, já saiu de seu silêncio invencível. Para ser dito, Deus precisa da mediação do ser, antes das representações do antropomorfismo.

2. A simples ideia de Deus, ideia inencontrável, indeterminada, caída do céu, inacessível, é para si mesma sua prova, sendo por isso insensato o ateu que diz em seu coração não haver Deus, negando o inegável.

3. Podendo ser legítima a negação ou a colocação em suspenso do pensamento ontoteológico quando se trata de passar do Deus dos filósofos ao Deus de Jesus Cristo, da teologia natural à Revelação; de outro modo, porém, deixa lugar à ideia nua e temível onde Deus se esconde. Sendo o declínio das Luzes ilustração impressionante disso: tendo o enfraquecimento progressivo da teodiceia providencial no seio do teísmo produzido a obsessão pelo ser necessário e pelo determinismo universal implacável.

4. “Como vem Deus à ideia?” é a pergunta que também atormentou Schelling, sendo porém o Deus que vem antes da ideia igualmente a ideia invertida, vista “em abismo”, a ideia que vem antes do Deus manifesto, sendo indispensável um preconceito (Vorbegriff), conceito prévio, de Deus: ideia de infinito de Descartes, Ungrund de Boehme, possível de Leibniz, revelação primitiva dos tradicionalistas.

5. O ser antes do ser não é nada nem quase-nada. Tendo Schelling polemizado o suficiente contra a dialética inicial hegeliana para que se lhe conceda crédito de outro começo — este, aliás, provisório, um começo em suspenso. Sendo o ser prévio quando muito µὴ ὄν.

6. Sendo a dialética da potência e do ser-possível peça-mestra da ontologia schellingiana, ontologia mutante, tomada aqui em seu ponto de maturação na filosofia berlinense. Sendo o ser-possível, então, em sentido forte, o poder-ser, Seynkönnen, a primeira potência do ser e do devir, esboçando as outras duas: o dever-ser necessário (Seynmüssen) e o dever-ser livre (Seynsollen) — sendo essas as denominações habituais.

7. Declarando Schelling das três potências que são três aspectos ou três rostos do ser: formando uma configuração, uma constelação, ou melhor, um organismo, de modo que, dada uma, seguem-se as outras. Sendo a primeira, como se disse, o poder-ser, a verdadeira “potência do começo”, o princípio inicial, a força mágica, o dinamismo que espera passar ao ser.

8. Como sair dele? Continuando-se a operar com a primeira potência (A1 ou B), mas perfilando-se a segunda, A2, sendo com efeito a primeira Potenz ambivalente: ser e não ser, “fome de ser” e não-ser.

9. Sendo um ser puro e nu, um ser que é apenas ser, ato, desprovido de potência, de querer e dinamismo, um ser que é perdidamente, intransitivo, apenas à sua maneira ἁπλῶς ὄν, mas não sobre-ser, super-ser, ὕπερον, sendo ato puro, ato imune, incontaminado, sendo o ser necessário em ato.

10. Consistindo a arte de Schelling, numa demonstração centrada no ulterior — o que será, os trabalhos de Deus e a criação —, não isenta de artifício e arbitrariedade, em inverter os fatores, moderar uma pela outra a veemência ou a esterilidade das duas primeiras potências, romper sua unilateralidade articulando-as, brandir o dever-ser que remedia a precipitação do poder tanto quanto a imobilidade do necessário e assim sintetiza os opostos: uma possibilidade que se atualiza sem desaparecer, uma potência enxertada num ato.

11. Sendo o existente necessário, indubitável, infinito, o abismo da razão humana, o enigma dessa filosofia em partida dupla, emprestando traços ao ser puro de A2: inspirando a tripicidade das potências e seu movimento a transição de uma filosofia à outra, ou antes sendo a dificuldade da transição de certo modo assumida pela conjunção das potências.

12. Resumindo com efeito o filosofema tipicamente schellingiano do imemorial toda uma época dessa filosofia em devir, aquela dominada pelo empreendimento inacabado, depois abandonado, das Idades do Mundo, sendo mais que um traço, sendo um movimento que condensa longa meditação e ruminação, iniciada, interrompida, retomada.

13. Levaria bastante longe trazer disso a prova, do papel de anteparo e repulsivo do existente necessário na aspiração a um Deus declarado, isto é, à filosofia positiva, aos múltiplos vestígios de sua fascinação na filosofia da mitologia, especialmente a propósito do sabeísmo, do budismo e da mitologia egípcia.

14. Sendo o ser antes do ser esboço do Deus ontoteológico, o ser inaugural anterior, primordial, o ser do passado, tendo notações furtivas preparado essa virada arqueológica, mas só aparecendo o profeta do passado, como F. Schlegel definia o historiador, com o grandioso projeto das Idades do Mundo.

15. Citam-se então as próprias palavras de Schelling: sendo o mais profundo e o mais inferior, que se desprende dessa inefabilidade e se manifesta, essa força do começo que atrai à substância (Wesen) e a repele na absconsidade, chamando o texto fundamental da Escritura ao céu e à terra a extensão do vigor divino (Stärke), sendo essa negação originária a mãe e a nutriz de todo o mundo visível; sendo a Natureza um abismo de passado, mas sendo o mais antigo nela também agora o mais profundo, o permanente; furtando-se a Natureza aos olhares e dissimulando seus segredos, só sob a coação de uma potência superior liberando (entlassen) tudo o que se torna, da absconsidade original; provindo a Natureza, segundo seu fundamento, da cegueira, da obscuridade e da indizibilidade de Deus, sendo o dado primeiro (das Erste), o começo na necessidade divina, não sendo a Natureza Deus, pois só pertence à necessidade de Deus.

16. Sendo, portanto, com vistas a uma teogonia natural, a uma “história de Deus”, na esteira das Investigações sobre a Liberdade, mais que a uma “teogonia transcendental”, cujos rastros porém ainda sulcam os rascunhos das Idades do Mundo, que Schelling instituiu esse passado abissal, absoluto, que também chama Prius absoluto, para fazê-lo desempenhar papel determinante na última filosofia.

17. Citando-se ainda essas linhas notáveis, que atestam estranha obsessão, depois um tanto atenuada, pelo Passado: sendo o estado originário de contradição, esse fogo selvagem, essa vida de cobiça mórbida, posto no passado, mas como um eterno passado, um passado que jamais foi presente, que era passado desde o primeiro começo e desde toda a eternidade; não devendo nos deter a consideração de que é o eterno passado de Deus, não sendo essa vida um eterno passado senão a última determinação do conceito integral e grandioso que é o ganho de toda essa investigação.

18. Merecendo destaque, quanto a “um passado que jamais foi presente”, o encontro — talvez não de todo fortuito — com Merleau-Ponty e Lévinas, pois, seguindo os passos de Husserl, Merleau-Ponty reencontrava a afinidade da intuição eidética com a Natureza, que é como um passado imemorial do homem.

19. Tendo retomado o Ungrund, fazendo o passado eterno presagiar, na terminologia posterior, o ser imemorial, indubitável, infinito, grundlos… o abismo da razão humana, devendo um pensamento votado à anamnese e que “dos destroços do passado recolhe todo vestígio” também encontrar-lhe a vertigem.