4 A filosofia da identidade

BOWIE, Andrew (org.). Schelling and modern European philosophy: an introduction. Taylor & Francis e-Library ed ed. London New York: Routledge, 2002

A FILOSOFIA DA IDENTIDADE E A CRÍTICA DE HEGEL

A filosofia da identidade de Schelling, surgida logo após o Sistema do Idealismo Transcendental (STI) e culminando no “Sistema de Würzburg” de 1804, costuma ser tida como o alvo principal da célebre condenação hegeliana, na Fenomenologia do Espírito de 1807, à noite do Absoluto em que todas as vacas são pardas (a night, in which all cows are black), acusação de mera ingenuidade diante do saber diferenciador.

INDO ALÉM DO EU: A RUPTURA COM FICHTE

Em Sobre o verdadeiro conceito da Naturphilosophie (1801), Schelling deixa de equivocar-se quanto à relação entre a filosofia da natureza e a filosofia transcendental, afirmando a primazia da Naturphilosophie e acusando Fichte de confundir “filosofia” com “filosofar sobre a filosofia”, pois este parte do Eu autoconsciente sem explicar o que o precede, algo que para Schelling emerge inicialmente numa “atividade inconsciente” e não na atividade consciente do filósofo, sendo a filosofia transcendental resultado, não começo.

Schelling antecipa, ao longo de sua carreira, muitos dos movimentos que fundamentam a “dialética do esclarecimento” (dialectic of enlightenment) de Horkheimer e Adorno, em que a razão se engana sobre sua relação com a natureza e se converte em seu oposto dialético, chegando a pronunciamentos surpreendentemente “verdes” (Green), como na carta a Fichte de 1801, em que questiona se a luz existiria apenas para que seres racionais se vissem ao conversar, e, já em 1806, acusa Fichte de conceber a natureza segundo um princípio teleológico meramente econômico, destinada só a ser usada.

A importância dessa ruptura com Fichte torna-se clara na Propedêutica da Filosofia (1804), onde este é visto como preocupado apenas com “a origem das representações finitas”, resultantes da limitação da atividade infinita do Eu, reduzindo a filosofia ao finito ao tentar tornar infinito o próprio fato da consciência.

SER TRANSITIVO E IDENTIDADE

O Sistema da filosofia inteira e da Naturphilosophie em particular de 1804, o “Sistema de Würzburg”, é o ápice da filosofia da identidade, misto de profunda perspicácia filosófica e especulação bizarra sobre a filosofia da natureza, jamais publicado por Schelling, cujos argumentos especificamente filosóficos merecem mais atenção do que costumam receber, apesar de parecerem à primeira vista conduzir, como sugere a leitura hegeliana, a mera dissolução mística de todas as distinções filosóficas.

O primeiro movimento subversivo de Schelling é a afirmação de que “não sou eu que conheço, mas a totalidade (All) que conhece em mim”, caso o conhecimento que chamo meu seja conhecimento real e verdadeiro, distinguindo claramente o conhecimento empírico dos juízos sintéticos do “conhecimento” no sentido do Absoluto, chegando a afirmar depois que o “eu penso, eu sou” cartesiano é, desde Descartes, o erro fundamental de todo conhecimento, pois pensar não é meu pensar nem ser é meu ser, já que tudo é somente de Deus ou da totalidade.

Manfred Frank propõe que Schelling concebe o ser como “relação transitiva de um sujeito a seus predicados”: em vez de o verbo “ser” funcionar como cópula intransitiva, no Absoluto as coisas são transitivamente “sidas” (been), noção que Sartre expressará depois como être été, sendo você ou eu, como sujeitos empíricos cognoscentes, predicados do ser, afirmados por um ser que não podemos conhecer como nosso porque tal ser não pode depender da diferença, condição de possibilidade de conhecê-lo, de modo que, para alcançar esse ser, é preciso ir além do conhecimento reflexivo.

Schelling ilustra isso com a metáfora do olho que, ao ver-se refletido no espelho, se põe e se intui a si mesmo apenas na medida em que põe o que reflete, o espelho, como nada para si, sendo um único ato pelo qual se põe e se vê a si mesmo sem pôr nem ver o que reflete, ato duplo que também caracteriza o modo como a totalidade se põe e se intui a si mesma ao não pôr e não intuir o particular.

Manfred Frank resume esse ponto ao mostrar que Schelling não concebe a identidade de sujeito e objeto segundo o modelo de ausência total de diferença (o que seria absurdo, A sendo A e não-A ao mesmo tempo), mas propõe que o aparente sujeito A e o aparente predicado B do juízo de identidade acabam sendo predicados de um sujeito = X, sendo esse X, de um lado, natureza, e de outro, espírito, sem que isso signifique que o espírito seja, enquanto tal, natureza, ou vice-versa.

IDENTIDADE E “DIFFÉRANCE”

A concepção schellinguiana de identidade permite melhor compreensão de debates da filosofia europeia e analítica contemporânea, tendo o pós-estruturalismo insistido nos perigos do “pensamento de identidade” (identity thinking), suspeita muitas vezes baseada em mal-entendidos filosóficos, ainda que a intenção ética e política de evitar a repressão do Outro possa ser justificada, pois a metafísica é vista como necessariamente conduzindo à violência do geral sobre o particular, à repressão do diferente pelo Mesmo, debate frequentemente reduzido ao contraste entre Hegel e Nietzsche, entre a Aufhebung da diferença ao fim da dialética e uma concepção de diferença que se recusa a resolver-se em identidade.

Em ambos, Schelling e Derrida, a identidade reflexiva revela-se dependente daquilo que a priva de fundamento cognoscível e, portanto, de autopresença: em Schelling, porque a identidade absoluta impede que o particular seja de modo absoluto, “a totalidade se põe ou se intui a si mesma ao não pôr, não intuir o particular”, base da temporalidade, “o tempo mesmo não é senão a totalidade aparecendo em oposição à vida particular das coisas”; em Derrida, a différance, como aquilo que sempre já (é), torna a autopresença impossível, impedindo o retorno a um fundamento sempre já cindido e, portanto, não fundamento em nenhum sentido significativo.

SCHELLING, RORTY E DAVIDSON

Schelling crê ter encontrado modo de ser monista sem terminar como reducionista estático; na différance, Derrida quer as vantagens do monismo, sobretudo a subversão dos dualismos, sem precisar afirmá-lo como doutrina metafísica, ambiguidade que gera interpretações radicalmente divergentes de seu pensamento, sendo Richard Rorty quem identifica o problema subjacente ao discutir se a différance seria, como sugere Rodolphe Gasché, uma “condição de possibilidade”, problema análogo ao da autorreferência do monismo já visto a propósito do STI.

Quando Schelling explicita a identidade, não se trata de mesmidade, de autoidentificação reflexiva nem de representação adequada, mas de versão da “identidade da identidade e da diferença”, em que pensamento e ser, sujeito e natureza, são ao mesmo tempo diferentes e o mesmo, sem paradoxo, pois a identidade, enquanto questão ontológica, não deve confundir-se com não contradição lógica, não sendo relação tautológica: identificar significa adquirir conhecimento, síntese, e não mesmidade analítica, como no exemplo fregeano de identificar Vênus como estrela da manhã e estrela da tarde.

A REFLEXÃO ABSOLUTA

Resta perguntar quão próximo está Schelling da ideia, logo explicitada por Hegel — alvo principal das objeções de Derrida à filosofia da identidade e, por implicação, dos argumentos de Rorty contra o monismo metafísico —, de que a natureza é o outro da mente, por dever o Absoluto ser entendido como “outro de si mesmo”, questão sem resposta simples, havendo, como assinala Manfred Frank, tensão na posição do Sistema entre uma posição romântica, como a do STI, e uma versão de idealismo absoluto próxima da que Hegel desenvolveria depois.

Precisamos de um esboço esquemático da diferença entre Schelling e Hegel na fase da filosofia da identidade: Schelling frequentemente vê o ser como “transreflexivo”, à maneira de Hölderlin, desenvolvida nos melhores argumentos da filosofia da identidade, ao passo que Hegel o vê como totalidade “autorreflexiva”; ambos consideram a negatividade do finito como aquilo que conduz ao infinito, mas há diferença maior entre eles, cujas consequências só se tornarão plenamente explícitas mais de vinte anos depois.

A questão-chave é como o finito pode ser apenas “relação negativa consigo mesmo”: negar um não-ser (recusar-lhe todo ser) não significa dotá-lo de ser, de modo que, se encontramos um ente (Seiendes) no mundo finito, é o ser do Absoluto; noutras palavras, se o ser finito não está inteiramente privado de ser em todo aspecto, é porque participa, enquanto tal e em sua finitude, do Absoluto, sendo esse mínimo de ser, sem o qual o finito nem sequer poderia existir (dasein) como finito, algo, por assim dizer, tomado de empréstimo do Absoluto (Frank).

O que está em jogo, nos termos posteriores da Lógica de Hegel, é se mesmo o ser, como mero início do processo, é realmente nada, ou, nos termos do último Schelling, se o conceito de ser é ser real. Para Schelling, o fundamento dos entes finitos é um ser que não se pode dizer seu próprio, pois são negados dentro dele, mas que também precisam ser para serem reais em qualquer sentido, restando saber se pode, como em Hegel, ser mais um tipo de não-ser cujo ser real só emerge ao final do processo.

O PROBLEMA DA TRANSIÇÃO

Dois textos de 1804, o Sistema e Filosofia e Religião, apresentam posições opostas que anunciam o que estará em jogo na filosofia posterior de Schelling: no ponto de transição da Naturphilosophie ao mundo “ideal”, o Sistema afirma que toda a filosofia é Naturphilosophie, não devendo pensar-se hiato algum na transição do “real” ao “ideal”, mas antes constância completa — posição amplamente coincidente com Hegel, pois “ideal” e “real” são o outro um do outro sem exigirem, nesse nível, fundamento ulterior de que emerja sua relação, dispensando-se, assim, qualquer transição.

As formulações de Filosofia e Religião são extremas, de modo que se tornará familiar a partir de Sobre a essência da liberdade humana (1809): a origem de nenhuma coisa finita conduz imediatamente de volta ao infinito, só podendo ser apreendida pela sequência de causas e efeitos, ela mesma infinita, cuja lei tem, portanto, sentido não positivo, mas meramente negativo — o de que nada finito pode surgir imediatamente do Absoluto nem ser dele deduzido —, exprimindo-se já nessa lei o fundamento do ser das coisas finitas como ruptura absoluta com o infinito.

Filosofia e Religião é texto isolado nesse período da produção de Schelling, mas aponta para o fim de sua adesão ao tipo de filosofia da identidade que vê o mundo da natureza e da experiência como fundado num Absoluto que resolve todas as divisões em harmonia, problema de raiz antiga já sugerido na Propedêutica da Filosofia: a filosofia da identidade afirma poder compreender a liberdade humana como compatível com um Absoluto que transcende a vontade humana finita, permitindo a duplicação da identidade pensar, de modo mais enfático que Kant, para além da antinomia kantiana entre necessidade e liberdade, pois essa contradição só se dissolve se for um e o mesmo que age no corpo (reino da necessidade) e na alma (reino da liberdade), podendo esse Um ser apenas a substância absoluta, única identidade absoluta do real e do ideal, agindo em toda ação apenas a substância absoluta, que não é livre nem necessária.