A crueldade da realidade ilustra-se de modo particularmente espetacular e significativo na crueldade do amor, tema conhecido e já abundantemente analisado, mas é privilégio das questões profundas permitir sempre uma análise parcialmente renovada, como é privilégio de toda grande obra de arte, musical por exemplo, oferecer sempre matéria a uma interpretação inédita que lhe renove perpetuamente o interesse.
Sem pretender ambição tão vasta, cabe apenas relacionar o tema da crueldade do amor com o da crueldade em geral, mostrando que a primeira é somente uma variante, ou “variação obrigatória” (variation obligée), para permanecer na metáfora musical, da segunda.
O termo “amor” é entendido em seu sentido mais amplo: amor de outra pessoa, mas também e talvez primeiro amor da vida (ou da realidade), e enfim amor de si; deixam-se de lado o amor de Deus, que reuniria os três casos citados, e o amor ao próximo, amor abstrato e irreal, muitas vezes revelador negativo de um ódio bem real, do qual nunca se achou vestígio fora dos romances de Tolstói e da literatura edificante.
Poderia estranhar-se a preferência pelo amor das coisas e de si sobre o amor de uma pessoa amada, expressão mais aguda do amor segundo o senso comum, que tem toda a razão; mas é preciso distinguir o amor que faz mais mal, ou mais bem, no momento (amor de uma pessoa) e o que faz mais mal e traz mais dificuldades a longo prazo (amor de si, amor das coisas).
O amor das coisas subordina-se ao amor de uma pessoa, mas é ainda mais verdadeiro que o amor de uma pessoa se subordina, por superioridade hierárquica e não por reciprocidade, ao amor das coisas.
Vigny escreve, em dois versos célebres, que pouco lhe importam o dia e o mundo e que os dirá belos quando os olhos da amada o tiverem dito, mas a fórmula inversa seria ainda mais pertinente: só se acharão belos os olhos da amada se antes se acharem belos o dia e o mundo.
Nada é tão importante e gratificante na vida quanto o amor no sentido corrente, salvo a própria vida, como exprime Spinoza ao definir o amor como “a alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”; o amor é apenas variante, a principal, do amor da vida.
A crueldade do amor aqui tratada pouco tem a ver com a crueldade do erotismo segundo Georges Bataille, que descobre no amor carnal (mas também, necessariamente, um pouco mental) o projeto cruel de destruição física do ser amado, um atentado contra seu “indivíduo”, vontade de inspiração schopenhaueriana de quebrar o caráter individual para reconduzi-lo à espécie, numa desconstrução erótica que começa no beijo, primeira manifestação da vontade de morder, e termina, se o itinerário amoroso vai até o fim, no esquartejamento e na pulverização.
A crueldade do amor percebe-se facilmente em todos os níveis e acepções da palavra, seja amor de si, das coisas ou de uma pessoa: o paradoxo é que nenhum desses objetos é verdadeiramente amável, considerado friamente, e todo amante, por ter feito sempre e necessariamente uma escolha ruim, condena-se a venerar como melhor o que é na realidade o pior e que não tarda a reconhecer como tal, daí seu tormento.
Catulo diz Odi et amo: odeio e amo, pergunta-se talvez como é possível, e responde que ignora, mas sente que assim é e está crucificado; esse constatação cruel vale para todas as formas de amor.
Amo-me e detesto-me, pois consisto apenas num projeto, madura e sabiamente programado, de desaparecimento total, num morto não agraciado, mas com breve sursis; por isso o eu, como diz
Pascal, é detestável.
Amo as coisas do mundo e as detesto, porque tampouco estão melhor que eu quanto à duração.
Amo uma pessoa e a detesto, pois ela está inevitavelmente fadada a deixar de me amar, caso mais cruel por ser o mais vexatório ao amor-próprio, a menos que eu mesmo deixe de amá-la, caso menos duro, mas talvez mais sinistro, pois me faz suspeitar que a origem de toda decepção está em mim, em minha incapacidade de permanecer eu mesmo, de fazer durar meu desejo, de manter um rumo, ou mesmo de seguir uma ideia.
Chamfort resumiu os termos dessa alternativa sem esperança: a felicidade não é coisa fácil, é muito difícil achá-la em nós e impossível achá-la alhures.
A crueldade do amor, como a da realidade, reside no paradoxo ou contradição de amar sem amar, de afirmar como durável o que é efêmero, cuja depuração mais seca seria dizer que algo existe e não existe ao mesmo tempo.
Entra na essência do amor pretender amar sempre, mas em seu fato amar apenas por um tempo, de modo que a verdade do amor não concorda com a experiência do amor.
O apaziguamento de uma mágoa de amor significa também aumento dessa mesma mágoa, como observa
Rousseau em A nova Heloísa: um amigo julga consolar Saint-Preux, mergulhado em profunda aflição, notando que toda pena do coração se embota com o tempo, e Saint-Preux replica, com justeza, que é aumentar a pena pensar que ela acabará; o fim do amor é justamente o que há de mais cruel nele.
Esquecer a dor equivale a reavivar o brilho de sua causa, que consiste ocasionalmente na dificuldade de amar uma pessoa e ser amado por ela, mas essencialmente na impossibilidade de amar qualquer coisa; o fim das penas, em matéria de amor, é apenas o começo do verdadeiro castigo.
O amor foi dito feiticeiro (sorcier), no sentido de encantador, como sugere o título da célebre obra de Manuel de Falla, porque realiza, ou parece realizar, uma proeza impossível: transformar nada em algo e, por via inversa, algo em nada.
Platão acerta, em O Banquete, ao reconduzir o problema do amor ao problema ontológico, a embriaguez amorosa ao sentimento inebriante de um contato fugidio com o ser.
O amor, como Jano, é mágico de duplo e contrário rosto: faz surgir um objeto do nada por magia branca e o devolve a ele com um golpe de varinha, por magia negra.
Manuel de Falla exprime essa magia em O amor bruxo: como o fogo-fátuo, o amor se desvanece (se desvanece, diz o texto espanhol de Martínez Sierra: apaga-se, evapora-se, volta de súbito ao nada).
Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare, A dupla inconstância, de Marivaux, e Così fan tutte, de Mozart, são outras ilustrações dessa evanescência cruel do amor, de sua dupla potência de aparecer e desaparecer, de ser e não ser; tal ambiguidade é a inerente a toda espécie de realidade.
Uma última observação concerne ao amor no sentido usual, mas nada tem a ver com a tese geral do livro: o amor é sem dúvida a experiência mais gratificante, mas jamais, contra um preconceito tenaz, ocasião de verdadeira “descoberta”, pois se experimenta algo de que já se possuía a noção.
Isso explica o fato aparentemente paradoxal de tantos pensadores, como
Schopenhauer,
Kierkegaard ou
Nietzsche, terem falado tão profundamente do amor sem lhe ter conhecido a experiência real.
O amor é como os cem táleres de
Kant na Crítica da razão pura: os que estão no bolso têm a inestimável vantagem de existir e de ser meus, mas em nada diferem da ideia que antes se fazia deles.
Freud exprime algo semelhante ao notar que a pretensa descoberta do amor, dada a semelhança entre o amor adulto e o amor infantil pela mãe, nunca passa de ocasião de reencontro.