0 Prefácio

CHAUVIRÉ, Christiane. Ludwig Wittgenstein. Paris: Seuil, 1989.

1. Wittgenstein publicou em vida apenas o Tractatus Logico-Philosophicus, escrito no front da Primeira Guerra, livro de aforismos numerados saudado por Russell como obra-prima e transformado em bíblia do Círculo de Viena, e após longos anos de silêncio retornou em 1929 a Cambridge como professor, ensinando de modo apaixonado e pouco ortodoxo a um círculo seleto e acumulando milhares de páginas de notas sem publicá-las, enquanto suas ideias, difundidas por esse ensino, moldavam a filosofia anglo-saxônica e constituíam a chamada segunda filosofia, tão esotérica e fascinante quanto a primeira.

2. A publicação póstuma das Investigações Filosóficas em 1953 transformou a cena filosófica inglesa, embora sem a unanimidade do Tractatus, pois Russell e muitos outros viram nelas uma capitulação diante do senso comum, mas é a essa segunda filosofia que se deve a extraordinária influência de Wittgenstein, ponto de referência pelo qual a filosofia anglo-saxônica se orienta como a pintura moderna diante das Demoiselles d’Avignon, contrastando o sucesso rápido na Grã-Bretanha, na Alemanha e na Itália com a recepção tardia na França, explicável pela fixação no itinerário de Kant a Heidegger, pelo acesso difícil aos manuscritos, pela barreira da língua alemã e pela originalidade radical de um autor metodologicamente inovador, cuja voz autêntica cabe reencontrar sob o comentário escolástico anglo-saxônico.

3. A originalidade de Wittgenstein não reside apenas em ter tentado duas vezes um recomeço absoluto da filosofia, mas em sua maneira heterodoxa de concebê-la e praticá-la, em sua estranha relação com a universidade, ao mesmo tempo refúgio e objeto de repulsa, e no caráter destrutivo de sua mensagem, expresso no antiprofissionalismo militante, na recusa de publicar livros clássicos e de fundar uma escola, no culto paradoxal da banalidade, na confiança na saúde do senso comum, na ideia de que as questões filosóficas devem desfazer-se na prática como dobras falsas e na visão da filosofia como doença do entendimento e das grandes doutrinas como superstições oriundas de um uso perverso da linguagem.

4. Compreender esse niilismo terapêutico e esse estranho exercício da filosofia como novo modo de questionamento e como escrita exige abordar seus escritos como os de um poeta, um místico ou um moralista, dada a beleza abstrata de sua prosa, a energia moral e a tensão intelectual de cada linha, pois se trata de um escritor tanto quanto de um filósofo, da linhagem de Pascal, Lichtenberg, Schopenhauer e Kierkegaard, mais que de um lógico ocupado com os fundamentos da matemática, sem cair, contudo, nos excessos hagiográficos de seus fanáticos anglo-saxões.

5. Como no caso de Wittgenstein a vida faz parte da obra, sua vida e seu desenvolvimento intelectual devem ser retraçados em paralelo, segundo a ordem cronológica, alternando episódios vividos e análises das obras, de modo que cada fatia de vida seja seguida de um balanço do estado de sua pesquisa filosófica, evitando-se a divisão desajeitada da obra em primeira e segunda filosofias, sendo a segunda apenas a continuação disfarçada da primeira.

6. As Observações Mistas oferecem ao leitor iniciante um admirável autorretrato, em que Wittgenstein julga seu talento de escritor e de inovador, fala de sua relação com a escrita e com a arte, sobretudo a música, aproxima a pesquisa filosófica da estética e revela, com grande contenção, suas opiniões sobre os problemas da vida, seu pessimismo spengleriano quanto à civilização e ao progresso, sua personalidade atormentada e obcecada pela loucura, pelo suicídio, pela morte e pela salvação, falando pouco de sua vida privada, seja por ausência de exibicionismo, seja para guardar segredos dolorosos como a homossexualidade mal assumida, a judeidade e a solidão afetiva.

7. Importa romper a imagem oficial de um Wittgenstein lido pela tradição britânica da crítica da filosofia especulativa e devolver-lhe as raízes vienenses e germânicas, mostrando o contemporâneo de Kraus, Mauthner, Freud, Loos e Schönberg e o leitor de Goethe, Lichtenberg, Nestroy e Grillparzer, dando-se maior espaço que o habitual à sua reflexão estética, mais central que a ética, abordada em ruptura com os filósofos-professores como Kant e Hegel, pois ele conhecia Brahms, Mahler, Klimt e Loos e pensou seriamente em tornar-se regente.

8. Esses contatos explicam o cuidado excepcional com a escrita, a beleza austera das frases densas e bem ordenadas do Tractatus, a paixão pela clareza e pela simplicidade em fórmulas concentradas, por vezes obscuras, e os lampejos de seu movimento de pensamento, aparentado aos aforistas vienenses, a Lichtenberg e à mesma estética despojada da música de Schönberg e da arquitetura de Loos.

9. A apresentação não acadêmica e fragmentária, embora ordenada, e a forma dialogada e viva das Investigações aproximam Wittgenstein muito mais de Nietzsche e da prosa poético-filosófica alemã que do Círculo de Viena, afastando-o do neopositivismo que inspirou a contragosto e confirmando que fazer desse antiscientista respeitoso do indizível metafísico um positivista lógico é um erro há muito corrigido.