4 Transmissão-Recepção

BLUMENBERG, Hans. Die Vollzähligkeit der Sterne. 2. Aufl ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997.

Rilke recebe sinais do espaço sideral

1. Entre as muitas relações de Rilke com mulheres — inclusive de altíssima e altíssima nobreza —, a que manteve com a suíça burguesa Nanny Wunderly-Volkart foi a mais importante para sua obra, sua vida e sua morte, embora ao mesmo tempo a mais pobre de vivência.

2. Nos começos, após o primeiro encontro em 1919, Rilke tentara, com grandes palavras epistolares, uma reeducação moral — um afastamento da convenção e do vínculo a desprezar, até um comércio amoroso sincero entre os sexos —, sem sucesso, para o bem dela e ainda mais para o de Rilke.

3. Ela deixa que seu inchaço erótico se desgaste e que a correspondência se volte para a produção da solidez de sua existência mediante o cuidado no todo, culminando na torre de Muzot, e o provimento no detalhe das coisas que lhe eram mais importantes que o universo: as penas corretas para os Sonetos e as Elegias, o controle remoto dos livros de contas da governanta.

4. Quando nos primeiros dias de fevereiro de 1922 a tempestade de inverno dos grandes poemas passa sobre Rilke e lhe quebra a pena de pensão que ainda há pouco parecia escrever por si mesma sob o ditado todo-poderoso, o poeta mostra-se crescido, em cuidado e cuidado, à altura do que há muito era dolorosamente esperado e por uma década ficara ausente.

5. Nada mais restava daquele imitador de sedução desconhecedor dos homens que falara de modo atraente — ou quisera falar — sobre como não se deve recear propor até o mais ousado, e não conhecemos bem a história de sua reeducação porque não possuímos a parte epistolar dela.

6. Quão bem ela deve ter dominado a arte da repreensão para, sem ferir, defender-se contra uma frase como esta: que nos sintamos em algum momento moralmente inibidos deve, ao fim, tornar-nos apenas desconfiados da própria inibição, não de nossos impulsos.

7. Rilke enganava-se profundamente ao acrescentar o gesto de magnanimidade da época: ah, amor, como tudo isso está em devir; em devir estava que ele encontrou uma morada e que as acanhadas mínimas necessidades de sua condução de vida eram satisfeitas quase diariamente à distância, entre o lago de Zurique e o Valais, cada uma das quais parecia uma fuga definitiva diante da consumação da obra.

8. Referindo-se à sua obra de antes da guerra, Rilke descreveu o primeiro período suíço e a inclinação para a Nike como necessidade de renovação do que já se tornara literatura: sempre de novo seria preciso escrever todo o Malte, sobre todos os planos dessa compreensão se erguem de novo sua vida e sua queda.

9. Estou mais adiante do que ele estava? Não, não estou, e ele oferece ao destino — e a ela? — até a capitulação do pathos cósmico, ou seja, das elegias interrompidas em Duíno, para escapar ao sofrimento de seu abandono: às vezes uma terna fugidia, mesmo a mais casual, parece-me mais e mais desejável do que todo o meu infinito futuro no espaço sideral (Locarno, 7.1.1920).

10. Apenas dois anos depois Nanny já o tinha levado à quietude, sem que ele precisasse morrer de todo, em Muzot, de que ele — ainda como suposto sublocatário fugidio de Werner Reinhart — fica sabendo, espantado, pelos moradores locais, que se deve pronunciar Müsott, e o leitor se arrepia ao pensar o poeta percebendo que então rimaria com Gott, o que porém só no primeiro registro no livro de visitas de Werner Reinhart, entretanto o senhor do castelo pela suave insistência de Nanny, é reduzido com ironia desajeitada à decência.

11. Então ele os chamou igualmente, aquele que em nenhures conhece um acaso, o Deus, e nos cumulou com cem sinais, o enfim devido Muzot, e eu me mudei para dentro; sozinho? Não, uma multidão de sobreviventes, como no conto de Noé, pois comigo: de cada sentimento um par, e de toda figura pensável um par.

12. Na imagem do sobrevivente do dilúvio e do mundo de seres vivos de sua arca, Rilke encontra o fim de seu abandono, e dali são apenas dias até os poemas após o dilúvio.

13. Em 3 de fevereiro era ainda a calamidade com a pena — com todas as penas estou de mal —, se não haveria algumas como em pneus de borracha, suaves e um pouco gordas no ânimo, e a queixa sobre flanelas finas demais para o traje noturno, e o arrependimento por uma encomenda leviana de livros.

14. Nem o cuidado com o material de escrita revela o demasiado que se aproxima: por ora é o despacho da correspondência que se deve pensar com a pena leve, mas no dia 8 a pena de pensão está ali com um nariz, como às vezes ocorre com carteiros ou condutores de bonde, e contudo desliza magnificamente, como vós vedes.

15. Uma pena alheia, portanto, dócil ao poder alheio, uma pena de imersão, a coisa mais barata, mas justamente uma coisa de que o universo parecia até então carecer: basta, a pena vai quase sem meu concurso, sim, sobre borracha — que pensão confortável deve ter sido aquela.

16. Assim está ao fim da comunicação sobre a redação dos Sonetos a Orfeu, de 2 a 5 de fevereiro dada ao mundo, e no dia seguinte o telegrama há muito confiado ao mundo das sete elegias prontas: alegria e milagre, Rilke.

17. No caminho de volta do telégrafo, a Oitava e a Nona ainda se juntaram na cabeça em torno de núcleos mais antigos: a vitória! A vitória! — e com isso se alude à sua deusa, Nike, como se o sutil sedutor o tivesse pressentido, ele que se tornou o guiado da deusa alada, de que agora se lembra expressamente: como vós, contudo, voastes seguramente à frente, sem desvio, sempre, e mantivestes ao espírito aberto o espaço de seu respirar.

18. Sim, ele podia agradecer pelo que não fora por ele pensado e que lhe era tão impensável quanto a obtenção de uma pena da asa da deusa: a coisa para o descomunal.

19. Agora se fora realmente além de todo o burguês e do que é garantido pela força — mas com essa confiabilidade do apoio no firme conjunto das garantias da amiga e de sua família, que ele ainda há pouco quisera afrouxar e desestabilizar.

20. É o puro modelo de todas as desburguesias: elas precisam do vasto hinterland daquilo que imaginam desprezar.

21. Os Sonetos e as Elegias precisavam de garantias junto ao comerciante viajado e generoso, o senhor do castelo em Winterthur, e junto à ponderação da família naquele outro moinho de curtidores, o de Meilen.

22. Nanny, que já guardava o depósito das elegias de Duíno, recebeu a cópia destas, que quase se tornaram dez — este, agora, sendo —, ao que pode seguir uma descrição cheia de detalhes da disposição de ambas as escrivaninhas e de outros utensílios, como se o desmedido devesse ser domesticado nos parâmetros de Nanny, que agora voltarão a ser os dele até morrer.

23. Como que por si mesmo, o habituado à mediação dos anjos rumo ao absoluto vazio liga agora também aqui a deusa da vitória do consumado à oferta do agradecimento à última fonte dos poemas, apenas ainda nomeável: basta, cara, obrigado a vós, e por vós ao universo!

24. Agora Rilke pode, dois anos depois, pôr de novo a pergunta da relação temporal com o Malte e respondê-la definitivamente: estou mais adiante do que ele estava? Agora encontra a fórmula da alcançada contemporaneidade de si mesmo: sou de novo o contemporâneo de mim mesmo, alcancei-me, eis tudo (15.2.1922).

25. Até a governanta escolhida pelo conhecimento de Nanny, primeiro desdenhada pelo poeta, é agora incluída no testemunho dos grandes instantes, quando Muzot navegava em alto-mar do espírito, como a representante de Nanny, cuidando e sem medo quando eu aqui em cima soltava gritos de comando descomunais e recebia sinais do espaço sideral e os fazia ribombar e respondia com minhas imensas salvas — ela é realmente corajosa, a alminha.

26. Assim chegou também esse retorno de um dos momentos de crise mais delicados do cuidado ainda a Meilen: supostamente a única testemunha do incompreendido, do tráfico de sinais com o universo que se tornava acontecimento acima dela no andar da torre.

27. Resta ainda uma vez recordar o destino da pena: a pena de pensão, que não sabe como lhe acontece, que tudo isso teve de fazer; numa carta do dia 18 conserva-se e mantém-se um respingo de tinta, relíquia da escrituração e de sua serva, cuja ponta agora está copiada até o nariz e quebra: os dez mil anos desses poucos dias! Nunca uma pena viveu tanto! Decerto não um mestre da sedução, mas um mestre da gratidão — ele o era.

Existe-nos!

1. O homem não é o resultado de um esforço finalístico da natureza, e com essa atenuação de sua autoavaliação ele já tivera de conformar-se no século anterior.

2. Ainda assim permanecia um igual entre iguais e de fato o último passo da evolução, sobretudo porque subtraíra sua própria existência aos fatores da seleção pela disposição total da cultura.

3. Contudo, essa desconsideração não deveria ser a última: o trecho não iluminado da evolução entre os primatas até o homem caiu no crepúsculo por não ter trazido a vantagem de adaptação refinada e desempenho elevado que deveria ter vindo com todos os passos anteriores da evolução.

4. O título de ser carente inventado por Herder foi explicado por teorias muito diversas de sua legitimidade, mas no conjunto foi convertido no emblema do desempenho de autoconservação do homem em seu mundo, para o qual era tão insuficientemente dotado que teve de erigir um arsenal descomunal de meios auxiliares para sobreviver: um deus de próteses, como Freud o chamou, um ser vivo que se mantém permanentemente sobre a crista afiada de sua possibilidade.

5. Que ele ainda esteja na superfície da terra resulta da totalidade de suas artes de sobrevivência e o faz habitar sempre perto da angústia que não gera movimento, mas antes o petrifica.

6. A relação entre conhecimentos científicos sobre estados do universo e a pergunta pela ocorrência de vida nele tende, na medida da ampliação do saber, a elevar a improbabilidade da difusão da vida, e os contornos do conjunto de fatores que torna a vida impossível tornam-se cada vez mais nítidos.

7. O organismo volta a ser o acontecimento marginal que já fora sob o domínio da criação e da providência, desde que se deixassem de lado as distinções invisíveis e se ativesse às proporções físicas.

8. Mas a improbabilidade, mesmo sem sua redução a intenções superiores, continua distinta pelo critério de valor da raridade, o que é um aspecto antropomórfico — mas teorias são também antropomorfismos, antes mesmo de começarem ou deixarem de querer ser antropomórficas em seus meios.

9. Sua existência pressupõe simplesmente que este sistema orgânico homo sapiens sapiens, que pode fazer teoria e a faz sob as condições de suas possibilidades, exista primeiro e em geral.

10. Um resíduo inextirpável de platonismo nos faz esquecer facilmente a nitidez desse fato: não apenas e só a teoria nivela o homem a acontecimento marginal da natureza, mas ela, por seu turno, pressupõe esse acontecimento marginal de sua ocorrência para que ela própria ocorra.

11. Como não tem o reservatório do puramente pensável, ela estaria em nenhures e em tempo algum sem o estado de coisas que constata de modo desiludido até humilhante: fora dessa baixa forma de existência num cérebro de mamífero não haveria, entre outras coisas, cosmologia alguma.

12. Para o astrofísico, nos primeiros 226 segundos da pré-história cósmica decide-se tudo o que é relevante para o mundo; nos 700 000 anos seguintes nada de notável acontece, e mesmo então só se esclarece o que já era causa decidida.

13. Só muito mais tarde há uma minúscula surpresa que não perturba o programa: após outros 10 000 milhões de anos, seres vivos começarão a reconstruir esse decurso.

14. O tédio do irrelevante é interrompido pelo acontecimento de uma ação cujo espantoso avanço na profundidade do tempo tem como implicação inescapável contestar a si mesma o posto de acontecimento mundial.

15. Mas não estará o teórico demasiado facilmente disposto a creditar a si mesmo sua capacidade de sofrimento por esse resultado como stigma veritatis de sua teoria?

16. Que haja algo como teoria e que em algum futuro venha a ter havido pode ser constatado com o mesmo direito como estado de coisas distinto e inserido em sua imagem total da natureza, com que ela constata e integra outras coisas que não são evidentes por si.

17. Para captar drasticamente o que se quer dizer com tal não-evidência, basta atentar ao estado de coisas mais significativo da cosmologia, do qual uma vez se decidiu se deveria haver em geral algo ou antes nada.

18. A possibilidade de trazer a velha pergunta de Leibniz para contextos cosmológicos modernos foi recentemente estabelecida pelo conhecimento da simetria entre partículas elementares e antipartículas no acervo sistemático da constituição material.

19. Daí surge imediatamente a questão sobre o que teria resultado se houvesse não apenas simetria sistemática, mas também quantitativa das duas sortes de partículas nos primeiros instantes da origem do mundo: nada mais que a supressão recíproca e a transformação em radiação das massas de partículas.

20. Uma situação avassaladora do ponto de vista do Iluminismo absoluto: muita luz, mas nenhum mundo a que ela jamais pudesse ter brilhado, e muito menos uma razão a quem algo tivesse iluminado, mas também nenhuma que algum dia tivesse se tornado necessitada do esclarecimento de suas obscuridades.

21. Como nada acontecera senão aniquilação ao mesmo tempo que origem, seria também inteiramente supérfluo pensar o pensamento livremente flutuante de uma teoria de uma natureza que não teria existido.

22. Nem sequer para o demônio de Laplace teria sobrado algo a fazer, e o reino platônico das ideias deveria ser pensado como inteiramente vazio.

23. Enreda-se aqui rapidamente em paradoxos, porque, apesar do malogro do mundo, busca-se imaginar uma inteligência para tornar pensáveis as consequências disso.

24. A ficção absurda de que à pergunta de Leibniz se deveria ter respondido corretamente que seria preciso um fundamento para que em geral algo seja, não porque em geral nada tenha vindo a ser, impele ao passo seguinte: só e justamente para que nada tivesse vindo a ser haveria o fundamento suficiente da perfeita simetria do estado originário, da garantida definitividade da imaterialidade.

25. Entende-se que esse nada não viola princípio algum de conservação, mas com a equivalência de radiação e massa tudo teria desembocado nisso, e pela aniquilação recíproca de partículas e antipartículas sob surgimento de fótons sem massa nem um mundo nem um ser mundano capaz de sua experiência teria se tornado possível.

26. Tinha de entrar em jogo um defeito do grande equilíbrio com sua inversão da origem em salto para o puro brilho — e não surpreende que não pudesse haver retorno à perfeição radiante, que nem sequer pudesse haver.

27. O preço da perfeição chamava-se: o mundo, e por menos aquela provavelmente também não estaria disponível doravante.

28. A imperfeição está, portanto, desde o primeiro instante ligada ao curso do mundo, não apenas à sua qualidade no juízo tardio do homem, e é responsável pelo fato de que algo está aí e não antes nada.

29. Um teórico eminente expressou assim o fato originário da violação do equilíbrio: deve ter havido um certo excedente de elétrons em relação a pósitrons, de prótons em relação a antiprótons e de nêutrons em relação a antinêutrons, para que após a aniquilação de partículas e antipartículas algo restasse para fornecer a matéria do universo atual.

30. A pergunta sobre de onde se quer saber isso com tanta certeza só pode agora ser respondida com a simples indicação de que cada pedacinho daquilo que, segundo a definição de Wittgenstein, é o caso dá testemunho contra a pureza racional da simetria inicial.

31. Aqui entra, entre seus semelhantes no sentido mais amplo, a distinção pela improbabilidade que doravante o homem — para além de sua inserção no mundo orgânico — tem de partilhar com tudo o que é.

32. Contra a chance ameaçadora ou saudavelmente perdida da origem do mundo de não produzir mundo algum, há, para usar mais uma vez a pregnância do já citado laureado com o Nobel, uma prova excelente: existe-nos!

33. Ele poderia igualmente ter dito: existe a lua, como poderia ter mostrado ou figurado uma pedra apanhada ao acaso para dizer: existe isto aqui, logo existe tudo!

34. Que esse tudo não seja muito em relação ao que teria sido possível no começo do mundo, que a massa todo-poderosa das possibilidades tenha efetivamente passado pela ruína da aniquilação radiante e que, como radiação, ainda preencha o espaço sideral, pertence às generosidades com que a natureza emprega muito para alcançar pouco.

35. Com isso ela ainda nos imita ante o espetáculo dos inumeráveis ocasos de seus seres vivos, que ela abandona para conservar o pouco pelo qual é determinada nossa visão do mundo como natureza e cosmos.

36. Mas também nossa autoinserção nesse todo, ao nos compreendermos entre os escassos relictos do possível ainda como o resto precioso que de si pode dizer: não era de esperar, mas realmente existe-nos!

Comportamento de exibição

1. O que gostaríamos de comunicar aos seres racionais em outros mundos é que eles não estão sós, o que é a formulação conforme à comunicação do estado de coisas, e supomos que os outros devem ficar aliviados até satisfeitos ao sabê-lo, porque supomos que nós o ficaríamos no caso inverso.

2. Talvez nos importe sobretudo esse caso inverso: segundo o princípio da troca, decerto mal-afamado mas ocasionalmente plausível, obtemos porventura um direito a que aqueles outros nos deem em contrapartida a certeza de que não estamos sós.

3. Só que se eles têm justamente também sua fase de apetite comunicativo quando sabem de nós deve ficar em suspenso até segunda ordem.

4. O paradoxo da ficção é que a motivação não pode ser projetada no outro mundo: com a chegada de nossa boa-nova torna-se exatamente certo o que fora pensado como seu conteúdo e missão — aqueles não estão sós —, sua suposta necessidade essencial está coberta, e na suposição fundamental está contido que eles nos deixarão no incerto sobre se estamos sós; nada os teria movido, nada teria se movido.

5. No beco sem saída de nossa intencionalidade cósmica há ocasião de conceber de outro modo a tese inicial, embora ao preço de conformar-se com uma motivação mais frugal, antes inferior.

6. Então a primeira frase deveria ser: o que gostaríamos de comunicar aos seres racionais em outros mundos é que existimos.

7. Não teríamos a agorafobia de sermos deixados sós no vasto espaço, mas o impulso de nos mostrar, ou de entrar em cena, talvez até de nos apresentar, e a escala prossegue até o extravagantemente metafórico: de nos exibir, de ocupar um papel mundial, de ser protagonistas do espírito do mundo.

8. Não é preciso elevar-se até aí, segundo creio, pois ímpetos metafísicos se consomem facilmente na próxima amarga decepção sobre um erro da razão.

9. Soa redutor querer deixar por isso mesmo, que só queremos dar a saber que estamos aí, mas isso não é uma categoria exclusivamente psicológica nem antropológica.

10. Na direção fenomenológica da filosofia encontrou eco a lembrança de que o fenômeno invocado como seu objeto não é apenas a aparência num sentido platonizante ou kantianizante da distinção daquilo que é realmente ou em si, mas que o fenômeno, segundo seu dote verbal, é o que se mostra (do grego médio phainesthai): mostra-se embora ninguém no-lo mostre.

11. O homem seria apenas uma mínima elevação dessa propriedade originária de tudo o que há — o mostrar-se — até as intensificações reflexivas e as exageradas cômicas da entrada em cena e da exibição, da atitude e da careta, do pathos e da teatralidade, das autoestilizações de esnobe e dândi, de decadente e salonnard, de arrivista ou de quem se retira.

12. Se se parte de que só a consciência consciente daquela propriedade originária do mostrar-se coisal-material põe secundariamente suas formas de jogo e caricaturas, permanece-se no quadro da conjectura biológica de que a diversidade da aparência externa dos organismos tem algo a ver com um mostrar-se pulsional-libidoso — e não apenas com a função da atratividade sexual como a da proteção mimética-críptica no ser despercebido.

13. Este último seria então antes o caso-limite da auto-supressão da capacidade de se mostrar, ao se poder mostrar também sua negação, e o pendant antropológico seria a discreta aplicada, a modéstia celebrada, a face exibida dos gestos de humildade.

14. Não é coisa pequena, nada desprezível, se o homem se enfileirasse entre as coisas que se mostram — digo isto porque não se poderá provar que seja essencialmente nisso que nos é dado participar.

15. Como também só podemos tomar a interpretação do fenômeno como o que se mostra como uma metáfora da conjectura, de que em tudo isso de qualquer modo não se prescinde de nós.

16. Parece legitimar o contrassenso de que não podemos deixar de fazer algo, assim que nos tornou possível: deixar o mundo todo saber de nós, custe o que custar — e isso, como se sabe, não é pouco.

17. Servimos a uma necessidade desconhecida e incerta de exibição a altos custos, como nos deixamos custar a nós mesmos sempre enigmaticamente muito — porventura o item menos controvertido em todos os orçamentos, privados como públicos.

18. Como duvidar que aos outros deva importar saber primeiro de nós que estamos aí, a saber: aqui?

19. Nós, primatas da laia do homo sapiens sapiens, somos um fenômeno, e queremos mostrá-lo.

Radiomensagens

1. Aos habitantes do universo atribuímos o que há muito não ousamos atribuir a nós mesmos: ensinar-nos os costumes.

2. Só quem fosse inteiramente outro que nós poderia enviar a radiomensagem que nos faria surgir uma luz sobre como se faz para, ainda um milhão de anos após a invenção das comunicações por rádio, não ter perecido.

3. Pois tais mestres teriam de ter começado a tempo, antes de nós, pela entrada na evolução, com tudo, para ao menos nos tirar o medo de que não possa senão acabar mal quando se chegou tão longe.

4. Um milhão de anos não é sequer o valor que uma radiomensagem necessitaria para a distância da ilha-mundo mais próxima de nós, a nebulosa de Andrômeda — e deveríamos contudo, para a robustez do ensinamento, poder supor que os emissores da radiomensagem ainda pudessem, na recepção aqui, sustentar o que nos recomendam, e receber nossa gratidão ainda um milhão de anos depois com aparelho melhorado.

5. Tais mestres teriam de ser inteiramente outros que nós e contudo compreensíveis para nós, senão tudo seria em vão, e esse paradoxo ocupará o mundo daqui desde o dia em que fosse decifrada a mensagem que vem da grande antena parabólica.

6. Ela teria de ser clara e precisa, pois não há tempo para perguntas de retorno: elas custam mais que toda uma história da humanidade.

7. Seria certamente impressionante se de apenas duas palavras se pudesse extrair a exortação: amai-vos uns aos outros! Mas isso não basta.

8. Já uma vez alguém que viera de muito longe disse exatamente isso com muita insistência, mas também ele se subtraiu às perguntas de retorno pela ascensão ao céu.

A necessidade de espectador — uma herança animal

1. O buraco de verão é uma metáfora para a interrupção no continuum do fluxo de notícias que surge na época de férias: os produtores de notícias estão ausentes, os receptores também, e isso combina bem com o fato de que também a publicidade não pode contar com interessados em seus serviços.

2. Produção e recepção encolhem, os spots dos mainzelmännchen ficam finalmente cada vez mais longos, os jornais finalmente cada vez mais finos.

3. Ora, parece que não se estimou corretamente a grandeza do buraco, pois há produtores que programam uma notícia substancial justamente para esse interregno e com isso têm um curioso êxito de recepção: são os produtores da oferta que, complementar ao buraco de verão, se designa como teatro de verão.

4. Este deve, normalmente, baixar a cortina quando o chanceler federal volta das férias, e ele então determina de novo as diretrizes da política, e por isso o teatro de verão tem de ser encenado de modo que ainda por um bom tempo o impeça no exercício de sua competência.

5. Ora, há uma inversão para tudo, como partículas e antipartículas no zoológico de partículas, e zoológico já é a palavra-chave para provar a tese da inversão: os animais no zoológico não têm buraco de verão, pois justamente no verão desfilam diante de seus lugares de espectador, os recintos abertos e paisagens de cimento, os homens tão sumamente interessantes que de si crêem ser aqui os espectadores.

6. Mas pode o animal mais estranho jamais ser tão interessante para o homem como os homens para os animais?

7. A esse respeito o diretor do zoológico de Hanôver, Lothar Dittrich, pronunciou-se com competência segundo a AP de 22 de janeiro de 1987: os animais sofrem no inverno com a debandada de visitantes, eles se entediam — os animais veem os visitantes como nós vemos a televisão, seus órgãos dos sentidos têm os visitantes no olho como radar.

8. E então chega seu buraco de inverno, complementar ao conselho do diretor do zoológico de lhes oferecer um pouco de teatro de inverno, o que compensa para os atores pelo aplauso de que podem estar certos: quem quiser criar um vínculo pessoal com um animal do zoológico, quem quiser ser recebido com ritual de saudação, deve vir agora.

9. Agora cada um é percebido como individualidade, e o mais belo desejo de todos se realiza, o de não submergir na massa de todos.

10. Os animais evidentemente também não se deixam estragar o espetáculo pelo nobre pensamento da bestialidade organizada, de que no inverno mais de um produtor de teatro aparece diante deles com o pelo que se puxou sobre as orelhas de seus companheiros.

11. Talvez ao contrário, chega-se mais perto uns dos outros quando os homens andam tão decentemente vestidos como os animais.

12. Uma nova tarefa para benfeitores de toda espécie está descoberta: teatro de inverno no buraco de inverno dos animais — quem hesitaria em passar um pouco de frio?

O fator esquecimento

1. Esquece-se demasiado facilmente que a medida das decepções depende da medida das expectativas por elas afetadas.

2. Para expectativas pode-se definir um valor-limite, por exemplo na fórmula: se tudo pudesse tornar-se inteiramente outro, tornar-se-ia incomparavelmente melhor, e essa frase é com certeza verdadeira só quando o estado inicial a que se refere a expectativa de mudança não pode ser impossivelmente ainda pior do que é.

3. Da perspectiva de historiadores muito futuros não parecerá mais casual que o conceito e o título de uma dialética negativa tenham vindo à luz na vizinhança temporal imediata do grande surto astronauta dos anos sessenta do século XX.

4. Ninguém quererá atribuir ou sugerir ao autor do livro tão representativo quanto eficaz que ele tivesse desejado tal vizinhança, saudado-a ou mesmo reconhecido nela uma afinidade objetiva.

5. Ao contrário, ele só teria podido ver como uma das muitas fugas das implicações e banições sociais o que a outros podia parecer saída das dificuldades das relações estreitas na terra.

6. E não se deve entender tal estreiteza como mero problema de quantidade da finitude do solo terrestre, do continente, do espaço vital, dos desejos políticos de expansão e exploração.

7. Estreiteza significa também que o homem, sozinho consigo neste minúsculo corpo de mundo, não consegue livrar-se do sentimento de contingência e ainda promete a si mesmo do espetáculo de mundos alheios o inteiramente inesperado — e seja mesmo a promessa de que a vida não tem necessariamente de chegar aonde chegou consigo mesma.

8. Por isso, por trás das grandes expectativas em relação à astronáutica está sempre a secreta perspectiva de vida alheia, da confirmação da vida como caso normal num cosmos que, da perspectiva terrestre, parece defrontá-lo tão desfavoravelmente, e isso até no fato de que ele disponibiliza condições para se autodestruir.

9. Se se diz agora que para isso há pouca confirmação expressa em toda a década astronauta, pode-se opor a esse reparo a retórica publicitária das instâncias de toda espécie envolvidas na astronáutica, que com grande cuidado alimentaram até as últimas esperanças de que ao virar a próxima esquina de uma pedra em Marte houvesse ainda o musgo ou mesmo o besouro que abrissem perspectivas para mais no espaço ou ao menos no tempo.

10. Nenhum pedaço de curiosidade teórica jamais se esvaneceu tão rapidamente, afundou tanto em si, como o interesse pelo planeta Marte desde que uma sondagem de vida ali deu negativo.

11. A longuíssima duração de alguns projetos astronautas possibilitou manter tais expectativas, se não vivas, ao menos despertáveis: Marte foi uma grande decepção, anos depois as luas de Júpiter a seguinte — mas então se foi no grande arco acelerado do swing by em direção a Saturno.

12. Ninguém dizia abertamente que, com o aumento da distância do sol, seriam necessárias condições cada vez mais estreitas para que ainda se pudesse ter realisticamente um pouco de expectativa de vida em algum lugar.

13. Ora, tal último realismo no sistema solar não se dirigia ao próprio planeta Saturno, mas a uma de suas conhecidas luas, que por tamanho e constituição já reconhecida de sua atmosfera mais próxima da terra teria podido estar na fase inicial do desenvolvimento da vida nela.

14. Uma atmosfera densa, mais densa que a da terra atual, já era necessária só porque nessa distância do sol um efeito estufa que impedisse a irradiação para o espaço seria pressuposto de uma temperatura duradoura favorável à vida.

15. Pouco se preocupava com que o favor das condições térmicas tivesse de ser ao mesmo tempo o desfavor das ópticas — em outras palavras, que justamente então nada se confirmaria de vida quando estivesse presente o benefício de sua existência.

16. O mínimo do êxito de uma viagem tão longa ao longo de seis anos consistia então em obter ao menos valores confiáveis sobre a temperatura nesse satélite de Saturno.

17. Quando esses valores não chegaram, responsabilizou-se primeiro a atividade do sol como fator de perturbação das comunicações por rádio.

18. Depois, porém, houve motivo para a suspeita de que ocorrera uma pane na organização de solo, uma pane do tipo que sempre me pareceu ser a simples correspondência humana às grandes empresas de espaço e tempo no universo: esquecera-se de fazer o correto no único e irrepetível momento.

19. A sonda Pioneer 11 alcançara pontualmente a lua de Saturno, Titã, mas na organização responsável do projeto da NASA dormira-se no ponto em que se omitira desligar para esse tempo, na frequência reservada, outras comunicações espaciais — entre elas sobretudo a dos russos, que em outros casos haviam atendido aos pedidos de liberar temporariamente uma frequência para tais momentos.

20. Assim, o tráfego de rádio entre um satélite soviético e sua estação de solo sobrepôs-se ao tráfego entre a vizinhança de Saturno e a estação receptora em Mountain View, na Califórnia.

21. O chefe do projeto, Charles Hall, teve de emitir a explicação de que simplesmente se esquecera de pedir aos colegas soviéticos consideração pelo quarto de hora decisivo, e esse comunicado encerrou-se com a frase: que essa pane tenha acontecido — ora, aqui trabalham muitíssimas pessoas nesses múltiplos problemas.

22. Ora, poder-se-ia retomar o fio: onde muitos trabalham em muitas coisas, facilmente ninguém é responsável por algo.

23. Não foram os outros que perturbaram, perturbou-se a si mesmo ao não convocar a disposição deles de não perturbar.

24. A declaração divulgada em 5 de setembro de 1979 por todas as agências de notícias foi desmentida no dia seguinte: por quê? Podem-se fazer muitas conjecturas, só não a de que o conteúdo da declaração fosse falso.

25. Não existem os valores da lua de Saturno, Titã, ao menos não os da posição espacial mais favorável no quarto de hora decisivo, e o motivo do desmentido deve ser buscado em outro lugar.

26. Há sem dúvida uma espécie de conspiração internacional dos teóricos em campos de que outras pessoas, que gostariam de impedi-los, nada entendem, de modo que ela dificilmente pode ser impedida.

27. Pela primeira vez tornou-se conhecido nessa ocasião que também na astronáutica houve uma espécie de renúncia à concorrência entre pesquisadores, que já funcionara ao menos duas vezes em casos anteriores no rádio de satélites.

28. Mas era com certeza sumamente penoso aos colegas da astronáutica de um lado ver seu companheirismo por cima do fosso pendurado no grande sino da informação mundial: não se podia, portanto, admitir de modo algum que se esquecera algo.

29. Por outro lado, pode-se dizer que essa omissão dramática manteve por um pouco mais de tempo em movimento ou pronto para partir o motor íntimo das expectativas astronautas.

30. Quase nada melhor poderia ter acontecido do que essa pane: é preciso ir lá mais uma vez e, se se esteve lá, provavelmente ainda mais vezes, na medida em que as temperaturas devam ser conforme o esperado, pois então o enigma se conserva por muito tempo — justamente por causa do cumprimento dessas condições no limite da última esperança.

31. Para quem não partilha as grandes expectativas de confraternidade cósmica, o outro fenômeno é muito mais interessante: o do esquecimento, pois ele abre perspectivas sobre o fator humano nas empresas muito mais longas que um dia poderiam levar para fora do sistema solar e nas quais os caminhos das comunicações por rádio são já muito mais longos que os noventa minutos que um sinal do Saturno à terra necessita.

32. Então uma organização terá de acordar após anos e por sua vez esperar anos para obter resposta a uma única chamada de sinal — que equipe de astronautas quererá tremer por seu esquecimento na terra?

Terremotos de alta categoria

1. Em 17 de novembro de 1988 a agência de notícias Associated Press divulgou uma foto consternadora: um monte de sucata de frescor nunca visto, sem ferrugem, sem traços de idade, antes um ornamento ou uma zombaria de aparelho à maneira de Tinguely — mas não é um artefato, e sim uma estrita catástrofe, uma catástrofe, como diz o texto da agência, para os astrônomos do mundo inteiro.

2. No estado americano da Virgínia Ocidental desabou um dos maiores radiotelescópios do mundo, sem presságio, sem motivos reconhecíveis.

3. O espelho parabólico tinha 92 metros de diâmetro, um tamanho para uma grande tarefa — sondar o universo.

4. O gigantesco instrumento tinha 26 anos, quase tão velho quanto a concepção da tarefa que lhe fora programada: em 1962 fora suspenso como precursor de sua espécie, móvel e dirigível, entre duas torres, para manter contato constante com veículos astronautas, mas também para tatear a profundidade do espaço em busca de sinais, quando ainda se espreitava com esperança por inteligências capazes de emitir radiação em corpos de mundo distantes.

5. O protótipo de uma estação de solo que jamais deveria deixar na mão nenhuma missão tripulada no espaço.

6. Ora, o risco das estações de solo fora demonstrado de modo espetacular: numa única noite o confiável Green Bank desabara sobre si mesmo.

7. Estava em jogo algo que não podia ser simulado por teste algum nem excluído ou sequer quantificado: o envelhecimento do material, a fadiga das escoras — todas metáforas antropomórficas para as quais não há substituições sólidas.

8. Há poucas imagens cotidianas de comparável força expressiva: a estabilidade e a persistência das estações de solo são o ponto fraco da astronáutica, na medida em que ela deva alcançar maiores irradiações, mais longos períodos de tempo.

9. Não apenas o esquecimento e a fadiga das instituições humanas são preocupantes, mas também o material e a força de sustentação das garantias técnicas, a ligação confiável com os computadores de alto desempenho e os emissores de correção são fatores de um risco pelo qual responsabilidades devem ser medidas e assumidas.

10. A terra precisa armar-se para uma obrigação indeterminável.

11. Em todas as línguas, mitos e modos de pensar já pelo nome a pura confiabilidade maternal graças e em virtude de sua ancestralidade, ela tem na função de estação de solo mais a ser que solo para estabilidades: ela precisa, àqueles que idealmente, na aproximação da velocidade da luz, em tempo desacelerado se tornam tão sem idade quanto seus veículos, garantir contra os envelhecimentos de sua etapa logística.

12. A menos que todo o problema seja dissolvido pela miniaturização de todos os meios auxiliares e coberturas de retaguarda.