3 Vida

BLUMENBERG, Hans. Die Vollzähligkeit der Sterne. 2. Aufl ed. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1997.

III. A vida transbordante — a sobreextensão da vida

Expansão da vida

1. Quanto à afirmação de que no espaço sideral há mais corpos vivos do que a Terra, permanece, contra todos os mínimos de probabilidade, uma evidência que como tal é enigmática, e ela repousa na atribuição imediata do conceito de expansão ao de vida.

2. Nesta própria Terra a vida é de uma ubiquidade assombrosa, quase se poderia dizer de uma força de sobrevivência, e a difusão não é apenas uma de suas soluções de emergência, mas algo como seu próprio fim vital.

3. No planeta Terra, assim cresce a compreensão, quase não há fronteira verdadeira das condições de vida: quanto mais improváveis elas são para a presença da vida, tanto mais provável se torna descobrir a vida justamente ali.

4. São as experiências com a vida como algo resistente e progressivo sob todas as condições que fazem qualquer um hesitar em falar com ceticismo sobre o tema da vida no universo, pois a vida é expansão, e que distância espacial deveria detê-la — eis a retórica interior que se desenrola em quem começa ou continua a pensar sobre a coisa.

5. Uma das generalizações mais cautelosas na descrição da vida como fenômeno é que ela seja algo que se expande, e essa forma reflexiva é estranha porque nada contém de teleologia, como na fórmula irônica de que o fim vital da vida seria a expansão: é simplesmente o que se mostra.

6. Ainda não se fala de multiplicação, reprodução ou desenvolvimento, e o crescimento é mais originário porque nele a difusão não ocorre à custa da unidade, mas a vida só se expande com êxito ao deixar de ser uma, na passagem do crescimento para a divisão.

7. Só numa única representação difusão e identidade permanecem unidas, a do crescimento, e a essa idealidade a vida retorna com soluções sempre novas, embora o caminho mais consequente da vida pelo mundo, o crescimento ilimitado de um organismo, seja ao mesmo tempo algo como o risco puro da sobrevivência.

8. Assim, todo outro procedimento de expansão pode ser visto como solução substitutiva para o crescimento do uno: desvio para a multiplicação a fim de dispersar o risco.

9. A expansão por toda a superfície da Terra, com suas profundidades e alturas, torna a vida indestrutível, mesmo que um de seus mais ousados experimentos evolutivos venha a revelar-se um malogro com efeito retroativo: o homem.

10. Este gosta de exagerar, também quanto ao que poderia causar, e é bom que sua capacidade única de se infundir medo pela imaginação o ajude a não se tornar o malogro, embora seja a pretensão dos saurianos se, em seus cérebros de pardal, tivessem pensado que com seu declínio populacional a vida abaixo dos golpes mortais de suas caudas blindadas descesse à insignificância.

11. O mito bíblico do paraíso torna bastante claro que a reprodução só se tornou a solução adequada de seu problema sob a suposição adicional da mortalidade dos dois indivíduos, pois no paraíso o derradeiro da criação não devia estar só, mas também não mais que a dois.

12. Com o acesso à árvore da vida, o homem bastava em sua constituição originária dada por Deus à exigência de existir: o Gan Eden era pequeno, não se podia pensar em multiplicação, e só se pensou nela quando se conheceram e já por isso tiveram de ser expulsos do jardim, porque o novo risco da morte exigia diversificação.

13. A multiplicação em tudo tornou-se precaução contra a morte, e a solução estática chamada paraíso não se comprovara: agora havia apenas o desvio pelo contrassenso da multiplicação de um ser que por essa expansão só podia tornar-se pior em todos os sentidos.

14. O escândalo do homem não começou apenas com o fato de haver demasiados dele, mas já com o fato de ter de haver muitos, a saber, mais que os dois suficientes para o paraíso.

15. A expansão dessa espécie não foi tanto um castigo para ela quanto para os outros, os companheiros de mundo ativos ou passivos na elisão das consequências da expulsão.

16. A representação-limite do unicelular que cobre a superfície terrestre — expansão extrema com identidade ininterrupta — inclui que a vida teria alcançado tudo o que lhe é possível com a menor especificação de seu desempenho, mas que vulnerabilidade: um impacto de meteoro, uma erupção vulcânica, e teria sido o fim da vida.

17. Contra isso, a multiplicidade do simples, a repetição do único padrão fundamental pela divisão, teria sido a solução suficiente, embora ao preço do mais rápido esgotamento possível dos recursos nos mesmos específicos meios de vida.

18. A vida só pode expandir-se incluindo sempre outras soluções de seu problema de energia, por fim vivendo umas das outras e assim usufruindo das soluções alheias.

19. Ergue-se a hierarquia orgânica dos devoradores, o que na representação-modelo nada mais significa que a superfície terrestre pode ser coberta em várias camadas sobrepostas.

20. O homem, o onívoro, é uma particularidade apenas em exercer sua missão também na renúncia a ser onívoro, mas então exige ainda que para ele — para alguns poucos que querem sobreviver aos outros — se adube apenas organicamente.

21. A luta pela existência é uma luta oculta, mascarada de piedade natural, por quotas na vida da espécie, e quem o diz terá algum dia de temer pela sua.

22. Se tudo fosse realmente um — o hen kai pan —, a maior plenitude de conteúdo estaria unida à ausência de conteúdo, e a ficção da identidade conservada sob expansão máxima apenas esclarece aqui que caminho a vida não tomou.

23. A renúncia da vida à solução do crescimento é apreensível também na extinção das grandes formas: a quantidade tem de ser retraída para encontrar outras espécies de desempenho que realizem a expansão sem que a vida se sufocue em si mesma.

24. O problema dos saurianos repete-se quando o homem exerce sua expansão de modo indireto: cerca-se de espaços e invólucros artificiais, terceiriza sua produção doméstica, torna a paisagem permeável para si.

25. O desenvolvimento se petrifica morfologicamente com o homem, a expansão não, e esta volta, no estágio primário, a ser crescimento, na medida em que as medidas orgânicas dos corpos humanos prescrevem o padrão para veículos e estações, e assim também para os sistemas e as subestruturas que são pressupostos disso.

26. Esse acoplamento firme de invólucros no sentido mais amplo desperta a impressão do crescimento forçado pelo número e da reação revalorizadora a ele.

27. Que o conceito de crescimento pudesse ser desacreditado pertence às surpresas das últimas décadas do século XX, pois conceitos com conotações orgânicas, em sua maioria metáforas próximas da natureza, gozam da legitimação da naturalidade.

28. Mas crescimento estava virtualmente esgotado por sua mesalliance firme com o índice de êxito econômico como aumento do produto social bruto, como se não houvesse outra coisa que se pudesse dizer como atestado de uma política.

29. O fastio do crescimento é reação contra o uso excessivo por uma geração construtora demasiado consciente de seu desempenho e que, com seu padrão, sobrecarrega os vindouros, e a ela se podia facilmente reprovar que obtivera esses êxitos à custa dos recursos de outros.

30. Mas os críticos do crescimento que julgaram mostrar e traçar seus limites deixaram cair o conceito-meta de sua crítica e se orientaram das fronteiras para as consequências, também na consciência de que num sistema surgem crises inesperadas quando se quer deter sua expansão.

31. Numa sociedade com taxa de crescimento de seus desempenhos tendendo a zero não se podem mais politicamente levantar exigências, estabelecer programas, fazer promessas ou abrir perspectivas, e o crescimento zero significa então a morte de toda política.

32. Até guardiões proeminentes das fronteiras do crescimento decidiram-se a explicitar agora a implicação do conceito e a falar de uma outra qualidade que não o aumento de grandezas, oferecendo o crescimento orgânico como compromisso entre zero e infinito.

33. A metáfora foi levada de volta aonde fora tomada, e quase poderia ser proclamada, com tautologia semelhante mas gesto retórico mais seguro em publicidade, como biocrescimento.

34. O refúgio no crescimento modificado também está prefigurado pelo fato de que o conceito de desenvolvimento está sobrecarregado: pelos povos e Estados que dele ainda parecem carecer e pelo tom darwinista ameaçador de que no desenvolvimento se trate necessariamente de favorecer uns à custa de outros.

35. A difusão como fenômeno da vida tem, após o crescimento arriscado, a mais simples de suas formas na divisão de uma unidade em duplicatas idênticas.

36. O mesmo sempre de novo seria também a solução para uma consideração cosmológica do expansionismo orgânico: o pedaço de vida comprovado em algum lugar e algum tempo no universo seria transportável pelo espaço, resistente sob as condições extremas de suas temperaturas e radiações.

37. A rápida multiplicação das distâncias entre os corpos e sistemas de mundo só no século XX intimidou os amantes do pensamento da origem dos germes de vida no espaço, sobretudo depois que os planetas do sistema solar tiveram de ser definitivamente excluídos da participação na vida.

38. A divisão como receita cósmica de vida recuou diante do pensamento de que, em face dos riscos de migração, seria preferível uma probabilidade mais alta, ainda a fundamentar mas não excluída, de origens independentes de vida em vários corpos de mundo.

39. Para as formas mais baixas da vida haveria que demonstrar condições análogas às válidas para a formação de átomos e moléculas complexos a partir dos blocos de construção mais simples, e o fenômeno da expansão seria então equivalente à validade universal de certas associações na matéria.

40. Que nisso a passagem do estágio do mero crescimento de unidades capazes de metabolismo para multiplicidades capazes de divisão pudesse sempre de novo ser alcançada pode ainda resultar das regularidades da complexão da matéria.

41. Toda divisão como autorreduplicação está, porém, ameaçada pela autoestrangulação que consiste no consumo dos nutrientes alcançáveis, e a superpopulação é o perigo originário no expansionismo da vida, sendo interceptada pela mudança constante das necessidades vitais, às quais por fim pertence a vida viver da vida — no limite, o canibalismo, por mais raro ou frequente que os biólogos e antropólogos o admitam.

42. Ainda não precisa ser dito nada de diferenciação e especificação das formas, pois a vida é expansiva pela capacidade de migração inscrita na mudança de necessidades, que ao observador externo ainda oferece uniformidade, a mesmice condenada ao tédio do padrão encontrado e comprovado, e nisso pobre de risco.

43. Ainda assim a vida, no caso ideal de sua expansão global, seria tudo o que pudera ter chegado a ser.

44. Não se deveria ou teria de encarar a pequena imprecisão ou incerteza de que na divisão de uma unidade não surgem descendentes inteiramente idênticos?

45. O observador capaz de toda precisão poderia perceber tanto a violação do comprovado quanto a variação do ainda a testar e, conforme fosse platônico ou atomista, voltar-se indignado ou curiosamente vivificado.

46. Pode-se dizer também de outro modo: seu interesse cosmológico lamenta o desvio da unidade em tudo, sua simpatia terrestre saúda o caminho especial para a peculiaridade, mais ainda, para a singularidade do telúrico.

47. Só porque a divisão não precisa ser estrita reprodução do idêntico, a vantagem vital da união pode já estar contida em sua imprecisão, e só quando a forma de expansão da divisão acumula suas aberrações por longos períodos a riqueza, tornada possível na inversão sexual da divisão, de diferenciações já comprovadas por si pode elevar a aptidão da vida que aparece como adaptação.

48. Nisso sempre se cruzam fronteiras para o ainda não habitável, e um exemplo sensível de expansão pelo ganho de altura é a descoberta de uma mutante do pigmento sanguíneo hemoglobina — um de 287 blocos de aminoácidos está alterado — no ganso-indiano ou ganso-listrado, que por isso sobrevoa altitudes do Himalaia com elevada capacidade de ligação de oxigênio.

49. O ganso-dos-andes possui outra solução genética para a mesma expansão, e o abutre-africano ainda outra, que se tornou notória na colisão com um avião a 11 300 metros sobre a África.

50. Kant não terá pensado na necessidade de oxigênio em sua parábola da pomba leve, mas a representação fundamental da expansão está também ainda na censura à transgressão metafísica de fronteiras: a pomba leve, ao dividir no voo livre o ar cuja resistência sente, poderia conceber a ideia de que no espaço vazio de ar ainda lhe sairia muito melhor.

51. Aí já está lançado o arco do fenômeno da expansão como característica fundamental da vida à imediatez de sua continuação em desempenhos extremos da cultura, a que a crítica da razão se opõe como resistência.

52. A pomba leve de Kant é uma figura da vida também na medida em que parece dotada como que por si da disposição que se poderia descrever como sentimento de vida desperdiçada, se se quisesse investigar o que afinal desencadeia o erro da pomba.

53. A expansão fenomênica da vida, se se lhe atribuísse heuristicamente uma motivação, poderia ser levada à intenção de não desperdiçar nada, e os movimentos da vida têm sua unidade nessa evitação do desperdício de vida, como se se tratasse do esgotamento da criação.

54. Já se alegou alguma vez a sério um motivo para a conquista de todos os cumes mais altos da Terra? É simplesmente assim: opções que não teriam sido agarradas, a vida não as conhece, e o homem nisso é sua prole: o expoente da vida.

55. Pode ser que ele nisso e com isso se esgote, mas provável não é: também para seu suprimento de oxigênio haverá mutações, e talvez já as haja entre os aspirantes a alturas e profundidades — no paradoxo do doping mais natural.

56. Agora, então, um ganso, ainda que indiano, deve poder ensinar algo à pomba leve de Kant!

57. Não é biologia teórica o que aqui se apresenta, não uma explicação do fenômeno vida, mas sua descrição como vivência, que decerto não consiste só e nem sequer predominantemente no trato imediato, mas em alto grau na experiência mediada, como quase tudo o que ainda podemos viver de nosso mundo, até da história de que somos contemporâneos e de que somos menos testemunhas que os que um dia a estudarão em arquivos a partir de fontes que nem sequer suspeitamos.

58. Se se quisesse tratar o conceito de vivência com restrição, não restaria muito de conteúdos dos quais temos mais que conhecimentos, mas por trás da conjectura da expansividade da vida e da ubiquidade mais ampla dela no espaço está justamente a impressão, formada de vivências heterogêneas, de sua resistência às influências inacreditáveis, representando-se no homem como o ser vivo nesse aspecto mais vivenciável, que a todo tempo e em toda parte suporta mais do que se e lhe atribui.

59. Que o homem se tenha tornado viajante do espaço sideral deve afinal ser visto primariamente como um fenômeno de sua autoavaliação, até de sua superestimação, que então foi surpreendentemente confirmada pelos fatos.

60. A vida vai ao espaço com seus invólucros, que se adaptou, em vez de a eles — por que não deveria ela já estar sempre no espaço?

61. Tento estimar o ônus da prova que alguém tem de assumir contra a probabilidade daquela impressão originária de todas as vivências da vida, que quer dizer: contudo tudo está contra, tudo é perspectiva terrestre.

62. E isso significa: o último passo do copernicanismo, como a desintoxicação de nossas ambições mundiais, será também aqui o abandono da avaliação errônea terrestre, a ilusão da proporcionalidade entre a oferta de espaço e o ímpeto de expansão.

63. Mas talvez o conceito de expansão usado até aqui para descrever o fenômeno ainda seja demasiado estreito: a vida precisa, na forma fundamental do metabolismo, poder incorporar o que deve lhe pertencer, precisa ser o que apenas quer ter.

64. Nisso o metabolismo já é o procedimento de, ao longo do tempo, ter muito mais do que jamais pode ser, e ver nisso apenas um começo para o conceito de expansão exige a inclusão da consciência no sentido mais amplo de que se pode supor um estímulo para o mais que este ente, no que importa na relação de provisão ou defesa.

65. Na expansão da vida, cada vivente se delimita por não ser tudo o mais que ele mesmo, enquanto não o come ou não é por ele comido.

66. Aí a consciência é apenas um artifício consequente para ter outro sem precisar sê-lo — no conceito-limite: ter tudo e não ser nada senão ele mesmo.

67. À consciência subjaz uma renúncia à corporeidade da posse, mas transformada na exigência de aproximação extrema a ela: no grau máximo da autodoação para a consciência.

68. Poder ter algo de tudo sem precisar sê-lo é o desempenho da consciência mediante a renúncia a realizá-lo a cada vez de uma só vez.

69. A consciência é por natureza estreita, e por esse gargalo da vida — que nisso corresponde esquematicamente ao trato digestivo como eixo do metabolismo — tem de ser impelido o que primeiro deve poder tornar-se sensação e depois recordação.

70. Aqui a expansão da vida parece antes uma interiorização, mas essa inversão é necessária se a vida não deve recair em sua forma originária de expansão pelo mero crescer para fora.

71. A consciência é consequência e inversão da vida ao mesmo tempo, e nisso repousa a contraposição das valorações da relação entre vida e consciência, quaisquer que sejam os nomes que nisso entrem em jogo.

72. Como a vida primeiramente se provê desses artifícios só pode ser visto em ligação com o mais antigo antagonismo de divisão e união, de reduplicação e sexualidade.

73. A sexualidade como solução para o princípio de expansão já é a decisão por sua realização mais remota: significa expansão como diferenciação em vez de repetição, multiplicação como mudança.

74. Para o observador externo de novo entediado: o fim de seu tédio ante a monotonia das reproduções, em vez disso o espetáculo monstruoso do sempre-outro, que só a consciência em sua identidade temporal, como capaz de história, pode oferecer.

75. Como a porte étroite do atravessamento de tudo pela presença, a consciência tem de ter uma unidade outra que a dessa presença mesma: a unidade de suas presenças como consciência do tempo.

76. Esta é a dimensão absolutamente nova da difusão da vida pelo mundo, na qual o mundo parece entrar em apuros com o acesso e, por seu turno, se subtrai à consumação do acesso pela expansão: a relação da expansão de vida e mundo se dinamiza, e o pressentimento da inalcançabilidade do objetivo para o subjetivo nasce dessa experiência.

77. A ampla claridade daquele diafragma de presentidade, das supostas impressões originárias, torna-se nessa dinamização uma constante, o não-ampliável que imporia à vida uma limitação, se esta não fosse capaz de contornar o estrangulamento por novos artifícios: pela delegação como divisão do trabalho e pela cessão a crédito, assim como pela externalização em mecanismos de processamento, armazenamento, recuperabilidade, disponibilidade.

78. Pode-se esquecer, portanto, e em grande escala acontece justamente o que Kant com seu gênio tratado de 1763, Ensaio para introduzir na filosofia o conceito de grandezas negativas, demonstrou como pressuposto dos desempenhos da consciência: tem de poder ser suprimida presença para possibilitar ampliação pela presença.

79. Não poderíamos ler o mais simples texto de livro didático se não tivéssemos esse procedimento da posição pela negação — e com isso só então da expansão.

80. Está concluída a expansão da vida sobre a realidade com o artifício da consciência, de se criar, para compensar sua estreiteza, a dimensão do tempo? Ao contrário.

81. A consciência se libertou de sua estreiteza para o atravessamento da experiência ao renunciar à condição da existência, e a realidade factual mostrou-se uma ilhota minúscula no grande reino do que é possível e como tal não está ligado a nenhum lugar de tempo ou espaço.

82. Pensar o essencial como o que vale sob toda condição tem como pressuposto teórico captá-lo como a invariância de todas as suas ocorrências pensáveis — de tudo, portanto, em que e pelo que ele é o caso.

83. Isso pode ser difícil, mas essa dificuldade não se liga imediatamente àquela estreiteza da consciência para o real.

84. O método da variação livre, em que se funda a fenomenologia, foi decerto desacreditado pelo título de intuição de essências como particularidade exótica de uma profundeza desconhecida, mas essa exclusividade é apenas aparente.

85. O que resulta da variação livre não é da espécie da evidência que força assentimento, pois permanece sempre a abertura para uma variante não percorrida, só que o ônus da prova está em quem a tivesse encontrado e pudesse descrevê-la.

86. Não há o critério da completude da execução metódica da variação livre, mas também não basta a objeção de que se poderia ver isso também de outro modo, já que assim não se o vê.

87. Pois entre a intuição fundada na variação livre e o assentimento dos outros está o médium da descrição, cujas falhas não são as do método, e de qualquer modo não há o ponto em que a censura à descrição transborde sobre a intuição.

88. Aqui a expansão da vida se torna decerto frágil, mas não dúbia, e os critérios para o essencial não podem ser tomados do atravessamento do real pelo buraco da agulha da impressividade originária, mesmo que se devesse negar à intuição pura toda qualidade absoluta, o que me parece muito próximo.

89. Pode parecer não garantido o que se realiza com a variação livre, mas tendencialmente visa ao que merece o nome de razão na medida em que esse título implica independência do factual.

90. Na figura da razão a evolução da vida alcança um ponto em que se desliga de sua condição temporal pelo status respectivamente alcançado.

91. Razão é o que vale em todos os mundos — não apenas, portanto, o que é o caso para o único mundo definido por isso.

92. A vida já não está ligada a estar presente como ela mesma em cada ponto de sua expansão, tornou-se a arte da ausência, a correção do conceito obsoleto de ubiquidade que como atributo divino significava sua presença em toda parte.

93. Então o conceito seria um desempenho inferior, o que só precisaria ser se sua actio per distans significasse falta de fundamentação na intuição.

94. A introdução kantiana das grandezas negativas na filosofia fornece o modelo de êxito para a expansão da vida, e o modelo não é bem-sucedido apenas na constituição como consciência.

95. Já o procedimento da divisão como substituição do e-assim-por-diante do crescimento é ganho pela renúncia, e muito mais o é o procedimento sexual em vez do reprodutivo.

96. A união pressupõe a divisão num sentido mais radical que o da cessão da unidade em favor da multiplicidade: os gametas se despojaram cada um da metade do que tinham a transmitir como sua peculiaridade e só pela metade entram em seu futuro generativo.

97. A exigência de duração está acoplada à renúncia ao todo do próprio, e esse acoplamento de exigência e renúncia permanece o princípio da vida como consciência.

98. A plena presentidade no atravessamento do mundo pela consciência está acoplada à renúncia ao respectivamente presente em favor de seus sempre novos sucessores.

99. Mais abstratamente: a extinção da intuição em favor do conceito é a lei de constituição de toda expansão pela experiência.

100. E a razão implica o paradoxo de ter ao mesmo tempo intenção inquebrantável ao todo e ter de fazer renúncia para ter ao menos algo inteiro: menos de mais para captar mais de menos.

101. O e-assim-por-diante vive da inquietude da exigência como da inibição da renúncia, e nada outro se exprime na determinação da consciência como intencionalidade: a resistência à renúncia, o consentimento nela apesar de tudo como racionalidade de sua economia, como se se tratasse de não decepcionar aquele espectador imaginário a quem o e-assim-por-diante do sempre-o-mesmo não seria exigível, embora a consciência, segundo todo o rigor de sua natureza, pudesse ser tão satisfeita com um único objeto quanto a vida com o crescimento ininterrupto de uma única de suas células.

102. Assim, porém, na ligação do minimamente presente com o maximamente ausente — por exemplo, como representação simbólica com recuperabilidade a todo tempo do representado pelo símbolo — está a onipresença funcional da consciência como execução de seu padrão vital.

103. A expansão da vida para além das fronteiras do factual-impressional ao reino das possibilidades essenciais passa pela autodução da consciência, assim como a recordação pelo esquecimento, senão ela seria impossível como o resto insular de vivência no continuum escuro do tempo não recordado: ela cabe na capacidade de apreensão pelo que nela foi poupado pelo esquecimento.

104. A intencionalidade quer tudo ao mesmo tempo como ele mesmo, sem prejuízo da inexequibilidade dessa exigência, mas porque a intencionalidade precisa em geral ter algo antes de poder tê-lo inteiro e no todo, ela não pode tornar isso impossível por sua sobre-exigência, como a vida não pode, pelo pastoreio excessivo de seus recursos, cortar o galho em que está sentada e canta.

Paisagem dos sonhos primevos

1. O trato com sistemas teóricos só ocasionalmente permite a digressão imaginária de pensar numa paisagem em que pudesse estar situado ou ocorrer aquilo de que a teoria fala.

2. Que filósofo nos permite imaginá-lo como o andarilho que está na paisagem de Caspar David Friedrich sobre o mar de névoa?

3. Teria Freud visto o tipo do neurótico não como seu contemporâneo — o produto da burguesia decadente da virada do século —, depois de nele ter reconhecido em seus desejos mais secretos o filho do pai da horda primeva, que trama o assassinato do rival sexual junto à mãe e às irmãs?

4. A que paisagem pertence essa atemporalidade que vem dos depósitos da latência filogenética?

5. Já no fim de sua vida, no exílio londrino do verão de 1938, Freud deu a conhecer numa notinha que sua fantasia teórica tocou também a pergunta pela paisagem para seu tipo central de problema.

6. Se o fôlego do leitor alcançou até o fim os dezessete volumes da obra completa, será recompensado pela surpresa dessa evidência: com o neurótico é-se como numa paisagem pré-histórica, por exemplo no Jura; os grandes saurianos ainda se divertem por ali, e as cavalinhas são altas como palmeiras.

7. Pode-se não ter ganho nada para um relato dos teoremas quando se recebe ainda do autor o que de outro modo se tentava em vão imaginar, mas o que se pode saber está depositado num horizonte que estabelece um grau mais alto de compreensibilidade, porque parece abarcar autor e leitor.

8. Talvez não um fim, mas um meio auxiliar: iconologia do abstrato.

9. Essa breve nota londrina pode ser pensada adiante: como há na paisagem do desmedido, dos lagartos gigantes e das hastes gigantes, o precursor do homem?

10. Tudo converge para a resposta: como o adormecido, com todo o controle da realidade recolhido, inteiramente provido do fundo das realizações de desejo que se autorizam — só assim se podia viver aqui.

11. Assim ele se tornou o sonhador.

O ocaso do mundo pela vida

1. Discriminar o gozo da vida porque, por bons ou não tão bons motivos, se considera ameaçada a permanência da vida deve, a pensar mais exatamente, parecer perverso, e nisso os teólogos ainda ou de novo têm a mão no jogo.

2. No cristianismo primitivo tivera sentido e razão confirmar a fé no ocaso do mundo com o extremo desprezo de seu gozo, porque o ocaso devia ser apenas passagem para o estágio superior de alegrias impensáveis, e estas só podiam ser alcançadas evitando satisfações prematuras.

3. Hoje os rostos da televisão se dão como se ainda o cressem, embora como sacerdotes fraudulentos de tempos obscuros e não esclarecidos nada creiam senão que seu público lhes crerá isso e lhes concederá o correspondente poder sobre os ânimos.

4. Se o mundo estivesse maduro para o ocaso, como aqueles ranzinzas decerto deixam reconhecer ou temer, seria uma omissão frívola recusar a oferta dos prazeres e volúpias ainda possíveis nele só para ter no momento certo a cara certa posta para a apocalipse, pois mostrar má consciência pertence ao bom tom em certos tempos.

5. É provável, então, que o mundo pereça? Se essa pergunta deve referir-se ao mundo no sentido literal, pode ser tranquilamente negada, porque o destino total do universo de todo modo nunca mais encontrará ninguém que o pudesse lamentar ou cujo interesse fosse por isso satisfeito.

6. É uma consolação de ordem superior entregar-se ao pensamento de que o universo seja no todo um ser que pulsa entre a mais extrema condensação e a mais extrema expansão e se mantém nesse batimento cardíaco da mera matéria.

7. A vida, que nesse todo surge em algum lugar ou várias vezes, seria então apenas a representação mais ousada do princípio da pulsação, sua versão curta episódica ou mesmo sua figuração emblemática: a vida como metáfora absoluta do universo? Caducidade pelo grau de complicação mais intrincado como nota de rodapé do todo?

8. A pergunta pela probabilidade do ocaso do mundo tem, portanto, sentido agudo apenas como pergunta posta à vida.

9. A raridade de suas condições de existência, o esforço de força para produzi-las e ganhá-las, força a ausência de consideração da vida no consumo dos recursos que lhe são alcançáveis.

10. É em virtude de sua essência, e não apenas por travessura ou deformidade, que ela está condenada ao ocaso, e o ocaso é desde todo começo o preço de sua origem.

11. Dizer que se quer, sendo assim, ao menos não se tornar culpado disso, acelerar a decadência da vida, é desconhecer a natureza da vida como o real que reduz as condições de sua possibilidade por seu mero existir.

12. O valor-limite de sua essência seria prover-se no instante e ao preço do todo do conjunto da volúpia.

13. Mesmo no mais alto estágio da moral, fosse esta compatível com a evolução da vida antes que ela se dispensasse inteiramente de seus fatores — mesmo, portanto, nesse padrão, a vida não poderia poupar as condições de sua subsistência de modo que suas necessidades entrassem em equilíbrio com seu provimento.

14. Pois o que chamamos moral tem justamente como pressuposto que a escassez na satisfação das necessidades não firme o domínio incondicional da luta por elas: não se chega ao dever onde reina o ter de, e assim também não àquele fato da razão prática que se torna ratio cognoscendi da liberdade como ratio essendi de sua legalidade.

15. Esse fato tem de poder haver, e a liberdade pode não ser o que o cuidado permite, mas o cuidado determina se o não vivenciável da liberdade ao menos pode ser inferido.

16. O cuidado se liga à vida e a seu desenvolvimento desde todo começo, ainda que só a consciência deles forneça o conceito que retrospectivamente deixa reconhecer o que só no fim perpassa um comportamento e se deixa estilizar: na grotesca figura vital do dasein, que nunca quer ser ali e então onde e quando é de fato, porque sempre se abandonou ek-staticamente.

17. Ele vive sua improbabilidade de poder sobreviver como esse cuidado elementar de não poder deixar de ser vida: autoconsumo de sua possibilidade.

18. Por isso o esforço desesperado de fazer da existência o tema absoluto de si mesmo, de livrar-se de toda essência como limitação de suas ausências de consideração.

19. Nisso ele acumula, na vontade de ausência de essência, as limita