BLUMENBERG, Hans. Höhlenausgänge. Frankfurt am Main: Suhrkamp Verlag, 1989.
PRIMEIRA PARTE - AS CAVERNAS DA VIDA
SEGUNDA PARTE - A CAVERNA NO CORAÇÃO DO ESTADO
TERCEIRA PARTE - REOCUPAÇÕES
QUARTA PARTE - CONTRAOCUPAÇÕES
QUINTA PARTE - AS CAVERNAS DA RAZÃO
SEXTA PARTE - TOCAS DE RAPOSA
SÉTIMA PARTE - OUTROS APRISIONAMENTOS (MAS NÃO OS ÚLTIMOS)
Posfácio de Giovanni Leghissa (edição italiana)
1. Não faz muito sentido acrescentar um comentário a uma obra como Saídas da Caverna, que exigiria extensão semelhante à da própria obra dada a quantidade e complexidade de suas referências, mas cabe perguntar o que Blumenberg realmente faz ao narrar a história do mito da caverna e de seus efeitos ao longo da história da filosofia, já que seu trabalho, desde Paradigmas para uma Metaforologia, examina os lugares do pensamento que remetem à impossibilidade de fixar definitivamente a fronteira entre o metafórico e o conceitual, numa operação próxima à de Derrida em A Mitologia Branca, cujo ponto decisivo não é o primado da metáfora sobre o conceito nem a fraqueza do conceito diante de um real inapreensível, mas a despedida da ideia de uma fundação última que exibiria a coerência interna do sistema e a transparência de seus procedimentos, sem que isso signifique renunciar à tarefa fundante da filosofia, que passa a ser a mostração das operações pelas quais o pensamento mede sua distância do real para cumprir sua função primária de instrumento de orientação no mundo, motivos que emergem com toda a força nessa obra maior.
2. A noção de distância é elemento imprescindível de toda antropogênese, e nela as cavernas, longe de serem apenas o lugar da pré-história humana, são o teatro da atividade humana por excelência, contar histórias, pois assim como se toma distância das feras e das intempéries, no recinto fechado da caverna toma-se distância do real narrando, de modo que sair da caverna não trouxe progresso nem mutação antropológica radical, já que, embora os métodos e meios de comunicação tenham se aperfeiçoado e multiplicado, a função de comunicar como criação de mundos de sentido compartilhados e a necessidade de interpor um espaço entre nós e o real, acessível só mediatamente, permanecem as mesmas, mesclando-se a narração com a definição do mundo comum dos objetos que existem independentemente de serem pensados ou percebidos, razão pela qual mito e razão não se sucedem, mas coexistem, ambos servindo para manter o real à distância, e o mito platônico da caverna exprime exemplarmente a filosofia como tomada de distância, pois, qualquer que seja o ponto de partida escolhido para definir as condições de possibilidade da verdade, é preciso construir um cenário nunca isento de conotações metafóricas para exibir as operações que distinguem o pensamento de outras formas de interação com o real.
3. O mito da caverna permite tornar perceptível por meio de uma narrativa o que acontece quando o filósofo se arrisca a dizer a verdade e a realizar a perigosa passagem do mundo da ilusão ao do real, havendo nítida complementaridade com Trabalho sobre o Mito, cuja demonstração de que a narrativa mítica não precede o trabalho da razão nos processos antropogenéticos se completa ao mostrar que cabe ao filósofo atravessar a distância entre o mundo do conceito e o mundo sensível para tornar disponível a si e à humanidade o necessário para definir os estatutos do verdadeiro, mas enquanto a necessidade humana de contar histórias para tapar os buracos da experiência parece inocente e inesgotável, o trabalho do conceito e a persuasão de sua função social são muito mais problemáticos, pois a travessia da caverna rumo à luz do verdadeiro ser é perigosa e não garante poder algum sobre a coletividade, e quem retorna para conduzir os outros à luz arrisca o destino de Sócrates, morto por desafiar a doxa dominante, que cumpre muito bem sua função de formação de sentido compartilhado e de condição de entendimento sobre o que é, daí a relutância em abandoná-la e o inevitável conflito, custe o que custar, entre quem assume o papel de filósofo e todo saber doxástico.
4. Todo o empreendimento de Blumenberg pode ser lido como uma descrição fenomenológica das formas assumidas pelas travessias do filósofo pelo território em que o pensamento, distinguindo-se nitidamente de toda outra relação com o mundo, experimenta o vínculo entre percepto e conceito, sem atribuir ao gesto platônico valor paradigmático como se a história da filosofia fosse variação de um único tema, pois um agudo senso histórico se alia nele a uma atenção igualmente aguda às constantes antropológicas que ligam as operações da teoria ao mundo da vida, de modo que percorrer as reaparições, variações e transformações quase irreconhecíveis do mito da caverna não é descrever a história dos efeitos de um topos, mas os modos como, em contextos históricos dados e únicos, se repõe a necessidade de distanciar-se do óbvio e do modo comum de sentir e perceber o mundo para focalizar as operações que chamamos filosóficas.
5. Em Saídas da Caverna acentua-se a atitude fenomenológica que atravessa toda a reflexão de Blumenberg, pois mostrar o que significou, nos diversos momentos da história da filosofia, adotar uma estratégia específica de travessia da distância equivale a pôr entre parênteses as operações que todo filósofo precisa repetir para definir os estatutos de seu fazer diante de outras formas de orientação no mundo, parêntese que não fixa algo invariável na história, mas focaliza as características que tornam únicas, a cada vez, as estratégias de saída da caverna, e se a questão da distância se revelar no fundo a mesma, isto é, se o que fica fora da reflexão sobre a relação entre o homem e o mundo da vida nunca se resolver na imediatez do conceito, isso não deve surpreender quem, habituado ao horizonte fenomenológico, aprendeu que as aventuras do transcendental, em que se consuma a autoconservação da razão, sempre se entrelaçam com a empiria dos processos de individuação, cuja marca primária é a necessidade de conservar a própria vida.