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0 Introdução

DREYFUS, Hubert L.; RABINOW, Paul; FOUCAULT, Michel. Michel Foucault, beyond structuralism and hermeneutics. 2nd ed ed. Chicago: University of Chicago Press, 1983.

1. Este é um livro sobre como estudar os seres humanos e o que se aprende com esse estudo, sustentando que as tentativas modernas mais influentes, fenomenologia, estruturalismo e hermenêutica, não corresponderam às expectativas que proclamaram, ao passo que Michel Foucault oferece elementos de uma alternativa coerente e poderosa, representando o mais importante esforço contemporâneo de desenvolver um método para o estudo dos seres humanos e de diagnosticar a situação atual da sociedade, razão pela qual seus escritos são discutidos cronologicamente, para mostrar como refinou seus instrumentos de análise e aguçou sua visão crítica da sociedade moderna e de seus mal-estares, e situados entre outros pensadores com quem partilha temas.

2. Foucault mostrou longamente que biografias oficiais e opiniões correntes sobre grandes intelectuais não contêm nenhuma verdade transparente, pois para além dos dossiês e da autoconsciência refinada de cada época estão as práticas históricas organizadas que tornam possíveis, dão sentido e situam num campo político esses monumentos do discurso oficial.

3. Os dados desses documentos oficiais são, contudo, relevantes e essenciais, e talvez o modo mais irônico e eficaz de iniciar um livro sobre Foucault seja reproduzir o dossiê biográfico inserido no fim das traduções inglesas de suas obras.

4. Michel Foucault nasceu em Poitiers, em 1926, lecionou em muitas universidades do mundo, dirigiu o Instituto Francês de Hamburgo e o Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Clermont-Ferrand, escreve com frequência para jornais e revistas franceses e ocupa a cátedra de História dos Sistemas de Pensamento no Collège de France, a instituição mais prestigiosa da França.

5. Além de seu estudo clássico História da loucura, Foucault é autor de O nascimento da clínica, As palavras e as coisas, A arqueologia do saber e Eu, Pierre Rivière, e seu livro mais recente, Vigiar e punir: o nascimento da prisão, foi publicado pela Pantheon em 1978.

6. Esse texto de contracapa figurava na tradução inglesa da História da sexualidade, ao qual cabe acrescentar que Foucault publicou também um longo ensaio introdutório sobre o psicanalista heideggeriano Ludwig Binswanger, um livro sobre o escritor surrealista Raymond Roussel e um pequeno livro sobre doença mental e psicologia.

7. Passando do dossiê à recepção oficial na alta intelectualidade, encontra-se uma resenha de Clifford Geertz, professor de ciências sociais do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, publicada na New York Review of Books em 26 de janeiro de 1978.

8. Foucault irrompeu na cena intelectual no início dos anos sessenta com a História da loucura, história pouco convencional mas reconhecível da experiência ocidental da loucura, e tornou-se desde então uma espécie de objeto impossível, historiador não histórico, cientista humano anti-humanista e estruturalista contraestruturalista, cujo estilo conciso e denso, ao mesmo tempo imperioso e cheio de dúvidas, e cujo método, que sustenta resumos amplos com detalhes excêntricos, fazem sua obra assemelhar-se a um desenho de Escher, com escadas que sobem a patamares mais baixos e portas que levam de volta para dentro, e que na introdução de sua única obra puramente metodológica pede que não lhe perguntem quem é nem lhe exijam permanecer o mesmo, deixando a burocratas e policiais a verificação dos papéis, sendo assim o que todo sábio francês parece precisar ser hoje, esquivo.

9. Diferentemente de grande parte do que se faz em Paris desde a chegada do estruturalismo, porém, a dificuldade de sua obra decorre não só da autocontemplação e do desejo de fundar um culto intelectual reservado a iniciados, mas de uma originalidade de pensamento poderosa e genuína, e, como não pretende nada menos que uma Grande Instauração das ciências humanas, não surpreende que seja por vezes obscuro e que, quando consegue ser claro, não seja menos desconcertante.

10. O dossiê apresenta os fatos essenciais e a resenha crítica os situa, podendo-se agora passar aos livros de Foucault.

11. A exposição centra-se nos problemas enfrentados por Foucault em suas obras, não como biografia, psico-história, história intelectual ou resumo de seu pensamento, embora contenha elementos das duas últimas, mas como leitura orientada por um conjunto de problemas, isto é, uma interpretação que toma de Foucault o que ajuda a enfocá-los e tratá-los, sem pretensão de abarcar toda a amplitude de questões que ele estudou, procedimento legítimo por ser exatamente o modo como ele trata os grandes pensadores do passado.

12. Para Foucault, o estudo dos seres humanos sofreu uma virada decisiva no fim do século XVIII, quando eles passaram a ser interpretados como sujeitos cognoscentes e ao mesmo tempo objetos de seu próprio conhecimento, interpretação kantiana que define o homem como o ser único totalmente implicado na natureza, por seu corpo, na sociedade, pelas relações históricas, econômicas e políticas, e na linguagem, pela língua materna, e que encontra ao mesmo tempo um fundamento firme para todas essas implicações em sua atividade doadora de sentido e organizadora, problemática que As palavras e as coisas chama analítica da finitude e cujas formas nos dois séculos seguintes se trata de acompanhar.

13. Para situar Foucault é preciso perceber que as ciências do homem se dividiram nas duas últimas décadas entre duas reações metodológicas extremas à fenomenologia, ambas herdeiras da divisão kantiana sujeito-objeto e desejosas de superá-la eliminando o sujeito transcendental husserliano doador de sentido, a estruturalista, que dispensa o sentido e o sujeito ao buscar leis objetivas que regem toda atividade humana, e a hermenêutica, que abandona o homem como sujeito doador de sentido, mas preserva o sentido situando-o nas práticas sociais e nos textos literários que o homem produz, sendo necessário delimitar com precisão as três posições, estruturalismo, fenomenologia e hermenêutica, para triangular os movimentos de Foucault.

14. Os estruturalistas tratam cientificamente a atividade humana buscando elementos básicos, conceitos, ações ou classes de palavras, e as regras ou leis que os combinam, havendo um estruturalismo atomista, em que os elementos são especificados independentemente de seu papel num todo maior, como os elementos dos contos populares de Propp, e um estruturalismo holista ou diacrônico, em que o elemento possível é definido fora do sistema, mas o elemento efetivo é função de todo o sistema de diferenças de que faz parte, e, como Foucault distingue explicitamente seu método do estruturalismo atomista, sua arqueologia deve ser comparada ao estruturalismo holista, ao qual é mais aparentada.

15. Lévi-Strauss enuncia sucintamente esse método.

16. O método consiste em definir o fenômeno estudado como relação entre dois ou mais termos, reais ou supostos, construir um quadro das permutações possíveis entre esses termos e tomar esse quadro como objeto geral da análise, único nível em que se obtêm conexões necessárias, sendo o fenômeno empírico considerado de início apenas uma combinação possível entre outras, cujo sistema completo deve ser reconstruído previamente.

17. Tudo depende dos critérios de individuação dos termos, pois para estruturalistas holistas como Lévi-Strauss todos os termos possíveis devem ser identificados independentemente de qualquer sistema específico, e é o sistema específico que determina quais termos possíveis contam efetivamente como elementos, como em O cru e o cozido, onde cru, cozido e podre são três elementos possíveis que cada sistema individua diferentemente, agrupando-os em oposições binárias como cru contra cozido e podre, cru e podre contra cozido, ou fazendo cada um contar por si.

18. A fenomenologia transcendental definida e praticada por Edmund Husserl é o oposto diametral do estruturalismo, pois aceita que o homem é totalmente objeto e totalmente sujeito e investiga a atividade doadora de sentido do ego transcendental, que confere sentido a todos os objetos, inclusive ao próprio corpo, à personalidade empírica e à cultura e à história que ele constitui como condicionantes de seu eu empírico.

19. A fenomenologia transcendental de Husserl suscitou um contramovimento existencial liderado por Heidegger na Alemanha e Merleau-Ponty na França, ambos profundamente estudados por Foucault, que ouviu na Sorbonne Merleau-Ponty expor a fenomenologia da experiência vivida e mostrar, nas aulas e na Fenomenologia da percepção, que é o corpo vivido e não o ego transcendental que organiza a experiência e que o corpo, como conjunto integrado de habilidades, não se submete à análise intelectualista em termos de regras desenvolvida por Husserl, e que estudou Ser e tempo, apresentando com simpatia a ontologia hermenêutica de Heidegger em sua primeira obra publicada, longa introdução a um ensaio do psicoterapeuta heideggeriano Ludwig Binswanger.

20. A fenomenologia de Heidegger sublinha que os sujeitos humanos são formados pelas práticas culturais históricas em que se desenvolvem, fundo que nunca pode ser inteiramente explicitado nem compreendido em termos das crenças de um sujeito doador de sentido, mas que contém um sentido, um modo de compreender e lidar com coisas, pessoas e instituições, que Heidegger chama interpretação e cujos traços gerais pretende manifestar por um método, a interpretação da interpretação incorporada nas práticas cotidianas, que em Ser e tempo denomina hermenêutica, termo que remonta a Schleiermacher, interpretação dos textos sagrados, e a Dilthey, que o aplicou à história, e que Heidegger, generalizando Dilthey num método geral de compreensão dos seres humanos, introduziu no pensamento contemporâneo.

21. Há em Ser e tempo dois tipos diferentes de investigação hermenêutica, correspondentes às Divisões I e II, cada um desenvolvido por uma das duas escolas filosóficas contemporâneas que se dizem hermenêuticas.

22. Na Divisão I, Heidegger elabora uma interpretação do Dasein em sua cotidianidade, expondo como ele se interpreta na atividade cotidiana, compreensão primordial presente nas práticas e discursos cotidianos, despercebida pelos praticantes mas reconhecível por eles quando apontada, objeto de muitas investigações hermenêuticas recentes, como as do sociólogo Harold Garfinkel e do cientista político Charles Taylor, com derivações que aplicam o mesmo método a outras culturas, como a antropologia de Clifford Geertz, ou a outras épocas da nossa, como Thomas Kuhn ao tratar hermeneuticamente a física aristotélica.

23. A Divisão I mostra que a compreensão inscrita nas práticas cotidianas é parcial e portanto distorcida, limitação corrigida na Divisão II, que não toma essa interpretação pelo que aparenta, mas como mascaramento motivado da verdade.

24. O modo de ser do Dasein exige que toda interpretação ontológica que pretenda exibir os fenômenos em sua primordialidade capture o ser desse ente apesar de sua tendência a encobrir as coisas, razão pela qual a análise existencial tem constantemente o caráter de violentar as pretensões da interpretação cotidiana, sua complacência e sua evidência tranquilizada.

25. A verdade profunda que Heidegger pretende encontrar oculta nas práticas cotidianas é a inquietante falta de fundamento de um modo de ser que é interpretação até o fim, exemplo do que Ricoeur chamou hermenêutica da suspeita, em que a verdade oculta poderia ser também a luta de classes revelada por Marx ou os desvios da libido descobertos por Freud, sempre exigindo uma autoridade que já viu a verdade, em Ser e tempo a voz da consciência, para levar o participante iludido a vê-la, confirmação da interpretação profunda pelo reconhecimento do indivíduo e alguma libertação ao enfrentar a verdade, já que o sofrimento é causado pelas defesas repressivas, seja a flexibilidade de saber que nada é fundado, a força de reconhecer a exploração da própria classe ou a maturidade de encarar os segredos da própria sexualidade.

26. Hans-Georg Gadamer, em Verdade e método, dá à hermenêutica profunda uma direção mais positiva como método de reapropriação de uma compreensão profunda do Ser preservada nas práticas linguísticas tradicionais, cuja reinterpretação salvadora seria a única esperança diante do niilismo.

27. Foucault não se interessa por recuperar a autointerpretação cotidiana despercebida do homem e concorda com Nietzsche e a hermenêutica da suspeita que ela se ilude sobre o que realmente ocorre, mas não crê que uma verdade profunda oculta cause a má interpretação inscrita na autocompreensão cotidiana, englobando todas essas posições e a de Gadamer em sua definição do comentário como reapreensão, através do sentido manifesto do discurso, de outro sentido ao mesmo tempo secundário e primário, mais oculto e mais fundamental, concepção que condena a uma tarefa infinita por supor que a fala é tradução e exegese que escuta a Palavra de Deus sempre secreta e além de si, e que ele descarta observando que há séculos se espera em vão a decisão do Verbo.

28. A terminologia nesse domínio é confusa, razão pela qual se adota hermenêutica como termo amplo e neutro, comentário para a recuperação de sentidos e verdades das práticas cotidianas ou de outra época ou cultura, e hermenêutica da suspeita para a busca de uma verdade profunda propositalmente oculta.

29. Ao longo de suas estratégias de estudo dos seres humanos, Foucault buscou constantemente ir além dessas alternativas, as únicas restantes a quem ainda tenta compreender o homem na problemática deixada pelo colapso do quadro humanista, evitando a análise estruturalista que elimina o sentido e o substitui por um modelo formal de comportamento como transformações regradas de elementos sem sentido, o projeto fenomenológico de remeter todo sentido à atividade de um sujeito transcendental autônomo e a tentativa do comentário de ler o sentido implícito das práticas sociais, bem como a escavação hermenêutica de um sentido diferente e mais profundo de que os atores só têm vaga consciência.

30. As primeiras obras de Foucault, História da loucura e O nascimento da clínica, analisam sistemas historicamente situados de instituições e práticas discursivas, distinguidas dos atos de fala cotidianos e restritas aos atos de fala sérios, o que os especialistas dizem enquanto especialistas, nas disciplinas duvidosas chamadas ciências humanas, ao passo que A arqueologia do saber busca purificar a análise do discurso pondo temporariamente de lado a análise institucional, sem abandonar a tese de que as instituições influenciam as práticas discursivas, tratando as ciências do homem como sistemas autônomos de discurso com autorregulação interna e abordando-os arqueologicamente, sem discutir a verdade ou o sentido de seus enunciados, como objetos-discurso, num método que, neutro quanto à verdade e ao sentido, não é outra teoria da relação entre palavras e coisas, mas uma teoria do discurso ortogonal a todas as disciplinas, seus conceitos, sujeitos legitimados, objetos aceitos e estratégias, embora Foucault reconheça que já não pode falar do lugar a partir do qual mostrou que esses discursos falavam.

31. Foucault nunca foi estritamente estruturalista nem pós-estruturalista e afastou-se depois das teses fortes da Arqueologia de que o discurso é um sistema regrado semelhante aos do estruturalismo e autônomo e autorreferente como diziam os pós-estruturalistas, mas importa confrontar essa posição por partilhar pressupostos fundamentais com o estruturalismo, cujo projeto fracassa por duas razões, a primeira porque o poder causal atribuído às regras dos sistemas discursivos é ininteligível e torna incompreensível a influência das instituições sociais, sempre central nas preocupações de Foucault, e a segunda porque, tomando a arqueologia como fim em si, ele se impede de aplicar suas análises críticas a suas preocupações sociais.

32. Diante desse impasse, em que o método arqueológico sozinho não lhe permitia tratar a gama de problemas que animavam sua obra, Foucault repensou seus instrumentos, abandonando após a Arqueologia a tentativa de desenvolver uma teoria do discurso e partindo da genealogia de Nietzsche para elaborar um método capaz de tematizar a relação entre verdade, teoria e valores e as instituições e práticas sociais em que emergem, o que o levou a atentar para o poder e o corpo em sua relação com as ciências humanas, sem rejeitar o método arqueológico, mas apenas a tentativa de uma teoria dos sistemas regrados de práticas discursivas, de modo que a arqueologia, como técnica, serve à genealogia e, como método de isolar objetos-discurso, distancia e desfamiliariza o discurso sério das ciências humanas, permitindo colocar as questões genealógicas de como esses discursos são usados e que papel desempenham na sociedade.

33. Vigiar e punir, publicado seis anos após a Arqueologia de 1969, concentra-se nas práticas carcerárias que deram origem às ciências do homem e deram ao homem e à sociedade uma forma suscetível de análise objetiva e arqueológica, mostrando que muitos termos-chave da Arqueologia, como governar, regular, transformação, elemento, regra, série, exterioridade e sistema, constituem uma grade de interpretação gerada por práticas históricas específicas.

34. Na História da sexualidade, Foucault contesta a crença hermenêutica no sentido profundo ao traçar o surgimento da confissão sexual e relacioná-la a práticas de dominação social, mostrando a importância de práticas confessionais como a psicoterapia e os procedimentos médicos, reveladas pelo enorme interesse pela psique em todos os domínios da vida, práticas que, supostamente destinadas a revelar um sentido profundo acessível apenas a uma interpretação alegórica infinita, produzem o discurso proliferante dos sujeitos falantes, sugerindo que não se pode supor sentidos profundos a investigar só porque a cultura o afirma e que a noção de sentido profundo é uma construção cultural, demonstração concreta das duas dimensões estratégicas das práticas totalizantes que produzem o homem como objeto e sujeito e o preservam como ambos numa sociedade objetivada e obcecada pelo sentido.

35. Essa combinação permite a Foucault um diagnóstico geral da situação cultural atual, identificando a organização difusa da sociedade como biotécnico-poder, ordenação crescente de todos os domínios sob pretexto de melhorar o bem-estar do indivíduo e da população, que ao genealogista se revela uma estratégia sem diretor, em que todos estão cada vez mais enredados e cujo único fim é o aumento do próprio poder e da ordem.

36. Há outras maneiras de ler nossa história e Foucault não é o primeiro a lê-la assim, inscrevendo-se numa linhagem de pensadores como Nietzsche, Weber, o último Heidegger e Adorno, mas sua contribuição está numa sofisticação metodológica maior e na ênfase singular no corpo como lugar em que as práticas sociais mais minúsculas e locais se ligam à organização do poder em grande escala.

37. Foucault une o melhor da reflexão filosófica a uma atenção escrupulosa ao detalhe empírico, mas permanece conscientemente e frustrantemente esquivo quando se trata de captar a condição atual em fórmulas gerais, como a definição heideggeriana da essência da técnica como posição, ordenação e disponibilização de todos os entes, coerente com sua análise de que tais generalidades ou são vazias ou podem justificar o que ele quer resistir, pois quem percebe a difusão, dispersão, complexidade, contingência e estratificação das práticas sociais percebe também que toda tentativa de resumir o que acontece é uma distorção potencialmente perigosa.

38. Foucault também irrita muitos ao insistir numa intenção pragmática de toda historiografia significativa, escrevendo a história do presente por um método aqui chamado analítica interpretativa, em que a análise das práticas atuais e de seu desenvolvimento histórico é uma demonstração disciplinada e concreta capaz de fundar um programa de pesquisa, mas o diagnóstico de que a organização crescente de tudo é a questão central de nosso tempo não é empiricamente demonstrável, emergindo como interpretação nascida de preocupações pragmáticas, com intenção pragmática, e por isso contestável por outras interpretações oriundas de outras preocupações.

39. A obra de Foucault está e sempre esteve além do estruturalismo e da hermenêutica, pois no período da Arqueologia a redução do sujeito a função do discurso e o tratamento do discurso sério como sistema autônomo regrado, sem leis universais a-históricas, o levaram a dizer que seu método não era inteiramente alheio à análise estrutural, mas com o abandono da arqueologia como projeto teórico ele se distancia do estruturalismo e o situa historicamente no contexto das práticas crescentes de isolamento, ordenação e sistematização características da tecnologia disciplinar, preservando porém a técnica estrutural de tratar discurso e falante como objetos construídos, passo necessário para não tomar os discursos e práticas desta sociedade como simples expressão do modo como as coisas são.

40. Antes de adotar técnicas estruturalistas, na introdução ao ensaio de Binswanger, Foucault identificava-se claramente com a ontologia hermenêutica nascida de Ser e tempo, mas, ao interessar-se pelos efeitos sociais mais que pelo sentido implícito das práticas cotidianas, deixou para trás as preocupações hermenêuticas, e foi pela leitura de Nietzsche, cuja genealogia mostra como o poder usa a ilusão de sentido para expandir-se, que voltou à necessidade e aos perigos da interpretação, criticando a hermenêutica tanto como comentário da vida cotidiana quanto como exegese profunda do que as práticas ocultam, e chegando à posição que chama decifração, compreensão das práticas sociais como dotadas de uma inteligibilidade radicalmente diferente da acessível aos atores, que as acham superficialmente significativas, profundamente significativas ou profundamente sem sentido.

41. A contribuição mais original de Foucault, embora não a tematize como tal, consiste em desenvolver essa interpretação apontando exemplos consensuais de como um domínio da atividade humana deve ser organizado, como os confessionários cristão e psicanalítico e o Panóptico de Jeremy Bentham, que mostram como nossa cultura normaliza os indivíduos por meios cada vez mais racionalizados, convertendo-os em sujeitos significativos e objetos dóceis, o que explica a centralidade do estudo dos seres humanos como sujeitos e objetos e o poder das técnicas atuais desse estudo, hermenêutica e estruturalismo, de modo que Foucault consegue ao mesmo tempo criticar e utilizar de modo altamente original os dois métodos dominantes disponíveis para o estudo dos seres humanos.

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