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Brun

Jean Brun (1919–1994)

Jean Brun (1919–1994) foi, assim como Jacques Ellul, profundamente marcado pelo encontro com Kierkegaard. A obra kierkegaardiana não lhe pareceu uma filosofia entre tantas outras, nem um tema de pesquisa semelhante aos demais que abundam em seus escritos, mas uma palavra que o “tocou” no sentido mais profundo da palavra, pois o colocou à escuta da “Verdade que nos fala”, Verdade «da qual não somos possuidores [mas à qual] nós […] pertencemos». Assim, o autor de Temor e Tremor foi para ele um ponto de referência constante, um espírito com o qual se encontrou em comunhão espiritual, o próximo com quem compartilhou o sentimento trágico da vida.

Recusando-se a aceitar dogmas tranquilizadores e sistemas teológicos, nos quais via uma tentativa do homem, também ela trágica, de fugir de seu sofrimento e de sua pobreza fundamentais, Jean Brun afirmava:

«Devemos felicitar São Tomás ou lamentar que toda uma dimensão essencial do homem e do cristianismo [a tentação, a angústia, a aflição, a morte] tenha sido apagada em benefício de uma serenidade edificante? Devemos seguir G.K. Chesterton ao falar de São Tomás ou reler A Escola do Cristianismo, de Kierkegaard?”

De fato, o olhar de Jean Brun está fixo na Cruz, que revela a catástrofe da existência humana que Cristo assumiu para nos salvar. Ele é um pensador trágico – em certos aspectos, mais trágico até do que Kierkegaard, que dedicou uma parte não desprezível de sua obra à doçura consoladora da fé e à sua serenidade alegre – e isso nos parece explicar-se, pelo menos parcialmente, pela distância temporal que separa os dois autores. Testemunha entristecida da descristianização em curso, intérprete profético do declínio da “cristandade” que deixou de ser uma comunidade de crentes para se transformar em uma mera categoria sociocultural com necessidade imperiosa de reevangelização, Kierkegaard vivia, no entanto, em uma sociedade que não havia perdido inteiramente o sentido da queda e do pecado. Jean Brun, por sua vez, não vive mais, como Kierkegaard, na “cristandade”, mas na “pós-cristandade”. A partir daí, seu dever surge como o de varrer o terreno, de “desnudar a existência, despindo-a das vestes, dos disfarces ou das armaduras que a nos ocultam”, dever que ele considera como a razão de ser da filosofia.

Pois, por mais paradoxal que possa parecer vindo de um autor que dedicou sua vida ao estudo dos grandes filósofos, Jean Brun questiona a empresa filosófica em sua hybris, que é a de querer dar ao homem a chave da existência. Ele se opõe até mesmo ao aparato conceitual que pretende ser um domínio do homem sobre sua própria realidade (a etimologia o diz claramente: “conceito” do latim “capio”, tomar, agarrar, capturar; “Begriff”, portanto, apreensão), mas que, no fundo, abole a existência individual e conduz aos totalitarismos que esmagam vidas – é por isso que ele recorre a uma linguagem bastante metafórica, de uma comovente delicadeza poética, que roça os mistérios sem os desflorar, que sugere e deixa intacta a complexidade do vivido. Pensador cristão, ele reduz a filosofia à sua limitação intrínseca: a filosofia não é, diz ele, tomando emprestada uma expressão de Kierkegaard, senão uma «ama seca» que «não pode nos amamentar», mas que, no entanto, é chamada a extrair sua dignidade de sua própria pobreza, já que «a filosofia pode ser humildemente grande na medida em que procura nos conduzir até a beira dos limiares que nos constituem »: «É até o fundo dos becos sem saída, que percorremos depois de os termos tomado por estradas reais, que a filosofia deve nos conduzir para que sejamos capazes de ouvir, ab imo [do fundo], a Voz que nos encontrou e que esperávamos em vão.»

Um verdadeiro abismo separa, no entanto, essa visão da antiga concepção da filosofia como ancilla theologiae (serva da teologia). Pois Jean Brun não fala em termos de teologia, não se refere a uma filosofia que pudesse ser capaz de conceituar as verdades da fé, mas pensa existencialmente. Se a filosofia pode, sob certo ângulo, ser comparada a João Batista, o Precursor, é como uma palavra que bate às portas da Palavra, como uma «vox clamantis in deserto», «a voz daquele que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor » (Jo 1,23), voz que se extingue no deserto e o revela, voz que silencia os ruídos com os quais o homem tenta preencher o silêncio. Isso implica que essa filosofia, que poderíamos com razão qualificar de cristã, deve ela própria estar à escuta da Palavra revelada, ser penetrada por ela, alimentar-se dessa luz que não é deste mundo e que é a única capaz de fazer o mundo aparecer sob sua verdadeira luz. É preciso, portanto, que a filosofia se despoje de suas pretensas glórias tiradas da Árvore do Conhecimento e aceite sua verdadeira vocação, que lhe é conferida do alto.

A filosofia de Jean Brun surge assim como uma filosofia ascética, vestida de pelo de camelo, tendo por tarefa combater os ídolos do tempo, que são, no fundo, os de todos os tempos, restabelecer a linha de demarcação entre verdade e mentira, bem e mal, o tortuoso e o reto, de reconduzir o homem à sua condição de criatura caída, fazendo-o compreender que está à mercê de tal decadência que deixou, mesmo vivendo-a, de ter consciência dela. Se a ênfase recai sobre a Queda, sobre o naufrágio da existência, é apenas para abrir o coração do leitor ao anúncio da Salvação.


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