Descombes (2014:Anexos) – “eu” e “mim”

destaque

A primeira decisão é a de traduzir “das Ich” como “Eu” [Je] ou “eu” [Moi]. Balibar defende a escolha de Foucault, que fala de possuir o Eu (maiúsculo!) na sua representação. De fato, escreve, “o poder de que Kant fala aqui não é o de descrever um objeto (que é a própria pessoa), é o de assumir na primeira pessoa o que se diz sobre ele. A objeção a isto é que, em francês, a palavra utilizada para sublinhar que se está a assumir uma posição é precisamente “moi”. O sujeito sublinha que a sua opinião é a sua, a que ele defende, dizendo por exemplo: “Moi, je pense ainsi” (“Eu, eu penso assim”). Além disso, é a palavra latina “ego” que é utilizada na proposição fundadora das filosofias do sujeito: ego cogito, ego sum. Como os comentadores de Descartes bem assinalaram, a afirmação canônica “ego cogito” deve ser traduzida por “moi, je pense”.

Em seguida, o tradutor deve decidir se coloca ou não aspas à volta desta palavra. Trata-se da palavra “Ich” ou do objeto assim designado? Como podemos ver, fazer esta pergunta é voltar à dificuldade anterior, uma vez que estamos agora a falar de um objeto chamado eu [moi]. Ao falar na primeira pessoa, o orador indica que está a falar de si próprio. Sim, mas como é que ele indica isso? Aqui, Balibar sublinha, com razão, o desconforto do filósofo quando tem de dizer a que é que a palavra “eu” é suposta referir-se: se a palavra “Ich” tem o sentido de indicar algo que o sujeito encontra na sua representação, então designa um Ich, nomeadamente “esse ‘algo’ que não é uma coisa [“I, ME, SELF”, op. cit. p. 646]”. Qual é a função da palavra “Ich” na frase? É, escreve Balibar, “representar o irrepresentável que Ich nomeia para si próprio (für sich selbst)”. Por outras palavras, a dificuldade mantém-se. O algo que não é uma coisa, o ser que não é representável como objeto e que é representado precisamente por não ser representável: todas estas circunlocuções apenas reproduzem o embaraço de ter de manter o pronome “eu” como uma espécie de nome próprio referente a um eu [moi]. Precisamos de algo para designar se quisermos manter que a palavra “eu” é referencial, mas parece que nada pode fazer o trabalho, que nenhum objeto pode ser identificado como aquilo que este nome designou. Chegados a este impasse, somos tentados a concluir que, se a palavra “eu” se apresenta como um nome, não deixa de ser um nome sem qualquer atribuição a um objeto qualquer: daí até à conclusão de que esta palavra não tem qualquer função na frase, de que é excedentária [“JE, MOI, SOI”, op. cit. p. 646].

original

  1. Voir les explications de Lucien Tesnière sur la différence entre l’indice verbal « je » et le pronom « moi ». Il donne cet exemple : « Ce serait une grave erreur de faire équivaloir ego à je et de traduire ego amo par j’aime » (Éléments de syntaxe structurale, Paris, Klincksieck, 1988, p. 140).[]
  2. Kant, Anthropologie du point de vue pragmatique [1798], § 1, trad. Michel Foucault, Paris, Vrin, 1964.[]
  3. Voir son article « JE, MOI, SOI », in Vocabulaire européen des philosophies, dir. Barbara Cassin, Le Seuil/Le Robert, 2004, p. 645-646.[]
  4. Étienne Gilson remarque que le latin « ego cogito » rend plus fermement la pensée de Descartes que ne le fait le français « je pense » (dans son commentaire de Descartes, Discours de la méthode, Paris, Vrin, 1962, p. 292). Moi qui pense, moi du moins j’existe, quoi qu’il en soit de tout le reste.[]
  5. « JE, MOI, SOI », op. cit., p. 646.[][]
  6. Ibid.[]

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