zizek:anstoss

4. Anstoß e Tat-Handlung

MML

  • Homologia formal entre Anstoß e o objet a lacaniano, segundo a qual o Anstoß funciona como foco vazio em torno do qual circula a atividade de pôr do Eu.
    • Funcionamento do Anstoß como campo magnético: ele concentra e orienta a atividade do Eu, determinando o ponto em torno do qual o movimento de autoposição se organiza.
    • Insubstancialidade do Anstoß, já que ele não precede a atividade que o encontra, mas é gerado pela própria operação que reage a ele e lida com ele.
    • Produção do objeto pela própria busca, figurada pela anedota do recruta cuja compulsão por examinar papéis e declarar não é isto só encontra seu objeto quando recebe o documento de dispensa e reconhece isso é isto.
      • Estrutura circular em que a própria dinâmica de procura fabrica aquilo que aparece como termo final da procura.
      • Objeto produzido como solução precisamente porque a busca institui o espaço em que algo pode contar como aquilo que se procurava.
    • Paradoxo último do Anstoß: ele não está simplesmente fora do movimento circular da reflexão, mas é posto por esse mesmo movimento autorreferencial.
      • Transcendência do Anstoß definida como impenetrabilidade absoluta e impossibilidade de reduzi-lo a objeto representado ordinário.
      • Coincidência dessa transcendência com imanência absoluta, pois o Anstoß é interno ao circuito que o produz.
  • Indecidibilidade entre imanência e transcendência do Anstoß, e necessidade de uma solução que não recaia nem na limitação externa dogmática nem na lógica perversa do obstáculo autoposto.
    • Pergunta sobre se o Anstoß suscita o Eu desde fora ou se é posto pelo próprio Eu, formulada como alternativa entre perturbação externa e autoposição interna.
    • Risco do polo transcendente: sujeito finito limitado por um Anstoß concebido como Coisa-em-si kantiana, ou como alteridade intersubjetiva concebida como única Coisa verdadeira, na forma de um Anstoß ético.
    • Risco do polo imanente: lógica perversa e entediante em que o Eu põe obstáculo apenas para superá-lo, convertendo a resistência em teatro autocentrado.
    • Solução exigida como simultaneidade absoluta e sobreposição entre autoposição e obstáculo, de modo que o obstáculo não seja simplesmente posto, mas ejetado.
      • Obstáculo concebido como rejeito excremental do processo de autoposição, como avesso secretado da própria atividade que se põe.
      • Obstáculo como não tanto posicionado quanto excretado, secretado como subproduto inevitável do ato de autoposição.
  • Anstoß como a priori transcendental do pôr e como único elemento não posto, isto é, aquilo que incita o Eu ao pôr interminável sem ele próprio ser resultado de um pôr.
    • Anstoß como condição que estimula a repetição incessante da atividade de pôr, funcionando como motor formal da autoposição.
    • Anstoß como único não posto, precisamente porque sua função é instaurar o regime no qual algo pode ser posto.
    • Formulação em termos lacanianos da lógica do não-Todo: o Eu finito e o não-Eu limitam-se reciprocamente, enquanto no nível absoluto nada existe que não seja Eu.
      • Ilimitação do Eu no nível absoluto como razão de seu caráter não-Todo, já que a totalidade do Eu implica o ponto que impede sua totalização plena.
      • Anstoß como aquilo que faz o Eu não-Todo, isto é, como marca formal de uma totalidade que não se fecha.
  • Proibição de representar o limite de modo objetivado, sob pena de perder o ponto decisivo da argumentação fichteana.
    • Advertência de que, ao tentar dar conta do limite, não se deve representá-lo como objeto, nem como algo reificado dentro do campo representacional.
    • Crítica da versão padrão segundo a qual Kant preservaria um X externo que afeta o sujeito, enquanto Fichte fecharia o círculo do solipsismo transcendental.
      • Falha dessa versão em perceber que a dispensa da Coisa-em-si não se deve à inflação do sujeito a um Absoluto infinito, mas à finitude do sujeito transcendental.
    • Sentido da comparação wittgensteiniana entre a inexistência de fim na vida e a inexistência de limites no campo visual.
      • Impossibilidade de sair da finitude para perceber a finitude como limitada, já que a percepção do limite exigiria um ponto exterior ao próprio campo finito.
    • Recusa de conceber o Eu transcendental como espaço fechado cercado por outro espaço externo de entidades noumenais, porque tal figura já objetiviza indevidamente o limite.
  • Explicitação lacaniana pela distinção entre sujeito do enunciado e sujeito da enunciação, mostrando que afirmar diretamente a própria finitude já implica assumir uma posição infinita e objetivadora.
    • Autodefinição como ser finito no mundo entre outros seres exigindo, no nível da enunciação, um ponto de vista a partir do qual se observa a totalidade e se localiza a si mesmo nela.
    • Objetivação do limite entre Eu e mundo ocorrendo quando se fala como se o limite pudesse ser visto e situado de fora.
    • Única via para afirmar a finitude como tal consistindo em aceitar a infinitude do próprio mundo, pois o limite não pode ser localizado dentro do campo em que se está.
    • Dificuldade da noção de Anstoß derivando do fato de que ele não é objeto na realidade representada, mas substituto dentro da realidade daquilo que está fora dela.
      • Presença do fora na realidade sob a forma de um representante interno que não se deixa reduzir à série dos objetos dados.
  • Paralelo entre o problema do limite e o problema da morte, entendido como limite da vida que não pode ser localizado no interior da vida.
    • Morte como limite que, precisamente por ser limite, não aparece como objeto interno à vida, de modo que localizá-la dentro da vida já distorce sua estrutura.
    • Afirmação de que a aceitação plena desse fato exige um ateísmo verdadeiro, ilustrado pela reflexão de Ingmar Bergman.
      • Experiência anestésica de desaparecimento da realidade como compreensão imediata do passar do ser ao não-ser.
      • Libertação da ansiedade ligada a conceitos religiosos de pós-vida, acompanhada de uma tristeza residual pela perda imaginária de experiências futuras.
      • Satisfação profunda diante da tese de que não existe nada além deste mundo e de que tudo existe e acontece dentro do entrelaçamento interno dos seres.
      • Afirmação de que ser e não ser se sucedem sem transição metafísica, e de que isso é aceitável e suficiente.
  • Verdade no argumento epicurista contra o medo da morte, na medida em que a fonte do medo reside na imaginação que transforma o não-evento em evento.
    • Medo da morte enraizado no poder imaginativo de figurar a passagem ao não-ser como se fosse experiência positiva.
    • Morte como evento descrita como anamorfose última, pois o temor faz experimentar um não-ser como se fosse coisa ou acontecimento.
  • Coincidência entre diferença externa e diferença interna na relação antagonística, conduzindo à identidade dialética dos opostos em que a condição de possibilidade é simultaneamente condição de impossibilidade.
    • Antagonismo no qual a diferença que separa e garante identidade também fere internamente essa identidade, tornando-a instável e truncada.
    • Condição de possibilidade de identidade coincidindo com condição de impossibilidade, pois a identidade se afirma apenas sobre o fundo de um resto irreduzível que a impede de fechar-se.
    • Base da autoidentidade assentada em seu oposto, de modo que toda identidade carrega a marca do que a desmente e a limita por dentro.
  • Primazia do modelo I = I como arquétipo de toda identidade, com a identidade formal-lógica derivada da autoidentidade transcendental do Eu.
    • Autoidentidade do Eu afirmada como fundamento primeiro, enquanto a noção formal de identidade surge como derivação e estabilização secundária.
    • Ênfase na tese de que o Eu absoluto não é fato, mas feito, isto é, Tat-Handlung, e que sua identidade é pura processualidade.
      • Identidade como inteiramente processual significando que o sujeito não possui substrato anterior ao processo, mas emerge como efeito do próprio movimento.
      • Sujeito como resultado do fracasso de tornar-se plenamente sujeito, de modo que a falha é o que constitui a subjetividade.
      • Coincidência plena entre fracasso e sucesso apenas no caso do sujeito, pois sua identidade se funda no próprio vazio e na própria falta.
    • Aparência de identidade substancial nos demais casos como algo que parece preceder a processualidade, ao passo que no sujeito a processualidade é originária.
  • Prioridade transcendental-ontológica da processualidade pura do Eu sobre qualquer entidade substancial, exigindo que toda substancialidade aparente seja explicada como resultado reificado da gênese transcendental.
    • Crítica ao dogmatismo realista como incapacidade de reconhecer que a substância é efeito do processo, e não seu fundamento.
    • Contabilização de toda aparência de identidade substancial como produto reificado da atividade processual do Eu, e não como dado originário.
    • Necessidade de reconduzir a estabilidade aparente ao movimento gênico que a produz e a fixa.
  • Passagem de I = I à delimitação entre Eu e não-Eu como passagem do antagonismo imanente à limitação externa que garante identidades opostas.
    • Autoposição pura do Eu não se dividindo simplesmente em Eu finito e não-Eu, mas pondo ambos como opostos que se limitam mutuamente.
    • Produção de limitação externa como tentativa de resolver tensão imanente da processualidade do Eu, deslocando contradição interna para oposição estabilizada.
    • Garantia de identidade dos polos opostos obtida por delimitação externa, que funciona como solução para a instabilidade interna da autoposição.
  • Tese fichteana segundo a qual o limite externo é sempre resultado de autolimitação interna, desenvolvida como núcleo do idealismo transcendental absoluto, e contraste com Kant, para quem a Coisa-em-si é limite externo direto do campo fenomenal.
    • Para Kant, limite entre noumenal e fenomenal entendido como fronteira externa que não se origina na autolimitação do sujeito.
    • Para Fichte, limite externo reinterpretado como efeito de autolimitação interna, de modo que a exterioridade do limite é sempre correlata a um ato interno.
    • Suspensão da leitura padrão que vê nessa tese a absorção completa de todo limite externo pela mediação infinita do sujeito.
      • Possibilidade de pensar a autolimitação como sobreposição de limitação interna e externa, preservando a tensão entre truncamento interno e referência ao fora.
  • Deslocamento do acento do genitivo subjetivo ao genitivo objetivo na expressão limitação do Eu, impedindo que a autolimitação seja lida como domínio soberano do sujeito sobre seus limites.
    • Limitação do Eu como não significando que o Eu seja mestre e agente pleno de sua limitação, integrando-a pacificamente na aut mediação.
    • Limitação do Eu como significando que a limitação externa do Eu o trunca desde dentro, atingindo a própria identidade do sujeito.
    • Limite como ferida interna que impede fechamento identitário, ainda que se apresente como exterioridade.
  • Não-Eu como nada absoluto fora do campo transcendental do Eu, recusando qualquer representação do não-Eu como outro nível ontológico e afirmando-o como vazio e não-nível.
    • Fora do campo do pôr do Eu não existindo um espaço alternativo, mas apenas ausência de espaço, isto é, vazio próprio do não-Eu.
    • Não-Eu como não-ser, como nada para o Eu, de modo que sua figura não designa uma positividade exterior, mas um vazio correlativo.
  • Emergência do não-Eu apenas como correlato da não-posição do Eu, implicando que o não-Eu é a própria não-posição do Eu e que sua atividade só aparece como resultado da passividade do Eu.
    • Atividade de toda posição atribuída ao Eu, de modo que a atividade do não-Eu só pode aparecer onde o Eu se torna passivo.
    • Resistência objetiva do mundo como efeito de uma auto-passivação do Eu, permitindo que algo atue de volta sobre ele.
    • Consequência ética segundo a qual a determinação por causas externas ocorre apenas na medida em que se consente em ser determinado, sendo toda determinação externa mediada pela aquiescência.
    • Falha fatal da Coisa-em-si kantiana por supor atividade no não-Eu sem passividade correspondente no Eu, instaurando uma assimetria que permanece impensável e dogmática.
  • Finitude do Eu ponente como síntese a priori do finito e do infinito, na qual o Eu deve pôr um absoluto fora de si e, simultaneamente, reconhecer que ele só existe para si.
    • Necessidade reflexiva de postular um absoluto inacessível como padrão em relação ao qual a condição mediada do sujeito se mede.
    • Existência desse absoluto apenas relativamente à finitude e ao modo de intuição do Eu, isto é, apenas para o Eu.
    • Leitura imanente que impede tomar o absoluto como entidade independente, sem negar sua função como pressuposição prática do agir.
    • Primeira consequência: o absoluto infinito surge apenas no horizonte de um sujeito finito que experimenta sua finitude.
    • Segunda consequência: experiência do hiato em relação ao absoluto é inerentemente prática e impele a atividade incessante.
    • Abertura, junto a essa orientação prática, de um espaço para um desespero radical, onde não apenas a realização do ideal falha, mas o próprio ideal pode aparecer como inválido e não digno de ser buscado.
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