Souriau
Étienne Souriau (1892–1979)
Filósofo, esteta e metafísico francês, membro da Académie des Sciences Morales et Politiques (eleito em 1958) e professor titular da cátedra de Estética e Ciência da Arte na Universidade de Paris IV-Sorbonne (onde lecionou de 1945 até a sua aposentadoria), Étienne Souriau é uma das figuras mais originais e incontornáveis da ontologia e da teoria das formas da modernidade francesa. Filho do esteta Paul Souriau, Étienne construiu uma obra vasta e sistemática que recusa a redução da arte a uma psicologia do gosto ou a uma sociologia histórica das representações. Ao formular uma ontologia polifônica dos “diferentes modos de existência” e a disciplina pioneira da “poética comparada” e da “ciência da arte”, Souriau concebeu a criação estética não como uma produção soberana e voluntária do sujeito humano, mas como uma resposta ontológica a uma exigência que emana da própria obra em devir — a “instalação” do ser pela mediação dos atos humanos. Resgatado nas últimas décadas pela antropologia simétrica e pelas ontologias relacionais contemporâneas (notadamente por Bruno Latour e Isabelle Stengers), o pensamento de Souriau notabilizou-se pela elucidação das categorias de instauração (*instauration*), anfibolia ontológica, formas de existência virtual e a teoria estrutural das funções dramáticas.
1. Obras Monográficas e Tratados Teóricos Fundamentais (Edições Originais)
- A Trilogia da Juventude e a Ontologia da Invenção Artística:
- SOURIAU, Étienne. Pensée vivante et perfection formelle. Paris: Hachette, 1925. (Tese principal de doutorado de Estado; exame das relações dialéticas entre a mobilidade interna do pensamento vivo e as exigências estáticas das estruturas e regras formais).
- SOURIAU, Étienne. L'abstraction sentimentale. Paris: Hachette, 1925. (Tese complementar de doutorado; investigação fenomenológica sobre o sentimento como faculdade cognitiva sintética dotada de poder abstrativo próprio, irredutível ao mero afeto biológico passivo).
- SOURIAU, Étienne. L'Avenir de l'esthétique: Essai sur les principes d'une science, des faits esthétiques. Paris: Félix Alcan, 1929. (Manifesto metodológico fundador; delimitação da estética como uma disciplina autônoma e positiva, liberta tanto da metafísica dedutiva a priori quanto da psicologia empírica experimental).
- Os Grandes Tratados de Metafísica e Poética Comparada:
- SOURIAU, Étienne. Avoir une âme: Essai sur les existences virtuelles. Paris: Les Belles Lettres, 1938.
- Foco: Monografia de ontologia psicológica e moral; desconstrução da alma como substância metafísica fixa cartesiana, definindo o “ter uma alma” como uma conquista existencial contínua, uma modulação atenta da presença no seio das existências virtuais que habitam a consciência.
- SOURIAU, Étienne. Les différents modes d'existence. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1943. (Reedição contemporânea monumental com longo ensaio introdutório de Bruno Latour e Isabelle Stengers: Paris: PUF, 2009).
- Foco: Obra-prima ontológica e ápice especulativo de seu pensamento; rejeição da ideia monista de que “existir” é um predicado homogêneo e binário (ou algo existe, ou não existe). Souriau deduz uma pluralidade de graus e modalidades do ser irredutíveis entre si: a existência fenomênica (*phénoménal*), a existência das coisas materiais (*chosique*), a existência dos seres de ficção (*imaginaire*), a existência das obras instauradas (*architectonique*) e a pura virtualidade dos possíveis (*synaptique*), forjando o conceito supremo de instauração (*instauration*).
- SOURIAU, Étienne. La correspondance des arts: Éléments d'esthétique comparée. Paris: Flammarion, 1947. (2ª ed.: 1969).
- Foco: Tratado monumental de estética morfológica; criação de uma matriz sistemática e visual circular (a célebre “rosa dos ventos dos sistemas de artes”) articulando as artes plásticas, acústicas, rítmicas e discursivas a partir de oposições binárias de qualidades sensíveis e graus de abstração representativa.
- SOURIAU, Étienne. Les deux cent mille situations dramatiques. Paris: Flammarion, 1950.
- Foco: Poética e semiologia do teatro de imensa repercussão teórica; aplicação da morfologia estrutural ao universo dramático. Souriau decompõe a estrutura cênica em seis funções actanciais elementares (a força temática motora, o bem desejado, o recebedor do bem, o opositor, o árbitro e o ajudante), antecipando e fornecendo a base direta para a moderna semiótica estrutural e actancial de Algirdas Julien Greimas.
- SOURIAU, Étienne. L'Ombre de Dieu. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1955.
- Foco: Tratado de teologia especulativa e cosmologia metafísica; reflexão sobre o lugar de Deus perante a ordem imperfeita do cosmos, examinando o Absoluto não como um demiurgo legislador onipotente e plenamente manifesto, mas como uma ausência operante e criadora cujas pegadas ontológicas desenham-se sob o modo do apelo e da virtualidade inacabada.
- SOURIAU, Étienne. Poésie française et la peinture. Londres: The Athlone Press, 1966.
- Foco: Ensaio de estética interartes; exame das transmutações de ritmos, cores e valores formais entre as artes plásticas visuais e a lírica poética clássica e moderna.
- SOURIAU, Étienne. La Couronne d'herbes: Esquisse d'une ontologie de l'existence accomplie. Paris: Grasset, 1975.
- Foco: Último grande ensaio metafísico de maturidade; meditação sobre a realização ontológica da finitude humana, confrontando a glória monumental imperecível com a fragilidade de uma simples coroa de ervas campestres como símbolo do valor supremo da existência no instante do acabamento de si.
2. Obras Lexicográficas e Direção Institucional de Pesquisa
- SOURIAU, Étienne (Org.). Vocabulaire d'esthétique. Paris: Presses Universitaires de France (PUF), 1990. (Edição póstuma completada e organizada sob a direção de Anne Souriau).
- Foco: Monumental dicionário terminológico de referência internacional no campo da teoria da arte, da semiologia e da estética filosófica, unificando a terminologia técnica da forma, do ritmo e da morfologia estética.
- Direção da Revue d'Esthétique (Fundada em 1948 por Charles Lalo, Étienne Souriau e Raymond Bayer):
- Órgão institucional de maior relevância científica da estética de língua francesa, pelo qual Souriau impulsionou a aproximação pioneira entre a filosofia pura, a musicologia, as artes cênicas e o cinema.
3. Recepção Acadêmica e Eixos de Circulação Contemporânea
- A Reabilitação no Século XXI pelas Ontologias Não Modernas:
- Latour admitiu explicitamente que toda a sua pesquisa sobre os “modos de existência” (exposta no tratado *Enquête sur les modes d'existence*, 2012) deriva diretamente do quadro ontológico forjado por Souriau, que já havia superado o constructivismo relativista e o realismo ingênuo ao conferir densidade ontológica plena aos seres da ficção, às técnicas e aos objetos de arte.
- Circulação no Brasil e no Espaço Lusófono:
- No ambiente acadêmico brasileiro e português, o trabalho de Souriau teve recepção histórica inicial e canônica nas faculdades de Artes Cênicas, Letras e Teoria Teatral através de *Les deux cent mille situations dramatiques*, texto adotado universalmente para a análise morfológica do texto dramático e roteiro cinematográfico (dialogando com os estudos semióticos da USP e UFRJ).
- No campo da Filosofia pura e da Antropologia, as teses de Souriau sobre a *instauração* circulam intensamente nos grupos de pesquisa dedicados à filosofia da técnica, ontologias contemporâneas e antropologia simétrica, sendo referência obrigatória para pesquisadores do estatuto ontológico das imagens e das formas não humanas.
4. Eixos Metodológicos e Arquitetura Teórica
- O Pluralismo Ontológico e os Modos de Existência: O ponto de partida de Souriau reside na denúncia do dogma clássico ocidental que reduz o ser a uma grandeza unívoca: para a metafísica tradicional ou um objeto é (possui substância material real no espaço), ou não é (é pura quimera psíquica ou nada). Souriau estabelece um pluralismo modal do ser. A existência não é um estado homogêneo definitivo, mas um conjunto de modulações e intensidades distintas. Uma personagem de romance (como Dom Quixote ou Emma Bovary) não tem existência física ou biológica, mas possui uma existência anímica e intencional plena que mobiliza paixões, orienta ações históricas reais e resiste a interpretações arbitrárias com mais força que muitos objetos materiais inertes. O universo é povoado por diferentes “modos de ser” — fenômenos transitórios, coisas físicas pesadas, seres ficcionais, estruturas ideais matemáticas, almas reflexivas —, e o erro filosófico supremo consiste em tentar julgar todos os modos a partir da medida exclusiva da matéria corpórea.
- O Conceito Fundamental de “Instauração” (L'Instauration): Contra o idealismo romântico e cartesiano — que concebe o artista humano como um criador absoluto divino que impõe soberanamente a sua ideia a uma matéria bruta passiva —, Souriau elabora o conceito paradigmático de instauração. O ato de fazer uma obra de arte não é fabricação mecânica nem emanação psicológica puramente subjetiva: é uma operação de instalação ontológica. O escultor que se coloca diante do bloco de mármore não decide arbitrariamente o que fazer: ele responde a um apelo ou a uma exigência emanada da obra virtual ainda inacabada. A estátua em estado nascente clama por existir com perfeição, e o artista é o servidor ou a parteira que coloca as suas mãos e faculdades operatórias a serviço da consumação daquela forma. A instauração é uma ação recíproca na qual o humano dá passagem para que o ser adquira a sua consistência própria e irrevogável no mundo.
- A Anfibolia Ontológica e o Estatuto da Obra Inacabada: Para Souriau, o ponto mais fecundo e dramático de toda a ontologia situa-se no estado de inacabamento. Durante o processo de criação de uma tela, de uma sinfonia ou de uma teoria científica, a obra atravessa uma fase de “anfibolia”: ela já não é o nada, mas ainda não é a coisa realizada; ela oscila entre múltiplos destinos possíveis. Um traço errado de pincel pode aniquilar a sua consistência interna, enquanto a escolha exata da nota musical a faz ascender à plenitude existencial. Souriau demonstra que essa condição da obra de arte é, na verdade, a condição ontológica de toda a realidade cósmica e humana: o ser nunca é um dado pronto, mas uma tarefa em suspense permanente de acabamento.
- A Poética Morfológica e as Funções Actanciais Dramáticas: No domínio da estética do teatro e da literatura, Souriau rompe tanto com o psicologismo ingênuo (que busca analisar as personagens teatrais como se fossem personalidades neuróticas reais da vida empírica) quanto com o impressionismo estético. Em *Les deux cent mille situations dramatiques*, o filósofo formaliza o campo teatral como um sistema fechado de forças tensivas puras, comparável ao equilíbrio dinâmico da física mecanicista ou aos lances estruturados de uma partida de xadrez. A personagem não é uma substância psicológica, mas uma “função dramática” em um campo de vetores: a trajetória dramática define-se inteiramente pelo modo como os polos de atração, repulsão, obstáculo e desejo colidem sobre a cena. Ao matematizar a morfologia do drama, Souriau assentou os alicerces científicos que permitiram desvendar as leis formais que governam a geração das narrativas no imaginário universal.
