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Fonseca: Vontade

FONSECA, Eduardo Ribeiro da. Uma estreita passagem: o conceito de corpo nas obras de Schopenhauer e Freud. Curitiba: Editora UFPR, 2014.

CAPÍTULO 2 A noção de vontade

A conclusão analógica da Vontade a partir do querer do corpo

1. A consideração do corpo apenas como representação submetida ao princípio de razão mostra-se insuficiente por explicar somente as relações entre representações e deixar de lado a natureza íntima dos fenômenos, que permanece como catálogo de leis e forças misteriosas.

2. Não basta saber que as representações dependem do princípio de razão suficiente, sendo preciso conhecer sua significação e o sentido em que o mundo as ultrapassa, o que exige uma via metafísica imanente que busque o âmago do mundo pela subjetividade.

3. A possibilidade de investigação subjetiva enraíza-se no próprio corpo, que possui o duplo aspecto de estar submetido ao princípio de razão em suas relações e ao querer em seu conteúdo subjetivo indeterminado.

4. O querer confere sentido essencial ao corpo e constitui seu íntimo, em grande medida inconsciente, inaugurando uma perspectiva que antecede a psicanálise freudiana ao situar o impulso como elemento básico e primordial da psique, em relação ao qual o intelecto é secundário e servil.

5. O instinto é caráter unilateral e estritamente determinado por um motivo específico que produz ações sempre semelhantes, enquanto o impulso pode ser movido por motivos muito diferentes e adapta seu caráter a eles, exigindo intelecto superior e resultando em ações variadas.

6. A noção de um animal essencialmente racional aparece como erro radical, pois a consciência é a mera superfície do psiquismo, cujo interior não se conhece, estando a mente enraizada no corpo e tendo como pano de fundo a vontade inconsciente diante da qual o intelecto é força superficial.

7. A ação do corpo é vontade objetivada, e o corpo é a objetidade da vontade, neologismo que exprime a inteira identidade entre ambos, sendo a vontade o conhecimento a priori do corpo e o corpo o conhecimento a posteriori da vontade, de modo que não é possível representar a vontade sem o corpo.

8. A vontade manifesta-se tanto pelo sentimento de volição do organismo quanto pelos atos revelados pelas escolhas efetivas, e não pelos simples desejos contraditórios, pois só se descobre o que se quer a posteriori, conhecendo-se apenas o que se mostra nas ações em retrospectiva.

9. A percepção da vontade como íntima do corpo vale tanto para ações conscientes quanto inconscientes, tanto para as fundamentadas por motivos quanto para as involuntárias, de modo que o corpo, exceto como representação, é apenas vontade.

10. Jamais se conhece o querer em si do organismo, mas apenas manifestações parciais como volição em relação aos motivos da efetividade, sendo o conhecimento da vontade um verdadeiro trabalho de detetive que interpreta fragmentos labirínticos para revelar a raiz que dá unidade e suporte às ações e pensamentos.

11. No centro da consciência está o eu como querer unido ao conhecimento, conhecendo o homem a si mesmo como sujeito de um querer e como representação submetida ao princípio de razão, enquanto o senso íntimo do organismo nada percebe senão a vontade, o eu primário.

12. O indivíduo é cindido por dois modos radicalmente diversos de relação com o mundo, um que se impõe como desejo a ser aplacado e outro como consideração das relações efetivas segundo o princípio de razão, que exige adiamento da satisfação.

13. O corpo próprio é o ponto de convergência em que objeto e sujeito se confundem, constituindo a encruzilhada entre vontade e representação, entre razão e desejo, verdadeira espécie de milagre em que se unem o sujeito do querer e o sujeito do conhecer.

14. A vontade é o eu propriamente dito, o verdadeiro núcleo do ser e o fundo imutável da consciência, enquanto esta é apenas parte restrita do intelecto, obscuro em seu interior e voltado para o mundo exterior, cujos conhecimentos seguros concernem somente a esse mundo.

15. A vontade aparece como impulso inconsciente idêntico à ação do corpo e como raiz oculta da qual brota o intelecto, cuja função é conhecer o mundo exterior pela causalidade, enquanto a razão, exclusividade humana, acumula e compara experiências e unifica o mundo no tempo e no espaço.

16. A consciência esquece sua função secundária e ilude-se ao tentar impor seu domínio sobre a existência empírica, esbarrando sempre na impossibilidade de impor racionalidade à volição humana, e cada paixão tinge o objeto do conhecimento com sua cor, falsificando a percepção.

17. Na impossibilidade de ensinar a vontade a desejar o razoável, resta à razão apresentar motivos que desviem o puro querer de seus alvos ou justificar racionalmente os atos do corpo, sendo o intelecto o secundário e posterius do organismo, condicionado por este como função cerebral, enquanto a vontade é o primário e prius do organismo.

18. A vontade como coisa orgânica pode ser percebida, mas não demonstrada in abstrato, pois isso se opõe à sua natureza de mais imediato dos conhecimentos, só podendo ser sentida diretamente na experiência subjetiva do organismo como afecção.

19. Do sentimento do querer individual deduz-se analogicamente a essência do objeto em geral e do próprio mundo, que é a Vontade cósmica, pois o corpo é dado ao sujeito de duas maneiras, como representação na percepção intelectual e como vontade conhecida imediatamente.

20. O ato da vontade e a ação do corpo não são dois estados distintos conectados pela causalidade, mas uma e mesma coisa dada de modos inteiramente diferentes, imediatamente por um lado e como percepção para o entendimento por outro.

21. O corpo assume seu duplo significado de representação submetida aos motivos e de querer indeterminado independente do princípio de razão, servindo como chave mestra para o ser íntimo de todos os fenômenos da natureza, inclusive vegetais e inorgânicos.

22. Todos os objetos que não sejam o corpo próprio são dados à consciência apenas como representações, análogas e homogêneas ao corpo, submetidas à lei de causalidade, cabendo à peculiaridade humana a motivação como variante do princípio de razão, o princípio de razão do agir.

23. A conclusão analógica decifra o enigma das representações intuitivas ao permitir que sejamos simultaneamente investigadores e investigados, transferindo para outros corpos o resultado da investigação interna, de modo que todo fenômeno natural leva a uma vontade que nele se manifesta.

24. Schopenhauer expõe o inconsciente como algo positivo, dotado de ímpeto secreto que se manifesta e define o mundo como representação, introduzindo um elemento peculiar na filosofia ao admitir que o princípio do mundo não é racional, mas volitivo e irracional.

25. O corpo é o meio privilegiado de acesso ao núcleo irracional da representação, o que leva ao desenvolvimento de uma psicologia do irracional marcada pela noção de uma vontade inconsciente e ativa que determina ações e posições prévias para o julgamento racional.

26. A Vontade é o agente oculto não só dos pensamentos e ações humanos, mas de todos os processos da natureza, sendo a causalidade em seu íntimo pura Vontade, e o duplo e simultâneo conhecimento da Vontade e da Representação é a chave que abre a única e estreita porta da verdade.

27. O conhecimento recebido de dentro é projetado para fora como chave ao exterior, reconhecendo-se a vontade como aquele X desconhecido que sobra como resto de toda explicação causal, o verdadeiro agente e em-si da manifestação que é essencialmente o mesmo que nos é intimamente conhecido como vontade.

28. A coisa-em-si é dada no interior do próprio corpo, ponto privilegiado a partir do qual se decifra o mistério dos fenômenos, surgindo da impossibilidade de uma metafísica transcendente a metafísica imanente da qual Deus está ausente e na qual o homem aparece como organismo finito e atuante, marcado pela mortalidade e pela insaciabilidade infinita do querer viver.

A Vontade cósmica como princípio irracional do mundo

1. A consciência está na fronteira entre o mundo como vontade, que lhe impõe o sentimento da volição independente do princípio de razão, e o mundo como representação, que lhe impõe a necessidade e o conhecimento pela experiência, existindo uma contradição intrínseca entre aspectos irracionais inconscientes e aspectos racionais conscientes.

2. A vontade como coisa-em-si permanece alheia ao domínio do princípio de razão em todas as suas figuras e é absolutamente sem-fundamento, embora a metafísica imanente mostre que seus atos existem como mecanismo inesgotável e dinâmico que obra incessantemente no mundo fenomênico.

3. Ao dizer que a Vontade não tem fundamento, Schopenhauer cria uma dificuldade de exposição, pois detecta-se uma cosmologia com a Vontade em seu trono ancestral, mas o filósofo pretende não criar uma cosmogonia, já que a Vontade não é um ente e só pode ser deduzida por oposição ao conceito de representação.

4. O mundo efetivo é o reverso do mundo como Vontade, sendo as características de cada um opostas, embora complementares e proporcionais.

5. A conclusão analógica é complementada por uma ontologia negativa que estabelece o conceito de Vontade Cósmica alheia ao tempo e à causalidade, processando-se pela oposição entre a vontade individual dada como sentimento e a Vontade una.

6. O princípio de razão, pela união entre espaço e tempo, atribui pluralidade aos objetos como principium individuationis, enquanto a Vontade, por negação dessa característica, é homogênea, una e totalmente independente da pluralidade que caracteriza o fenômeno.

7. A causalidade insere os objetos na série da necessidade, enquanto a Vontade é livre; o tempo tudo torna efêmero, enquanto a Vontade é a essência atemporal daquilo que aparece; a representação é infalivelmente fundamentada pelas relações causais, enquanto a Vontade não tem fundamento.

8. Se os motivos da efetividade dispõem de alvos a serem atingidos, a Vontade é mero ímpeto cego e sem fundamento, devendo-se considerar as noções de ímpeto cego e irracional como parâmetros que supõem a própria racionalidade como unidade de medida.

9. A ação da Vontade é inconsciente e irracional, mas ser irracional não significa que a vida não tenha orientação ou desejo, pois ela é irracional do ponto de vista do princípio de razão que rege a função intelectual.

10. A metafísica de Schopenhauer não evita totalmente o dogmatismo, sendo dogmática em sentido imanente ao propor doxas que não vão além do mundo dado na experiência, de modo que o meta de sua metafísica não é exterior ao mundo, mas além do visível.

A Ideia platônica como fronteira entre a Vontade e o fenômeno

1. Admitindo-se que o mecanismo interno de todo corpo seja apenas vontade e que esta seja a mesma Vontade que anima todo o fenômeno, coloca-se a questão de como passar de um em-si que não obedece ao princípio de razão para um fenômeno condicionado por esse princípio.

2. A harmonia das partes de um dado organismo é o reconhecimento relativo à unidade da Ideia que se manifesta igualmente no mundo inorgânico, surpreendendo apenas a visão da unidade originária da Ideia que no fenômeno tomou a forma da pluralidade e da diversidade.

3. A finalidade externa é reconhecida no apoio que os organismos obtêm externamente do reino orgânico e dos outros organismos, encetando um arranjo de espécies em recíproca dependência sob a forma de adaptação mútua chamada consensus naturae.

4. Todo o mundo com seus fenômenos é a objetidade da Vontade una e indivisível, sendo a Ideia que se comporta em relação às outras Ideias como a harmonia para as vozes isoladas, de modo que a unidade da Vontade deve mostrar-se na concordância de todos os fenômenos entre si.

5. O termo objetidade designa tanto a objetivação do Em-si em Ideia quanto o corpo humano, restando ao termo Ideia a expressão da objetidade mais adequada possível da Vontade, a única imediata.

6. A condição da espécie como forma temporal da Ideia faz com que os organismos sejam impelidos a obrarem incessantemente para a finalidade coletiva de perpetuar a espécie pela contínua geração de novos indivíduos conectados por vínculo que os antecede.

7. O verdadeiro ser em si mesmo de toda coisa viva reside primariamente em sua espécie, ainda que esta viva unicamente através dos indivíduos, e a consciência profunda de que é na espécie que a verdadeira existência se objetiva aparece na importância incomparável dos assuntos da espécie para o indivíduo.

8. Schopenhauer, como Freud, pensa em um momento originário que antecede aos organismos dos seres vivos, diferindo quanto ao fato de que o primeiro supõe uma relação atemporal no contexto das Ideias platônicas, enquanto o segundo pensa em um momento originário dentro do tempo cronológico e em uma relação histórica.

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