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Lefebvre

Henri Lefebvre (1901-1991)

LEFEBVRE, Henri. Key writings. Bloomsbury Revelations edition ed. London, England: Bloomsbury Academic, an imprint of Bloomsbury Publishing Plc, 2020.

1. Compreender um pensador implica situar a interrelação de suas obras, as influências sobre seu pensamento e a validade e aplicabilidade de suas ideias, bem como reapropriá-lo em outro tempo, espaço e língua, questões particularmente pertinentes no caso de Lefebvre, autor ainda a ser descoberto, e não redescoberto, no mundo de língua inglesa, ao contrário de outros pensadores contemplados em coleções como “O Novo Nietzsche” ou “O Novo Spinoza”.

2. A vida de Henri Lefebvre, nascido em 1901 e falecido pouco depois de completar noventa anos, atravessou quase todo o século XX, sendo por isso ao mesmo tempo próxima e distante, com aspectos conhecidos, outros pouco familiares e muitos ainda ocultos.

  • Embora tenha antecipado preocupações contemporâneas como a cibernética, a globalização e o fim do planejamento urbano racional, suas primeiras publicações datam de 1924 e tratam de temas como André Gide e o dadaísmo.
  • Muitos de seus primeiros escritos são hoje praticamente impossíveis de encontrar, alguns destruídos pela invasão nazista ou pela censura do Partido Comunista Francês, enquanto seu último livro apareceu em 1992, permanecendo ainda por catalogar e publicar a totalidade de sua obra.

3. Apenas uma pequena parte dos escritos de Lefebvre está disponível em tradução inglesa, tendo havido um breve interesse no final dos anos 1960 e início dos 1970, quando quatro livros foram traduzidos, seguido pela publicação truncada de “The Survival of Capitalism” em 1976, última obra a aparecer por quinze anos.

  • Essas traduções ofereceram uma visão restrita da obra de Lefebvre até que, poucos meses após sua morte, surgiram o primeiro volume da “Critique of Everyday Life” e “The Production of Space”, intensificando o interesse por seu pensamento sobretudo em disciplinas como geografia, arquitetura e estudos culturais, então carentes de análises marxistas.

4. Em 1995 foi traduzido “Introduction to Modernity”, seguido no ano seguinte por “Writings on Cities”, coletânea instrumental para ampliar o alcance de suas preocupações junto ao público de língua inglesa, incluindo o texto integral de “Le Droit à la ville” e excertos de outras obras.

  • Diversos outros livros de Lefebvre devem ainda ser traduzidos nos próximos anos, incluindo os volumes dois e três da “Critique of Everyday Life”, “La Révolution urbaine” e “Rhythmanalysis”, ainda que mais de cinquenta livros permaneçam sem tradução.

5. “Key Writings” busca contribuir para a compreensão de Lefebvre ao mostrar a amplitude de sua obra tanto quanto ao tema quanto à data de publicação, sendo problemático enquadrá-lo em qualquer disciplina, já que a única categoria que ele próprio aceitaria seria a de marxista, o que implica ser filósofo, sociólogo, historiador e, sobretudo, engajado politicamente, tendo produzido cerca de setenta livros e numerosos artigos que atravessam amplamente as ciências sociais e humanas.

Presença e ausência

6. Ao buscar preencher as lacunas na recepção inglesa da obra de Lefebvre, esta coletânea tende antes a revelá-las, procurando demonstrar tanto a amplitude de suas preocupações quanto as diferentes formas em que as expressou, com ênfase especial em mostrar como ele deve ser levado a sério enquanto pensador, e particularmente enquanto filósofo marxista.

  • A primeira seção da coletânea enfatiza a importância do trabalho conceitual e teórico, mostrando como esses escritos incidem sobre as análises mais práticas e são por elas reformulados.

7. Outro objetivo central é mostrar a dimensão política do pensamento de Lefebvre, que, como membro do Partido Comunista Francês por quase trinta anos e de certo modo ainda mais marxista após sua saída, permaneceu sempre politicamente ativo e atento.

  • Diversos escritos selecionados refletem essas preocupações, evidenciando ainda como seu trabalho sobre questões urbanas se articulava a um interesse duradouro pelos assuntos rurais e como sua teorização do espaço era acompanhada por uma reflexão sobre o tempo e a história.

8. Apesar do esforço de demonstrar a amplitude das preocupações de Lefebvre, houve ausências inevitáveis, sobretudo a exclusão de seus trabalhos das décadas de 1940 e 1950 sobre figuras da tradição intelectual francesa, de Rabelais a Descartes, período em que o Partido Comunista Francês o impedia de escrever sobre temas mais explicitamente políticos ou filosóficos.

  • Num momento em que a ciência soviética e o Partido estavam dominados pela disputa em torno das teorias genéticas de Lysenko, as posições de Lefebvre sobre lógica, dialética e ciência eram perigosamente heréticas, tendo um livro seu sido impresso e depois censurado por ordem do partido, publicado na França apenas recentemente.
  • Lefebvre recorreu então a autores aparentemente mais seguros como forma de abordar, por meio de longas digressões, questões de história intelectual e do método materialista histórico, ao mesmo tempo em que era mobilizado, em 1946, como intelectual oficial do partido para criticar o existencialismo.

9. Não seria correto afirmar que Lefebvre nada escreveu sobre política ou filosofia entre 1947 e 1958, mas sim que o fez de modo disfarçado, sendo seus livros sobre figuras literárias como Diderot ou Rabelais extremamente políticos e, se ordenados cronologicamente, capazes de compor uma ampla história intelectual da França entre os séculos XV e XVIII.

  • O livro sobre Rabelais discute a noção de festa, tema também relevante em seus estudos sobre maio de 1968 e a Comuna de Paris de 1871, enquanto os livros sobre Pascal e Descartes antecipam, de modo filosófico, discussões sobre espacialidade que reaparecerão na obra dos anos 1970.

Recebendo Lefebvre

10. Avaliar a extensão da renovação de interesse pelo pensamento de Lefebvre na França, no mundo de língua inglesa e alhures, assim como a relevância dessa recepção, constitui uma consideração importante, dado que as traduções inglesas do final dos anos 1960 e início dos 1970 ocorreram sob condições bem diferentes das atuais, mais politizadas e ainda não influenciadas pelo pensamento pós-moderno.

  • Nessa época, embora menos oficialmente reconhecido do que pares como Foucault, Althusser e Lacan, Lefebvre carregava responsabilidades institucionais semelhantes, sendo digno de nota que autores franceses célebres no mundo anglófono nem sempre recebem a mesma consideração em seu próprio país, como ocorreu com o próprio Foucault.

11. No período inicial de interesse anglófono, Lefebvre ainda estava vivo e mantinha controle sobre a avaliação da relevância de seu próprio pensamento, ideia integral à sua noção de metafilosofia, como ilustra seu extraordinário texto “La Somme et le reste”, publicado logo após sua saída do partido em 1958, do qual dois excertos integram esta coletânea.

12. A mitificação de sua figura se intensificou após sua morte, podendo-se argumentar que sua vitalidade, mais até que seu marxismo, é o que tem atraído a geração atual de acadêmicos majoritariamente anglófonos e masculinos, não estando ele mais vivo para desafiar e ser desafiado, situação talvez agravada pela dependência excessiva da biografia um tanto romantizada de Rémi Hess.

  • O resultado tende a ser um discurso projetado e majoritariamente masculino, que revela tanto sobre a crise da apropriação masculina de ideias quanto sobre o próprio pensamento de Lefebvre, fato talvez relacionado às disciplinas — geografia urbana, planejamento e arquitetura — pouco povoadas por mulheres, ao contrário da resposta mais diversa observada nos estudos culturais.

13. Esta coletânea busca redirecionar o leitor para uma leitura mais crítica e heterodoxa da obra de Lefebvre, o que é apropriado visto que desmontar mitos foi um de seus primeiros projetos intelectuais, sugerindo-se, sobretudo na seção sobre a crítica da vida cotidiana, que para ele as mulheres não eram apenas objeto de amor e luta, mas sujeitos da revolução, sendo o futuro, para Lefebvre, feminino.

14. Nos últimos anos Lefebvre passou por um renascimento na França, em grande parte graças a Rémi Hess, responsável pela recente republicação de diversas obras antes fora de catálogo pelas editoras Anthropos e Syllepse, incluindo “Métaphilosophie”, “La Production de l'espace” e “La Survie du capitalisme”, entre outras.

  • Também foi recentemente disponibilizada pela primeira vez a obra “Méthodologie des sciences”, e está prevista a reedição de “Nietzsche”, de 1939, livro apreendido e queimado pelas forças alemãs de ocupação, acompanhando essas republicações dois simpósios recentes sobre Lefebvre em Paris, igualmente organizados com participação central de Hess.

15. Nota-se que, na França, ao lado do interesse por seus escritos sobre o urbano, a vida cotidiana e o espaço, maior atenção é dada a seus trabalhos sobre cidadania, mundialização, capitalismo e Estado, áreas em que a produção de língua inglesa tem sido mais escassa, permanecendo “La Somme et le reste” praticamente desconhecida apesar de seus insights sobre política, filosofia e a própria vida do autor.

  • Apesar de ter sido figura central do partido por muitos anos, professor de Jean Baudrillard e Daniel Cohn-Bendit, colega dos situacionistas e próximo de surrealistas e dadaístas, além de citado por Poulantzas e Sartre, seus vínculos com outros pensadores permanecem geralmente negligenciados, restando pouco explorada sua relação com autores como Marcuse, Deleuze, Foucault e Bourdieu.
  • Apesar da antiguidade de parte de sua obra, Lefebvre atua quase como um pré-historiador de desenvolvimentos contemporâneos, sendo importante lembrar que, para ele, o pensamento também é “o vivido”, e não um substituto deste.

O presente trabalho

16. Esta coletânea difere de “Writings on Cities” sobretudo pela equipe editorial, sendo Elizabeth Lebas o elo comum entre os dois projetos, à qual se juntou, para o presente volume, Stuart Elden, autor de um livro sobre Heidegger, Foucault e a relação entre espaço e história, atualmente redigindo um livro sobre Lefebvre.

  • Houve divisão de trabalho no projeto, cabendo a Stuart Elden as questões terminológicas e as notas de rodapé editoriais, e a Elizabeth Lebas a supervisão geral da tradução.

17. Traduzir Lefebvre é sempre difícil, tendo os editores procurado preservar seu estilo muito pessoal, marcado por neologismos, rigor semântico e jogos de palavras, escrito de forma desconexa, com comentários elípticos e digressões, optando por deixá-lo falar em inglês tal como poderia ter falado, e não por suavizar essas arestas como fizeram algumas traduções anteriores.

  • Há naturalmente momentos em que o inglês é inadequado para transmitir o sentido de Lefebvre, sendo em alguns casos acrescentadas notas explicativas ou o termo francês original entre colchetes.

18. Notas editoriais foram acrescentadas com frequência para explicar alusões, fornecer referências em inglês para citações ou dar informações biográficas sobre figuras mencionadas, já que Lefebvre era, como muitos escritores de sua geração, um tanto descuidado em suas referências.

  • As referências que Lefebvre dava entre parênteses no texto foram geralmente transferidas para notas de rodapé, tendo os editores optado por certa generosidade no material biográfico, e recorrido, quando necessário, a suposições fundamentadas diante de alusões obscuras, distinguindo-se as notas do próprio autor, não marcadas, das notas dos editores, marcadas.

Mode d'emploi — modos de usar este livro

19. Ao organizar este livro, optou-se por apresentar primeiro o trabalho de Lefebvre sobre marxismo e filosofia antes de passar às preocupações mais concretas pelas quais é mais conhecido no mundo anglófono, sem que essa seja a única forma possível de leitura, havendo diversos caminhos possíveis de acesso ao material, longe de esgotados pelos que se seguem.

20. O caminho mais evidente é começar pelo trabalho teórico explícito do início do volume e depois avançar para áreas de interesse particular, o que permite mostrar como conceitos como alienação, consciência, ausência e presença atravessam o tempo no pensamento de Lefebvre, sendo os temas do tempo, do estilo e da idade adulta como mito exemplos de sua recorrente reciclagem de trabalhos anteriores.

21. Alternativamente, o leitor pode começar por textos em uma área já familiar, encontrando por exemplo, para quem conhece o primeiro volume de “Critique of Everyday Life”, um texto inicial sobre “Mistificação” que antecipa muitas ideias posteriores, ou, para quem se interessa por “The Production of Space”, a primeira tradução inglesa de um prefácio autocrítico complementado por textos sobre o rural e o urbano.

  • Em muitas dessas peças desenvolvem-se ideias teóricas, como o modelo regressivo-progressivo combinando sociologia e história, e a teoria dos momentos.

22. As diversas seções do livro reúnem textos que se complementam entre si, podendo o leitor partir do prefácio a “The Production of Space” para os trabalhos sobre história do mesmo período, seguir para o urbano e o rural, retornar à vida cotidiana e finalmente à filosofia e ao marxismo, havendo numerosas outras possibilidades de percurso.

  • A organização dos textos é temática, e não cronológica, embora se forneça a data de publicação de cada peça, sendo a justaposição de textos de diferentes épocas em seções temáticas um meio de evidenciar a amplitude de suas preocupações e as interconexões entre diferentes períodos de sua vida.

23. A intenção não é que este seja simplesmente um livro a ser lido do início ao fim, mas antes um conjunto de livros em um só, que complementa, e não substitui, “Writings on Cities” e outras traduções existentes, constituindo, dada a impossibilidade de abranger toda a extensão da obra de Lefebvre, antes um esboço, um mapa, um conjunto de direções.

  • Se a disposição dos textos tem um objetivo central, é encorajar o leitor a aproximar-se de material menos conhecido para compreender de modo renovado a obra já familiar, oferecendo possibilidades de desvios, ou détournements, na esperança de que “Key Writings” apresente a amplitude dos temas de Lefebvre e ao mesmo tempo abra caminho para novos estudos e traduções de um autor que, apesar de ter escrito em contextos históricos e culturais bastante distintos, ainda tem muito a dizer às preocupações contemporâneas.
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