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3 Nietzsche

LACOUE-LABARTHE, Philippe; LACOUE-LABARTHE, Philippe. Le Sujet de la philosophie. Paris: Aubier : Flammarion, 1979.

Nietzsche Apócrifo

  • A exposição se inscreve deliberadamente no que outros já disseram ou escreveram, de modo que nada do que se propõe é novo, no máximo uma combinação diferente dos mesmos elementos, permanecendo como contribuição no sentido estrito do termo.
  • O retorno a certas questões não é inocente nem gratuito, pois hoje se trata de perseverar apesar de tudo, e, como diz Nietzsche em Ecce Homo, nada decisivo se constrói a não ser sobre um apesar de tudo.

Questão da literatura

  • A pergunta central consiste em saber onde Nietzsche se aparta da filosofia, ou, mais precisamente, onde ele se dissocia dela, sem que se acrescente a exigência de exatidão.
  • Apesar das aparências, essa não é uma questão nietzschiana, embora Nietzsche não lhe seja estranho, e o fato de ainda hoje sermos constrangidos a mantê-la como questão indica que algo ocorreu entre Nietzsche e nós, tornando problemática nossa relação com ele e com a filosofia.
  • Esse algo é a leitura de Heidegger, na qual Nietzsche realmente existe, e cuja resposta é que Nietzsche é o último filósofo, aquele em que a metafísica como um todo atinge seu cume e sua conclusão.
  • A leitura heideggeriana é inevitável porque é a única, ou uma das poucas, que leva Nietzsche absolutamente a sério, a ponto de mostrar que a questão da superação da filosofia é ela mesma uma questão filosófica.
  • Estabelece-se assim uma relação complexa em que o trabalho paciente e minucioso da repetição substitui o arrojo afirmativo, e a Überwindung (superação) é deslocada e degradada em Verwindung (distorção), de modo que o objetivo nietzschiano é reiterado, mas se torce sobre si mesmo, se reforça e perde em inocência o que ganha em rigor implacável.
  • Se Nietzsche é o último metafísico, Heidegger é o primeiro pós-nietzschiano, ou pelo menos um dos primeiros a ter tentado sê-lo, sem esquecer Bataille.
  • Dizer que a questão da superação da filosofia é ela mesma filosófica só é possível se se transforma a superação da filosofia em questão, algo que Nietzsche em parte recusou fazer, mas também transformou em afirmação.
  • Na medida em que a afirmação pode se desprender da circularidade interrogativa e se dispersar na reverberação infinita de todas as respostas únicas e definitivas, Nietzsche poderia finalmente escapar ao alcance da filosofia, mas isso é também o que nunca se pode opor seriamente ao fechamento heideggeriano, pois a afirmação nunca é simples e, por não ser simples, é paradoxalmente sempre demasiado simples, agarrando-se ao próprio querer.
  • Se a leitura heideggeriana deve ser questionada, seria ingênuo imaginar que isso possa ser feito de modo simples, pois seu poder de cerco praticamente elimina o recurso a qualquer coisa que não seja a astúcia, exigindo uma estratégia de complexidade infinita na qual a própria repetição, no sentido heideggeriano, deve ser repetida.
  • Essa estratégia tem um nome: desconstrução, e se ela não procede por conceitos no sentido clássico, tem ao menos um sítio, um campo ou um terreno no qual funcionar: o texto da filosofia, na medida em que se pode distingui-lo do discurso, ou mais exatamente, na medida em que se pode seguir seu trabalho no discurso, supondo que o texto seja aquilo pelo qual o discurso em geral não funciona, se decompõe, resiste a si mesmo e não chega à completude.
  • No caso de Nietzsche, levar em conta o texto assim definido é uma tarefa que pode de certo modo ser tida como certa, já que Nietzsche, entre todos os filósofos, incluindo Kierkegaard, foi o que se distinguiu mais sistematicamente por sua prática contraditória, multifária, enigmática e disruptiva da escrita.
  • Sem Nietzsche, a questão do texto certamente nunca teria emergido com tanta força, pelo menos não na forma exata que assumiu hoje, o que levou a uma mudança de ênfase, na releitura de Nietzsche, para a parte irredutivelmente literária de seu discurso, a fim de seguir o caminho contorcido e tortuoso do desengajamento filosófico e retraçar ao menos o esboço desse complexo aparato textual no qual o filosófico como tal se torna variadamente mas incessantemente turvo.
  • Esse objetivo não é heideggeriano e, até certo ponto, não corresponde a nenhuma das questões de Heidegger, mas isso só é verdade até certo ponto, pois, ao menos quanto a Nietzsche, se Heidegger não leva em conta a literatura, a forma, o estilo, e ainda menos o texto, isso é feito deliberadamente, não sendo uma lacuna nem um silêncio, mas uma recusa explícita.
  • Se, por um lado, quanto a Nietzsche, focalizar o texto inevitavelmente levanta a questão que se pode designar como a questão da literatura, e se, por outro lado, Heidegger descartou resolutamente essa problemática, isso é sinal de que se deve desconfiar de certa pressa e começar por ler pacientemente Heidegger, examinando as razões dessa recusa.
  • Ao imaginar que se poderia tirar proveito desse silêncio ambíguo, confundindo-o apressadamente com o impensado do texto e com o privilégio profundamente filosófico concedido por Heidegger à preocupação com a presença, o ser, a verdade, corre-se o risco de permanecer bem dentro do limite ao qual Heidegger conseguiu levar a interpretação de Nietzsche.
  • A tarefa que se anuncia é imensa, nada menos que a desconstrução sistemática de toda a leitura heideggeriana de Nietzsche, e, como é evidente que isso não pode ser empreendido hoje, limita-se a propor um esboço programático, seguindo o fio dessa suspeita para introduzir, quanto à escrita de Nietzsche, uma textura infinitamente mais complexa do que qualquer uma que se pudesse imaginar.

Poiesis e Dichtung

  • Há, no comentário heideggeriano, uma recusa em considerar o processo literário no discurso nietzschiano e, mais precisamente, uma recusa claramente marcada em confirmar a oposição entre o teórico e o poético na qual o comentário clássico sobre Nietzsche opera espontaneamente.
  • Tudo gira em torno da conexão entre os dois primeiros cursos dedicados a Nietzsche, onde, no modo de uma troca complexa de seus temas principais, a vontade de poder e o eterno retorno, a questão da forma poética de Zaratustra e da relação que essa forma mantém com o ensino e a doutrina do eterno retorno emerge ou reemerge ao menos duas vezes.
  • Heidegger afirma que se deve libertar imediatamente de uma visão preconcebida, segundo a qual duas intenções diferentes correm paralelamente, uma visando uma apresentação teórica da doutrina e outra um tratamento poético dela, e que a distinção entre teórico e poético resulta de um pensamento confuso.
  • No pensar de Nietzsche seu pensamento fundamental, o poético é tanto quanto o teórico, e o teórico é inerentemente poético, pois todo pensar filosófico, e precisamente o mais rigoroso e prosaico, é em si mesmo poético, embora nunca brote da arte poética.
  • Uma obra poética, como os hinos de Hölderlin, pode ser pensante no mais alto grau, mas nunca é filosofia, e Assim Falou Zaratustra é poético no mais alto grau e no entanto não é uma obra de arte, mas filosofia, de modo que a distinção entre teórico e poético não pode ser aplicada a textos filosóficos.
  • A operação tentada é particularmente contorcida, e para não distorcer sua lógica nem perder seus resultados, é preciso decompô-la rapidamente, pois o que está em questão é a Darstellung de Zaratustra, que não é sua forma, mas seu modo de apresentação, e, quanto a essa Darstellung, a oposição convencional entre o poético e o teórico é estritamente irrelevante.
  • A Darstellung de Zaratustra, e a Darstellung filosófica em geral, pode ser caracterizada por uma palavra radicalmente intraduzível, dichterisch, que não significa que a filosofia, incluindo Zaratustra, seja Dichtkunst ou Poiesis, pois a relação da filosofia com a Poiesis não é simétrica.
  • Assim como a filosofia, por pouco que seja pensante, é sempre poética, a Poiesis, precisamente porque é pensante, nunca é filosófica, havendo portanto um privilégio absoluto da Poiesis sobre a filosofia, e se vê claramente que, se a Poiesis nunca deixa de ser pensante, o mesmo não se pode dizer da filosofia.
  • O resultado é simples: como filosofia, como filosofia pensante, Zaratustra é poético, e, mesmo que fosse escrito de outro modo, menos poeticamente, as coisas permaneceriam as mesmas, mas é um livro de filosofia e portanto nada tem em comum com uma obra de arte, isto é, com uma obra de Poiesis.
  • Isso significa, se se souber calcular e deduzir, que ele simplesmente nada tem em comum com uma obra, e é o que Heidegger implica algumas páginas antes, quando aborda pela primeira vez a questão da Darstellung de Zaratustra, dizendo que o difícil de apreender nessa obra não é apenas seu conteúdo, se tem algum, mas também seu próprio caráter de obra.
  • A observação prudente quanto ao ser-obra de Zaratustra e a operação que ela assume só são compreensíveis se se referir ao menos às três conferências sobre arte contemporânea incluídas no curso e reunidas sob o título A Origem da Obra de Arte, onde se determina, no estudo minucioso do ser-obra da obra, o que essencialmente liga a arte à verdade, ou mais precisamente, Dichtung, que é a essência da arte, ao próprio Ser.
  • Se se lembra também que A Origem da Obra de Arte assume a destruição da estética realizada no primeiro curso sobre Nietzsche, A Vontade de Poder como Arte, em referência à posição nietzschiana sobre a questão da arte, vê-se por quais detours infinitos se teria de viajar para tentar essa desconstrução da interpretação heideggeriana que é aqui o horizonte.
  • Na visão de Heidegger, o pensamento de Nietzsche é fundamentalmente determinado como um antiplatonismo, uma reversão ou inversão do platonismo, o que também quer dizer que é determinado como a aplicação mais extrema e mais radical da ontoteologia pós-kantiana da vontade contra o niilismo metafísico.
  • Essa reversão, que procede do platonismo e consequentemente o cumpre, é realizada no tema da arte, isto é, dentro e no limite do campo platônico da estética tal como foi retrabalhado pela metafísica dos tempos modernos de Baumgarten ou Kant a Wagner, e por mais que Nietzsche se distancie dessa tradição, nada é perturbado na ontologia fisiológica da estética moderna ou na mimetologia constitutiva do platonismo.
  • Embora seja de natureza filosófica, essa reversão é pensada e, como tal, afeta a questão decisiva da relação entre arte e verdade, mas se toca nessa relação, fá-lo segundo a determinação platônica dos dois conceitos de arte e verdade, de modo que mesmo que a discórdia entre arte e verdade seja deslocada nessa reversão, ela é no entanto renovada e permanece não superada.
  • Heidegger opõe a isso, de modo pretensamente não dialético, outra compreensão de aletheia, seguindo a unidade de iluminação e ocultamento, de presença e retraimento, mas que é tal que o impulso para a obra reside na natureza da verdade como uma de suas possibilidades distintivas pela qual ela mesma pode ocorrer como sendo no meio dos entes.
  • Essa verdade em obra, essa posição ou implementação da verdade, é a arte mesma, que por sua vez é essencialmente determinada como Dichtung, ou, digamos, ainda tentativamente, Poiesis, no sentido menos considerado no pensamento platônico, pois Dichtung nada mais é que a própria linguagem, se nos libertarmos de todas as interpretações instrumentais da linguagem e nos tornarmos atentos ao seu poder inaugural e iluminador.
  • Em última análise, tudo nessa recusa em considerar o caráter poético de Zaratustra depende dessa determinação da obra na qual está em jogo a difícil destruição da discórdia metafísica entre arte e verdade, ou seja, tudo depende dessa posição de Dichtung, que corresponde a nenhuma das posições clássicas ou modernas da Arte.
  • É preciso ainda provar que essa posição de Dichtung não está, quanto às oposições filosóficas que ela paralisa ou perturba, numa posição de suplementaridade, pensando em particular nesse enigmático Zug, nesse puxão que vem além e que complica a estrutura simples de aletheia.
  • É provavelmente o objeto dessa outra análise, a parte mais intratável do texto heideggeriano, que torna toda a interpretação de Nietzsche inevitável e compele a vislumbrar sua desconstrução, pois sempre se poderá reduzir o discurso heideggeriano a alguma teologia negativa da variedade mais contorcida, mas não se pode impedir que o texto em que tudo isso é laboriosamente tecido nos proíba de tomar levianamente esse extremo avanço do discurso filosófico que o força a atingir seu próprio limite.
  • Para que a operação heideggeriana seja possível, ao menos três condições devem ser satisfeitas: que se forneça apoio confirmando a dissimetria entre Dichtung e o filosófico, que na obra de Nietzsche se conceda certo privilégio a Zaratustra, e que a própria questão da arte, sua posição e função na história da completude moderna da metafísica, se torne objeto de certo ceticismo.
  • A arte é aqui considerada em sua determinação filosófica, como arte da estética, que surge quando a magnífica arte da Grécia, que não precisava de estética, e também a grande filosofia correspondente a ela chegam ao fim, e quando em Platão, e com mais razão no platonismo, o que veio antes não é mais compreendido.
  • Esse evento, esse acidente, essa queda ou declínio, nada mais é que o fim do muthos, mas isso só pode ser entendido se se concebe o muthos fora de sua oposição filosófica ao logos, na exterioridade que é precisamente a de Sage e de Dichtung, à qual somente Hölderlin teve acesso.
  • Como Nietzsche não refletiu suficientemente sobre o pré-platonismo, ou, o que dá no mesmo, pensou platonicamente o pré-platonismo, não pôde ir além da liquidação da estética na qual a metafísica pós-kantiana culmina, pois a questão da arte, longe de ser uma fissura que anuncia o desmoronamento do edifício filosófico, é precisamente o meio pelo qual a metafísica se recompõe.
  • Enquanto a arte for pensada no horizonte do platonismo, e mais ainda quando for pensada contra Platão nas categorias do fisiológico, da criatividade ou produtividade, da experiência vivida, da sensibilidade, da energia, do desejo, da aisthesis, a questão da arte ainda não incide sobre o essencial.
  • O essencial ocorre quando o que é posto em questão e interrogado é, através de Dichtung e Sage, a relação entre Ser e humanidade, entre aletheia e linguagem, e é somente a esse preço que se pode considerar o poético e, em geral, a poética, como negligenciáveis, começando pela de Platão, subordinando poiesis a techne, que corresponde à oposição forma/matéria e remete à compreensão do ser como eidos.
  • É por isso que Poiesis não traduz Dichtung, e é sobretudo por isso que, no texto da República, nenhuma distinção é estabelecida entre as duas formulações da questão da mimesis, a poética do Livro III e a mimetologia geral do Livro X, e por que a primeira é sumariamente assimilada à segunda.
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