User Tools

Site Tools


japiassu:a-tarefa-da-hermeneutica

Tarefa da Hermenêutica

RICOEUR. Du texte à l’action. Paris: Seuil, 1986.

  • A tarefa da hermenêutica visa descrever o estado do problema hermenêutico antes de trazer contribuição própria em artigo subsequente, extraindo não convicções fechadas mas os termos de um problema irresolvido, conduzindo a reflexão até o ponto em que uma reorientação se impõe para o diálogo com as ciências do texto
  • A hermenêutica é definida provisoriamente como a teoria das operações da compreensão em sua relação com a interpretação dos textos, sendo a efetuação do discurso como texto a ideia diretriz, remetendo a um artigo seguinte sobre as categorias do texto e preparando a solução da aporia central entre explicar e compreender

Das hermenêuticas regionais à hermenêutica geral

  • O balanço proposto converge para uma aporia que colocou em movimento a própria pesquisa, não sendo uma apresentação neutra
  • A história recente da hermenêutica é dominada por duas preocupações: o alargamento progressivo rumo a uma hermenêutica geral e a subordinação das preocupações epistemológicas a preocupações ontológicas, de modo que compreender deixa de ser um modo de conhecer para tornar-se um modo de ser
    • A desregionalização acompanha-se de uma radicalização pela qual a hermenêutica torna-se geral e fundamental
  • O primeiro lugar da interpretação a ser desenclausurado é a linguagem, sobretudo a linguagem escrita, cujo vínculo privilegiado com a hermenêutica decorre da polissemia das palavras
    • A polissemia exige o papel seletivo dos contextos e uma atividade de discernimento exercida no jogo da pergunta e da resposta, que constitui a interpretação propriamente dita
    • A escrita recorta, dentro do círculo das mensagens trocadas, um domínio que Wilhelm Dilthey chama de expressões da vida fixadas pela escrita, exigindo técnicas específicas de interpretação distintas do diálogo direto
  • O movimento de desregionalização propriamente dito começa com Friedrich Schleiermacher, que discerne um problema geral da interpretação para além da filologia clássica e da exegese dos textos sagrados, elevando a exegese e a filologia ao estatuto de uma Kunstlehre
    • Essa subordinação das regras particulares a uma problemática geral do compreender constitui um renversement análogo ao operado pela filosofia kantiana, situando o kantismo como horizonte mais próximo da hermenêutica
    • A hermenêutica preenche a lacuna do kantismo apontada por Johann Gottfried Herder e reconhecida por Ernst Cassirer, ao se incluir nas ciências históricas
  • A hermenêutica não apenas completa o kantismo mas revoluciona sua concepção do sujeito, herdando do romantismo a convicção de que o espírito é o inconsciente criador que atua em individualidades geniais
    • O programa de Schleiermacher combina o apelo romântico à relação viva com o processo de criação e a vontade crítica de elaborar regras universais de compreensão, segundo os adágios de que há hermenêutica onde há mal-entendido e de que se deve compreender um autor tão bem ou melhor do que ele mesmo se compreendeu
  • Schleiermacher legou à posteridade uma aporia entre a interpretação gramatical, voltada aos traços comuns de uma cultura, e a interpretação técnica ou psicológica, voltada à singularidade do escritor, sem que ambas pudessem ser praticadas ao mesmo tempo
    • A interpretação objetiva e negativa indica apenas os limites da compreensão quanto ao sentido das palavras, enquanto a interpretação técnica e positiva busca a subjetividade de quem fala, sendo seus excessos respectivos o pedantismo e a nebulosidade
    • Nos últimos textos de Schleiermacher a interpretação psicológica prevalece e adquire caráter divinatório, mas permanece ligada a operações críticas de comparação e contraste, como atestam os Discours académiques
  • Wilhelm Dilthey situa-se no ponto crítico em que a amplitude do problema é percebida ainda nos termos do debate epistemológico neokantiano
  • A necessidade de incorporar a interpretação de textos ao campo da ciência histórica impôs-se a Dilthey, sucedendo aos grandes historiadores alemães do século XIX como Leopold Ranke e J. G. Droysen, tornando a própria realidade histórica o texto a interpretar
    • O historicismo exprime o deslocamento de interesse das obras-primas para o encadeamento histórico, deslocamento posteriormente contestado pelas tendências estruturais que privilegiam a sincronia
  • Dilthey busca a solução epistemológica, não ontológica, para o problema da inteligibilidade do histórico, num contexto de recusa do hegelianismo e de ascensão do positivismo, exigindo para as ciências do espírito uma metodologia comparável à das ciências naturais
  • A questão fundamental de Dilthey — como são possíveis as ciências do espírito — conduz à grande oposição entre explicar a natureza e compreender o espírito, separando a hermenêutica da explicação naturalista
  • O traço distintivo do compreender é buscado na psicologia, na capacidade de transpor-se para a vida psíquica alheia, já que o homem conhece o homem de modo distinto do conhecimento das coisas físicas
    • A diferença de estatuto entre a coisa natural e o espírito comanda a diferença entre explicar e compreender, sendo a psicologia a ciência fundamental das ciências do espírito centradas no indivíduo, contra a noção hegeliana de espírito objetivo
  • A chave da crítica do conhecimento histórico reside na conexão interna ou encadeamento pelo qual a vida alheia se deixa identificar em formas estáveis, à semelhança dos tipos-ideais de Max Weber
    • A partir de 1900 Dilthey apoia-se em Husserl e na noção de intencionalidade para reforçar o conceito de estrutura psíquica pela ideia de significação
  • A herança de Schleiermacher é reinterpretada por Dilthey no sentido psicológico da compreensão por transferência para outrem, fazendo da filologia a etapa científica da compreensão e visando estabelecer a validade universal da interpretação contra o arbítrio romântico
  • A teoria hermenêutica fundada na psicologia mantém esta como justificação última, tornando a questão da objetividade inelutável e insolúvel, já que a autocompreensão é sempre mediada por signos e obras
    • Contra a Lebensphilosophie, Dilthey sustenta que o dinamismo criador da vida não se conhece a si mesmo senão pelo desvio dos signos, fundindo os conceitos de dinamismo e estrutura
    • A história universal torna-se o campo hermenêutico, sendo a compreensão de si o maior desvio possível pela grande memória coletiva
  • A obra de Dilthey expõe a aporia central de uma hermenêutica que subordina a compreensão do texto à compreensão de quem nele se exprime, deslocando o objeto da hermenêutica do texto para o vivido
    • Hans Georg Gadamer identifica o conflito entre uma filosofia da vida e uma filosofia do sentido na obra de Dilthey, segundo a fórmula de que a vida faz sua própria exegese e tem estrutura hermenêutica
  • Dilthey percebeu que a vida só apreende a vida pela mediação de unidades de sentido acima do fluxo histórico, indicando um modo de superação da finitude sem saber absoluto, desde que se abandone o vínculo puramente psicológico com o autor em favor do sentido imanente do texto e do mundo que ele abre

Da epistemologia à ontologia

  • Para além de Dilthey, o passo decisivo consiste em questionar o postulado de que as ciências do espírito rivalizam com as ciências da natureza por meio de metodologia própria, questionamento realizado por Martin Heidegger e Hans Georg Gadamer ao buscar as condições ontológicas subjacentes
    • O segundo trajeto proposto substitui a pergunta “como sabemos” pela pergunta pelo modo de ser do ente que só existe compreendendo
  • A questão da Auslegung em Martin Heidegger vincula-se, já na introdução de Sein und Zeit, à questão do sentido do ser, sendo o Dasein o lugar onde essa questão surge por possuir precompreensão ontológica do ser
    • A fundação ontológica opõe-se ao fundamento epistemológico, pois a tarefa filosófica visa os conceitos fundamentais que determinam a compreensão prévia das regiões de objetos, não uma metodologia derivada
  • Esse primeiro renversement implica um segundo: em Heidegger, diferentemente de Dilthey, a compreensão desliga-se do problema de outrem e liga-se ao ser-no-mundo, mundanizando e despsicologizando o comprender
  • As interpretações existencialistas de Heidegger desconheceram que suas análises do cuidado, da angústia e do ser-para-a-morte visam à mundanidade do mundo e à ruína da pretensão do sujeito conhecente, exigindo o encontrar-se e o sentir-se prévios a toda orientação
  • A compreensão heideggeriana é descrita como poder-ser antes de ser fato de linguagem, orientando-se numa situação e desdobrando-se como projetar lançado em um ser-já-jogado, distinto do existencialismo sartriano
  • A interpretação surge apenas em terceiro lugar na tríade situação-compreensão-interpretação, sendo explicitação que desenvolve a compreensão em seu “enquanto” sem recorrer à teoria do conhecimento
  • A Analítica do Dasein confere sentido ontológico ao chamado círculo hermenêutico, no qual sujeito e objeto se implicam mutuamente, sendo a precompreensão a estrutura de antecipação que funda o acesso a coisas como o mundo dos utensílios
  • O peso da meditação heideggeriana não recai sobre o discurso ou a escrita, sendo a linguagem, em Sein und Zeit, articulação segunda cuja função suprema é a monstração e não a comunicação
  • No dizer heideggeriano, ouvir e calar precedem o falar, de modo que compreender é antes de tudo ouvir, e a linguística e a semiologia permanecem no nível do falar sem alcançar o dizer
  • A aporia diltheyana não é resolvida mas deslocada e agravada em Heidegger, pois a subordinação da epistemologia à ontologia impede o retorno à questão do estatuto das ciências do espírito, deixando pendente como dar conta de uma questão crítica no quadro de uma hermenêutica fundamental
  • A distinção entre a antecipação segundo as próprias coisas e a antecipação por ideias populares fica sem desenvolvimento, pois o enraizamento do círculo mais fundo que toda epistemologia impede repetir a questão epistemológica após a ontologia
  • Essa aporia torna-se o problema central da hermenêutica de Hans Georg Gadamer em Wahrheit und Methode, ao reanimar o debate das ciências do espírito a partir da experiência do escândalo da distanciação alienante frente à consciência de pertencimento
    • O debate entre distanciação alienante e experiência de pertencimento percorre as esferas estética, histórica e linguística, unificadas por uma única tese
  • A filosofia de Gadamer sintetiza os dois movimentos descritos — das hermenêuticas regionais à geral e da epistemologia à ontologia — e esboça o movimento de retorno da ontologia aos problemas epistemológicos, questionando se a obra deveria chamar-se Verdade E Método ou Verdade OU Método
  • Gadamer declara não recair no romantismo, mas questiona-se se sua afirmação de que o homem se encontra primeiro nas tradições escapa ao jogo de inversões em que situa o romantismo filosófico
  • A Dilthey censura-se permanecer prisioneiro do conflito entre duas metodologias e não se libertar da teoria tradicional do conhecimento, pois a história precede e antecede a reflexão, sendo herdeiro nesse ponto de Heidegger quanto à estrutura de antecipação do preconceito
  • O ponto culminante da reflexão de Gadamer é a consciência da história dos efeitos, categoria que exprime a impossibilidade de nos colocarmos à distância do devir histórico, sendo nossa consciência determinada por ele
  • A partir do conceito de eficiência histórica coloca-se a questão de como introduzir uma instância crítica numa consciência de pertencimento definida pela recusa da distanciação, sendo as sugestões de Gadamer o ponto de partida da reflexão subsequente
  • A consciência da história efeitual contém em si um elemento de distância, sendo a proximidade do longínquo um paradoxo da alteridade essencial à tomada de consciência histórica
  • O conceito de fusão de horizontes indica que a comunicação à distância entre consciências situadas diferentemente ocorre pelo recobrimento de suas visadas, excluindo tanto o saber total quanto o encerramento num único ponto de vista
    • A meditação sobre a linguagem, que encerra a obra, opõe-se à redução dos signos a instrumentos manipuláveis, valendo a mediação linguística sobretudo quando se torna mediação pelo texto, fazendo comunicar na distância a coisa do texto que não pertence nem ao autor nem ao leitor
  • A expressão a coisa do texto conduz ao limiar da reflexão própria a ser desenvolvida no estudo seguinte
japiassu/a-tarefa-da-hermeneutica.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki