5.1 Ilusão restrospectiva
GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo I: De l'histoire des sciences à l'histoire de la pensée (1966)
Capítulo V Rumo a uma outra história das ciências
A ilusão retrospectiva
1. No último terço do século XIX, os estudos históricos, fascinados pelo triunfo das ciências da natureza, tentaram aplicar aos fenômenos humanos os esquemas deterministas e o vocabulário da análise e da síntese, esquecendo que esses termos haviam sido tomados pelos químicos da época de Lavoisier à psicologia sensualista de Condillac e dos Ideólogos, de modo que a ciência natural apenas devolvia às ciências humanas o que delas tomara.
2. Os historiadores do século XX, sem abandonar o rigor metodológico, renunciaram a impor ao domínio humano o modelo da verdade objetiva das ciências materiais e retomaram, na linha do romantismo e do historicismo alemão, uma hermenêutica compreensiva para a qual a determinação dos fatos é apenas um momento na interpretação das significações.
3. O declínio da história factual não atingiu, porém, a história das ciências, cujas revistas especializadas acumulam estudos de interesse sobretudo anedótico e minuciosamente estéreis, por falta da cultura geral necessária para situar os detalhes nos conjuntos a que pertencem, o que revela um atraso epistemológico dessa disciplina em relação à história geral e à história da arte.
4. Enquanto a história diplomática, da arte, das religiões ou econômica acompanha um devenir aberto cujos resultados nunca são definitivos, a história das ciências apresenta-se habitualmente como um inventário cronológico da aquisição de verdades, ocultando a realidade sob uma nuvem de fatos, datas e nomes próprios.
5. Ao contrário das obras precárias da política, da literatura ou da guerra, os resultados científicos, uma vez estabelecidos, passam a valer como recordes esportivos inscritos no quadro de honra do conhecimento, podendo ser superados ou integrados em conjuntos mais amplos, mas nunca revogados por um retorno atrás.
6. Sob essa ótica, o trabalho temporal da ciência aparece como um caminho longo, cheio de desvios e mal-entendidos, para aumentar o capital intemporal das verdades adquiridas, fazendo da história das ciências antes uma patologia da razão, uma espécie de purgatório, razão pela qual o ensino científico expõe o programa segundo uma ordem lógica alheia à desordem cronológica das descobertas.
7. O ensino das ciências dispensa o longo caminho da história em favor do atalho lógico, ao passo que a política, a arte e a religião recorrem continuamente à história, o que explica que as Faculdades de Ciências não tenham cátedra de história das ciências e que a única cátedra francesa de história da medicina, em Paris, seja facultativa e tratada como cargo de espera.
8. O estatuto da história das ciências é incerto de fato e de direito, pois ela não pertence nem à ciência nem à história em sentido nobre, equívoco visível na História da Ciência da Pléiade dirigida por Maurice Daumas, que restringe a ciência ao Ocidente, fragmenta-a em disciplinas tratadas separadamente a partir do Renascimento e omite a medicina, a economia política, o direito, a linguística e as ciências históricas.
9. A História Geral das Ciências dirigida por René Taton, embora abarque matemática, física, química, ciências da terra e da vida, inclusive a medicina, exclui as ciências do homem e fica atrasada até em relação a Auguste Comte, impedindo o leitor de perceber o fato capital do prodigioso advento das ciências humanas desde o século XVIII.
10. Além dos obstáculos materiais, o impedimento maior dessas empresas é epistemológico, pois seus organizadores não têm clareza sobre a noção de ciência, delimitam mal a esfera do saber e percebem mal a articulação entre disciplinas de justificações distintas, produzindo obras monumentais feitas de peças avulsas e desiguais, sem fundamento sólido.
11. A divisão da ciência em setores entregues a especialistas reflete a divisão do trabalho intelectual e pressupõe que o historiador das ciências seja um segundo cientista, mas como o cientista carece em geral de senso histórico e o historiador de competência técnica, essa história acaba feita por equipes em que a competência científica costuma ser inversamente proporcional à competência histórica.
12. Monografias redigidas por cientistas em seus lazeres resultam em mosaicos de fatos justapostos, efemérides de experiências e de gênios que passam a tocha uns aos outros, reduzindo Paracelso à promoção do antimônio e Sydenham ao uso do láudano, quando ambos valem sobretudo por terem afirmado novas atitudes médicas, a ruptura com a fidelidade aos Antigos e uma medicina empírica conforme a filosofia experimental inglesa.
13. A história factual das ciências interessa-se pela aquisição de verdades particulares sem conceber a busca da verdade como um devenir global da humanidade, como nas histórias da química que vão da alquimia delirante ao erro do flogisto, à refundação por Lavoisier e à marcha triunfal até a tabela de Mendeleiev, como se o tratado de química mais recente fosse o alvo predestinado dos esforços de todos os químicos.
14. Trata-se de uma ilusão de ótica, pois a história segundo o vetor do progresso é construída regressivamente a partir do estado presente do saber, tomado abusivamente como quase terminal, o que leva a separar maniqueisticamente bons e maus e a desprezar a massa dos esforços sem futuro, quando se poderia mostrar tanto continuidade quanto oposição entre Stahl e Lavoisier, cujas honras deveriam ser partilhadas com contemporâneos como Scheele e Priestley.
15. Descontados os preconceitos nacionalistas, a realidade histórica é desnaturada quando se extraem de seu contexto mental, como pepitas arrancadas de um filão, as parcelas de verdade futura, pois para o cientista autêntico tudo era solidário, e as tentativas vãs dos primeiros eletricistas do século XVIII, embora não pertençam à verdade, pertencem à história como preço pago pelo avanço do saber.
16. A ilusão mais perigosa consiste em fazer a história das ciências do ponto de vista da verdade e não da mentalidade, já que a verdade usada para julgar o passado é apenas um aspecto da mentalidade atual, ela própria em transição para um futuro desconhecido, de modo que a ilusão do presente engendra a ilusão de um passado à sua semelhança.
17. A historiografia científica não tem como tarefa principal registrar as verdades adquiridas, mas descrever a progressão complexa da consciência epistemológica, ligada ao movimento geral da cultura com seus desvios, retornos e vicissitudes, servindo fatos, nomes e datas apenas como referências a interpretar em função da situação de conjunto.
18. A história das ciências só é realmente progressiva há pouco mais de três séculos, pois antes do século XVII, com cientistas raros, dispersos e mal comunicados, nenhuma aquisição era definitiva, a cultura podia estagnar por séculos, descobertas antigas podiam perder-se no naufrágio da civilização e figuras como Euclides, Arquimedes e Ptolomeu foram seguidas de longos períodos de torpor.
19. Uma história das ciências construída segundo o esquema de uma promoção contínua corresponde, portanto, a uma ilusão retrospectiva, sendo absurdo imaginar um progresso linear e determinista em que uma verdade engendra outra e cada disciplina forma uma série independente.
20. A axiomatização crescente que caracteriza a ciência contemporânea desde a revolução não euclidiana e a síntese de Hilbert não deve ser projetada no passado, pois o cientista tradicional interrogava a natureza das coisas num espaço epistemológico muito menos compartimentado, e confinar Lavoisier, Newton, Ray ou Lineu em disciplinas que não existiam em seu tempo obriga a persegui-los inutilmente pelos capítulos sucessivos das histórias.
21. Impõe-se abandonar os preconceitos herdados do dogma iluminista do progresso, que representam o devir do conhecimento como etapas rigorosamente encadeadas e incorrem no erro denunciado por Bergson no determinismo psicológico, pois a ordenação lógica feita a posteriori inverte a marcha natural do pensamento, substituindo as causas eficientes de uma pesquisa viva e desordenada por uma causa final que propaga a certeza do desfecho até a indecisão dos começos.
22. Não existe palavra final na ordem científica, em que todos são sempre retardatários ou precursores de alguém, e como o ponto de chegada muda com o avanço do saber, cada revolução do conhecimento, como a copernicana ou a passagem entre mecanicismo e vitalismo ou entre física do contínuo e do descontínuo, reescreve a história e cria um passado de substituição tão precário quanto as justificações retrospectivas da política.
