2.4.2 A "Signatura" dos fenômenos
GRASSI, Ernesto. Macht des Bildes: Ohnmacht der rationalen Sprache. Zur Rettung des Rhetorischen. Colônia: DuMont Schauberg, 1970 (Versão ampliada e canônica em língua italiana: Potenza dell'immagine: Rivalutazione della retorica, Bolonha: Il Mulino, 1989). / Poder da Imagem. Impotência da Palavra Racional. Em Defesa da Retórica. São Paulo: Duas Cidades, 1978
2. A “Signatura” dos fenômenos: a definição de J. Boehme da esfera “Espiritual”
1. Se a lei da causalidade é inadequada para explicar a vida e o ser vivo permanece fechado nas formas que lhe são próprias, então a vida consciente do homem nasce da necessidade de conferir significado aos fenômenos sensoriais, colocando-os sob uma assinatura classificadora, pois sem ela a multiplicidade dos fenômenos permanece muda, desoladora e sem orientação, razão pela qual os cinco primeiros parágrafos de De signatura rerum, de Jacob Boehme, oferecem a via para esclarecer o processo de conhecimento e a estrutura dos sinais humanos.
2. A investigação de Boehme sobre a assinatura dos fenômenos segue duas direções, a nomenclatura das coisas e a questão de sua origem e essência, e vincula surpreendentemente o problema da assinatura ao problema de como é possível falar de Deus.
3. Tudo o que se diz de Deus sem o reconhecimento da assinatura permanece mudo e incompreensível, mas, como Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, o autoconhecimento torna-se o caminho para conhecer Deus, o que preserva todo o alcance metafísico do problema da assinatura sem reduzi-lo a uma questão teológica.
4. A assinatura, correspondente ao eidos da tradição antiga, não adere diretamente às manifestações sensoriais nem provém de atribuições arbitrárias e subjetivas dos indivíduos ou de um mero aprendizado histórico, mas da fonte objetiva e universalmente válida chamada espírito, única capaz de fazer as coisas falarem e de tornar possível a comunicação.
5. A compreensão do discurso de outrem ocorre quando seu som e seu espírito, provindos de sua assinatura, imprimem sua forma na forma de quem ouve, como um martelo que faz repicar os sinos, e o termo Deus aqui não conduz a um exame dogmático, mas mantém aberta a questão de como é possível a autoexpressão dirigida ao princípio e à causa primordial.
6. A voz distingue-se do mero som por sua função interpretativa e indicadora, e a transferência de sentido entre falantes só se explica por algo comum que confira significado ao fenômeno, ao passo que nos animais as vozes, embora variem entre espécies, permanecem fixas dentro de cada espécie e possuem significados inatos.
7. Os seres humanos não se comunicam como os animais, pois precisam buscar o significado dos elementos fonéticos com que pretendem transmitir algo, de modo que esses significados estão sujeitos a mutações históricas e as línguas surgem, desaparecem e variam de povo para povo.
8. Como o homem está cercado de fenômenos que não consegue interpretar de imediato, ele lhes imprime uma assinatura cuja plausibilidade deve ser examinada pela exposição das razões das definições, por meio de uma teoria confirmada pela experiência, e essa razão, por valer universalmente e não ser estabelecida arbitrariamente pelo indivíduo, constitui o denominador comum que permite ao outro aceitar o sinal atribuído ao fenômeno.
9. A compreensão do que o outro diz pode ser positiva, quando se aceita a razão de sua assertiva, ou negativa, quando, compreendidas suas razões, se demonstra que não justificam suas definições, e em ambos os casos a unidade da razão age como o martelo que faz soar os dois sinos, tornando a fala humana algo mais que mero som ou série de vozes.
10. Espiritual é a situação especial que distingue o homem do animal, pois, não lhe sendo revelados diretamente os significados dos fenômenos, ele só alcança as razões da assinatura procurando-as e encontrando-as, de modo que não pode ser compreendido apenas pelo conceito de vida.
11. Todas as qualidades humanas têm uma única raiz e origem, sem a qual um homem não poderia compreender o outro por meio de sons.
12. Embora a única raiz e origem pareça repetir o denominador comum já apontado como condição da compreensão mútua, cabe examinar se há algo mais a aprender sobre as características desse elemento comum.
13. A conversação consiste em mostrar que as razões das próprias definições são mais consistentes, isto é, objetivas, necessárias e universalmente válidas, sem o que cada um ficaria encerrado em opiniões e símbolos subjetivos, e essa necessidade se manifesta na experiência constante do fracasso diante das coisas, das pessoas e das próprias paixões, experiência negativa só possível sob a coerção de uma lei ou obrigação já existente, que é o espírito e que o distingue da obrigação da vida puramente orgânica.
14. As explicações biológicas da desorientação humana pela deficiência do instinto falham porque o afrouxamento dos padrões animais suprimiria qualquer compulsão à busca de orientação, enquanto a indiferença é insuportável ao homem e o entorpecimento das paixões na vida sensual leva ao tédio, à saciedade e ao desespero, provando que ele está sob uma compulsão nova, não derivável da vida animal, tema da análise da angústia em Kierkegaard.
15. A situação espiritual do homem funda-se na experiência de que os fenômenos carecem de assinatura e na compulsão de procurá-la, de modo que não é o homem quem fala como ser isolado, mas algo que fala através dele, fazendo dele órgão e instrumento da causa que se manifesta na fala e o obriga a definir os fenômenos.
16. A busca dos sinais dos fenômenos não nasce da livre vontade, pois sem a definição desses sinais o homem pereceria no âmbito dos fenômenos.
17. O caráter objetivo da fala e a independência da busca das assinaturas em relação à vontade individual reaparecem na introdução de Aurora, onde o conhecimento não pertence ao eu que sabe, mas a Deus que sabe nele, sem que tenha sido procurado ou aprendido.
18. Pelo som ou pela fala, uma forma se inscreve em outra e uma ressonância capta e move a outra, de modo que o espírito desenha no som suas formas tiradas da essência e desperta no outro uma forma idêntica, até que as formas coincidam em um só conceito, uma só vontade, um só espírito e uma só compreensão.
19. Ao lado do ver, correspondente ao eidos e à necessidade do reconhecimento, surge o ouvir como processo igualmente originário, entendido como vibração em ressonância com o objeto, o que traz ao primeiro plano o âmbito emocional e o estado de espírito, em consonância com a teoria platônica de Eros, fundada no impacto e na fascinação da forma.
20. Por isso a razão que explica os fenômenos não pode ser tomada como simples objeto racional disponível, à maneira dos primeiros princípios e axiomas das ciências particulares, pois, se a razão precisa ser procurada, o homem deve ser literalmente captado e movido por ela.
21. O espírito tira suas formas da essência, termo que corresponde ao grego ousia, particípio do verbo ser que designa o ser de algo em sua realização e que, na língua pré-filosófica, significava os pertences necessários à existência, como a rede para o pescador, possuindo assim uma conotação muito mais concreta que a abstração moderna.
22. Na busca, o homem descobre a essência dos fenômenos sem poder proceder arbitrariamente, pois o processo racional de conclusões e provas, o logos, só pode estabelecer ligações fundado no reconhecimento das formas primitivas, as archai, de modo que a entidade dos fenômenos se revela no processo dialógico como definição do espírito, reduzindo a multiplicidade dos fenômenos à unidade de explicação que torna possível a interpretação pela fala humana.
23. O espírito concebe-se no bem ou no mal porque o processo racional de esclarecimento avança passo a passo, examinando e rejeitando hipóteses insustentáveis, e, sendo a história o acontecer desse processo, que pode atolar-se em definições falsas, pertence à natureza do espírito que o processo lógico nele enraizado conduza tanto à verdade quanto ao erro e à fraude.
24. A vontade só aparece quando deixam de prevalecer os sinais inequívocos decisivos nos animais e as paixões, tornadas ambíguas pela obrigação de interpretar os fenômenos, precisam ser guiadas para um telos imposto pela razão, objetivo que no processo dialógico se revela passo a passo como realização de uma afirmação objetiva, de modo que a vontade emerge da condição humana de enfrentar possibilidades e de ter de escolher entre elas.
25. Toda assinatura ou forma não é o próprio espírito, mas o recipiente ou caixa em que ele se encontra, semelhante a um alaúde afinado e mudo que só revela sua forma, seu material e sua voz quando tocado pela vontade e pelo espírito, soando cada corda segundo sua qualidade.
26. Se o espírito é o processo pelo qual se chega ao conhecimento, manifestado no surgimento de perguntas e na necessidade de respondê-las, todo sinal exterior só ganha vida e eficácia enquanto enraizado na realização desse processo, como ensina o mito platônico de Toth, no qual a escrita, oferecida como remédio da memória, ameaça produzir o esquecimento ao fazer os homens recordarem por símbolos externos e não interiormente.
27. Remontar às causas originais que determinam o mundo humano significa lembrar-se no processo dialógico, e o afastamento desse processo por meio da escrita ou de outros sinais externos paralisa o perguntar e impede o acesso à fonte espiritual, pois a realidade humana só existe enquanto os homens estão a caminho, sendo o ser um constante vir a ser e a assinatura e o sinal formas de ação e relacionamento que, separadas destes, se tornam caixas mortas e peças de museu.
28. Passado e futuro só se tornam fecundos na faculdade instantânea de escolher e reunir com base no reconhecimento original, cujo instante discernente jamais pode ser objetivado, pois o reconhecimento objetivado já é imperfeito e precisa ser realizado de novo, de modo que a tradição só vive no discernimento autoefetivante e não no apego literal a textos e normas, assim como o alaúde não é música e precisa ser constantemente tocado com sensibilidade.
