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denis_de_rougemont:amor-reciproco

O Amor Recíproco Infeliz

  • Paixão como sofrimento e busca da dor
    • Paixão significa sofrimento, coisa sofrida, preponderância do destino sobre a pessoa livre e responsável.
    • Amar o amor mais que o objeto do amor, amar a paixão por si mesma, é amar e buscar o sofrimento.
    • Amor-paixão: desejo daquilo que nos fere e nos aniquila por seu triunfo.
    • Segredo que o Ocidente nunca tolerou confessar, e que não cessou de recalcar e preservar.
    • Persistência trágica desse segredo convida a julgamento pessimista sobre o futuro da Europa.
  • Incidência: ligação entre paixão, gosto da morte e modo de conhecer
    • Ligação ou cumplicidade entre paixão, gosto da morte que ela dissimula e certo modo de conhecer que define nossa psique ocidental.
    • Por que o homem ocidental quer sofrer paixão que o fere e que toda sua razão condena?
    • Por que quer esse amor cujo brilho só pode ser seu suicídio?
    • Porque se conhece e experimenta sob ameaças vitais, no sofrimento e no limiar da morte.
    • Terceiro ato do drama de Wagner descreve catástrofe essencial de nosso gênio sádico: gosto recalcado da morte, gosto de se conhecer no limite, gosto da colisão reveladora, raiz inarrancável do instinto de guerra em nós.
  • Sucesso do romance como revelação de preferência íntima pela infelicidade
    • Sucesso prodigioso do romance revela em nós, queiramos ou não, preferência íntima pela infelicidade.
    • Infelicidade pode ser deliciosa tristeza e spleen da decadência, sofrimento transfigurador, ou desafio do espírito ao mundo.
    • Buscamos o que pode nos exaltar até nos fazer aceder, malgrado nós, à verdadeira vida dos poetas.
    • Mas essa vida verdadeira é a vida impossível; céu de nuvens exaltadas, crepúsculo empurprado de heroísmo anuncia a Noite, não o Dia.
    • Verdadeira vida está alhures, diz Rimbaud; é apenas um dos nomes da Morte, único nome pelo qual ousamos chamá-la enquanto fingimos rejeitá-la.
  • Preferência pelo amor impossível e ligação entre sofrimento e conhecimento
    • Por que preferimos, a qualquer outro relato, o de um amor impossível?
    • Porque amamos a queimadura e a consciência daquilo que queima em nós.
    • Ligação profunda entre sofrimento e saber; cumplicidade entre consciência e morte (Hegel fundou explicação geral de nosso espírito e História nisso).
    • Definiria o romântico ocidental como homem para quem dor, especialmente dor amorosa, é meio privilegiado de conhecimento.
  • Busca do amor mais sensível e necessidade do obstáculo
    • Maioria busca simplesmente amor mais sensível, mas ainda assim amor cujo obstáculo retarda realização feliz.
    • Assim, quer se deseje amor mais consciente, quer simplesmente amor mais intenso, deseja-se secretamente o obstáculo; cria-se-o ou imagina-se-o se necessário.
    • Isso explica boa parte de nossa psicologia: sem obstáculos ao amor, não há romance.
    • O que se ama é o romance, isto é, consciência, intensidade, variações e retardamentos da paixão, seu crescendo até a catástrofe, não sua rápida labareda.
  • Caráter da literatura ocidental: felicidade sob ameaça
    • Literatura ocidental comove com felicidade dos amantes apenas pela expectativa da infelicidade que os espreita.
    • Necessária ameaça da vida e realidades hostis que os afastam para um além.
    • Nostalgia, lembrança, não a presença, comovem; presença é inexprimível, instante de graça (dueto de Don Juan e Zerlina) ou idílio de cartão postal.
  • A grande descoberta dos poetas europeus
    • Amor feliz não tem história na literatura ocidental; amor não recíproco não é considerado verdadeiro amor.
    • Grande achado dos poetas europeus, que os distingue na literatura mundial, expressando obsessão do europeu: conhecer através da dor.
    • Segredo do mito de Tristão: amor-paixão ao mesmo tempo partilhado e combatido, ansioso por felicidade que rejeita, engrandecido por sua catástrofe.
    • Amor recíproco infeliz.
  • Fórmula do mito: reciprocidade enganosa e duplo narcisismo
    • Amor recíproco no sentido de que se amam mutuamente, ou estão persuadidos disso; são um para o outro de fidelidade exemplar.
    • Mas infelicidade reside em que amor que os domina não é amor do outro em sua realidade concreta.
    • Amam-se mutuamente, mas cada um ama o outro a partir de si, não do outro.
    • Infelicidade nasce de falsa reciprocidade, máscara de duplo narcisismo.
    • Em certos momentos, excesso de paixão deixa transparecer espécie de ódio pelo amado.
    • Wagner viu isso antes de Freud e psicólogos modernos.
    • Citação de Isolda: Eleito por mim, perdido por mim!
    • Canção do marinheiro do mastro prediz destino inevitável.
  • Duplo infortúnio e exaltação pela aproximação da morte
    • Duplo infortúnio da paixão que foge do real e da Norma do Dia; infortúnio essencial do amor: o que se deseja ainda não se tem (a Morte), e perde-se o que se tinha (gozo da vida).
    • Perda não é sentida como empobrecimento, mas como viver mais perigosamente, mais magnificamente.
    • Aproximação da morte é aguilhão da sensualidade; agrava o desejo no pleno sentido, por vezes até desejo de matar o outro, suicidar-se ou naufragar juntos.
    • Citação de Isolda convocando ventos, desejando romper navio e engolir destroços.
  • Encontro final apenas na destruição
    • Atraídos pela morte para longe da vida que os empurra, presas voluptuosas de forças contraditórias que os precipitam no mesmo vertigem.
    • Amantes só poderão se reencontrar no instante que os priva para sempre de toda esperança humana, de todo amor possível, no seio do obstáculo absoluto e de suprema exaltação que se destrói por seu cumprimento.
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