PICO DELLA MIRANDOLA E O HEPTAPLUS
Les Cahiers d'Hermès II. Dir. Rolland de Renéville. La Colombe, 1947. ORIGINAL
Se Giovanni Pico della Mirandola foi descrito por seus contemporâneos deslumbrados como o “príncipe dos filósofos”, é porque trazia à especulação uma paixão excepcional, um entusiasmo provocado pela fascinação do mistério universal, cuja prova mais manifesta é talvez esse estranho Heptaplus, raramente estudado até agora, e que hoje está acessível numa edição prática e segura 1).
I - « O DISCURSO SOBRE A DIGNIDADE DO HOMEM » E A « APOLOGIA » (1486)
O único texto famoso de Pico, aquele que sempre se considerou, após Burckhardt 2), como “o manifesto da Renascença”, na verdade permaneceu inédito até a publicação das obras completas em 1496. O “Discurso sobre a Dignidade do Homem”, Oratio de hominis Dignitate, foi escrito num ímpeto extraordinário e com a mais viva ardência belicosa no final de 1486, na véspera do debate que oporia Pico aos teólogos romanos. Foi a eles que ele lançou um desafio: o “Discurso” era a prolusio, a introdução às novecentas teses onde reunira toda sua doutrina e das quais a Inquisição logo se ocuparia. “Esse jovem quer que um dia o queimem”, declarou Inocêncio VIII. Condenado por uma bula de 4 de agosto, Pico, que fugia para os Países Baixos, foi preso e encarcerado em Vincennes. Ali permaneceu até 1488. Antes de deixar a Itália, porém, redigira em três semanas um novo texto, uma Apologia, dedicada a Lourenço de Médici, impressa em Nápoles, onde se justificava das treze teses principalmente incriminadas: introduziu ali uma grande parte da Oratio, a dedicada a polêmicas e discussões preliminares, e que começa com um elogio das disputas públicas - à maneira escolástica - onde o ardor de Pico bem se retrata:
“Assim como a ginástica aumenta as forças do corpo, esse tipo de palestra intelectual dá à alma um vigor e uma energia maiores. Em minha opinião, os poetas, ao celebrarem as armas de Palas, ou os hebreus, ao fazerem do ferro (barzel) o símbolo dos sábios, não quiseram senão significar a dignidade desses combates necessários à conquista do saber. E é sem dúvida por isso que os caldeus desejam no horóscopo do futuro filósofo o trígono de Marte e de Mercúrio: sem sua conjunção, e as lutas que ela acarreta, a filosofia não passaria de sonolência e dormitação.” 3) Essa Palas revestida de ferro, essa Minerva guerreira do jovem conde, é a divindade que pintou Botticelli, a musa do humanismo florentino na véspera das catástrofes. Observou-se que a imagem de Pico se reencontra na figura de um jovem com espada, introduzido por Botticelli numa de suas últimas Adorações dos Magos 4).
A primeira parte da Oratio era uma exposição de conjunto dos novos recursos da filosofia, de todas as gnoses enfim reunidas, que justificavam a segurança e a combatividade de Pico. “Não são apenas os mistérios mosaicos e cristãos, mas também as antigas teologias que nos revelam a dignidade superior dessa pesquisa.” 5) A fé de Moisés e de Cristo envolve num fundo de doutrina secreta a revelação do mistério divino que é também o mistério do homem: a espantosa concordância dessa doutrina com os ensinamentos tradicionais mas ocultos do mundo pagão permite ao mesmo tempo destacar seu alcance filosófico e confirmá-la pelo que deveria contradizê-la. Essas tradições ocultas do mundo pagão são, na Grécia, o ensino de Orfeu e o de Pitágoras recolhido por Platão, no Egito a ciência de Hermes Trismegisto transmitida no Pimandro e no Asclepios, no Irã o saber legado aos magos por Zoroastro, “não aquele que se crê, mas o filho de Oromases” (Ibid., p. 150), e do qual se tem o eco nos Oráculos Caldeus. Todos esses nomes venerados formam uma cadeia prodigiosa, todos esses textos se completam e se ligam, oferecendo, a quem sabe compreendê-los, as mesmas respostas aos mesmos problemas. Interpretando os livros da revelação propriamente dita com os dessas revelações laterais que também atravessaram os séculos, e cuja conjunção com a Escritura é garantia de verdade, dispõe-se de uma ciência perturbadora, que engaja a filosofia, esse conhecimento simultâneo do homem e do mundo, num plano maravilhosamente seguro. É essa nova apresentação dos problemas, esboçada na Oratio no final de 1486, que será retomada em 1489, após a libertação de Jean Pico e seu retorno a Florença.
II Pico em 1488
Quando, na primavera de 1488, Carlos VIII devolve a liberdade ao prisioneiro da Sorbonne e o entrega à proteção de Lourenço de Médici, solicitando do papa uma graça que tardará a vir, Pico tem vinte e cinco anos. Está no meio de sua carreira, ainda tem seis anos de vida. Seu período feliz passou: o afresco de Cosimo Rosselli em Santo Ambrósio de Florença que o representava em 1486, com sua nobre cabeça loira, seu olhar perdido na contemplação, é o último testemunho de sua juventude deslumbrante e já anuncia a gravidade de seus últimos anos. Uma carta de Lourenço de Médici datada de 13 de junho de 1489 — um ano depois — nos informa bem sobre o novo estado de espírito do jovem sábio, após a ruptura com Roma, após o exílio e o cativeiro parisiense. Disse adeus aos prazeres, às ambições, e, cristão cada vez mais fervoroso, dedica-se à meditação solitária: “O conde da Mirandola está agora entre nós, vive santamente, como um religioso, trabalhou e trabalha sem descanso em obras teológicas, comentários dos Salmos e outros trabalhos importantes. Recita o ofício ordinário do clero, observa o jejum e as mais severas abstinências; vive quase só e sem luxo com os servidores indispensáveis, modelo para todos os outros homens.” 6)
Como não pensar em Pascal que, por volta da mesma idade, após ter concebido as maiores ambições intelectuais, também volta da ciência para Deus, e formou alguns anos o desígnio de colocar seu saber a serviço de uma religião mais austera, antes de tudo sacrificar à ascese e à oração? Pico está pronto a sofrer a influência de Savonarola e dos reformadores dominicanos, como Pascal vai se submeter cada vez mais à de Port-Royal: em sua segunda “conversão”, renegará e repudiará as ambições intelectuais que ainda nutria após seu primeiro retorno decisivo às crenças e práticas cristãs. Em 1488, é um teólogo retirado do mundo que se instalou na vila mediceana perto de Fiesole: as grandes obras às quais alude Lourenço, e que o ocupam paralelamente ao comentário dos Salmos, são uma tentativa suprema de demonstrar o acordo profundo da Escritura — interpretada segundo a Cabala — e da doutrina platônica, é a retomada sistemática dos temas da Oratio, é o comentário do Gênesis que se intitulará Heptaplus ou o “comentário sétuplo da obra dos seis dias”, de septiformi sex dierum geneseos enarratione.
O retorno a Florença do jovem conde não é marcado apenas por seu renovo cristão, mas também por uma nova intimidade com o mestre que, quatro anos antes, lhe ensinava a filosofia platônica, Marsílio Ficino. Os temas de discussão nunca faltaram entre o mestre e o discípulo: nutrido de escolástica averroísta antes de vir a Florença, informado das doutrinas hebraicas das quais tirava grande proveito, Pico chegara a publicar, em seu primeiro livro, o “Comentário à canção de amor de Girolamo Benivieni”, em 1486, um pequeno ensaio tão pouco ficiniano de espírito quanto possível. Os dois sábios voltariam a se chocar sobre os dois problemas fundamentais que se ofereciam, no final do século, ao novo humanismo florentino, o problema do valor da ciência, isto é, da astrologia, e o da reforma religiosa sobre a qual Ficino sempre se mostraria tão reservado: Pico escreverá em 1490-1491 um grande tratado contra a astrologia, que é um dos fundamentos da cosmologia de Ficino, e se aliará desde 1492 ao círculo de “São Marcos” onde reunirá em torno de Savonarola alguns dissidentes da “Academia platônica”. No momento do Heptaplus, durante esses dois anos de proteção mediceana e de retiro em Fiesole, as relações de Pico com seu mestre não são mais as de 1486 e as dissensões ainda não são evidentes. Ficino apoiara afetuosamente a causa de Pico junto aos enviados de Roma e a Lourenço. Pico lhe devia em parte o fim de seu exílio, e, aliás, Ficino o saudou, em sua chegada a Bolonha, numa mensagem amistosa: “Nosso amigo Roberto Salviati me anunciou que chegaste bem a Bolonha, enquanto eu estava mergulhado numa conferência pública. Felicito-te por teres assim te aproximado de nós, alegro-me por teres escapado das mãos dos maus.
“Em outubro passado, enquanto Mercúrio era devorado pelos fogos de Marte, os povos que estão sob o signo deste se agitaram contra ti, mas seus desígnios foram reduzidos a nada pelo Mestre do céu. E nós, com o favor de Júpiter e de Vênus, com o apoio de Lourenço, o Magnífico, pudemos impedir que Mercúrio fosse queimado, mesmo na terra. Peço a Deus que frustre no futuro nossos inimigos e caluniadores. Saúde, sê próspero e ama-me como te amo.” 7)
Mas as relações com Ficino eram sempre complicadas e bizarras: vivia no meio dos presságios, com obsessões e precauções singulares. Em tudo, calculava o favor ou a ameaça dos planetas. Em 1489, publicaria justamente o terceiro livro de seu tratado, “Os três graus da vida”, De vita triplici, onde faz a teoria do gênio saturniano e traduz em linguagem astrológica o drama interior da Renascença 8).
Por duas vezes, Ficino foi misteriosamente impedido de se unir ao amigo, e este o zombou numa carta do início do verão de 1488: “O que te fez partir, foi teu senhor Saturno?” Mas Ficino se explica, acusando os movimentos celestes de seu “demônio” astral. Assim, ao mesmo tempo que reencontrava Ficino, Pico mergulhava novamente na estranha atmosfera do neoplatonismo florentino, todo preocupado com símbolos pagãos, com sinais celestes. Tanto quanto as preocupações religiosas, o Heptaplus traz a marca desses contatos mais estreitos do jovem conde com a Academia platônica. Seu grande tratado se apresenta expressamente como uma “concordância de Moisés e Platão”, e Pico retoma triunfalmente a fórmula neoplatônica já utilizada por Ficino: “Platão não é senão um Moisés ático.” 9)
Pico, em Florença, reencontrou também a Cabala. A grande novidade da Oratio era o recurso às fontes hebraicas, e não fora a menor razão de inquietação dos teólogos romanos. Na justificação das treze proposições condenadas, que constitui a Apologia, Pico insistira nesse ponto. A quinta tese se enunciava: “Nenhuma ciência nos traz mais prova da divindade de Cristo que a magia e a cabala.” Em sua defesa, Pico zomba da ignorância de seus juízes: “Essa palavra (de Cabala) causa tal horror a esses padres, eles tremem tanto ao ouvi-la, que alguns deles devem crer que os cabalistas não são homens, mas bircocerros ou centauros monstruosos. E eis algo para divertir: como se perguntou a um deles o que era essa Cabala, respondeu que era o nome de um homem pérfido e diabólico, autor de numerosos escritos contra Cristo, e que seus discípulos eram por isso chamados cabalistas. Não é engraçado?”
Mas, de fato, na Oratio, Pico explicara como os livros da Cabala são a continuação oculta da civilização mosaica. Acreditava, com efeito, na autenticidade dos livros de Esdras, como toda a Renascença, obtivera-os a peso de ouro e os fizera traduzir, como o papa Sixto IV por volta da mesma época 10). É a eles que se refere expressamente: “Quando, pela vontade de Deus, foi revelada a verdadeira interpretação da lei divina comunicada a Moisés, chamou-se-lhe Cabala, que em hebraico significa 'recepção', porque essa ciência é transmitida de um a outro por revelações sucessivas como em virtude de um direito hereditário, e não por documentos escritos…” Após o cativeiro da Babilônia, Esdras os fez redigir para que os “mistérios da ciência divina” não corressem o risco de se perder; e é aí a origem dos “livros da ciência cabalística” 11).
Em 1486 — sabemos por suas cartas — Pico trabalhava sobre os textos hebraicos e caldeus com o judeu Flavius Mithridate 12); de volta à Itália, entrou em contato com um certo Giovanni Alemanno, ou Johanan, professor de hebraico, que acabara de se instalar na cidade junto a um rico correligionário 13). Foi ele que permitiu a Pico fazer sobre os originais suas traduções dos Salmos e o apoiou em seus novos estudos cabalísticos.
No final de julho de 1488, Ficino exprimia, numa carta a Roberto Salviati e a Jerônimo Benivievi, todas as esperanças que permitia novamente a extraordinária potência intelectual do jovem conde da Mirandola:
“Seu nome de conde da Concórdia é bem justificado, pois busca harmonizar as correntes de pensamento mais opostas… Como as brumas se dissipam ao nascer do sol, assim com a chegada de Pico todas as oposições desaparecem; bruscamente a concórdia o segue e o toma por guia; só ele pode realizar o que tantos outros tentaram antes dele, pois se empenha sem descanso em mostrar o acordo dos judeus e dos cristãos, dos peripatéticos e dos platônicos, dos gregos e dos latinos.” 14)
Concluído no início de 1489, a obra foi dedicada a Lourenço, o Magnífico, por ocasião da elevação de seu filho João à dignidade de cardeal, em 9 de março de 1489. Em duas longas introduções, Pico expôs a seu protetor a singularidade de sua empresa e seu método.
III A DOUTRINA DO « HEPTAPLUS »
A cosmogonia platônica é exposta no Timeu, a criação do mundo segundo o relato mosaico lê-se no primeiro capítulo do Gênesis. Desde dez séculos, os Padres gregos e santo Agostinho, depois os platônicos de Chartres no século XII, esforçaram-se por confrontar as duas obras e harmonizá-las o melhor possível. Não é mais a empresa de Pico; ele não faz um comentário literal ou mesmo alegórico do relato bíblico, e disso se defende expressamente; tem os meios de tentar algo mais elevado e mais forte, porque sabe recolocar a exegese da Cabala sob o texto do Gênesis, e as glosas neoplatônicas sob o texto do Timeu. À luz dessas duas interpretações que lhe são igualmente familiares, Pico e só ele - como reconhece Ficino - é capaz de destacar os traços de uma doutrina oculta, de um ensino tradicional, sobre a origem e a destinação do mundo, que fornece uma visão perturbadora da história humana, e do qual todos os poetas teólogos, Orfeu, Hermes Trismegisto, Zoroastro, refletem, como Moisés e como Platão, a misteriosa revelação. É pelo esoterismo que o sábio da Renascença crê encontrar a via dessa síntese universal que é sua aspiração essencial.
Pico, numa primeira introdução, estabelece, segundo testemunhos antigos, sobretudo alexandrinos, é claro, que o Gênesis é uma suma misteriosa:
“Empenhei-me no estudo da criação do mundo e da obra famosa dos sete dias, com sérias razões para pensar que todos os segredos da natureza aí estão contidos.” Objeta-se a aparência fácil e popular do relato; há, na realidade, oculta sob a narração, uma ciência mosaica que alimenta todas as tradições da Grécia e do Oriente; de fato, “se tratou alguma vez da natureza e da obra inteira da criação, se enterrou alguma vez em seu livro como em seu campo os tesouros da verdadeira filosofia, foi sem dúvida no texto onde trata expressamente da emanação das coisas a partir de Deus, do grau, do número, da ordem das partes do universo, com a mais alta capacidade filosófica” 15). Os antigos hebreus proibiam o estudo da Criação antes da maturidade: é que já é preciso toda a ciência do homem para bem entendê-la.
Pico se propõe a fundar esse estudo sobre uma base inteiramente nova “interpretando a criação do mundo sem o auxílio de nenhum dos comentadores anteriores, não segundo um só sentido, mas segundo sete sentidos superpostos, voltando sempre ao ponto de partida para a exposição de cada um deles, para obter uma ordem clara e livre de toda confusão” (Ibid., p. 182).
Com a afirmação de que o primeiro capítulo do Gênesis é bem uma síntese oculta do saber, é esse método que faz a novidade do Heptaplus. Numa segunda introdução, Pico expõe a necessidade dos sete pontos de vista sucessivos ou antes interiores uns aos outros, que comandam a estrutura de seu comentário. Pois o Heptaplus, em vez de examinar sucessivamente a obra de cada um dos sete dias do Gênesis, os considera sempre em totalidade, mas cada vez segundo um princípio de simbolismo diferente.
A dedução dos sete sentidos é aliás bastante simples: há três mundos, angélico, celeste e sublunar, e um quarto que os resume e contém: o homem. Moisés evidentemente deu a chave disso em sua obra, “donde uma exposição quádrupla do texto mosaico, relacionando-o primeiro ao mundo angélico ou invisível, sem referência aos outros, em segundo lugar ao mundo celeste, depois ao mundo sublunar e corruptível, enfim à natureza humana”. Mas é necessária uma quinta exposição, pois os quatro mundos, embora distintos, deduzem-se de certo modo um do outro. Uma sexta exposição insistirá sobre seu elo. “Finalmente, como os sete dias da Criação foram seguidos do Sábado, convém que numa sétima exposição, de certo modo sabática, após ter tratado da ordem das coisas que procedem de Deus, de sua união, sua diversidade, seus elos e seus hábitos, exponhamos uma interpretação da felicidade das criaturas e de seu retorno a Deus…” (Ibid., pp. 194 e 196) Tais são os sete selos colocados sobre os mistérios do ser que Pico pretende enunciar para sempre.
Em sete exposições de sete capítulos, Pico desdobra assim a substância maravilhosa e as razões do universo. Gostaríamos apenas de enunciar aqui os grandes temas, sem proceder às comparações necessárias para lhes dar todo seu significado. A primeira exposição “do mundo elementar” concerne o jogo supremo das causas e esboça uma ontologia onde Aristóteles e Platão se conjugam com o texto bíblico: “Sobre as águas, isto é, as flutuações da matéria, é levado o Espírito do Senhor, isto é, a forma da causa agente, concebida não como causa principal, mas como instrumento da arte divina, como nosso espírito é instrumento de vida. E imediatamente, sob a ação do Espírito sobre essas águas que determina, pela vontade de Deus demiurgo, apareceu a luz, isto é, o esplendor e a beleza da forma.” (Ibid., pp. 210 e 212)
Na segunda, “do mundo celeste”, expõe-se a ordem das nove esferas, sua natureza e função, e de passagem, o sentido da distinção de macho e fêmea.
Na terceira, “do mundo angélico e invisível”, Pico expõe que o anjo é número, isto é, distinção e, como tal, imperfeito. Em virtude do princípio de exegese que estabeleceu, as mesmas passagens, os mesmos versículos do Gênesis são submetidos a uma interpretação diferente: “Lemos que o céu foi colocado no meio das águas; o que indica três hierarquias de anjos: a primeira e a última indicadas pelas águas que estão acima do céu e abaixo, a série intermediária que as separa designada pelo firmamento.” (Ibid., p. 254)
Na quarta exposição, “da natureza do homem”, as mesmas imagens revelam outro sentido, não menos adaptado a seu objeto, a antropologia esotérica: “Não é sem razão que antes da criação do homem pela união da alma e do corpo graças à luz, lembra-se que o Espírito se estendeu sobre as águas: é para que não venhamos a crer que o Espírito só esteve presente a nossa inteligência após sua união com o corpo.” (Ibid., p. 276)
“As águas significam a parte sensual que está submetida à razão e está diretamente a seu serviço. A terra é esse próprio corpo, terrestre e perecível, do qual estamos cercados.” (Ibid., p. 282)
A quinta exposição, “de todos os mundos em ordenação sucessiva”, lembra que “as mesmas coisas têm diversos nomes para designar suas propriedades diversas”: a divisão das águas pelo céu significa ainda a lei hierárquica do mundo, que se exprime maravilhosamente no homem. E num capítulo digno do início da Oratio, Pico lembra que o homem não é tanto “um quarto mundo, uma criatura nova, quanto o complexo e a síntese dos três mundos já descritos” (Ibid., p. 300); assim está ele à imagem de Deus.
A sexta exposição, “sobre o elo dos mundos entre si e com todas as coisas”, concerne o encadeamento dos seres: “Como para as gotas d'água, a felicidade consiste em se derramar no Oceano, onde está a plenitude das águas, assim nossa felicidade é poder nos unir um dia a essa centelha de luz intelectual que está em nós.” (Ibid., p. 322)
Donde a sétima exposição “sobre a felicidade que é a vida eterna”; Pico desenvolve uma visão escatológica da história, onde todos os símbolos são traduzidos em acontecimentos e realidades concretas: “Os judeus são ditos águas supra-celestes, porque só eles, segundo Jeremias, não temeram os sinais do céu como os outros povos… Os gentios, ao contrário, são as águas colocadas sob o céu, porque adoram os demônios que habitam as trevas do ar…” (Ibid., p. 342) O quarto dia exprime assim “o cumprimento do tempo”, a aparição do Sol que é o Cristo; e através do relato dos dias que seguem são evocados os que “vivem segundo o espírito e são assim filhos de Deus”, os verdadeiros filhos de Israel.
O texto mosaico é assim apresentado como um sêxtuplo jogo de símbolos: é pela interpenetração múltipla de seus sentidos que Pico pode realizar a fusão das tradições que é seu objeto essencial. Também é mais o espírito da síntese que os termos mesmos da doutrina - apesar de seu acordo geral com as noções ocultistas - que importa. Pico o sentia talvez ele mesmo, e quis precisar seu ensino relacionando-o expressamente à Cabala num curioso capítulo final. As sete exposições terminadas, Pico comenta, com efeito, a significação suprema da expressão “no princípio”; e, com os cabalistas, encontra na forma e no agrupamento mesmos das letras símbolos prestigiosos.
“Quis aventurar-me a explicar a primeira locução da obra, beresit em hebraico, isto é, entre nós in principio, para ver se eu também poderia, segundo os princípios antigos, encontrar algum conhecimento digno de ser revelado. Além de todas as minhas esperanças, de toda verossimilhança, encontrei o que jamais teria acreditado possível encontrar, e que outros tiveram muita dificuldade em admitir: a razão da criação do universo é revelada e explicada nessa única palavra.
“Digo algo de maravilhoso, de inacreditável, de inaudito. Mas, prestando atenção, terão disso a demonstração verídica. Em hebraico, escreve-se: beresit…” (Ibid., p. 376) Combinando cada uma das letras com todas as outras, obtém-se uma série de palavras que forma uma frase, e esta pode se traduzir: “A perda no filho e pelo filho, princípio e fim, isto é, repouso, criou a cabeça, o fogo e a base do grande homem, em virtude de um pacto que é bom.” (Ibid., p. 378) Tal é a revelação final sobre a qual se encerra o Heptaplus: reconhece-se nela a letra e o espírito do “Zohar”.
A obra obteve um sucesso de estima junto aos humanistas: foi acolhida com hostilidade em Roma. Numa carta de 1489, Lourenço escreve a seu respeito: “Aprendi com grande tristeza como se abate sobre essa obra de Mirandola, e se não estivesse seguro de que essa perseguição vem da inveja e da malícia, não falaria disso. Essa obra foi examinada por todos os doutos religiosos que temos aqui, homens de boa reputação e santa vida, e todos a aprovaram absolutamente como cristã e magnífica. Estou seguro de que se recitasse o Credo, os espíritos mal-intencionados (de Roma) diriam que é heresia.” 16) Mas enfim o Heptaplus, como se pode julgar, não é a simples recitação do Credo.
