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INDIVIDUALISMO

TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: É realizações, 2011.

A primeira fonte de preocupação é o individualismo. É claro que individualismo também denomina o que muita gente considera a maior conquista da civilização moderna. Nós vivemos em um mundo no qual as pessoas possuem o direito de escolher por si mesmas o próprio modo de vida, de decidir conscientemente quais convicções abraçar, de determinar o formato de sua vida em uma série de maneiras que seus antepassados não podiam controlar. E esses direitos geralmente são defendidos por nossos sistemas legais. Em princípio, as pessoas não são mais sacrificadas às demandas de ordens supostamente sagradas que as transcendem.

Pouquíssimas pessoas querem retroceder nessa conquista. Na realidade, muitas acham que ela ainda está incompleta, que arranjos econômicos ou padrões da vida em família, ou as noções tradicionais de hierarquia, ainda restringem muito a liberdade de sermos nós mesmos. Mas muitos de nós também somos ambivalentes. A liberdade moderna foi ganha por nossa fuga dos antigos horizontes morais. As pessoas costumavam se ver como parte de uma ordem maior. Em alguns casos, esta era uma ordem cósmica, “a grande cadeia do Ser”, na qual os homens figuravam em lugar determinado, assim como os anjos, corpos celestiais, e as criaturas terrenas, nossos pares. Essa ordem hierárquica no universo se refletia nas hierarquias da sociedade humana. As pessoas eram frequentemente fixadas em determinado lugar, papel e estrato que eram propriamente delas e dos quais era quase impensável se desviar. A liberdade moderna surgiu pelo descrédito de tais ordens.

Mas, ao mesmo tempo que nos limitavam, essas ordens davam significado ao mundo e às atividades da vida social. As coisas que nos circundavam não eram apenas matéria-prima ou instrumentos potenciais para nossos projetos, mas tinham o significado dado a elas por seu lugar na cadeia do ser. A águia não era apenas mais um pássaro, mas a líder de todo um domínio da vida animal. Da mesma forma, os rituais e normas da sociedade tinham mais do que um significado meramente instrumental. O descrédito dessas ordens é o que tem sido chamado de “desencantamento” do mundo. Com ele, as coisas perderam parte de seu encanto.

Um forte debate acerca de isso ter sido uma coisa boa inequivocamente vem ocorrendo há dois séculos. Mas não é o que eu quero focar aqui. Prefiro olhar para o que alguns viram serem as consequências para a vida humana e seu significado.

A preocupação de que o indivíduo perdeu algo importante com os horizontes sociais e cósmicos maiores de ação tem sido expressa de maneira repetida. Alguns têm escrito sobre isso como a perda da dimensão heroica da vida. As pessoas não possuem mais a sensação de um propósito maior, de algo pelo qual vale a pena morrer. Alexis de Tocqueville por vezes falou desse modo no século passado, referindo-se aos “prazeres pequenos e vulgares” que as pessoas tendem a buscar na era democrática. Articulado de outra forma, nós sofremos de falta de paixão. Kierkegaard viu o “tempo presente” nesses termos. E os “últimos homens” nietzschianos estão no limiar final desse declínio; eles não possuem mais nenhuma aspiração na vida a não ser um “lamentável conforto” 1).

Tal perda de propósito estava ligada a um estreitamento. As pessoas perderam a visão mais abrangente porque se centraram na vida individual. A igualdade democrática, diz Tocqueville, orienta o indivíduo para si mesmo, “et menaee de le renfermer enfin tout entier dans la solitude de son propre coeur”2). Em outras palavras, o lado sombrio do individualismo é o centrar-se em si mesmo, que tanto nivela quanto restringe nossa vida, tornando-a mais pobre em significado e menos preocupada com os outros ou com a sociedade.

Recentemente, essa preocupação veio à tona novamente no que diz respeito aos frutos de uma “sociedade permissiva”, os feitos da “geração eu”, ou a prevalência do “narcisismo”, para tomar apenas três das mais conhecidas formulações contemporâneas. O sentido de que vidas foram niveladas e estreitadas, e de que isso está ligado a uma autoabsorção anormal e lamentável, voltou em formas específicas à cultura contemporânea. Isto define o primeiro tema do qual quero tratar. (p. 11-13)

1)
“Erbärmliches Behagen”. In: Also Sprach Zarathustra. Prefácio de Zaratustra, parte 3.
2)
Tocqueville, De la Democratie, p. 127.
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